terça-feira, 4 de junho de 2013

Copacabana, meu amor

Tenho sonhado muito com Copacabana, que há tempos frequenta minhas memórias. Se me pedissem para simbolizar o mais democrático bairro do Brasil, eu mostraria a foto que ilustra a coluna de hoje. Não fui eu quem fiz, mas nos anos 70 cliquei uma muito parecida, 7 horas da manhã, dia de semana, no Leme que, para mim, Copacabana também é.

Os leitores que, em tese, coleciono ao longo de 41 anos de jornalismo sabem que amo minha cidade, Niterói. Mas também sabem do meu amor, jamais secreto, por Copacabana, onde morei esporadicamente umas três vezes (incluindo o Leme), dos anos 70 até hoje.

Foi em Copacabana que entrevistei Nara Leão pela primeira vez. Lembro que quando entrei em seu apartamento fui tomado por um vendaval de emoções pois ali, naquele salão de frente para a avenida Atlântica, nasceu a bossa nova. Pensei em meu hoje amigo Roberto Menescal, com Boscoli, Tom, Carlinhos Lira, todo mundo ali no sal, céu, sul, as três marcas da bossa que acabaram redesenhando um novo Rio de Janeiro, novo Brasil, a partir de Copacabana.

São 122 anos de contrastes urbanísticos e sociais convivendo harmonicamente pelas avenidas, artérias, becos, muquifos, palácios, coberturas, areia, mar. Copacabana é um patrimônio da pluralidade humana em sua mais profunda definição, se é que existe uma definição finita para isso. Em Copacabana amei muito e, apesar de todo escalavrado, descia a pedra do Leme quase todas as noites direto em direção a uma carrocinha da Geneal onde comia várias daquelas minipizzas com minha namorada, final dos anos 70.

E também ia a praia, ia a pequenos bares ouvir bossa nova, percorria a noite a calçada interna onde, volta e meia, sentava numa mesa de um restaurante chinês barato e comia aqueles quitutes cheios de óleo que nunca me fizeram mal. Copacabana nos protege. E foi na areia da praia, mais ou menos na altura do Posto 4, fim de tarde, que chorei a perda de um colega de profissão olhando para o infinito do mar, os barcos, navios, mulheres que passaram, passam e passarão sempre por aquela areia cheia de pequenos cascalhos. Não há areia igual a de Copacabana no Rio de Janeiro.

Eu ia escrever uma homenagem pelos 122 anos do bairro, mas acabei entrando nessa trilha existencial porque meu inconsciente entrou em cena e tomou conta da situação. Como esquecer do dia em que fui ao “sítio” onde morava Roberto Menescal e família? Sim, um grande apartamento térreo na Nossa Senhora de Copacabana, com um quintal com mais de 100 metros de extensão, cheio de árvores, micos e pássaros. Em plena Copacabana.

E no dia do meu aniversário, 18 de fevereiro de 2006, como jornalista assisti aos Rolling Stones em frente ao Copacabana Palace tocando para mais de um milhão de pessoas. Eu, Jamari França, Lula Tiribás e outros a menos de cinco metros do palco, dando a impressão de que Keith Richards tocou para mim. Só em Copacabana. Fiquei surdo uma semana e minha amiga Liliana de La Torre, que também estava lá, até hoje me sacaneia porque avisou que o som, evidentemente, iria ultrapassar as barreiras do absurdo. Mas insisti e fiquei. Pior: meu ouvido esquerdo ganhou um zumbido que permanece até hoje e meu médico disse que será eterno. Um zumbido-herança dos Stones em Copacabana.


Teria muito mais a dizer, mas textos na internet não devem ser muito longos, dizem os especialistas. Meu amor incondicional por Copacabana encheu meu cofre de momentos felizes. Ah, sim, o Copacabana Palace, que frequentei uma época por conta de inúmeras entrevistas que eram realizadas naquele charmosíssimo lobby. Fiquei a dois metros de Catherine Deneuve, que entrevistei, eu acho, pro Estadão. E também Alan Parker, Roger Waters, Ron Wood e uma grande cantora e compositora folk norte-americana, cuja entrevista começou no lobby e terminou em sua suíte onde fiquei internado três dias. Três dias de paz, amor e música. Quem é? Só Copacabana sabe. Sabe e cala.