terça-feira, 25 de abril de 2017

A esquerda que conheci

Minha adolescência mesclou terror e êxtase e apesar de ter começado a escrever em jornais aos 15 anos, política era um tema distante, proibido. A ditadura estava no auge (anos 70) e ninguém explicava o que estava acontecendo para nos resgatar do estranho planeta da alienação ideológica.

Os professores de História do Brasil paravam em Getúlio Vargas, como se o Brasil tivesse sido parido em 1500 e abduzido em 1954. Havia curiosidade com relação a aquele mormaço provocado pelo silêncio imposto pela ditadura. Ainda assim, não consegui me informar mais, apesar de saber o que significava a pichação “fora comunas” em alguns muros da cidade.

Quando comecei a trabalhar na grande mídia aos 16 anos, mantive os primeiros contatos com pessoas ligadas à esquerda. A carnifica no país seguia seu curso macabro e, por isso, minha cautela era máxima, apesar de nunca ter exercido militância. Qualquer uma. No entanto, me encantei com o ideário da esquerda, principalmente a chamada esquerda radical, que pegou em armas, assaltou bancos.

O ideário esquerdista dizia que “os fins justificam os meios”, e, sinceramente, quando comecei a escrever no Pasquim e Opinião (dois jornais ultra esquerdistas) onde defendia não explicitamente a necessidade de uma revolução popular para instaurar a ditadura do proletariado. Sim, assim como todos os movimentos de esquerda, em especial os radicais, a palavra democracia não era citada. O modelo era, basicamente, o cubano, com fartas doses de maoismo, stalinismo, trotskismo. Gente de direita era tratada como déspota.

Acreditei que assaltos a bancos eram necessárias “expropriações revolucionárias”, que os sequestros eram uma forma de “capitalizar e socializar o movimento”. Contraditoriamente, apreciava o radicalismo de esquerda e a proposta hippie em sua receita de paz e amor, tratada como alienante. Pela esquerda.

Com o avanço do tempo, além de defender a ditadura do proletariado acreditei que só Estado poderia resolver as mazelas do mundo. Defendi em artigos, discussões, bate bocas, a estatização de tudo. Bancos, supermercados, empresas de ônibus, escolas, clínicas, hospitais. O Estado estatizante seria soberano e o ideário esquerdista era claro ao afirmar que aqueles que roubassem dinheiro público seriam devidamente “justiçados”, ou seja, eliminados.

Com o passar do tempo, a esquerda foi se deformando. Coincidentemente (?) tornei-me democrata ferrenho e não engoli quando o ideário purista e limpo começou a dar lugar ao “pragmatismo” inventado pelos oportunistas e larápios em geral. Comecei a romper com o esquerdismo quando o novo (?) trabalhismo surgiu à bordo do recriado PTB e do PT. O primeiro nascia fisiológico e até a medula, apesar de alguns bons quadros filiados a ele e o PT, quase imediatamente após a sua criação, foi tomado por parasitas do movimento sindical. O MDB se esfacelou. Tancredo Neves, hoje santinho de cabeceira dos novos esquerdistas, criou em 1980 o famigerado Partido Popular (com anuência do general Figueiredo), um ajuntamento de escroques do naipe de Chagas Freitas, ex-governador do Rio.

Veio a redemocratização, com Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma. Alguns grandes nomes da esquerda que conheci foram presos por corrupção. Sorte minha que larguei o balaio lá por 1978 quando o jornalismo me levou a ter contato com as mais variadas matizes da escrotidão política. Corria o risco de: 1 – padecer de tanta decepção e desilusão; 2 – tentar explicar a corrupção, ato inexplicável por si só.

Democrata, hoje não sou esquerda, muito menos direita. Leio, vejo, constato gente imbecil e pobre de espírito chamando os outros de “alienados” em nomes de devaneios oportunistas e espúrios que justificam o assalto ao Estado como necessidade.

Meu dilema. A esquerda que conheci já era uma caixa de gordura totalitária e ladra nos anos 70, disfarçada de reino moralista, ou a falência ética veio depois?


segunda-feira, 24 de abril de 2017

O castigo de Sísifo

Não tenho vocação para Sísifo e seu castigo, apesar de já ter dito por aí que o trabalho é a minha razão de viver. Sem exagero. Filei essa afirmação do lendário jornalista Samuel Wainer, pai de meu saudoso amigo Samuca, cuja autobiografia se chama “Minha Razão de Viver” e continua a venda nas boas livrarias. Estou pegando fôlego, alugando coragem para reler “O Mito de Sísifo”, de Albert Camus que foi um herói de minha pós-adolescência, se é que isso existe. Mas coragem não é uma casaca que você entra numa loja e aluga para usar num batizado, casamento, funeral. Coragem anda por aí.

Estou assistindo na Netflix a série “Breaking Bad” (não recomendável para quem procura kkkkkkk) e a partir do quinto episódio comecei a dar razão ao professor Walter White e a sua opção pelo lado B. Meu lado B (quem não tem?) já me convidou para assaltos a bancos estatais e outras barbáries.

Neste exato momento passo por um abissal conflito. Além de apoiar o professor Walter White, meu lado B começa a me convencer de que não há mais nada a perder e que meu erro foi ter revelado outros impulsos deste mesmo lado B lá pelos anos 1980, 1990. De fato não há mais nada a perder e, como o castigo de Sísifo, a afirmação vai e volta, vai e volta.

Levemente transtornado, saí de manhã para ajustar os óculos, que estavam escorregando pelo nariz. Fui na rua Gavião Peixoto, em Icaraí, onde em frente ao número 113 (funcionava uma loja da Ortobom), perto da Pereira da Silva, numa calçada muito estreita um “morador de rua” (definição dos politicamente corretos) e seus quatro cachorros raivosos e imundos decidiram se fixar, obrigando os pedestres a andarem pela rua. No auge de uma crise, pensando no castigo de Sísifo, provavelmente de cabeça baixa, não reparei que já estava chegando bem perto do homem e seus cães. Já ia desviar e andar pela rua quando o sujeito vociferou “vai pela rua!”. Não prestou.

Em questão de segundos reações subiram a mente como larva vulcânica: “vou chutar os cornos desse sujeito”; “que porra é essa de me mandar andar na rua?”; “pago IPTU e Guarda Municipal não existe”; “transformar cachorro em mendigo é sacanagem, vou soltar todos”. E por aí foi até uma senhora se aproximar do sujeito com um embrulho de comida e farta quantidade de ração para os cães. Ou seja, a culpa não é do cara mas dessa hipocrisia pequeno burguesa, etc etc etc.

Fui em frente lembrando que no horário da manhã meu humor fica imprestável. Antes do meio dia, vejo uma cena dessas como “um malandro se aproveitando de cachorros para achacar a multidão”. Já por volta das 2 ou 3 horas da tarde, pode ser que eu veja a mesma cena como “cachorros sendo cuidados por um morador de rua, vítima dessa sociedade desumana e ególatra”.

Enquanto isso, em “Breaking Bad”….


domingo, 23 de abril de 2017

Hóspede

Quase no final da estreita estrada, a subida contornada de cerca viva. Piso de pedras. No final da subida um pátio, não muito grande, com antigas, muito antigas, marcas de pneus. Bem em frente, uma confortável suíte para o hóspede, em madeira e telha colonial.

Depois da suíte, uma escadaria rústica bem à frente. Canil, horta, um pequeno curral, pinheiros muito altos sentindo a canção do vento. A escadaria terminava próximo ao pico do morro.

Na descida, mais árvores, o vento, o curral, a horta, o canil, o pátio, o som do silêncio. A esquerda, a casa. Grande, gentil, hospitaleira. A porta, a copa, a cozinha. Vazias. Nas paredes manchas de armários que há tempos eram abertos e fechados frenética e alegremente. Depois da cozinha um pequeno banheiro e a sala de estar. Vazios.

Ecos do leve falatório. Colada a sala de estar o salão de jantar. Também vazio. Ecos. Vozes, risos, planos, angústias, camaradagem, afeto.

Janelões. Vista da mata, cheiro de eucalipto, de chuva em terra molhada, alguma neblina, estrelas radiantes, luar.

Andar de cima. Mais quartos. Vazios. O sossego parecia o canto da cigarra no fim de tarde. Brisa fria, fome, sono, sonhos.


Descendo os degraus, as duas salas desertas, a copa, a cozinha, o pátio, as antigas marcas de pneus. A subida se fazia descida, contornada de cerca viva, que levava ao quase final da estreita estrada.

sábado, 22 de abril de 2017

"Descomunicação"

Jamais a civilização teve tantos meios de comunicação disponíveis. Até “ontem” (1990) quem quisesse enviar uma mensagem confidencial escrita tinha que pegar papel, caneta, escrever, por no envelope, ir até a agência do correio, postar e esperar dias até que o destinatário recebesse. Uma carta do Rio para a Europa demorava 10 dias para chegar. Em 1990 já havia fax, mas todo mundo podia ler o que estava escrito. Havia também o pager que, em sua época, foi importante. Em 1983, nos Estados Unidos, quem pagasse 20 mil dólares conseguia um telefone celular.

Hoje reina a fartura tecnológica. No mundo há bilhões de linhas de celular, outros bilhões de usuários da internet. Os preços desabaram, o acesso continua cada vez mais fácil e a quantidade de aplicativos e programas impressiona. E-mail, SMS, Whatsapp, Facebook com voz, etc. etc. etc. muitos de graça.

Ótimo. E a contrapartida? Se a civilização nunca viu tanta fatura tecnológica em prol da sua comunicação, por outro lado a falta de consideração/educação parece imperar. Muita gente não responde e-mails, nem whatsapp, muito menos celular. Tenho um amigo que mandou uma mensagem profissional por e-mail e SMS para um sujeito (mensagem de interesse do sujeito, diga-se de passagem) há 20 dias e até agora está sem resposta.

Se no âmbito profissional a coisa está a bangu, no pessoal não fica muito longe. Mensagens do tipo “quando chegar em casa me avisa, estou preocupado” podem ser respondidas no dia seguinte ou simplesmente ser ignoradas. A falta de consideração está comprovada até pela própria tecnologia. Uso um programa de envio de e-mails que depois da remessa diz quem abriu, quando, quem leu, quem abriu e não leu, etc. Não recomento para quem sobre de rejeição crônica. 

Eventualmente envio e-mails para um grupo informando sobre a atualização de meu podcast Uivo e sabem qual o percentual máximo de pessoas que abrem? Catorze por cento! Um dado que me deixaria bolado não fossem alguns colegas que usam o mesmo programa e dizem que o percentual é o mesmo.

O que não consigo entender é porque gente que não se comunica se envolve com programas de comunicação, que, lógico, não são obrigatórios. Tem quem quer. É mera falta desconsideração/educação? Ou é mera boçalidade mesmo?



quinta-feira, 20 de abril de 2017

A onda que se ergueu no mar – dedicado a querida amiga Gilda Mattoso

"No dia em se reescrever a Constituição, um dos novos artigos dirá: Todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão. Tem direito também a cidades saudáveis, matas verdes, céu azul, mar limpo e seis meses de verão". (Ruy Castro).

Em tempos de cólera faz bem a alma ler "A onda que se ergueu no mar", um livro antigo do Ruy Castro (é de 2001), um verdadeiro poema para o Rio de Janeiro que amo, mas que não conheci pela mais inquestionável das razões: não era nascido.


A personagem principal dessa obra é a bossa nova, movimentação cultural que surgiu numa fase do Brasil encravada entre o suplício representado pela era varguista, a boçalidade janista, o baixo astral apático do janguismo e o golpe de 1964. Coisa linda era o Rio nos anos 1950, início de 60. Coisa maravilhosa era a bossa nova, capaz de ver mais beleza onde de fato já havia beleza, a contemplação dos olhos verdes da morena e seu biquíni "ousado" em 1960, que hoje daria para fazer um paraquedas. 


A bossa nova acabou porque seu muso era o Rio. E o Rio cidade maravilhosa, sol, céu, sul, faliu no final dos anos 70. Virou um amontoado disforme, portador de anemia cultural grave. A bossa nova acabou porque seu muso, aquele Rio de Janeiro, não mais existe. A ponto de eleger prefeito um bispo da igreja universal!!!! O que estaria sentindo o genial e saudosíssimo (como faz falta ao mundo!) Vinícius de Moraes e o amigo Tom Jobim?

Não li esse livro na época
que saiu, apesar de ter ido ao lançamento só para dar um abraço no Ruy Castro. Ele me olhou fixo, não me reconheceu no ato, mas depois lembrou de um repórter da lendária da Rádio JB em 1974, magro pra cacete, cabelos encaracolados na altura dos ombros, roqueiro, que uma vez acendeu um cigarro dele. Esse repórter era eu. Ruy era repórter do Jornal do Brasil e, ele não sabia, era um dos meus ídolos porque tinha acesso aos bossanovistas, apesar de detestar rock, até hoje. Ruy detestava rock mas me respeitava ao perceber que amo também bossa nova e seus personagens, principalmente Vinícius de Moraes, que entrevistem ao longo de duas horas por volta de 1977. Foi uma aula de vida, generosidade, cumplicidade, inteligência, nacionalismo e carioquice. Sua morte precoce me deixou devastado. Muito mais do que quando Elvis partiu. Não li "A onda que se ergueu..." aquela época porque optei por sorvê-lo bem devagar um dia. E esse dia chegou.

Minha relação com o Rio daqueles tempos é tão comocional que na noite
numa noite, lendo o livro, uma lágrima escorreu de meu olho esquerdo. Emoção vadia. Bateu saudade de meu tio Evaldo, irmão de minha mãe, que também era enfronhado entre os bossanovistas e mais tarde tropicalistas. Tio Evaldo era pura vanguarda, pura arte, puro bom gosto e quando ia lá em casa eu o enchia de perguntas. Sim, foi ele quem me "aplicou" de bossa nova.

Quando conheci meu padrinho de estúdio*, Roberto Menescal, em 1984, chutei os protocolos e pedi: 1 - um autógrafo; 2 - que um dia fôssemos ao Veloso (bar) e, lá, tirássemos uma foto abraçados. Queria ter comigo a lembrança
 de um dos pais da bossa no bar-berço da bossa nova. Um dia fomos, hora do almoço, o garçom tirou a foto na mesa onde Vinícius, Tom e Menescal costumavam sentar. A foto ficou linda, linda, mas na famigerada mudança (lambança) de endereço que fiz ela se perdeu. Mas, não quero embaçar o astral, falar da bela foto perdida e da mudança que não quis fazer. Há muito o que falar do Menescal. Muito. E escreverei um dia desses.

Sobre "A onda que ergueu no mar", aqui vai um texto da editora Companhia das Letras:


"As andanças de Tom Jobim pelo mundo; o longo verão de Brigitte Bardot em Búzios; a  trágica história de Orlando Silva; as vidas paralelas de Dick Farney e Lucio Alves; céus e mares de Johnny Alf e João Donato; samba e swing no Beco das Garrafas; com Nara Leão em Copacabana; ao redor do pijama de João Gilberto - em A onda que se ergueu no mar, 

Ruy Castro conta novas histórias da música que voltou para conquistar uma nova geração. 
Hoje ela talvez seja mais ouvida do que em 1961, em salas de concerto, teatros, boates, 
bares, clubes, escolas, estádios, sem esquecer os elevadores e as salas de espera, os comerciais e as trilhas de filmes e novelas. Em discos também: nunca se ouviu tanta Bossa Nova em São Paulo, Nova York, Paris, Sydney, Tóquio. E quem se dispuser a entrar em todos os sites brasileiros e internacionais dedicados à Bossa Nova, arrisca-se a morrer de velhice antes de sequer arranhar a superfície.

Com Chega de saudade, de 1990, Ruy Castro foi um dos responsáveis por essa volta. Mas ali a história se encerrava por volta de 1970, quando a Bossa Nova foi dada como morta. 

Ruy mergulhou de novo no assunto - mas agora para falar da volta de uma música que, como as ondas, só esperava o momento de dar de novo à praia."


* Padrinho de estúdio é a pessoa que apresenta um estúdio de gravação a um produtor de primeira viagem. Quando dirigiu a gravadora Polygram (hoje Universal), Menescal contratou Celso Blues Boy por meu intermédio, mas colocou uma condição: que eu produzisse o disco. Eu disse que nunca tinha produzido um disco e Menescal (otimista visceral) mandou "ora, você tira de letra, nasceu em rádio". Topei. Ele me levou ao monumental estúdio Um da Polygram (24 canais em 1984), olhou para o engenheiro, técnicos e disse "esse é o Luiz Antonio Mello que vai produzir o Celso Blues Boy". E foi embora! Segurando as gargalhadas. Querem saber? Ele fez bem. Aprendi produção fonográfica fazendo e me orgulho muito de "Som na Guitarra", álbum de estreia do Blues Boy.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Cachorro em apartamento

Andando pelas ruas vejo dezenas de pessoas com cachorros na coleira, algumas levando nas mãos um saquinho plástico para por as fezes. Noto que a maioria dos cães é obesa por motivos óbvios. Vivem trancados em apartamento, vida sedentária, e por mais que seus donos os ame não conseguem dar ao cão a necessária, fundamental vida ao ar livre. Sofrem os cachorros (que também tem muitas doenças de pele por causa da falta de sol, de rolar na grama, etc), sofrem os donos.

Decidi
não ter mais cachorro em apartamento por causa do meu melhor amigo, um basset (razão social dachshund) quase idêntico a esse da foto, que morava comigo, há anos. Comprei o cão porque o sol da manhã entrava pela sala onde morávamos. Para melhorar, havia uma varanda onde, imaginei, Titã (esse era o nome dele) poderia curtir o calor (bassets sentem muito frio) do sol, o vento e um pedaço de céu.

Nunca havia imaginado que as três necessidades do melhor amigo do homem são: 1 - o dono; 2 - o dono; 3 - o dono. Não importa se não há sol, não há céu, não há chuva, não há comida. Titã só queria saber de mim, numa postura devocional comovente e quase inacreditável. Claro que eu o amava, muito, e fingia que não via, na calada da noite, ele saltar devagarinho para cima da cama e se aninhar no edredon, perto de meus pés.

Eu tinha um jipe com capota de lona, uma Toyota amarela e todos os sábados, domingos e feriados, lá íamos eu e Titã (em pé na porta do carona- lógico que com a coleira amarrada- olheiras voando ao vento) para
a praia de Itaipu. Soltava o Titã no estacionamento ele ia voando para a areia e me esperava no bar do Neno (razão social Sabino´s Bar). Quando se certificava que eu realmente ia ficar por ali, ele saia para ver os seus amigos, vira-latas da praia (tinha reforço de vacina por causa disso) e também namoradas com quem nunca conseguia cruzar por causa das penas curtas.

Itaipu toda conhecia Titã, e meus amigos adoravam ficar com ele. Titã pegou horror ao mar por culpa da espuma de uma onda que o pegou quando ele tinha quatro meses. Traumatizou. A noite (sempre a noite), voltávamos para casa e ele, cansado, ia deitado no chão do carro. Em casa, banho, comida e ele ia para
o sofá. Eu voltava para a rua, retornando lá pelas cinco da manhã.

O problema era de segunda a sexta. Eu tinha que trabalhar e por mais que a diarista levasse Titã à rua de manhã e a tarde, ele queria o dono. Por isso, quando eu saia (sempre com o coração na mão) não resistia ao seu olhar triste, orelhas e rabos caídos como se perguntasse "você vai me deixar aqui por que?".


Com o tempo achei que era extremo de egoismo manter o Titã naquele regime de solidão.
A diarista também ia embora e ele ficava em casa só. Tinha brinquedos, tinha varanda, mas não tinha o dono. E quando eu chegava a noite era uma festa, ela voava pela casa, parecia um passarinho saltando de um sofá para o outro e logo íamos para a rua. Ele também gostava da noite e num canto lá eu o soltava da coleira.

No dia seguinte, mais sofrimento: dele e meu. Foi quando racionalmente (caramba, como me custou) eu entreguei Titã a diarista, que morava numa casa com quintal, tinha netos pequenos, enfim, o terror da solidão não iria mais assolar o Titã. Mas e eu? E Itaipu? Orientado por especialistas, dei o Titã e não o procurei mais. Como ele já gostava muito da diarista podia fazer melhor a tal da "transferência" e parece que foi isso que aconteceu porque ele durou quase 15 anos, segundo ela, feliz.

Hoje, vendo os cachorros de apartamento encoleirados pelas ruas,  pergunto. É justo? 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Frente fria


Roubaram o frio?

Como incêndio em campos sem centeio, corre a lenda que amanhã uma frente fria vai chegar ao Estado do Rio. Ninguém sabe ao certo porque as chamadas “moças do tempo” dos noticiários de TV resolveram complicar tudo. Ao invés de dizerem “vai chover e a temperatura deverá chegar aos ...graus”, ficam de devaneios, para mim, inúteis. Não quero saber o que é zona de convergência. Quero saber por que as frentes frias sumiram do RJ há anos. Aliás, uma boa matéria para as “moças do tempo” correrem atrás.

A intuição e meus pesadelos vomitam e dizem que quando a Amazônia foi vendida no mercado negro e passou a ser desmatada impiedosamente, tudo mudou. Soma-se a isso o fim da mata atlântica e o surgimento de uma região metropolitana que pode ser resumida como um conjunto de favelas salpicado de raras ilhas de verde”. Quer prova? Dê um Google e veja imagens de satélites. Mais: quando viajar de avião, olhe o Rio de cima. É uma visão trash.

Os capos de ontem e hoje da Corruptolandia fizeram da Amazônia um bom negócio. Para eles. Corrompem até a alma indígena fornecendo computadores e celulares conectados a internet a tribos aculturadas pela lambança. Transformam floresta em pastos, campos. Destroem rios, lagos, animais. A Amazônia deveria ser guardada por tropas da ONU.

Frente fria. Como era comum no Rio. Frente fria da boa, com direito a bruma, chuva leve constante, frio, muito sereno, nessa época do ano acompanhada de ressacas que faziam o mar invadir. Víamos o que sobrou da natureza respirar, um alívio que nos contagiava.

E pelo visto, está tudo muito bom. Está tudo muito bem.