sábado, 7 de dezembro de 2013

E-mail resposta do leitor Jorge Sodré sobre o artigo "Necessária Incoerência", publicado aqui na Coluna

                           
                                                      
Réplica do satélite russo Sputinik

Aprendendo Sobre Incoerência - Coerente

Jorge Sodré

Luiz Antonio, fico muito surpreso pelo texto em seu blog Necessária Incoerência, datar de tão longo tempo e você sustentar sua opinião até os dias de hoje, pois as perguntas que farei, remetem-se diretamente ao passar do tempo. 

Será que a incoerência se torna coerente a partir de que o tempo passa e as coisas mudam? 

Já parou para imaginar quantas coisas mudaram desde que estas linhas foram escritas originalmente?

Em 1957, após o lançamento do primeiro satélite, o soviético Sputnik, alguns cientistas perceberam que era possível usar o radiotransmissor de um satélite para localizar uma pessoa com um receptor. O governo americano gostou da ideia e, na década de 1970, começou a construir o GPS, sigla inglesa para Sistema de Posicionamento Global. Uma década e 14 bilhões de dólares depois, o último dos 24 satélites que compõem o sistema foi para o espaço. Desde 1995, qualquer um com um receptor se comunica com os satélites, que calculam a distância do sinal e obtêm sua posição exata com precisão de metros – esteja ele nos Estados Unidos, na Amazônia, no Saara ou na Antártida. Culminava ali uma história de dois milênios que começou no Egito, com o geômetra Eratóstenes calculando o tamanho da Terra a partir da sombra projetada por um bastão. Finalmente cada metro quadrado do planeta estava sob nosso controle.

Em 1949, a revista americana Popular Mechanics fez uma previsão que, na época, soou ousada: “No futuro, os computadores não pesarão mais que 1,5 tonelada”. Ninguém poderia suspeitar, então, que, em março de 1996, chegaria ao mercado um aparelhinho que faz muito mais do que os gigantescos computadores dos anos 50 mas pesa menos de 200 gramas e cabe na palma da mão. Daí o nome: Palm. Finalmente duas necessidades fundamentais do mundo moderno foram conciliadas: computação e mobilidade. O Palm vendeu mais rápido que o videocassete, a TV a cores, o celular e o computador. Onze milhões dessas máquinas já piscam luzinhas pelo mundo oferecendo agenda, calendário, guias, notícias, mapas. O poder da ideia levou Jeff Haekins e Donna Dubinsky, os criadores do Palm, a fundarem, em 1998, a Handspring. Não conseguiram arranhar as vendas do original, mas morderam 15% do mercado, que, este ano, deve ser de 3,7 bilhões de dólares. E pensar que a Microsoft nem colocou suas fichas na mesa.

Em 1995, dez indústrias se uniram e criaram o DVD Consortium, o consórcio responsável pela criação de um formato padrão para o DVD. No final de 1996, os primeiros DVD Vídeos apareceram no Japão. Nos Estados Unidos, eles chegaram no começo de 1997. No final do ano seguinte, já havia um milhão deles nos lares americanos. Também em 1998, o DVD Consortium, rebatizado de DVD Forum, anunciou uma nova tecnologia, o DVD Áudio, que foi apresentada ao mercado no ano seguinte e só está chegando agora ao Brasil. Desde então, ficou possível ter dentro de casa sons perfeitos, que reproduzem sem ruídos cada detalhe de uma música – o CD, se tem sobre as velhas bolachas a vantagem no quesito ruídos, omite várias sutilezas dos sons e fica muito aquém da música executada ao vivo. Também entraram nos lares imagens sem todas as imperfeições e distorções do videocassete. Com a acústica e o monitor adequados, sua sala vira uma sala de concertos ou um cinema. Admirável mundo novo.

No final de 1996, duas naves foram lançadas com um objetivo comum: explorar Marte. Verdade que já tínhamos coletado amostras do solo marciano – em 1976, com a missão Viking. Mas, desde então, os cientistas aguardavam o momento de poder utilizar tecnologia avançada para ver de perto a cara do planeta. A Pathfinder pousou em 4 de julho de 1997. A nave carregava o Sojourner, um pequeno carro movido a bateria solar e comandado via rádio da Terra. O Sojourner analisou as pedras e o solo no local do pouso e tirou centenas de fotografias. Além disso, seu “aterrissador”, o veículo que o levou em segurança até a superfície, enviou 16 000 imagens. Ao mesmo tempo, a Mars Global Surveyor, a outra nave lançada em 1996, coletou dados sobre a topografia, a composição, a atmosfera e o campo magnético de Marte. Só em 1997, juntamos mais informações sobre o vizinho vermelho do que em milênios olhando o céu. A ciência terrestre finalmente conquistava outro planeta.
Verdade que amargamos depois dois fracassos: a Mars Climate Orbiter e a Mars Polar Lander, que deveriam ter alcançado Marte em 1998, não conseguiram contato com a Terra e se perderam. Em 7 de abril de 2001, a Nasa lançou sua nova missão, a Odyssey, que chega em terras vermelhas no próximo dia 7 de outubro, se tudo der certo.

Em 1997, nasceu uma ovelha. O nome dela era Dolly e nada em sua aparência indicava que tivesse algo de especial. Mas tinha. Dolly carregava no núcleo de cada célula um código genético roubado de outra ovelha. Ela era um clone. Até agosto de 1998, Dolly – criação dos escoceses Ian Wilmut e Keith Campbell – foi a única clone de mamífero sobre a Terra. Naquele mês, pesquisadores do Havaí avisaram ao mundo que haviam clonado 50 ratos. Daí para a frente, grupos ao redor do mundo anunciaram o sucesso da experiência com vacas, ratos, porcos, cabras. As aplicações práticas e as possibilidades econômicas da técnica são enormes, mas esbarram em questões éticas ainda maiores. Por exemplo: animais que produzem substâncias importantes no combate a doenças humanas poderão ser clonados para aumentar a produção dessas substâncias. Será pedir demais dos bichinhos? Pior: e quando clonarem pessoas? Alguém vai querer copiar gente de QI alto para aumentar a inteligência da humanidade.
Qualquer um poderá se autoclonar ou copiar algum ente querido morto, fazendo uma espécie de gêmeo temporão artificial. O que você acha disso? Seja qual for sua resposta, a clonagem é uma realidade. Não se volta atrás quando o assunto é avanço do conhecimento.

Injeções, implantes, bombas. Essas eram as alternativas para homens com problemas de disfunção erétil. Humilhação, sensação de inutilidade, de perda da virilidade. Desde o início dos tempos, qualquer homem estava sujeito a isso. Poucas drogas mudaram tanto o humor das pessoas quanto a pílula azul que a Pfizer lançou em 1998. A história começou em 1989, quando o composto UK-92 480 foi testado contra a hipertensão. Os pacientes continuaram hipertensos, mas alguns tiveram ereções logo após ingerirem a droga. Em 1992, os cientistas da Pfizer precisaram tomar uma decisão: deixar o composto de lado ou apostar no efeito colateral. Para sorte de milhões de homens, escolheram a segunda opção. Resultado: a pílula funcionava melhor que os remédios injetáveis, algo que nenhum médico, nem os da Pfizer, imaginava. Em 1998, o Viagra foi aprovado para uso comercial. A impotência, um velho fantasma, não assustava mais.

Em 1990, o governo americano decidiu começar um programa de 15 anos para decifrar o genoma humano. Em paralelo, programas semelhantes foram iniciados em vários países, inclusive no Brasil, todos trabalhando em conjunto com o programa americano e pagos com dinheiro público. Em 1998, o americano J. Craig Venter criou a Celera Genomics e saiu por aí dizendo que decifraria o que parecia indecifrável em apenas três anos. Começou então uma corrida maluca. Venter cumpriu a promessa e o Projeto Genoma público antecipou-se em quatro anos à previsão inicial. O resultado é a publicação conjunta, pelos dois grupos, do primeiro rascunho do genoma humano, em 12 de fevereiro de 2001. As informações publicadas são a base de uma nova era. A partir dela, será possível desenvolver novos remédios específicos para cada doença e para cada indivíduo, entender quais são os genes responsáveis pelo mal e desvendar todos os segredos da vida.

Todas as citações acima partiram de incoerências que se tornaram coerentes ao ponto em que o tempo passou, amadurecemos e algum louco passou a levar a cabo suas mentes visionárias contra tudo e todos.

A ciência e a medicina nunca mais serão as mesmas. Nós nunca mais seremos os mesmos, mas uma coisa é certa continuaremos incoerentes para depois sermos coerentes até que um novo ciclo se complete.

Belo texto!

Jorge Sodré