segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O ególatra vampiriza ideias

                           
                                                         
                                                   
Texto restaurado e remixado

Vamos lá. Ególatra, segundo o Michaelis: “aquele que cultua o próprio eu; praticante da egolatria”.Pois é, meses atrás encontrei um ególatra na rua. Eu estava andando rápido pelo centro da cidade em direção a uma livraria e o ególatra vinha no sentido contrário. Vinha sozinho, é claro, porque ególatras são seres socialmente insulares. Tentei escapar, mas quase fui atropelado por um táxi. Caí no alçapão. O cara me encheu o saco por exatos 53 minutos de monólogo, já que ególatras não conversam, eles ditam regras, procedimentos, enfim, montam o diálogo.

Contou uma longa história que na verdade pertencia a outra pessoa. Explico. Ele disse que fez vitorioso projeto na área ambiental que todo mundo (ou quase todo mundo) sabe que é de autoria de outra pessoa. Só que essa outra pessoa morreu e o ególatra simplesmente vampirizou o projeto. Assumiu como dele. Inclusive, andou tentando vender para algumas empresas que, alertadas, não fecharam o negócio. O pior é que esse protozoário continua andando por aí, sempre babando ovos, puxando sacos dos poderosos, milionários, de preferência corruptos. Como diz um amigo meu “essa laia é como tatu. É só ver um buraco que entra”.

Ele se convidou para tomar um café e já que eu estava junto acabei indo. Estávamos na rua do Ouvidor. Falando (de si) sem parar, papos envolvendo delirantes milhões de dólares, ele pediu o café, pediu o adoçante, pingou na minha xícara, mas eu estava tão absorto diante daquele espetáculo imbecil e calhorda que deixei rolar. Para o ególatra não existe tu-eles-nós-vós-eles. Só existe o EU.

“Eu fui ver Roger Waters no Morumbi, ele disse, fiquei na primeira fila e durante vários minutos percebi que Roger tocava olhando para mim. Já aconteceu isso com você?”, perguntou misturando o cafezinho. Eu disse que não. Ele fez uma cara de “só comigo porque sou f*$@#&*%oda, isso não é para qualquer um”. O pior da história foi quando ele me confidenciou: “muito entre nós porque, você sabe, sou low profile, mas Roger Waters me procurou e pediu que eu ajudasse na escolha do repertório do show”. Doença? Não. Transtorno mental? Não. É mau caratismo mesmo.

Eu, eu, eu. Eu fiz, eu comi, eu fui, eu voltei, eu decidi, eu...cof! cof! cof! O ególatra teve uma crise de tosse e golfou na calçada. O dono do bar, grosso pra cacete, não fez por menos: “porra, isso aqui não é lugar de bêbado”. O ególatra não reagiu. Estava transtornado com o vexame. O vexame de ser gente. Gente comum, que teve uma crise de refluxo, sei lá. Pediu que eu pagasse os cafés e saiu correndo, literalmente. O dono do bar olhou pra mim com uma cara esquisita, resmungou, eu disse “o cara passou mal, mas não estava bêbado”, o homem deu de ombros e iniciei o caminho de volta a praça 15 para embarcar no catamarã.

Pensei no ególatra. O que é pior? Sofrer de baixa estima, se achar um cocô, um réptil e mesmo assim brilhar, fazer coisas, acontecer ou se achar um Nero, um clone dos outros, um estelionatário existencial, uma versão bípede do Olimpo e não fazer coisa alguma? Sim, porque 100% dos ególatras que conheço estão existencialmente falidos. Mulher nenhuma atura e, no trabalho, podem ter QI de 200 mil mas logo são mandados embora porque rapidamente assumem a postura de “donos do estabelecimento”, quando na verdade são empregados. Ahhhh, pobre de ti se “xingar” um ególatra de empregado. Ele vai quebrar o espelho. Na sua cara.