sábado, 30 de novembro de 2013

João Araújo: mais do que "o pai do Cazuza"

                           
                                                  

 Cazuza e João
 Cazuza e João
Cazuza, João e Lucinha Araújo

João Araújo era um homem que fazia muito, mas não gostava de carnavalizar seu trabalho. Morreu aos 78 anos, vítima de uma parada cardíaca. Foi um dos maiores executivos da história do disco e da música não só no Brasil, como em toda a América Latina. Um homem que trabalhou muito, fundou a gravadora Som Livre em 1969, mas não gostava de celebrar. Talvez achasse que fazer sucesso era sua obrigação.

Tive pouquíssimos contatos com ele, todos profissionais. Num deles, na gravadora Som Livre, uma entrevista com Cauby Peixoto em 1980, quando cantor gravou a antológica “Camarim” (LP “Cauby! Cauby!”), de Chico Buarque, João Araújo resolveu sentar e ouvir nosso papo. Cauby lembrou passagens de sua vida, a música que Chico compôs, o disco e, o tempo todo, agradecia ao João por ter bancado a volta aos palco.

Calado, quieto, na dele, João foi um grande estrategista. Não vou listar quem ele descobriu e lançou pois está em todos os sites jornalísticos. Fato é que quando o Barão Vermelho surgiu, em 1981, João Araújo relutou em contratar a banda pela sua Som Livre. Achava nepotismo contratar o grupo do filho, Cazuza.

Guto Graça Melo, outro grande produtor, convenceu o João a ceder. “Já pensou se o Barão estoura numa gravadora concorrente?”. Foi essa pergunta que teria feito João Araújo voltar atrás e contratar o Barão Vermelho.

Ao contrário do pai, Cazuza tinha um pacto com o exagero, vivia anarquizando os lugares que frequentava, enfim, fez a sua biografia pautada nas gargalhadas aos berros e tudo aquilo que lemos, vimos, ouvimos sobre ele.

Conheci o Cazuza em 1982, quando o Barão Vermelho esteve na Rádio Fluminense FM levando seu primeiro LP. Cazuza estava na dele, calado (falou pouco na entrevista). Nas outras duas vezes que o encontrei, Cazuza também estava contido, mas no coquetel oferecido aos bluesman Robert Cray ele descabelou o palhaço. Cazuza se superou.


O Brasil não perdeu o João Araújo pai do Cazuza. O Brasil perdeu um grande profissional do mercado musical, que descobriu, restaurou, redescobriu talentos que hoje são gratos a ele. Merece descansar em paz.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O marketing do verão

                           
                                                  

Assim como existe a temporada dos tufões e furacões, terremotos e nevascas em outros países, o flagelo dos países tropicais é representado pelas tempestades de verão.

Reconhecer essas manifestações naturais é o primeiro passo para amenizar suas consequências. Japão, Estados Unidos e outros países assolados por terremotos desenvolveram tecnologias que tornam as cidades mais resistentes.

Da mesma forma que tufões e furacões, em países desenvolvidos, são amenizados com a construção de abrigos, vedação de casas e prédios e muita infraestrutura.

É óbvio que terremotos, tufões e furacões continuam matando, mas em lugares onde a seriedade do Estado entrou em cena seus danos são muito menores do que em regiões onde a lambança com o dinheiro público ocupa o lugar da responsabilidade com o bem comum.

É o caso do Brasil. O Globo de hoje informa que 91 dos 92 municípios do Estado do Rio (praticamente 100%) tem pelo menos 20 pontos com risco de desabamentos com as chuvas de verão.

Um fenômeno que não é e nunca foi novidade por aqui. Segundo Nancy Dutra da Folha de S. Paulo (edição de fevereiro de 2011) “O Rio sofre com os efeitos das tempestades desde 1700, de acordo com registros de jornais na época. Há relatos de 1711 sobre inundações e de 1756 de fortes chuvas e ventos com vítimas.”

Ou seja, desde sempre chove forte nos verões fluminenses e, também desde sempre, rouba-se muito dinheiro público que deveria ser usado em contenção de encostas, limpeza de rios, etc.

Quase três anos depois da maior tragédia natural registrada na história do Brasil, o temporal que matou 910 pessoas nas cidades serranas do Estado do Rio em janeiro de 2011, pouco ou quase nada foi feito.

Quem vai a Friburgo, Teresópolis e Petrópolis encontra o mesmo quadro: favelas em expansão pelas encostas, rios precisando de dragagem, enfim, é como se nada tivesse acontecido.


Culpa da cafajestagem política, da leniência, corrupção e impunidade. No entanto, o marketing do verão, inventado pelo jeitinho brasileiro, canta que é tempo de chuva, suor e cerveja. A ordem é deixar rolar. Que rolem barracos pelas encostas, que rolem cabeças, que reine a barbárie e a boçalidade nos bairros com praias porque, afinal, é verão. Uma estação que poderia ser celebrada não fosse o desleixo do poder público.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Arrastões e cagaço popular

                           
                                                  
Ação.
Reação: cagaço geral
O verão sequer chegou, mas a barbárie já tomou conta. Hordas de marginais assaltam banhistas nas principais praias do Rio e a polícia pouco ou nada faz. Porque, porque, porque...não se sabe.

Fato é que, dia após dias, a máscara marqueteira das UPPs está caindo. A cidade paraíso que o (des) governador construiu está voltando a seu “jeitinho” carioca de ser.

Multidões de viciados em crack infestam a avenida Brasil, homicídios aumentam, a bandalha social é generalizada e até os famigerados criminosos profissionais mascarados (tratados carinhosamente pela imprensa como black blocs) disseram a que vieram: tumultuar em prol de facções políticas profissionais que pagam seus salários. Isso sem falar de um outro “patrão”, o PCC paulista.

O que chama a atenção nesses arrastões é o cagaço da população. Basta vir um grupelho de cinco, seis crianças (sim, crianças estão no bolo) pela areia e todo muno sai correndo. Na sexta-feira passada (15 de novembro) algumas mulheres reagiram, usando paus de barraca como armas. Deu certo. Por que pararam?

Imaginem no verão quando entram em cena os marqueteiros do carnaval que ganham rios de dinheiro com seus blocos de alegria duvidosa e bêbada, mas de cofres forrados com a dinheirama espalhada pelas cervejarias.

 A cidade maravilhosa está caindo em si, depois de uma lua de mel que durou mais alguns anos. E agora?

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

“Responder a e-mails é uma obrigação. Quem discorda deve deixar a internet”

                           
                                                  

O título está entre aspas porque quem disparou a frase foi um colega meu num bar do Largo do Machado (Rio) semanas atrás. O assunto na roda (uns 20 caras) era e-mail. Todo mundo indignado com o fato de mandarem e-mails que não são respondidos.

Eu estava na boa, me divertindo com o assunto, mas lá pelas tantas opinei: “não responder a e-mails é a maior escrotália. Pior do que bater com o telefone na cara”. E voltei a me atracar com o filé à Oswaldo Aranha que, aliás, estava sublime.

Um outro colega contou que seu vizinho, mais mulher e três filhos, haviam viajado para Minas Gerais. Feriado prolongado. Uma equipe da companhia de energia elétrica chegou para fazer o corte por falta de pagamento. Meu colega se meteu no assunto, pediu que dessem uma chance e os caras concordaram “desde que ele mostrasse um comprovante de residência em nome do vizinho”. Significava ter que entrar na casa fazia (fácil, ele sabia, pela janela, já tinha pensado) e por isso ele mandou um e-mail pedindo autorização para “invadir” já que não tinha o número do celular. A equipe voltaria no dia seguinte. O vizinho não respondeu ao e-mail e quando chegou, dias depois, a casa estava sem luz, comida estragada e tudo mais. Pior: ele disse que tinha lido o e-mail mas que estava descansando...Sífu.

Saí do bar e a caminho de casa, madrugada com brisa e lua, pensando no assunto. Ano passado mandei um e-mail para um suposto grande amigo, de anos, que não via há tempos. Me passaram o endereço eletrônico dele e escrevi uma mensagem calorosa, falando da amizade, da saudade e tudo mais. Até hoje ele não respondeu.

A princípio fiquei indignado, semanas depois enfurecido e hoje apenas magoado, certo de que o sujeito desceu da condição de amigo para a de desafeto. Aí você pergunta “por causa de um e-mail?”. Sim, por causa de um e-mail que foi a única maneira que encontrei de restabelecer contato com um sujeito que, me disseram depois, está se achando o cara depois que começou a nadar em verbas públicas. Pensando bem, foi até bom ele não ter respondido porque de uma coisa estou certo nesta vida: não tenho amigos corruptos.

O telefone celular é extremamente invasivo. Um dos colegas da mesa do bar, as gargalhadas, contou que o dele tocou durante um tenso exame de próstata, quando o médico só mantinha nove dedos das mãos do lado de fora. Não gosto de usar celular e acho o e-mail a menos invasiva forma de comunicação porque quem recebe teve que entrar na internet, acessar o programa de mensagens, enfim, se preparou para isso.

Já há algum tempos venho radicalizando. Pessoas de meu convívio que não respondem a meus e-mails são sumaria e automaticamente limadas de minha lista de endereços. Ainda bem que são poucas, pouquíssimas. Todos nós temos defeitos, vários. Entre os meus está essa intolerância (quase mágoa) com a falta de consideração, em geral praticada por pessoas que nos acham babacas, quando na verdade babacas são elas.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Ouvindo (de novo) o Led Zeppelin

                           
                                                  
                                          Acústico.
                Zeppelin
    Teresópolis
    Zeppelin
    O Higino
    Um vinil
    Teresópolis mereceu essa placa um dia
    Cenário de nossos verões
Lixamos vários desses vinis

Mais cedo eu estava fazendo a pré-edição do programa CAFÉ PARIS (www.programacafeparis.com.br) que vai ao ar no dia 27 deste mês. Recebi um vídeo raro, gravado mês passado, de uma banda de garotas norte-americanas cantando, muito bem, um clássico do Led Zeppelin.

Não consigo ouvir apenas uma canção do Zeppelin, mesmo que não seja com Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham. A pré-edição rolou normalmente e preparei o material para a edição final, em som surround e tudo mais.

Cheguei em casa e não deu outra. Ouvi várias canções do Zeppelin, com o Zeppelin, que estão espalhadas nos nove álbuns da banda todos de estúdio (de 1969 a 1980), com exceção do duplo, ao vivo, “The Song Remais The Same”, de 1976. São nove obras-primas porque, em se tratando de Page, Plant, Jones e Bonham, não há nada razoável ou bom. É tudo excelente, do cacete, sensacional. 
Impressionante isso.

Não ia escrever esse artigo e sim mandar um e-mail para o amigo, colega e guru de rock Brasil Jamari França. Mas, o desejo/necessidade de publicar emoções, suores, reflexões e, sobretudo, flagrantes da memória não recente é um dos milhares de magistrais efeitos colaterais que o Led Zeppelin traz à bordo de suas canções.

Ouvi o lado mais acústico do grupo. Por que? Não sei. Na verdade ando numa fase existencial acústica, contemplativa, eventualmente insone, totalmente Led Zeppelin. Penduradas nas canções, lembranças de minha adolescência, ouvindo Zeppelin em profusão, lixando LPs de vinil até gastar. Eu, meu irmão Fernando Cesar e nossos amigos de verão na também amada e fiel depositária de nossas vastas emoções e pensamentos imperfeitos da adolescência (obrigado Zé Rubem Fonseca por esse belo título de livro), uma cidade chamada Teresópolis.

Não dá para ouvir o Led Zeppelin e não lembrar dos raios acrilíricos explodindo no Dedo de Deus, minha jaqueta de camurça verde-garrafa, cabelos a la Roger Daltrey (pelo menos era a minha intenção) na altura dos ombros, meu irmão, também cabeludo, passando a vários quilômetros por hora montado numa Yamaha 200 cilindradas azul, que pegava emprestado com um amigo.
Verões de 1970, 1971, 1972, 1973, todos eles foram embalados pelo Led Zeppelin. The Who? Sempre, mas o Zeppelin tinha (e tem) seu espaço em meu coração eternamente teen. Por que não? Por que só os boçais podem se sentir eternamente teens? Ou serei um boçal e não sei disso?

E aí, hoje, ouvi de novo o Led Zeppelin, com direito as novas descobertas que sempre ocorrem a cada audição, mais uma leve e ao mesmo tempo dramática saudade de mim mesmo, de meu irmão, do Marcel da loja de móveis chamada Garagem, do Paulinho, do Renatinho, da Elma, da Helen, da Deinha, Terê, boate Bowling, no Alto, as duas boates do Higino, em especial a do subsolo onde só rolava rock progressivo, escuridão e garras femininas esparramadas em nossos recantos misteriosos e ardentes. E, lá pelas tantas, o discotecário (não lembro do nome, um gordo que sabia tudo de música) despejava um inteiro LP do Zeppelin. Direto. Lá pelas 3 e varada da madrugada. Tocava o Zeppelin, acendia as luzes, íamos embora e o Higino fechava.

Não sei por que não usam mais o slogan "Cidade dos Festivais" para Teresópolis. Assisti a espetaculares festivais de cinema, teatro e música lá. Aliás, uma vocação da cidade que merecia um retorno.

Esse é um dos poderes da música. Transportar no tempo com apenas dois ou três acordes, para lugares onde estivemos, gostaríamos de ter ido ou que ainda iremos. Mulheres maravilhosas que o Zeppelin seduzia para nós e que depois, como um solo de Jimmy Page, descarregavam seus indomados raios, gozos e unhadas de mulheres feitas cheirando a Campari. Sem saberem que eram mulheres feitas e muito menos se era mesmo Campari o que bebiam.


Hoje eu ouvi, de novo, o Led Zeppelin. E poderia virar o dia, a noite, os meses escrevendo. Mas, melhor parar. Melhorar parar e pensar na edição definitiva do CAFÉ PARIS.

domingo, 17 de novembro de 2013

A dissimulada e confusa autobiografia de Pete Townshend

                           
                                                  


Lançada em outubro, com quase 500 páginas, a autobiografia de Pete Townshend levou mais de 17 anos sendo escrita. Terminei de ler, me afastei do livro uns cinco dias e depois reli.

Meus leitores, ouvintes, telespectadores, pessoas especiais que me acompanham, sabem que sou fã do cara. Desde os 11 anos de idade. Mas a condição de fã ardoroso não me torna um fanático cego, surdo e mudo, como um dos principais personagens de Townshend, Tommy, protagonista de sua primeira ópera-rock gravada e lançada por sua banda, The Who, em 1969.

Ao longo de sua autobiografia, Townshend optou por um texto sinuoso, quase dissimulado, como uma cascavel desviando de pedras no deserto. Ele explica, logo no início, que chegou a escrever mais de mil páginas. O livro foi editado degolando 500 páginas e, nessa operação, muita coisa deve ter sumido. Incompetência editorial é o nome deste fenômeno.

Por exemplo, Townshend não se refere a seu sensacional primeiro disco-solo, “Who Came First”, de 1972. Cita “All The Best Cowboys Have Chinese Eyes” uma única vez, e a partir de um determinado ponto trata sua banda, The Who, como um fardo cansativo, brochante. Se ele debochou, dançou. O que nos passou foi isso: The Who, para Townshend, é sacal, uma montanha que ele leva nas costas, apesar de, na tour em 1989 por exemplo, ele informar que pôs no bolso (lucro limpinho) um milhão de libras por semana! Imaginem hoje.

Também não conseguimos concluir se, por exemplo, o produtor Kit Lambert foi um amigão ou um moleque. Townshend é dúbio o tempo todo em relação a ele. Até com relação a Keith Moon, que ele afirma que era um pentelho, fica a dúvida se ele era grande amigo do maior e mais importante baterista da história do rock. Apesar de Towshend escrever que nas gravações de “Who Are You”, (último álbum do Who gravado por Moon, que morreu semanas depois do lançamento, em 7 de setembro de 1978), Keith pegou empurrado, atravessou direto, praticamente não conseguiu tocar. Aí eu pergunto: será?

Com relação ao problema de acusação de acessar sites de pedofilia no início dos anos 2000, pelo que entendi (o livro é muito dissimulado e creio que, provavelmente, problemas de tradução podem tê-lo transformado num tratado sobre a confusão) Townshend ia escrever sobre o assunto e, ingenuamente, clicou num site feito para pedófilos, seres hediondos, como ratos e nazistas. Townshend conta que a polícia levou seus 11 computadores (dele e de suas empresas) e, meses depois, concluiu que as máquinas estavam limpas. Ou seja, Pete Townshend é inocente. Isso está claro. Se não fosse inocente (na época li uma entrevista do chefe de polícia do caso inocentando o músico) eu teria jogado todos os meus discos do Who (e dele) no esgoto.

Outra falha. Sua primeira mulher Karen, mãe dos três filhos do músico, Emma, Aminta e Joseph, depois de muita confusão, some no livro. Desaparece. Não rola aquele “aí nós nos separamos, etc etc etc”. De repente surge Rachel Fuller, que está com ele até hoje.

Townshend é um gênio? É. E quem está falando não é um fã, mas um jornalista e radialista, um reles técnico. Seu livro é bom? Mais ou menos. 
Esperava muito mais. Ele empurrou muita coisa privada abaixo (corte de 500 páginas? Falhas na edição brasileira? Auto-censura?), inclusive uma abordagem mais profunda de “Quadrophenia” que é tratado quase que a meia bomba, ao contrário de “Tommy”, citado página sim, noutra também. Outro injustiçado é seu álbum-solo “Empty Glass”, um dos melhores discos que já ouvi. Townshend prefere ficar enchendo nosso saco tentando convencer que “Iron Man” e “Psychoderelict” são sensacionais (não gosto desses discos) e que sua mulher Rachel é um gênio musical incompreendido.

No livro ele elogia várias vezes o conceituadíssimo jornalista e biógrafo Dave Marsh, que publicou a melhor bio do Who. Por que Townshend não fez a sua biografia com Marsh, que poderia entrevistá-lo (como fez Keith Richards com James Fox) e depois passar para o texto? Com certeza sairia muito melhor.

Ano que vem lerei de novo. Espero traduzir o confusionismo townsheniano e, quem sabe, descobrir mais informações relevantes neste labirinto editorial que é o livro de Peter Dennis Blanford Townshend.



sábado, 16 de novembro de 2013

Um blog sobre rock

                           
                                                  

Velocímetro para você checar se está tendo a velocidade que paga a seu provedor. Clique em "teste sua conexão".

Ouça:



Algumas pessoas me escrevem perguntando por que este blog não é sobre rock. Respondo que o rock, como postura existencial, cultura, atitude de vida, está impregnado em mim desde o dia em que nasci. Logo, todas as minhas observações de fatos, delírios e outras manifestações, estão banhadas de rock.

Além disso, volta e meia falo de um assunto ligado a música rock, que vive tocando aqui no computador, na rua, no carro. Como também o piano improvisado e genial de Egberto Gismonti e Keith Jarret, mais a bossa nova de Roberto Menescal, o regional autêntico e não universitário que acho maravilhoso, enfim, outros gêneros, outras notas de preferência libertárias.

O livro que comecei a escrever (leia o que escrevi em “O rock brasileiro não existe”), esse sim, é sobre músicos de rock. São pequenas críticas, muitas graves outras agudas, sobre nomes que passam e passaram em minha vida. Um livro que pretende mostrar a trilha sonora que rege várias gerações que, um dia, pensaram em virar o mundo de cabeça para baixo. Acredito que, pelo menos, 20% disso conseguimos.


Transformar este blog, COLUNA DO LAM, em uma coluna de rock é, portanto, desnecessário porque ele, o rock, está em tudo que faço, penso, admiro, critico. É isso aí.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

100.000 acessos! Muito obrigado!

                           
                                                  

Velocímetro para você checar se está tendo a velocidade que paga a seu provedor


Este blog atingiu a marca dos 100 mil acessos em dois anos. Muito obrigado a vocês que confiam no meu trabalho, prestigiam essa oca digital, enfim, esse espaço é de vocês e essa marca, 100 mil, muito me comove.

Mais: ao longo do tempo a quantidade de acessos só cresce a cada mês, aumentando, muito, a minha responsabilidade. Afinal, vocês são causa e consequência da existência da COLUNA DO LAM. Por e-mail, comentários e também no Facebook, sugerem temas, criticam, elogiam, participam.


Espero continuar merecendo a visita de todos. Sempre! Afinal, o blog não é meu. Há tempos pertence ao mundo. Mais uma vez, muito obrigado!

O jornalismo e o mundo cão

                           
                                                         
Trabalho na mídia há mais de 40 anos. Comecei muito novo e de cara quase desisti quando um de meus chefes me mandou fazer uma reportagem tipicamente mundo cão. Puro sangue, desgraça, tragédia, tpo um homem que matou a mulher a machadadas. Saí para fazer a tal matéria mas, na verdade, peguei um ônibus, a barca e voltei para casa. Escrevi uma carta para o chefe comunicando que havia jogado a toalha, que não era esse tipo de jornalismo que estava em minhas intenções e, por isso, voltei a estudar com a cabeça voltada para a medicina.

O que eu não esperava é que o tal chefe ligaria para a minha casa querendo conversar. Na minha família ninguém sabia que eu estava pulando a cerca, me enroscando com mídia, jornais, rádios e por isso dei sorte de atender o telefone. O chefe queria conversar. Fui lá na redação e voltei a trabalhar, mas na editoria de cidade, mais tarde cultura, mas, logicamente, sempre que acontecia uma tragédia monumental todo mundo entrava na história. Cobri várias. Várias.

Por isso fiquei mobilizado quando assisti na TV Globo um boletim ao vivo do colega Márcio Gomes, direto das Filipinas. Quando ele disse que estava faltando água e comida também para jornalistas, quase liguei para Cezar Motta, amigo e ex-colega (foi meu chefe na Rádio JB AM, lendária, nos anos 70) porque o Marcio estava descrevendo uma situação que a maioria de nós já viveu: é quando o narrador vira personagem.

A barra é muitíssimo pesada em situações como a das Filipinas, da tragédia das serras aqui no Estado do Rio há três anos, enfim, a cara do monstro é hedionda. Você fica andando entre corpos, escombros, na esperança de poder dar uma boa notícia, mas nada (ou pouco) acontece. E a situação só piora, só se agrava, os saques, os crimes paralelos, as noites “dormidas” em cima de papelão e o desespero que transforma todos em saqueadores já que a fome de sobrevivência é maior e muito mais avassaladora do que conceitos éticos.

O estranho é uma sensação que bate na gente de querer estar lá, mesmo em condições sub-humanas para exercer o jornalismo. Quando o Japão viveu aquele tisunami (a usina de Fukushima quase acabou com o Japão), o colega Roberto Kovalick também passou o maior sufoco, com a diferença de não estar cercado por milhares de esfomeados dispostos a, literalmente, come-lo vivo em prol da sobrevivência.

Esse tipo de jornalismo é limpo, necessário, útil. Nada a ver com o mundo cão. Esse tipo de jornalismo ajuda, controla a fome de algumas autoridades que só pensam em garfar verbas internacionais, enfim, é uma atividade brilhante. Márcio Gomes está de parabéns porque (ele sabe disso), por sua experiência, sabe que está prestando um serviço e não sabe se estará vivo meia hora depois. É isso aí.


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

OAB de Niterói vê população apavorada diante da ação dos bandidos e falta de policiamento permanente. Pede providências e critica ainda a Justiça

                           
                                                         
                                         
       
Recebi este Informe da Ordem dos Advogados do Brasil de Niterói:

 O presidente da OAB de Niterói, Antonio José Barbosa da Silva, lamenta novamente a falta de providências efetivas para reduzir o índice de criminalidade na cidade, que está assustador. Atribui à falta de policiais militares  o perigoso crescimento dos assaltos dos mais variados modos, com destaque para a ação dos bandidos motorizados.

 Afirma que hoje em  dia a pessoa sai  à rua de comunidades pobres ou abastadas e não sabe se volta para  casa,  vivo, ferido ou depenado em bens,  tamanha a onda de violência. É uma lástima e cabe ao governo do estado aumentar o efetivo policial, pois o Estado do Rio não se restringe tão só à capital.  Por efeito da pressão policial no Rio,  Niterói sofre a migração da bandidagem que encontra campo fértil para agir por falta de um combate duradouro e efetivo da polícia.

 Revela que o deficiente número de homens tem a obrigação de policiar ainda o município de Maricá, hoje cidade com crescimento vertiginoso em população e em economia.

Antonio José entende ainda que deve haver uma ação integrada com o policiamento de São Gonçalo, porque são cidades que formam um conjunto de bairros que  se comunicam. Hoje  ninguém sabe mais qual é a divisa entre Niterói e São Gonçalo, tamanha a conurbação.

 A OAB de Niterói tem feitos encontros com as autoridades responsáveis pela segurança e, apesar das boas intenções e algumas medidas implantadas,   observa que no fundo a realidade violenta não muda por falta exclusivamente de maior número de policiais e  viaturas.

 O presidente da Ordem de Niterói espera que o governo estadual passe a olhar com maior atenção o drama que está vivendo a população do lado de cá da baía devido aos assaltos  de  todos os calibres.

 Antonio José critica ainda a Justiça por soltar os presos, por qualquer pretexto. Hoje a polícia agarra um assaltante ou um destruidor de patrimônio público e privado e o judiciário solta  com uma tremenda rapidez, o que acaba dificultando a ação da polícia. Lembra que busca qualquer vírgula colocada em lugar errado para conceder a liberdade.  

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O ególatra vampiriza ideias

                           
                                                         
                                                   
Texto restaurado e remixado

Vamos lá. Ególatra, segundo o Michaelis: “aquele que cultua o próprio eu; praticante da egolatria”.Pois é, meses atrás encontrei um ególatra na rua. Eu estava andando rápido pelo centro da cidade em direção a uma livraria e o ególatra vinha no sentido contrário. Vinha sozinho, é claro, porque ególatras são seres socialmente insulares. Tentei escapar, mas quase fui atropelado por um táxi. Caí no alçapão. O cara me encheu o saco por exatos 53 minutos de monólogo, já que ególatras não conversam, eles ditam regras, procedimentos, enfim, montam o diálogo.

Contou uma longa história que na verdade pertencia a outra pessoa. Explico. Ele disse que fez vitorioso projeto na área ambiental que todo mundo (ou quase todo mundo) sabe que é de autoria de outra pessoa. Só que essa outra pessoa morreu e o ególatra simplesmente vampirizou o projeto. Assumiu como dele. Inclusive, andou tentando vender para algumas empresas que, alertadas, não fecharam o negócio. O pior é que esse protozoário continua andando por aí, sempre babando ovos, puxando sacos dos poderosos, milionários, de preferência corruptos. Como diz um amigo meu “essa laia é como tatu. É só ver um buraco que entra”.

Ele se convidou para tomar um café e já que eu estava junto acabei indo. Estávamos na rua do Ouvidor. Falando (de si) sem parar, papos envolvendo delirantes milhões de dólares, ele pediu o café, pediu o adoçante, pingou na minha xícara, mas eu estava tão absorto diante daquele espetáculo imbecil e calhorda que deixei rolar. Para o ególatra não existe tu-eles-nós-vós-eles. Só existe o EU.

“Eu fui ver Roger Waters no Morumbi, ele disse, fiquei na primeira fila e durante vários minutos percebi que Roger tocava olhando para mim. Já aconteceu isso com você?”, perguntou misturando o cafezinho. Eu disse que não. Ele fez uma cara de “só comigo porque sou f*$@#&*%oda, isso não é para qualquer um”. O pior da história foi quando ele me confidenciou: “muito entre nós porque, você sabe, sou low profile, mas Roger Waters me procurou e pediu que eu ajudasse na escolha do repertório do show”. Doença? Não. Transtorno mental? Não. É mau caratismo mesmo.

Eu, eu, eu. Eu fiz, eu comi, eu fui, eu voltei, eu decidi, eu...cof! cof! cof! O ególatra teve uma crise de tosse e golfou na calçada. O dono do bar, grosso pra cacete, não fez por menos: “porra, isso aqui não é lugar de bêbado”. O ególatra não reagiu. Estava transtornado com o vexame. O vexame de ser gente. Gente comum, que teve uma crise de refluxo, sei lá. Pediu que eu pagasse os cafés e saiu correndo, literalmente. O dono do bar olhou pra mim com uma cara esquisita, resmungou, eu disse “o cara passou mal, mas não estava bêbado”, o homem deu de ombros e iniciei o caminho de volta a praça 15 para embarcar no catamarã.

Pensei no ególatra. O que é pior? Sofrer de baixa estima, se achar um cocô, um réptil e mesmo assim brilhar, fazer coisas, acontecer ou se achar um Nero, um clone dos outros, um estelionatário existencial, uma versão bípede do Olimpo e não fazer coisa alguma? Sim, porque 100% dos ególatras que conheço estão existencialmente falidos. Mulher nenhuma atura e, no trabalho, podem ter QI de 200 mil mas logo são mandados embora porque rapidamente assumem a postura de “donos do estabelecimento”, quando na verdade são empregados. Ahhhh, pobre de ti se “xingar” um ególatra de empregado. Ele vai quebrar o espelho. Na sua cara.