segunda-feira, 23 de setembro de 2013

É mais fácil sentar o pau no fato do que no jantar em família

                                                           
Porco-urso-cachorro: escultura de Patricia Piccinini

Texto restaurado e reeditado
Eu vinha de ex-Tribobó (ex-RJ) e vi um ex-porco, chafurdando na ex-lama. Na época a ex-garota de programa, ex-Bruna ex-Surfistinha, comemorava zaralhadas de semanas no topo dos livros no ranking de Veja e Época. Um autêntico rest-seller, que virou filme com um rebolado meio moralista e escroque.
O ex-livro deveria se chamar O Ex-Veneno da Ex-Rabiola do Ex-corpião. Na época, a psicóloga e sexóloga Yara Darus que, desprovida de qualquer surto moralista, foi clara: "O livro é um sucesso entre as adolescentes porque é um passo a passo sobre sexo (...) Eu até engulo em seco ao afirmar que esse livro induz, sim, as adolescentes a ingressarem na prostituição. Com a ampla divulgação da mídia, Bruna Surfistinha tornou-se celebridade".
Como ex-cidadão, cheguei de ex-Tribobó e fui comer ex-sushi pensando no que ex-Janete da ex-Casa da ex-Pantera ex-Cor de Rosa, ex-bordel em Laranjeiras, dizia nos anos 70: "Não existe ex-prostituta porque não existe ex-gente. E prostituta é gente".
Ex-racional, comendo ex-sushis e ex-sashimis com ex-pauzinhos amarrados em ex-elásticos (minha ex-inabilidade não permite que ex-coma sem ex-elástico), lembro que jamais admiti que qualquer ex-bípede ex-mamífero chamasse ex-prostituta de ex-vagabunda, ex-moleca, ex-vadia. Porque por trás do ex-êxtase existe uma sábia. A ex-prostituta paga muito caro pela opção, mas, curiosamente, nunca ouvi nenhuma se lamuriar. O lema era o de Jânio Quadros: "fi-lo porque qui-lo". Só ex-Bruna ex-Surfistinha simula lamúrias, nesse ex-livro marqueteiro, precedido de autoflagelações em todas as mídias.
O que me ex-deixa ex-furioso em relação a essa manobra maquiavélica de marketing é o convite de ex-Bruna para que meninas entrem no seu reino encantado pela morte. E morte não tem ex, minha chapa. Em 90% dos casos, prostituição = drogas, álcool, espancamento, facadas, tiros e, não sei se pior: dano afetivo irreversível.
Mas voltando ao sêmen da questão, quando, naquele tempo, li que ex-Bruna ex-Sufistinha enchia a caveira de uísque enquanto autografava seu ex-livro na ex-Bienal de São Paulo, para uma multidão de meninas adolescentes histéricas que vêem nela uma ginecopopstar, joguei minha modéstia no viaduto do Limão (Sampa); de ex-fato a ex-GP morou na TV, no rádio, nos jornais, comovendo a nação com sua fala melosa, como as cavalas do imortal Carlos Zéfiro, tornando-se musa masturbatória da nação. Honra: Zéfiro nunca inseriu drogas e biritagem em suas revistinhas.
E a ex-sagrada família da ex-terra ex-brasilis entre um grito de horror e uma fugidinha ao banheiro, transformou a mídia em Joana Darc. Mais uma vez. Pais e mães ilibados não trocavam de canal, não trocavam de jornal, não trocavam de rádio para assistir ao flagelo S&M da ex-Surfistinha, preferindo esquecer que na ex-sagrada família há sim, hipótese, de naquele momento filhas e filhos estarem chafurdando em lojas de conveniência ou nos muquifinhos modernosos detonando ices vodca com óleo diesel, ecstasy, LSD e afins em troca de, quem sabe, um programinha. Mas, papai e mamãe preferem dizer "ohhhh pra mídia", do que perceber que ex-Brunas e Brunos estão na sala de jantar há anos perguntando calados "por que vocês não me dão a little help?"
O sucesso do ex-livro de ex-Bruna ex-Surfistinha tem um zaralhão de explicações, entre elas a ex-célebre ex-hipocrisia da ex-classe média brasileira. A mesma que ex-chora assistindo ao documentário chamado Falcão, obra de um ex-excluído, ex-traficante e hoje celebridade daslusiana sobre ex-gente exterminada que deu 70 de ibope na TV. Chorando a cântaros, muita gente acendeu seus baseados para aliviar a tensão diante de tanto mundo cão. Onde compraram os bagulhinhos? Na Sociedade Pilantrópica Filhos do Padre Zezinho? A mídia ensina que nos anos 30/40, quando a birita era proibida nos Estados Unidos, a corrupção atingiu níveis boçais. Da farda à toga. Mais: os biriteiros enrustidos se metiam na Ku Klux Klan e outras entidades pilantrópicas, chorando, falando em "América, ohhhhhhhhhhhhhhhhh América atirada à sarjeta do álcool". Liberaram a porranca. A traficolândia mudou-se para outras drogas.
Perto da traficolândia de usuários aqui na Brazuca (só há demanda onde há consumo, ensina qualquer bodinho de puxar charrete de crianças na Praça do Alto, em Teresópolis, RJ), ex-Bruna ex- Surfistinha é noviça. Seu ex-livro, que foi rest-seller nacional, é apenas uma tomografia do Brasil de hoje, onde ex-vestidos de três mil reais são doados a primeiras-damas estaduais que pretendem ser nacionais. Terra de ex-ministro brincando de caça à morcega em mansão de tolerância alugada com o nosso dinheiro. Famílias que em vez de "a little help" tacam fogo no brunismo sem perceber que o escorpião pode estar na mesinha de cabeceira da prole adolescente. E como diria ex-Scarlet Ohara, "Taraaaaa! Taraaaaaa!"
Observação: a palavra esdruxulismo não existe, segundo Houiass. Dicionário feito por Antonio Houaiss, que traduziu as primeiras edições de Ulisses de James Joyce e ninguém entendeu nada. Pelo visto, nem ele.