quinta-feira, 4 de julho de 2013

O Sal da Terra

Texto restaurado e reeditado

Já estou cheio da palavra sustentabilidade, usada como galocha na propaganda eleitoral e na mídia em geral. Outra que não agento mais é o tal de “foco”. De saco cheio leio e ouço toda hora “meu foco está em...”, não é fácil.

Antes de virar moda e frase de panfletos eleitorais oportunistas (alguns são autênticos), pessoas que hoje são chamadas de ambientalistas foram tachadas de ecologistas nos anos 70. Fui um dos fundadores do M.O.R.E., Movimento de Resistência Ecológica que atuava basicamente em Niterói em plena ditadura. Nunca presidi o M.O.R.E. mas, modéstia à parte, tive uma atuação constante e muito intensa por uma razão muito simples: desde pequeno meu pacto com a natureza é real, palpável.

Lembro de uma grande manifestação organizada por um colega jornalista, acho que em 1977, na área de Camboinhas, bairro da Região Oceânica de Niterói. Na época uma megaconstrutora estava tocando um projeto chamado “Cidade de Itaipu”. Para “limparem” a área contrataram jagunços que mataram e torturaram pescadores que foram obrigados a entregar suas casas. A lagoa de Itaipu estava ameaçada (hoje está teoricamente morta), enfim, o megaprojeto teve que engolir uma manifestação com direito a presença do cientista Augusto Ruschi, já falecido.

Dezenas de pessoas participaram da carreata e, lógico, havia policiais do sucessor do Dops, o também famigerado D.P.P.S. (Delegacia de Polícia Política Social) infiltrados nos fotografando mas, ainda assim, consegui escrever uma longa matéria para o Pasquim (na época submetido a censura prévia) que até hoje não entendi como não foi degolada.

As manifestações, as matérias na grande mídia que seguiram o Pasquim acabaram abortando a tal “Cidade de Itaipu” e, em tese, a ecologia (hoje ambientalismo) venceu mais uma. Foi quando um mineiro de Belo Horizonte me procurou no Pasquim, que funcionava na rua Saint Roman em Copacabana. Eu ia lá uma vez por semana e, inclusive, sem querer, presenciei a despedida de Ivan Lessa, em 1978, que jurou nunca mais pisar no Brasil embarcando para Londres. Ele morreu com a promessa cumprida.

Mas, voltando ao mineiro, ele queria mais detalhes sobre o nosso movimento que abateu a “Cidade de Itaipu” para conversar com o poeta Ronaldo Bastos sobre o assunto. Contei tudo o que sabia e o cara sumiu. Foi quando em 1981 uma música me chamou atenção. Chama-se “O Sal da Terra”, que ouço neste momento com o co-autor Beto Guedes, enquanto escrevo. Vale recordar a letra de Ronaldo Bastos que, me disseram depois, ouviu o relato do leitor mineiro:

Anda!
Quero te dizer nenhum segredo
Falo nesse chão, da nossa casa
Vem que tá na hora de arrumar...

Tempo!
Quero viver mais duzentos anos
Quero não ferir meu semelhante
Nem por isso quero me ferir

Vamos precisar de todo mundo
Prá banir do mundo a opressão
Para construir a vida nova
Vamos precisar de muito amor
A felicidade mora ao lado
E quem não é tolo pode ver...

A paz na Terra, amor
O pé na terra
A paz na Terra, amor
O sal da...

Terra!
És o mais bonito dos planetas
Tão te maltratando por dinheiro
Tu que és a nave nossa irmã

Canta!
Leva tua vida em harmonia
E nos alimenta com seus frutos
Tu que és do homem, a maçã...

Vamos precisar de todo mundo
Um mais um é sempre mais que dois
Prá melhor juntar as nossas forças
É só repartir melhor o pão
Recriar o paraíso agora
Para merecer quem vem depois...

Deixa nascer, o amor
Deixa fluir, o amor
Deixa crescer, o amor
Deixa viver, o amor
O sal da terra


Ronaldo Bastos é um dos grandes poetas que desembarcou na Música Popular Moderna de Minas Gerais. Em “O Sal da Terra” ele funde a asfixia ambiental com a política e também driblou a censura. Quem quiser ouvir a versão original do álbum de Beto Guedes “Contos da Lua Vaga”, de 1981, é só clicar aqui: