domingo, 29 de dezembro de 2013

Se a corrupção permitir as mortes nas estradas podem diminuir

                           
                                                      


Primeiro ato. Faz tempo, bastante tempo. Nem existia telefone celular e a ponte Rio-Niterói não estava privatizada. Lembro que era o governo daquele...daquele...daquele Sarney que foi vice do outro, o Tancredo. Que patifaria, hein?

A ponte era uma buraqueira só, metade dos postes estava sem luz, era um verdadeiro rali. Meia noite e poço. Perto do vão central (ando devagar) um caminhão me deu uma fechada. Dava para notar que o motorista estava completamente bêbado.

Não discuti. Acelerei forte, cheguei bem antes dele a praça do pedágio, demorei para encontrar alguém da Polícia Rodoviária. Achei. Achei e narrei. Caminhão cor tal, marca tal, placa tal. O policial garantiu que iria agir com rigor.

Entrei no carro e saí. Parei lá na frente para ver o que iria acontecer. O policial de fato mandou o caminhão encostar. O motorista abriu a porta, saiu, e os dois (não havia outro policial) ficaram conversando.

Deixei o carro apagado porque achava que o motorista ia em cana, pois cambaleava na frente do policial. Lá pelas tantas...esfreguei os olhos porque era duro de acreditar...mas, lá pelas tantas o motorista foi na carroceria, pegou duas galinhas brancas, deu para o policial, entrou no caminhão e foi embora. Nunca mais esquecerei porque acabava ali a minha confiança em qualquer coisa que tenha o odor do Estado.

Mas, vamos lá. Vi no fantástico que o INSS vai cobrar dos motoristas que matam e sequelam nas estradas vão ter que pagar a conta, ou seja: por exemplo, bebeu, bateu, aleijou alguém? Vai ter que pagar o tratamento, pensão por invalidez, etc. Dessa forma, o governo acha que a conta de 40 bilhões de reais por ano que gasta com vítimas do trânsito vai baixar porque: 1 – com o risco de morrer numa grana muita gente vai seguir a lei; 2 – com assassinos pagando o governo vai economizar. Mas e a corrupção? E as galinhas, “leite das crianças” e outros ingredientes da industria do jabá que impera em muitos lugares?

Se a corrupção deixar (vai deixar?) essa ideia é boa porque (o INSS tem razão) com a possibilidade de dor no bolso muitos inconsequentes beberão menos ou até vão parar de beber antes de singrar (e sangrar) as estradas. Certo? Certo, mas e a corrupção?

Bom, a corrupção só morre a pauladas. Você tem celular com câmera? Eu tenho. Se eu gravasse a imagem das galinhas brancas e mandasse para uma emissora de TV forte, com certeza ia dar confusão. O policial provavelmente seria demitido e um flagrante desses faz com que os colegas corruptos de todo o país fiquem de orelha em pé.

Tá, tá bom, os menos otimistas acham que o preço do jabá vai subir, mas, bem ou mal, se todos nós gravarmos, fotografarmos e levarmos (ou enviarmos) para a mídia, a coisa dá uma travada. Dá, sim. Só não vale meter político no meio porque aí, de Tancredo em Tancredo, de Sarney em Sarney, deu nisso que está aí. Ou não?