segunda-feira, 24 de julho de 2017

Jornalismo está virando central de boatos

Em tese, estagiário e o trainee de jornalismo são aprendizes. Em tese. Desde sempre e não somente quando foi inventado o curso superior de Comunicação Social no Brasil, em 1969.

Hoje, não é mais obrigado ter diploma para se fazer de jornalista. A coisa voltou aos tempos pré-1969, mas as empresas mais séras exigem que candidatos a estágio ou treinamento avançado estejam cursando uma faculdade.

Nos protocolos, na papelada, na teoria está tudo muito bonitinho mas, na realidade, estagiários e trainees viraram mão de obra barata, burros sem rabos que como paus de enchente zanzam de um lado e para o outro, perdidos nas redações da vida e a vítima é o leitor/ouvinte/telespectador/internauta.

A ignorância é um direito. Estudante ignorante é mais do que aceitável. Como o nome já diz ele ainda está estudando, aprendendo. Em tese, estagiários e trainees estão no mercado para errar. Errar, aprender e ser submetidos a rigorosa supervisão. Depois de serem exaustivamente treinados aí sim podem publicar suas primeiras matérias. No caso do jornalismo, a vivência, o dia a dia, a estrada, a experiência fazem a diferença.

Ninguém ensina um sujeito a: 1 – ser curioso; 2 – ser esperto; 3 – ser bom caráter; 4 – ser vibrante; 5 – ser humilde; 6 – ser solidário; 7 – ser equilibrado; 8 – ser inspirado; 9 – ser criativo; 10 – ser jornalista.

Hoje, há redações estão sob o comando de aprendizes comprometendo muitíssimo a qualidade da comunicação. O que lemos, ouvimos e assistimos de erros boçais por aí chega as raias do absurdo. Por exemplo, botam no ar notícias que ouvintes/leitores/etc enviam pelo whatsapp. Sim, o whatsapp virou fonte, como o Google. O jornalismo está virando central de boatos.

Um estagiário ou trainee no comando de uma redação (seja ela qual for) é como substituir Ruy Barbosa por um estudante de Direto num tribunal. Não é apenas temerário. É absurdo. Mídia lida com vidas, com gente, com instituições, poderes, governos. Mídia exige competência para falar e papas na língua para escrever, assim mesmo nessa ordem. Mídia exige ética. Ética que aprendemos muitas vezes através de erros lamentáveis que testemunhamos nas redações e que nos levam a pensar “por esse caminho não irei”.

Leio/ouço/assisto calamidades de gente que conhece os livros de ouvir falar e usa a internet como Juízo Final. Em vez de mera referência o Google virou fonte, verdade absoluta para muitos. 

Quando dou entrevistas (principalmente por telefone) fico apavorado porque, em algumas ocasiões, senti que do outro lado da linha o futuro colega não sabia quem sou, o que faço, o que fiz e só conhecia o motivo da entrevista meio que por acaso. Mandaram ele ligar e...e...e...


Dizem que esse quadro reflete a realidade deste novo e lamentável Brasil. Não sei, estou farto de teorias. Estagiários e trainees tem que voltar a condição de aprendizes, antes que as mídias sejam despejadas, definitivamente, na vala comum do desprezo, do esquecimento e da falência.


domingo, 23 de julho de 2017

O Homem que Amava as Mulheres


François Truffaut (1932-1984) era um gênio e deixou nesse planetinha suburbano, moralista e cafajeste uma montanha de obras primas, entre elas “O Homem que Amava as Mulheres”, filme de 1977.

O filme conta a história de Bertrand Morane, um cara de meia idade que tem obsessão por mulheres. Hoje estaria condenado e esquartejado em via pública pelo Politicamente Correto. No entanto, confirmando a tese de que os tarados não padecem, Bertrand conquista, conquista, conquista compulsivamente mas vive afogado num oceano de sofreguidão, angústia, culpa e solidão.

Bertrand é interpretado pelo polonês Charles Denner, morto em 1995 com apenas 67 anos. Truffaut nos deixou com apenas 52. Denner dá uma lavada atuando em “O Homem que Amava as Mulheres” e não foi à toa que ao longo de 30 anos trabalhou também com  Louis MalleClaude ChabrolJean-Luc GodardCosta-GavrasClaude Lelouch

Capaz de atirar de propósito o carro num poste e andar 300 quilômetros para conquistar uma mulher, Bertrand é neurótico radical sim, mas traz os traços muito comuns nos homens de meia idade que vivem saudavelmente, nadando contra as correntes da sociedade calhorda, babaca e inútil que formam as classes média e rica. Os pobres? São muito mais livres, basta olhar.

Um dia desses vi uma malabarista de uns 20 e poucos anos num sinal de trânsito, batizado por São Paulo de semáforo. Morena, shortinho enterrado, braços levemente tatuados, pearcing no nariz, em troca de uns trocados dos motoristas ela jogava três bastões de fogo para cima, para baixo, entre as virilhas e os manipulava com a intimidade das cortesãs do século XX manuseando um robusto balaustre.

Se Bertrand Morane estivesse ali daria um jeito de conseguir nome, telefone, endereço, CPF da malabarista, ia caçá-la, abatê-la para depois ser mais uma vez acachapado pela ansiedade infinita dos infelizes e seus teoremas existenciais indecifráveis e irrealizáveis.

Como Nelson Rodrigues, Bertrand Morane era um doente, mas faz falta. O Bertrand que nos habita, asfixiado pela culpa torpe, pelos carrascos da liberdade comezinha, caiu em desuso no crepúsculo do século 20 quando o lema “é permitido proibir” ganhou as calçadas, avenidas, viadutos, lojas de calcinhas e sutiãs, bordéis.

O auto batizado “garanhão” de Bertrand, na verdade um paquerador radical, inconsequente e (repito) sofredor até a medula hoje é rotulado de “assediador” “impertinente”, “pervertido”, “tarado”, digno de ser “retirado do meio social em nome da moral e dos bons costumes”.

Da mesma forma que não existem mais Truffauts e cada vez mais assistimos a cinema com cê cedilha, “O Homem que Amava as Mulheres” poderia ser exibido em escolas para mostrar a face oculta da opressão e, de lambuja, que Sigmund Freud até teve razão quando falou da projeção feminina esculpida pela figura da mãe. A mãe de Bertrand era puta profissional e quando ele era adolescente a via desfilando de calcinha e sutiã pela casa, causando-lhe uma dor atroz. Mais: ele abriu suas gavetas e leu sua troca de correspondências com os machos, dezenas deles, e sempre o mandava levar cartas (para eles) ao correio. Bertrand jogava fora.

Minha faculdade exibiu o filme em 1978, em pleno pátio, para quem quisesse assistir. Me disseram que lotou, mas eu não estava lá. Se a TV Brasil (estatal) fosse do Estado e não do PT/PMDB passaria esse filme em horário nobre, mas não é da índole governante atual estimular o que agrega e sim o que racha, divide, mutila. Povo mutilado perde força e poder e, assim, o governo rouba mais à vontade.

Não sei onde encontrar “O Homem que Amava as Mulheres”, mas vale a pena correr atrás via Google, Bing e similares porque é preciso deixar claro para todo mundo que houve, sim, uma era onde a vida era mostrada, exibida, arreganhada sem pudores, censores, réguas, compassos, não-libidinagem explícita.




sexta-feira, 21 de julho de 2017

O feitiço do sedã japonês

Impressionante. Praticamente todos os amigos e conhecidos que encontram perguntam “Cadê aquele Suzuki Baleno? Era único, o maior charme”. De pergunta em pergunta comecei a achar que me arrependi de tê-lo vendido. Como vendi para um conhecido, que como eu trata o carro a leite de cabra, fui sondá-lo sobre a possibilidade de recomprar. Mas o feitiço do sedã também pegou o novo dono que, vejam só, está procurando um outro Baleno no Mercado Livre. “Fiquei apaixonado pelo carro, quero ter mais um”. De fato, esse carro tem borogodó. Tanto para os donos como para conhecidos, colegas e amigos do dono.

Uma história que nasceu quase sob o manto do acaso. O sedã japonês verde escuro (idêntico ao da foto) estava num canto da vitrine da concessionária. Zero quilômetro. Tinha chegado do Japão há três meses, temporada no porto, depósito, pátio, documentação, lavagem, revisão, transporte, vitrine.

Entrei disposto a comprar um SUV preto, tração 4X4, para viajar pelo Pantanal e fazer uma perna para o deserto de Atacama, Chile ou atravessar o deserto do Jalapão, norte do Brasil. O problema era vencer a preguiça. Eu sabia que carros japoneses e alemães não dão problema, são resistentes, honestos, apreciam a longevidade. Ia fechar negócio com o SUV. O vendedor foi lá atrás pegar o manual e outros detalhes quando meu olhar bateu no sedã japonês. Esse feiticeiro de aço.

Levantei, olhei a frente, traseira, laterais. Abri o capô, motor, 16 válvulas, bloco em alumínio, muitos cavalos de potência, câmbio automático e, o mais importante, carro japonês, que não dá trabalho e, ainda por cima, da mesma marca do SUV. 

Mudei de ideia. Em vez do SUV comprei o sedã japonês. No dia seguinte saí da loja, pus um CD no Kenwood de fábrica e zarpei. Fui até Barra do Sana e desci pela Serramar (na época lama pura) e retornei como se tivesse ido a esquina beber uma água mineral. Na altura de São Gonçalo, violento temporal. Deixei a BR 101 e decidi ir por dentro da cidade. Mau negócio. Ruas transformadas em rios de esgoto, carros boiando enguiçados. E o sedã japonês passou. Com água na porta, muitas vezes boiando, sequer falhou. Dias depois, outro toró no Ingá, bairro de Niterói. Água na porta, o sedã boiou de novo e chegou a virar ao contrário. Mas não pifou.

De dois em dois anos pensava em troca-lo por carro um mais novo, mas me perguntava para que, se o carro até alma de jipe tinha. Num lugar chamado Engenho do Mato as vezes eu matava saudade dos ralis fazendo trilha com o sedã no lamaçal, alta velocidade. Impressionante. O motor do sedã japonês era o mesmo do SUV que eu iria comprar. Enfrentou alagamentos na chuva, lama, neve, areia, como um autêntico SUV, sem dar um espirro. Um único espirro.

E foi assim durante 17 anos. Eu e o sedã japonês já não sabíamos mais quem era quem. Ele é quase único porque só foi importado durante um ano. Era raro. Naquele carro aconteceu de tudo, absolutamente tudo. Histórias que se fossem transformadas em livros lotariam a biblioteca nacional. Fiel, o sedã jamais enguiçou, jamais furou um pneu, jamais...jamais traiu o seu DNA japonês.

Mas um dia...bem um dia surgiu um outro japonês. Novo. Também resistente, também bem falado, também fiel, também. Foi quando vendi o sedã japonês. Quase fiquei arrasado mas graças ao novo dono, cujos olhos saltaram de paixão logo no primeiro contato, tive certeza que meu grande amigo continuaria em boas mãos.

O novo japonês parece ter gostado de mim. Começamos a construir uma história bacana, leve, rápida, precisa, estável. Sem problemas. Como os carros japoneses e alemães. Mas, a saudade do sedã eventualmente me pega. E como o vi com o novo dono, reluzindo estacionando em frente a casa dele, a saudade rasgou. Decidi que, ano que vem, vou tentar recomprá-lo só para tê-lo por perto. Se bem que o cara não vai vender de volta mesmo.

Entenderam?



quinta-feira, 20 de julho de 2017

Eternas Capitanias Hereditárias

Meritocracia. Linda palavra. Presença obrigatória em comícios, entrevistas, aparições na TV de qualquer político. Meritocracia significa vencer na vida pelo mérito pessoal, pelo talento, criatividade, ética. Mais nada.

Nesse início do século 21 podemos observar que nunca (ou quase nunca) o nepotismo, os pistolões, a ação entre amigos esteve tão presente, especialmente em setores como a música, jornalismo e, naturalmente, a política.

Na música, chega a ser engraçado. Entramos na internet, abrimos os jornais ou ligamos a TV e o que mais vemos é a “descoberta de talentos” de filhos, netos, sobrinhos, maridos de medalhões. Cardumes e mais cardumes de piranhas. As Capitanias Hereditárias do velho Império tiveram seu conceito eternizado e transplantado para outros setores.

É comum lermos que “Fulano de Tal, que toca o instrumento X é filho do lendário Beltrano”. Toca bem? Não informam. Toca mal? Não informam. A matéria, em geral escrita por cupinchas  da Capitania, só se interessa em dizer que o filho ou a filha do medalhão está em cena. Ponto. Para ele, é o suficiente e o leitor que se dane.

No jornalismo (como em toda a área de Comunicação) é tão melancólico quanto. A enxurrada de sobrenomes iguais (é muita cara de pau) denuncia o nepotismo. Não haveria problema (ninguém aqui é moralista) se o filho do Pluto, digamos assim, tivesse o mesmo talento do pai. Em geral, não é o que acontece. Filho de barrigada mal dada, ao contrário do pai (ou do avô, tio, primo e similares) apura mal, escreve mal e tem a cara de pau de partir para o abraço assinando a matéria, aplaudida pela horda ignara.

Como a avaliação do talento na arte, cultura e mídia é subjetiva, a coisa fica no zero a zero. Mas no caso, por exemplo, de um neurocirurgião (e de muitas outras profissões que exigem notório saber) a situação é completamente diferente. Exemplo: se Paulo Niemeyer Filho não tivesse tanto ou mais talento do que o pai, muita gente teria morrido na sua mão e ele teria sido rifado do mapa. Mas por ser muito bom e, também, ser filho do grande Paulo Niemeyer, ele atingiu alto grau de reconhecimento de seus colegas médicos e da chamada opinião pública.

Enquanto isso, nas Capitanias Hereditárias da mídia, li semanas atrás uma “reportagem” entre aspas assinada por um venal, falando de músicos medíocres, numa festa realizada num questionável e decadente "ponto da moda", lançando um disco vulgar, com a presença do famoso pai e avô dos músicos, mais mãe e avó e uma montanha de artistas famosos. O venal "jornalista" entre aspas, que também se acha diretor de cinema, faz clipes para a tal banda. Ah, sim, o pai do tal repórter é amiguinho do pai dos músicos. Resumindo: músicos filhos de pai e avós famosos, ganham reportagem escrita por um amiguinho que é também diretor de seus videoclipes e filho de um amigão do pai da banda. Que coisa.

Dizem que é sinal dos tempos. Não sei. Só sei que é fácil acusar a internet pelo fim do disco, dos jornais, das revistas. Até que ponto a tal maioria silenciosa perdeu a paciência com esse lixo produzido e cultuado pelas Capitanias Hereditárias? Ou o nepotismo acha que ninguém está notando, que ele é blindado, à prova de mérito?

É melancólico.




quarta-feira, 19 de julho de 2017

Exigimos imediata intervenção federal no Estado do Rio

É urgente e imediata a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro, que vive uma situação de genocídio, caos, abandono total. Por falta de governo, cidadãos morrem nas ruas e hospitais, crianças são assassinadas em escolas e nas ruas por causa da guerra civil, enfim, todos os princípios básicos dos Direitos Humanos estão sendo violados à luz do dia. À luz da morte.

Nessa chacina generalizada, causada pela corrupção e luxúria com o dinheiro público, o governo do Estado do Rio decidiu, há tempos, não pagar o funcionalismo ativo, aposentados, inativos e afins, alegando falta de dinheiro. Mentira! Isso é falta de moral, é falta de governo.

O que os parlamentares do Rio* tem feito em prol da única solução para o Estado, a intervenção federal? O que fazem? O que dizem? Que satisfação nos dão já que estão em Brasília por nossa culpa?

Indigno, cruel, nefasto, escroque, o ato de deixar milhares e milhares de idosos à míngua é o mais grave capítulo da trágica e imunda trajetória do governo do Estado.

Não pagar a quem já não mais consegue trabalhar é estuprar o mais indefeso dos mortais. Os idosos não tem mais tempo, sua força não é como a de antes, mas a maioria absoluta honrava seus compromissos do dia a dia como pagar o mercado, a farmácia (que está um assalto), o condomínio, os impostos. Mas o deslavado governo do Estado decidiu transformar os idosos em inadimplentes - como ele -, governo do Estado. É muita patifaria. Sobra vilania nessa torpe história.

O governo federal está parado, estagnado, anêmico. Como imaginar uma intervenção federal no RJ se o governo federal é incapaz de intervir em si mesmo? Não interessa. O RJ exige a intervenção, mesmo que o Governo Federal tenha que se reinventar.

Os atores desse teatro mórbido que assistimos no Estado do Rio vão entrar para a História. É certo. Pela sarjeta. É mais certo ainda. Qualquer governante com o mínimo de dignidade, antes de atirar idosos na miséria, deferia oferecer o próprio pescoço ao sacrifício e renunciar. 


Pelo bem da humanidade.


Mas seria exigir muita grandeza de parasitas tão mesquinhos.

* Senadores que nós do RJ pusemos em Brasília:

Eduardo Lopes (PRB) Período 2011-2019
Lindbergh Farias (PT) Período 2011-2019
Romário (Pode) Período 2015-2023

* Deputados federais que NÓS colocamos em Brasília em 2014:

Jair Bolsonaro (PP) – 464.572 votos
Clarissa Garotinho (PR) – 335.061 votos
Eduardo Cunha (PMDB) – 232.708 votos
Chico Alencar (PSOL) – 195.964 votos
Leonardo Picciani (PMDB) – 180.741 votos
Pedro Paulo (PMDB) – 162.403 votos
Jean Wyllys (PSOL) – 144.770 votos
Roberto Sales (PRB) – 124.087 votos
Marco Antônio Cabral (PMDB) – 119.584 votos
Otavio Leite (PSDB) – 106.398 votos
Felipe Bornier (PSD) – 105.517 votos
Sóstenes Cavalcante (PSD) – 104.697 votos
Washington Reis (PMDB) – 103.190 votos
Rosangela Gomes (PRB) – 101.686 votos
Júlio Lopes (PP) – 96.796 votos
Índio da Costa (PSD) – 91.523 votos
Alessandro Molon (PT) - 87.003 votos
Hugo Leal (PROS) – 85.449 votos
Glauber (PSB) – 82.236 votos
Cristiane Brasil (PTB) – 81.617 votos
Jandira Feghali (PCdoB) – 68.531 votos
Dr. João (PR) – 65.624 votos
Simão Sessim (PP) – 58.825 votos
Celso Pansera (PMDB) – 58.534 votos
Miro Teixeira (PROS) – 58.409 votos
Aureo (SD) – 58.117 votos
Sergio Zveuter (PSD) – 57.587 votos
Arolde de Oliveira (PSD) – 55.380 votos
Rodrigo Maia (DEM) – 53.167 votos
Chico D’Angelo (PT) – 52.809 votos
Cabo Daciolo (PSOL) – 49.831 votos
Luiz Sergio (PT) – 48.903 votos
Alexandre Serfiotis (PSD) – 48.879 votos
Deley (PTB) – 48.874 votos
Soraya Santos (PMDB) – 48.204 votos
Benedita da Silva (PT) – 48.163 votos
Paulo Feijó (PR) – 48.058 votos
Marcelo Matos (PDT) - 47370 votos
Fernando Jordão (PMDB) – 47.188 votos
Francisco Floriano (PR) – 47.157 votos
Marcos Soares (PR) - 44.440 votos
Altineu Cortes (PR) – 40.593 votos
Fabiano Horta (PT) 37.989 votos
Ezequiel Teixeira (SD) – 35.701 votos
Luiz Carlos Ramos do Chapeu (PSDC) – 33.221 votos
Alexandre Valle (PRP) – 26.526 votos


Apenas metade do número de deputados do Rio foi renovada. Dos 46 candidatos, 23 foram reeleitos em 2014.


terça-feira, 18 de julho de 2017

Submergir

       Marcio Paulo
As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem. Submergir é proteção. Para submarinos e para seres humanos.

Sai, sai do sereno menino”, diz a canção que alerta que “sereno pode fazer mal”. Uma tradução urbana do ato de submergir. Se bem que não sinto o sereno há muitos anos. Nem ele, nem a garôa, nem a neve de Itatiaia, prometida pelos meteorologistas para esta semana. Itatiaia foi onde passei um dos melhores fins de semana de minha vida e a pior Semana Santa. “A vida é assim”, dizia Zora Yonara, astróloga do rádio e sua voz enigmá com eco alertando: “pisciano, você tem pela frente uma sequência de vitórias esplendorosa. Insista, pisciano!”.

A submersão é vital para a sobrevida. Basta ter ar suficiente e muita humildade. Castrar os ventos tortos da arrogância, deixar nossa nau existencial largada no fundo do mar, ao lado dos polvos e dos peixes abissais.

Os tímidos vivem nos bancos de areia, cercados de corais. Parados, prestando atenção nos praticantes de evasão de privacidade (essa é do Tutty Vasquez) que exibem sua anêmica pequena burguesia nas redes sociais do tipo “estou tão feliz nessa foto, tão feliz que se me assoprar eu caio no chão e choro”. Ahhhh, o blefe das redes sociais. Ahhhh, o blefe das redes. Ahhhh, o blefe das sociedades. Ahhh, o blefe da humanidade.

Submergir faz bem a saúde. Mesmo quando o oponente lança bombas de profundidade que fazem nosso casco mugir como o touro do Apocalipse. Quem sabe submergir se esconde embaixo das montanhas de pedra submarinas. Pouca luz, nenhum som, motores desligados. Esperar a tormenta passar. Um, 12, 30, 600 dias. Submarinos atômicos, longa autonomia. Falo de nós, longa autonomia. Falo da sociedade, aguda dependência.

As batalhas navais ensinam que diante do bombardeio os submarinos submergem e que as galinhas morrem por cacarejarem depois do ovo. Não é o caso do bicho-preguiça mergulhado em seu mutismo, espatifado até por skate. Não fala, mas não corre.

Correr ou falar?

Qual a melhor opção?

Sem dúvida a terceira.

Submergir.


Ou: em dia de temporal de faca não se bota a bunda na janela.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Let it Be, o filme



Assisti de novo ao filme “Let it Be”, dirigido por Michael Lindsay-Hoog. Foi feito ao longo de janeiro de 1969 e lançado em maio de 1970, quando a banda já havia acabado. Paul McCartney foi o único que lutou para que o filme fosse feito (aliás, era o único que ainda parecia acreditar que os Beatles ainda existiam), e o que era para ser o registro histórico dos ensaios, momentos de composições, interiores do maior grupo de rock de todos os tempos acabou se transformando num testemunho vivo sobre o fim dos Beatles.

Não há iluminação de cinema. Não há cenários, o roteiro é mínimo, a falta de luz gera a sensação de má qualidade das imagens, mas e daí? As câmeras circularam à vontade entre os músicos no estúdio, registrando conversas, gargalhadas e mal estar. George Harrison, por exemplo, não esconde que  já está de saco cheio e em determinado momento, conversando com McCartney, diz, desanimado e irritado “tudo bem. Diz o que devo fazer e eu faço”, uma maneira nada sutil de falar “dane-se”. Rindo Starr está apagado, desanimado e só raramente (mas raramente mesmo) se diverte dividindo um piano com Harrison numa brincadeira ou se divertindo com a então pequena Stella McCartney, de três anos.

Yoko Ono é onipresente. Aparece em várias cenas, quieta, sorriso de Monalisa, observando, sempre ao lado de Lennon, com quem chega a dançar uma valsa no estúdio. O constrangimento no ambiente é óbvio mas o som rolou assim mesmo. E que som. Que som! Com Billy Preston no órgão, os Beatles, mesmo sabendo que era o fim, arrebentaram.

Curiosamente, o clima entre McCartney e Lennon não parecia ruim. Os dois se divertem, riem quando dividem microfones, mas fica claro o comedimento, a cerimônia. Em determinado momento Macca comenta que se George Harrison não embarreirasse os Beatles deveriam voltar a tocar ao vivo, quem sabe começando pelo Royal Albert Hall, em Londres.

Há quem diga que naquela época Lennon teria sugerido a Macca que Harrison fosse substituído por Eric Clapton, o que foi negado. Paul achava que The Beatles só deveria existir com os quatro. Há muito mistério na atitude dos dois ao longo dos quase 90 minutos do documentário, onde tocam de tudo, inclusive canções que, creio, permaneceram inéditas. O final apoteótico foi aquele lendário show no telhado da gravadora Apple que acabou com a chegada da polícia.

Assistir Let it Be faz muito bem porque: 1 – comprova que The Beatles foram (e são) muito mais gigantescos e monumentais do que supomos; 2 – o grupo acabou na hora certa. Melhor do que seguir definhando publicamente.

Músicas do filme

.“Two of Us"
"Dig a Pony"
  • "Across the Universe"
  • "I Me Mine"
  • "Dig It"
  • "Let It Be"
  • "I've Got a Feeling"
  • "One After 909"
  • "The Long and Winding Road"
  • "For You Blue"
  • "Get Back"
  • "Octopus's Garden"
  • "Maxwell's Silver Hammer"
  • "Besame Mucho"
  • "Don't Let Me Down"
  • "You've Really Got a Hold on Me"
  • Medley: "Kansas City/Hey, Hey, Hey, Hey"