domingo, 17 de novembro de 2013

A dissimulada e confusa autobiografia de Pete Townshend

                           
                                                  


Lançada em outubro, com quase 500 páginas, a autobiografia de Pete Townshend levou mais de 17 anos sendo escrita. Terminei de ler, me afastei do livro uns cinco dias e depois reli.

Meus leitores, ouvintes, telespectadores, pessoas especiais que me acompanham, sabem que sou fã do cara. Desde os 11 anos de idade. Mas a condição de fã ardoroso não me torna um fanático cego, surdo e mudo, como um dos principais personagens de Townshend, Tommy, protagonista de sua primeira ópera-rock gravada e lançada por sua banda, The Who, em 1969.

Ao longo de sua autobiografia, Townshend optou por um texto sinuoso, quase dissimulado, como uma cascavel desviando de pedras no deserto. Ele explica, logo no início, que chegou a escrever mais de mil páginas. O livro foi editado degolando 500 páginas e, nessa operação, muita coisa deve ter sumido. Incompetência editorial é o nome deste fenômeno.

Por exemplo, Townshend não se refere a seu sensacional primeiro disco-solo, “Who Came First”, de 1972. Cita “All The Best Cowboys Have Chinese Eyes” uma única vez, e a partir de um determinado ponto trata sua banda, The Who, como um fardo cansativo, brochante. Se ele debochou, dançou. O que nos passou foi isso: The Who, para Townshend, é sacal, uma montanha que ele leva nas costas, apesar de, na tour em 1989 por exemplo, ele informar que pôs no bolso (lucro limpinho) um milhão de libras por semana! Imaginem hoje.

Também não conseguimos concluir se, por exemplo, o produtor Kit Lambert foi um amigão ou um moleque. Townshend é dúbio o tempo todo em relação a ele. Até com relação a Keith Moon, que ele afirma que era um pentelho, fica a dúvida se ele era grande amigo do maior e mais importante baterista da história do rock. Apesar de Towshend escrever que nas gravações de “Who Are You”, (último álbum do Who gravado por Moon, que morreu semanas depois do lançamento, em 7 de setembro de 1978), Keith pegou empurrado, atravessou direto, praticamente não conseguiu tocar. Aí eu pergunto: será?

Com relação ao problema de acusação de acessar sites de pedofilia no início dos anos 2000, pelo que entendi (o livro é muito dissimulado e creio que, provavelmente, problemas de tradução podem tê-lo transformado num tratado sobre a confusão) Townshend ia escrever sobre o assunto e, ingenuamente, clicou num site feito para pedófilos, seres hediondos, como ratos e nazistas. Townshend conta que a polícia levou seus 11 computadores (dele e de suas empresas) e, meses depois, concluiu que as máquinas estavam limpas. Ou seja, Pete Townshend é inocente. Isso está claro. Se não fosse inocente (na época li uma entrevista do chefe de polícia do caso inocentando o músico) eu teria jogado todos os meus discos do Who (e dele) no esgoto.

Outra falha. Sua primeira mulher Karen, mãe dos três filhos do músico, Emma, Aminta e Joseph, depois de muita confusão, some no livro. Desaparece. Não rola aquele “aí nós nos separamos, etc etc etc”. De repente surge Rachel Fuller, que está com ele até hoje.

Townshend é um gênio? É. E quem está falando não é um fã, mas um jornalista e radialista, um reles técnico. Seu livro é bom? Mais ou menos. 
Esperava muito mais. Ele empurrou muita coisa privada abaixo (corte de 500 páginas? Falhas na edição brasileira? Auto-censura?), inclusive uma abordagem mais profunda de “Quadrophenia” que é tratado quase que a meia bomba, ao contrário de “Tommy”, citado página sim, noutra também. Outro injustiçado é seu álbum-solo “Empty Glass”, um dos melhores discos que já ouvi. Townshend prefere ficar enchendo nosso saco tentando convencer que “Iron Man” e “Psychoderelict” são sensacionais (não gosto desses discos) e que sua mulher Rachel é um gênio musical incompreendido.

No livro ele elogia várias vezes o conceituadíssimo jornalista e biógrafo Dave Marsh, que publicou a melhor bio do Who. Por que Townshend não fez a sua biografia com Marsh, que poderia entrevistá-lo (como fez Keith Richards com James Fox) e depois passar para o texto? Com certeza sairia muito melhor.

Ano que vem lerei de novo. Espero traduzir o confusionismo townsheniano e, quem sabe, descobrir mais informações relevantes neste labirinto editorial que é o livro de Peter Dennis Blanford Townshend.