sábado, 27 de maio de 2017

“Ontem já era, amanhã ninguém sabe, hoje é o que interessa”

Parece que não está no nosso cardápio viver um dia de cada vez. Nos anos 70, garoto que amava Beatles, The Who e Rolling Stones, já havia ingressado no Mentes Caóticas Futebol Clube, onde acabei me tornando sócio vitalício.

Comecei a fazer psicanálise existencialista com um cara legal pra cacete, super competente e relativamente louco de quem tenho saudade. Morreu há tempos, morte lacaniana: no carnaval, caiu de um caminhão de bloco fantasiado de marimbondo e morreu no meio da rua. O povo parou e chorou compulsivamente.

Me agarrei a análise existencialista porque sua linha de raciocínio era um torpedo contra as mentas caóticas: “ontem já era, amanhã ninguém sabe, hoje é o que interessa”. E o trabalho estava dando resultado.

Sofria do que o povão chama de “vertigem de altura” e uma vez, já embriagado de Albert Camus que o analista recomendava, decidi dar o primeiro passo. Subi na Pedra da Baleia na Prainha de Piratininga (Niterói) e cheguei na beirada. Gelei. Falta de ar, tonteira, mal estar, sintomas típicos da tal vertigem/crise de ansiedade. Foi quando acionei “ontem já era, amanhã ninguém sabe, hoje é o que interessa” e me atirei lá de cima. Caí no mar e me surpreendi de estar vivo. Subi na Pedra de novo, o pânico foi baixando e já quase sem medo algum atingi 15 mergulhos seguidos. E quem conhece sabe que aquilo é alto pra caramba. Quando narrei o fato, o analista levantou de sua cadeira e me cumprimentou.

Alguns dias depois, peguei um ônibus de manhã cedo. O problema não era o ônibus e sim o de manhã cedo. Mas, tinha que trabalhar. O ônibus muito acima de sua lotação e caindo aos pedaços, entrou na ponte Rio-Niterói com gente quase pendurada na porta de entrada, bancos com três, quatro passageiros, um amontoado imóvel no corredor, bunda com bunda generalizado. O motorista acelerou fundo e quando começou a descer o vão central, pisou até a tábua.

O velho veículo sacolejou, cheiro de queimado (calculei que estava a 100 k/h com mais de 100 à bordo) começou a dar sinais de capotagem e acho que pelo meu semblante tranquilo, totalmente foda-se, chamei a atenção de um sujeito que, como todo mundo, gritava e quase chorava enquanto um outro tentava se mover entre os passageiros em pé para dar um jeito no motorista que, de fato, havia pirado. “Você não vai fazer nada?”, ele perguntou, lábios trêmulos. Pensei “ontem já era, amanhã ninguém sabe, hoje é o que interessa” e respondo, sinceramente na maior tranquilidade, “o máximo que pode acontecer é morrer todo mundo”, e permaneci de pé, calado.

Na grande reta da ponte o motor pegou fogo e o ônibus foi obrigado a parar. Surraram o motorista. Alguns queriam jogá-lo no mar. Nada fiz. Encostei na mureta da ponte e aguardei o resgate, o que acabou acontecendo. Depois fiz uma boa reportagem sobre o episódio.

Uma noite, cheguei para a minha consulta e o analista comunicou, educadamente que “decidi não usar mais o Existencialismo como ferramenta terapêutica. Farei outras incursões, a começar por retomar Freud”. Quis saber por que, mas não perguntei. Nos despedimos e fui embora, cabisbaixo, mas com o mantra na ponta da língua:“ontem já era, amanhã ninguém sabe, hoje é o que interessa”.
Voltei a Pedra da Baleia para me jogar e novo e a ansiedade já estava de volta. Na base do dane-se me atirei outras 15 vezes. Na mesma época terminei um namoro longo e burocrático, cheio de planos e projetos. Como deixei de ser um homem de planos e projetos seria palhaçada manter vínculos com fatos cheios de planos e projetos sendo existencialista, entendeu?

Estagiário, início de carreira, estava no ônibus C-5 que levava a Praça Mauá onde ficava o meu estágio. Uma gostosa mulher ficou olhando para mim e, como Clint Eastwood em “O Estranho sem Nome”* (1973) levantei, fui até ela e falei “me encontre as 8 da noite em frente a Casa Piano”.

Fui para o estágio e na saída, oito da noite, fui andando da Praça Mauá até a Casa Piano, início da avenida rio Branco. Ela estava lá, me esperando. Eu disse que ela podia me chamar de Clint. Caminhamos calados e nos enfurnamos numa daquelas pensões nas ladeiras do entorno da Mauá. Gostosa mulher. Notei que, ao tirar a roupa, ela colocou um revólver na mesinha de cabeceira.“Ontem já era, amanhã ninguém sabe, hoje é o que interessa”, acionei no ato. Meu único receio era dela me matar antes de me comer. Felizmente não aconteceu. Nem antes, nem depois. Nos tornamos amantes, com direito a amigas dela em nossas esbórnias em noites infinitas nos muquifos da Praça Mauá.

Até o dia em que ela sumiu. Faltou ao encontro. Eu, uma prima dela e uma amiga esperávamos perto da Sacadura Cabral. Ela não apareceu. Nós três fomos para um pardieiro ali perto, mas não foi a mesma coisa, tipo “naquela cama está faltando ela e a saudade dela está doendo em mim”.

Pus a culpa nos planos, agendas. “Se não tivéssemos marcado nada, ela não teria sumido”, eu disse as duas, que discordaram. Disseram que algo grave podia ter acontecido já ela andava arnada. Temiam que em caso de crime nós acabássemos envolvidos. “Ontem já era, amanhã ninguém sabe, hoje é o que interessa”, e daí?, perguntei. “Se formos em cana, vamos em cana. Se formos julgados seremos condenados porque somos duros e juiz não gosta de duros.”

Sinto falta da análise existencialista porque já fui bom em chutar baldes. Como não esperava nada de nada, minha ansiedade chegou a um nível invejavelmente baixo. Se alguém propunha “vamos fazer um jornal?”, eu respondia calmamente “vamos, quando estiver pronto é só chamar”. Em outras palavras, bani planos e projetos num país descaralhado e assim me dei muito bem. Me dei não, me dou, porque continuo assim. Se um dia alguém me propuser abrir uma granja de codornas (já tive uma) eu topo. É só aparecer com as codornas, com o local, o equipamento e vamos nessa. Mas ideias, sonhos, projetos? Papos de botequim.


* Chegou a Netflix, versão restaurada.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A batalha dos ratos

Os atores dessa ópera podre juram inocência, como todos os atores de óperas podres ao longo do tempo.

- O PT e seus partidos de fé promoveram o maior assalto da história do Brasil.

- O PSDB deu asas a um senador que sempre achei arrivista e que foi denunciado como larápio de primeira grandeza.

- O PMDB sempre foi um covil. Sempre. Agora mais do que nunca.

- Os outros partidos restantes não alteram o produto: todos uma merda.

- Estão enjaulados e indiciados grandes empresários que praticaram corrupção ativa contra os famigerados “agentes públicos”.

- O fundador do PT e sua sucessora no Planalto juram inocência.

- Um vaqueiro que se tornou milionário nos governos petistas traficando carne podre e propinas exibe uma gravação que detona o presidente da república.

- Presidente peemedebista que só existe porque o PT o fez vice duas vezes. Duas!
Depois, surfando numa inexplicável impunidade, o bandido noturno pega o seu jato Gulfstream e se manda para Nova Iorque com a família, para curtir a cobertura que tem na Quinta Avenida.

- Cercado de amigos delinquentes, esse indefensável presidente, diga-se de passagem também é um merda.

- Comandados pelo PT e financiados pelo imposto sindical, os meliantes sociais organizaram uma baderna em Brasília. Alugaram 500 ônibus (a diária de um carro popular numa locadora custa 90 reais em média, imaginem um ônibus), encheram de meliantes pagos e resolveram atacar prédios de ministérios. Eles sabem que ministério pertence ao Estado e não ao governo mas como em sua arrogância e impunidade eles acham que são o estado e dane-se.

- O presidente que acoberta safados na calada da noite na garagem da casa onde vive recebe um telefonema de outro implicado na Lava Jato, um imbecil que preside a Câmara dos Deputados.

- O imbecil disse que pediu ao presidente para determinar a ida da Força Nacional de Segurança para a Esplanada dos Ministérios para conter a fúria dos meliantes sociais.

- Só que não havia efetivo e o anêmico presidente convocou o Exército.

- Na Esplanada a PM atirava nos meliantes sociais, covardemente. Os meliantes sociais incendiavam ministérios, com gente dentro, covardemente.

- Os meliantes sociais resolveram voltar para os ônibus alugados que estavam estacionados no Estádio Mané Garrincha, a um quilômetro da Esplanada. No caminho foram destruindo tudo, inclusive ônibus que servem a população.

- Nas rádios e TVs a discussão: quem assume caso o presidente de merda renuncie? O presidente da Câmara? Não pode, está cagado na Lava Jato. O presidente do Senado? Não pode, também está cagado na Lava Jato. Resta a presidente do STF.

- Por enquanto, parece que é isso.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Tiê sangue

Meses atrás meu irmão ligou. Contou que tinha acabado de ver um tiê-sangue lindíssimo. Tentou fotografar mas, arisco como todo tiê-sangue, ele voou rumo ao desconhecido.

O tiê-sangue é um dos mais
belos arquétipos de minha infância. Minha e também de meu irmão. Vivemos numa pacata vila em Angra dos Reis, povoada pelos tiês e também coleiros, canários da terra, sanhaços, sabiás. Sanhaços, sabiás e tiês sangue tem o mesmo tamanho, a mesma importância e estão, os três, e também os coleiros e canários da terra, em extinção.

Conheci a inocência em estado puro. A ingenuidade, os sonhos, o desejo de não crescer jamais, jamais, jamais. Os pássaros, o mar, as árvores, minha mãe costurando próximo a janela de nossa casa que sorria quando eu a chamava de mãezinha, a figura longilínea de meu pai chegando em casa, fardado (Marinha), depois do trabalho.

No ano passado vi um tiê sangue pousado numa árvore no quintal do estúdio Nas Nuvens, do Liminha, no Jardim Botânico, Rio. Achei que era vertigem. Era de manhã e ele estava pousado numa goiabeira a pouquíssimos metros de mim. Fiquei olhando seus movimentos rápidos, seu reflexo, sua tensão. Logo, voou e imediatamente liguei para o meu irmão, mas o celular dele estava ocupado. Em seguida começou a gravação e tive que guardar a imagem na memória. Não quis fotografar para não espantar.

Hoje, pensando no tiê que meu irmão viu, refleti sobre a impossibilidade de ser burro e binário como um computador. Muitas vezes tive (como tenho) vontade de reiniciar tudo e, as vezes (não muitas) de formatar meu HD, o que de certa maneira venho fazendo de u
ns tempos para cá e seguirei ao longo dos dias que vão vir.

Dizem que essas resoluções tem a solidão como combustível. Concordo. A solidão não é de toda má, como mostra o tiê-sangue que gosta de voar sozinho, mas vive em bando. Muitas vezes a solidão incomoda. A ponto de, em muitos casos, decidirmos formatar o nosso HD e, quem sabe, instalar um novo sistema operacional enquanto há tempo. Tempo, iguaria que com o passar do tempo se torna mais escassa.
Fora isso, o desejo de sumir, evaporar, viver o resto do que resta num lugar longínquo, sem qualquer meio de comunicação, para descansar, descansar, descansar.

Quase escrevi que além de reiniciar a máquina, formatar o HD e instalar um novo sistema operacional, tive vontade de seguir o exemplo do tiê-sangue
em seus voos solitários rumo ao desconhecido. Mas se ele estivesse 100% certo não encabeçaria a lista de pássaros em extinção no mundo.





segunda-feira, 22 de maio de 2017

Cascata

Tive o trabalho de fazer um levantamento de notícias publicadas na página que uso no Facebook nos últimos seis meses. Mais de 70% eram mentiras, boatos, terrorismo emocional e afins.

Os jornais estão fazendo uma enorme campanha alertando que a imprensa é o meio mais confiável para se obter notícias verdadeiras. Em tese, sim. Apesar de, na quinta-feira, um jornalista renomado ter dado uma das maiores barrigas (notícia falsa) do ano ao anunciar no site de seu jornal gigante que Temer iria renunciar naquela tarde. Deu detalhes, disse que Temer já havia conversado com ministros, etc. Quebrou a cara. A cara dele e a dos leitores.

Em tese, a imprensa tem mais credibilidade. Em tese, a imprensa contrata profissionais treinados para apurar incansavelmente as notícias antes de publicá-las. Só que de tempos para cá, muitas empresas optaram por mão de obra barata. Os estagiários e trainees, que deveriam estar nas redações para aprender o ofício, atualmente trabalham como gente grande, apurando mal, escrevendo mal, falando mal no rádio porque, afinal, estagiários e trainees vieram ao mundo para errar e aprender. Internamente, sob forte supervisão. E não para saírem publicando a torno e a direito.

Ontem a noite ouvi no rádio um âncora mirim dizer que uma atleta havia morrido em consequência de um acidente com uma van que transportava o seu time. Acho que de vôlei, não tenho certeza. Vários feridos. No final da notícia, o âncora mirim informou (?) que o nome da atleta morta e também dos feridos não tinham sido divulgados.

Pecado capital.

Até uma ameba sabe que num caso como esses, até se ter os nomes, não se pode divulgar uma notícia. Motivo: pânico. Quantas milhares de pessoas tem parentes, amigos e conhecidos andando de vans naquele momento? Quando não se divulga o nome de quem morreu e também dos feridos, gera-se uma paranoia coletiva.

Lembro bem. Nos meus tempos de estagiário, um repórter profissional foi suspenso porque pôs no ar a seguinte notícia: “um Fusca branco bateu no viaduto dos Marinheiros. O motorista morreu e o trânsito está complicado no local”. Não deu nomes, nem placa. O chefe o suspendeu imediatamente alegando que milhares e milhares de pessoas, naquela época, tinha Fuscas brancos e muitos deles estavam naquela região.

Em tempos de internet cascateira e terrorista, podemos, sim, pedir abrigo a imprensa formal. Mas, com muita moderação e checando (não é papel do leitor, mas fazer o que?) a notícia em pelo menos três grandes sites para sair espalhando por aí.


Não é?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Raimunda

Raimunda era feira de cara, feia de bunda, mas possuia um séquito de adolescentes que, sábia, muito sábia, culta, esperta, ninfomaníaca insaciável, manipulava eroticamente nos idos dos anos 1970. Os meninos, um bando de 28 ávidos comensais, burlavam ordem severas de pais e responsáveis para não se aproximarem de Raimunda porque, diziam, ela era terrorista. Diziam até que planejava sequestrar um avião e que tinha uma doença chamada “furor uterino”.

A meninada procurou saber o que era furor e o que era uterino, juntaram as coisas e deduziram que Raimunda era tarada. Que maravilha! Era o que bastava. Ao longo de 25 dias do mês (nos outros cinco Raimunda sumia mas emprestava sua amiga Alzirinha) os 28 comensais entravam e saiam da casa amarela, fincada numa rua não muito calma de um bairro de classe média. Entravam, saiam, entravam, saiam. Presenteavam Raimunda com relógios falsificados, colares e pulseiras de camelô, perfumes baratos, batom, calcinhas.

Chegou o verão. O bando estava pálido, magro, arfando de cansaço. Pelo menos 12 perderam o ano no colégio, outros ficaram em recuperação e quatro foram expulsos por atentado violento ao pudor em sala de aula. Conversando sentados numa esquina chegaram a conclusão que Raimunda não dormia porque...eles praticamente viravam a noite na casa dela e, além disso, souberam enciumados, possessos, rubros de fúria, que ela estava tendo casos com guardas noturnos, operários de uma obra e até com um padre durante a madrugada e "ainda inventada que fazia reunião", comentaram indignados. Como um ser humano consegue viver sem dormir? Como um mamífero sobrevive apenas copulando, bebendo água, comendo amendoim, manga e salsicha? É a força do amor.

Os 28 não confessavam, mas Raimunda os iniciara não só no sexo mas também no afeto. Negavam, rugiam, berravam, mas estavam sim apaixonados pela mais feia e gostosa mulher de suas vidas, para quem dedicavam músicas, poesias baratas e até xixi que faziam no muro em frente a casa dela, escrevendo com urina frases de amor, desejo, sofreguidão, povoadas de erros de português.

Um dia todos precisaram ir ao médico. Ardências, ardências, ardências. Diagnosticados com “doença de homem” nomearam um porta-voz para avisar a Raimunda que ela...ela...ela não estava bem. O porta-voz foi lá na casa amarela, entrou, foi até a cama de Raimunda e disse que...que...que...ela não estava bem. Raimunda chorou. Muito. Pediu perdão e, delicadamente, mandou o porta-voz sair.

Diante da reação, a confraria de amantes de Raimunda decidiu fazer uma vaquinha e comprar 28 de rosas vermelhas para ela, devidamente envolvidas num buquê romântico com direito a cartão apaixonado com iniciais dos nomes. Nomearam outro pombo-correio para enviar o buquê, lindíssimo. Chico Pardo, que era albino, foi lá, entrou...não, Chico Pardo não entrou. Portão fechado. Pulou o muro. Porta fechada. Tudo fechado. Ninguém. Voltou para o bando. Onde foi parar Raimunda? O que houve?

Vários choraram e saíram caminhando pelas ruas desolados, em luto. Os 28 mataram aula, não conseguiram almoçar e se trancaram cada um em sua casa, em seu quarto pensando no amor perdido. Teria sido a ardência? Teria sido o padre? Teria sido um operário, um guarda noturno?

A noite souberam pela TV que Raimunda tentara sequestrar um avião as três horas da tarde, mas não resistiu aos ferimentos durante a troca de tiros com soldados do Exército.

Amor eterno”, os 28 escreveram no muro da casa amarelo e...seguiram a vida, digamos assim.

sábado, 13 de maio de 2017

Bege, não!


Me disseram que o Brasil está bege. Nem lá, nem cá. Nem marrom, nem amarelo. Nem preto, nem branco. Quem me disse acha que bege é o nada, o vazio, o "destesão", eu até concordo, mas dizer que o Brasil está bege já é demais.

O Karman Guia TC 1974 foi um de meus melhores carros. Maravilhoso, perfeito e eu era apaixonado por ele. O único problema é que era bege, igual ao que está lá em cima, na foto. Uma vez quase pintei de vermelho, como o da foto de baixo, mas seria muito complicado e não ficaria bom. Uns dois anos depois tive que vender porque o fundo do carro começou a apodrecer.


Os fulminantes ventos da paixão são vermelhos vivos, ou amarelos, ou verdes. Bege, não. Biquínis, calcinhas e similares na cor bege também são tiro no pé. E a crise brasileira é muito grave e aguda para ser chamada de bege, fraca, anêmica.


Ou não?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Sozinho não dá

Já falei do Jajá por aqui. Foi um mestre acidental que ganhei em meados dos anos 70, quando já estava submerso no jornalismo. Jajá era 30 anos mais velho do que todos nós (ele morreu em Minas Gerais), com certeza tinha o melhor texto que conheci e foi correspondente no Vietnã, no auge da guerra, entre 1969 e 1971, trabalhou em Londres também como correspondente.

Em 1975 passou dois anos em Niterói. Foi aposentado por problemas emocionais, não pelo período que passou no Vietnã mas pela cobertura jornalística que fez do incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo, em fevereiro de 1974 matando 191 pessoas. Ele dizia, sempre emocionado, que “aquelas cenas...eu jamais esquecerei o que vi...jamais entenderei, jamais entenderei”.
Ele contava que para aliviar a dor começou a beber, “até ser resgatado por colegas em lixeiras de Londres. Mesmo assim não parei. Eu precisava afogar minhas lembranças nos copos, muitos copos, que me fizeram perder mulheres e me levaram a aposentadoria precoce”. Ele morreu alcoólatra.

Sua narrativa era irônica e debochada e certa vez, sentado na sua mesa predileta na extinta Leiteria Brasil, que ficava na rua da Conceição, Centro de Niterói, após quase três garrafas de vinho Chateau Duvalier, revelou que iria escrever um livro chamado “Sozinho não dá”.

Como assim, Jajá? “Olha, por mais que o homem pise na lua, e marte, a solidão continuará sendo a nossa maior predadora. O ser humano é bicho de bando, quem negará isso? Se você pensa em levar a vida sozinho ou, pior, acabar a vida sozinho em nome de qualquer razão está ferrado. Tudo o que fazemos, pensamos e sentimos não é para que. É para quem. Todo mundo sabe que compartilhar a vida com uma mulher não é só sexo e rock and roll porque em vários momentos o jogo fica pesado. Por isso sempre digo que sozinho não dá.”

Rebati dizendo, do alto de meus 21 anos na época, que jamais havia projetado uma vida solitária, mas ele me cortou. “Tudo bem, você pega uma ali, meia dúzia acolá, mas e quando chegar a tal da meia idade quem vai comemorar com você 20 anos de relação? Quem vai te acordar no meio da noite notando que você está passando mal? Em suma L.A. (ele me chamava de L.A.) quem vai cuidar de você com o maior prazer, porra? Mais: de quem você vai cuidar? Quem você vai levar a Búzios para se divertir? Para quem você vai acordar no meio da noite para ir uma farmácia comprar remédio contra cólica? Sozinho não dá”.

Não sei se ele escreveu “Sozinho não dá” e um outro romance “Nunca mais 50”, sobre a péssima experiência que sentiu ao virar um cinquentão. Não sei se escreveu, mas publicar não publicou pois nós teríamos sabido. Ele disse, inclusive, que iria dedicar o livro a um amigo inglês que quando fez 85 anos optou pela auto eliminação. Bebeu veneno. “Ele dizia que a sua validade existencial já havia vencido”, contava o Jajá. Aliás, pensando bem, faz sentido.
Fato é que “sozinho não dá” virou um mantra para mim, o que acho ser extremamente saudável. Não tenho vocação para cachorro louco e nem para egolatria, seja leve, média ou grave. Sempre apreciei o trânsito intenso de afeto, companheirismo e solidariedade porque, afinal, a minha senha também é “para quem” e não “para que”.

De fato, sozinho não dá.