domingo, 30 de junho de 2013

Anjo, churros, fé

   
                                    
Texto restaurado e reeditado

O homem estava na esquina de uma cidade, provavelmente Los Angeles, São Paulo, Rio de Janeiro. Uma mão tocou seu ombro direito.

- Você já me conhece em sonho. Sou seu anjo.

- Por isso essa sensação de já tê-lo visto antes.

- Você me chamou, eu vim.

- Vamos sentar naquele banco do parque?

- Vamos. Me paga um churro. Dizem que anjo não gosta de churros, pura babela.

- Bom encontrar com o nosso anjo.

- Bom saber que sou bem-vindo. Por que me chamou, qual é o problema?

- Nenhum. Chamei para agradecer por ter me livrado daquela confusão.

- Difícil...

- Difícil o que?

- Difícil um anjo ser chamado por mera gratidão.

- Saiba, meu chapa, que eu só tenho gratidão por você. Seus livramentos diários, seus toques quando estou dormindo e sonhando...enfim, anjo, só tenho a agradecer.

- Churro gostoso, esse.

- Esse cara é bom. Sempre que posso venho aqui. Me diga uma coisa, ele está te vendo?

- Está sim. Todo mundo está me vendo. Fique tranquilo que você não está “falando sozinho”. Somos dois caras batendo papo.

- Bom, muito obrigado por mais essa força.

- Qual?

- O livramento mais recente. Você me tirou da roubada na hora certa. Eu ia me ferrar feio lá na frente.

- Ia mesmo, mas te livrei porque você pediu em um de seus sonhos.

- O nome disso é confiança.

- Vou mais longe, meu chapa. O nome disso é fé.

- Um dia eu quero conversar contigo sobre a fé.

- É um longo papo. Muito longo.

- Meses atrás um aluno me perguntou o que é fé no meio de uma aula.

- Os adolescentes desafiam até os anjos ...rs.

- Pois é, eu sabia responder e ao mesmo tempo fiquei meio que gaguejando. Quase te chamei.

- Devia ter chamado.

- Anjos como você não são táxis que a gente chama quando quer.
- Minha função é ficar ao seu lado e caso você não me chame a sua fé me liga.

- Fé...coisa linda a fé. Vamos conversar mais sobre isso um dia desses?

- Você me paga outro churro?

- Claro.

- Então está combinando. Vou indo.



sábado, 29 de junho de 2013

Diálogo Interno, ou, “toda a vez que andei na linha o trem matou”

Texto restaurado e reeditado

Consciente – Gozado, escrevi um artigo apoiando aquela revista francesa quando publicou a charge debochando de Maomé. Lembra? Pois é, publiquei e quase ninguém acessou.

Inconsciente – Isso é assim mesmo. Quem tem sul tem medo. O pavor das pessoas é justificável.

C – Lá vem você com essas conversas, como se Jung, Freud e Lacan não tivessem feito o seu rastreamento. Só falta agora arrancar de uma frase solta e sem nexo a máxima “toda a vez que andei na linha o trem matou” e colocar no título do artigo.

I – Será que vale à pena não arriscar e continuar cinicamente submetido a seu comando? E se eu te induzir a colocar essa máxima, que tem zaralhadas de explicações e análises, no título do texto, o que você vai fazer?

C – Alguns riscos valem sim. Eu arriscaria clicar num blog para ler uma opinião favorável a revista francesa e a charge sobre Maomé.

I – Você está diferente hoje. Meio nublado, quase mormaço. Esquisito pra cacete, meu chapa.

C – Ando tão a flor da pele que até beijo de novela me faz chorar. (Zeca Baleiro).

I – Que gracinha. Só rindo, diria aquele personagem de Rubem Fonseca.

C – Não acho gracinha coisa nenhuma. Se um dia eu conseguir chorar vou te interfonar.

I – Nada que o tempo não resolva.

C – O tempo e o vento. O importante é que continuo no timão de meu destino.

I – Ninguém regula o destino, meu chapa. Nem eu. Ou você deixou de acreditar em inconsciente coletivo?

C – Isso começou a virar papo de intelectualóide inútil. Nós dois já combinamos, tempos atrás, não cair mais nessa cilada imbecil. Mas estar no timão já dá uma força. Esse negócio de “deixa a vida me levar” é conversa de pagodeiro.

I – Provavelmente por isso você não publicou o artigo sobre a revista francesa. Acendeu a luz amarela.

C – Publiquei, sim! Pode ver ali embaixo. Ainda pus uma fogueira da Inquisição ilustrando. Já que você insiste na máxima de que toda a vez que se anda na linha o trem mata, assuma logo a irresponsabilidade irrestrita e vá viver como os existencialistas.

I – Seu livro está quase pronto, né?

C – Sim. Vai sair em outubro e eu deixei você, Inconsciente, falar a vontade. Até agora não sei direito se vai ser bom ou não. Volta e meia eu te xingo de caixa de gordura de minha essência.

I – Sei disso. Acho bonitinho quando você pensa assim (rs).

C – Aliás, as pessoas deveriam conversar mais com seus inconscientes.

I – Somos muito incômodos porque guardamos verdades ácidas e, talvez por isso, as pessoas prefiram nos apagar, ou, como dizem atualmente, deletar.

C – Como assim?

I – Ora, passarinho quando anda com morcego acaba dormindo de cabeça para baixo. Estamos dentro de vocês e continuamos falando. Uma canção do Pink Floyd chamada “Comfortable Numb” descreve exatamente essa situação.

C – The Wall é uma obra prima.

I – Muros. Quando submetidos a traumas muito violentos, nós, inconsciente, nos tornamos muros.

C – Que todo mundo tenta derrubar para se libertar. Estou tentando falar fácil para não espantar os leitores.

I – Todo mundo não. Há os que preferem viver em bares todos os dias, o dia todo, tomando cerveja e conhaque, assistindo TV, fumando. Essas pessoas acham que estão nos dando uma rasteira. Hahahaha. Só rindo, diria o tal personagem de Rubem Fonseca.

C – Aprendi muito conhecendo um pouco de você nas terapias ao longo da vida.

I – Obrigado, você também é gente boa e, se tudo der certo, vai pro céu. Rsrsrsrsrs.

C – E, no mais?

I – Siga. O sinal está verde. Não vê?


Assista:





sexta-feira, 28 de junho de 2013

A cavalgada da Valquíria

Texto restaurado e reeditado

Nove e meia da manhã, terça-feira. O pequeno caminhão baú estacionou numa recatada rua do Méier, zona norte do Rio de Janeiro. À bordo, coisas. Coisas de um homem que fora expulso da Glória por motivos absolutamente impublicáveis. Funcionário aposentado da falida Sudamtex, depois da também falida Belprato, Quêncio queria começar uma nova vida.

Suas coisas chegaram antes dele. Quêncio estava vindo de trem. Os homens da transportadora aproveitaram para descer e comer pastéis com cachaça no “Flor do Méier”, lendário botequim que até crônicas de Nelson Rodrigues frequentou. Pelo menos, é o que dizia a lenda.

Quando Quêncio chegou era quase meio dia. Descarregaram suas coisas e subiram umas oito vezes a escadaria que dava no andar de cima do sobrado que Quêncio alugou por um bom preço. Ele pagou os 80 reais combinados, os homens foram embora e agora, certo que iria refazer a vida, Quêncio abriu a janela da sala e respirou fundo, pensando mais fundo ainda: “Por que não puseram trema no meu nome?”. E fechou a janela.

Enquanto arrumava suas coisas, ouvia uma romaria. Foi até a janela e contemplou uma gigantesca fila indiana dobrando a outra rua. Gente, muita gente. Até ônibus de turismo, misturados com vans e táxis ajudavam no rebuliço. O que seria? Quêncio pôs o chinelo de couro paraguaio e foi lá fora assuntar. Novo no bairro, todos o olhavam de soslaio, desconfiando, o que era natural.

- Boa tarde, que fila é essa? Quêncio sem trema perguntou a um sujeito meio mal humorado.

- É para a Valquíria.

- Quem é Valquíria?

- Valquíria faz a melhor cavalgada da América Latina. Até turistas argentinos, uruguaios, chilenos e paraguaios vem aqui conhecer.

O homem deu a informação e partiu.

Quêncio tinha que terminar de arrumar suas coisas. Aproveitou e acendeu um gigantesco baseado. A maconha era seu único vício. Para disfarçar o cheiro, vulgo maresia, vários incensos, espirais de mata-mosquitos Durma Bem e charutos vagabundos. Quêncio era maconheiro profissional. Arrumou as coisas e, com o gigantesco baseado quase no fim, sentou-se numa poltrona. “Quem será essa Valquíria? Que cavalgada ela deve fazer”. Pensou, pensou, pensou e tomado pelos efeitos da maconha, dormiu.

Na manhã seguinte, providência número um: ir até “Flor do Méier” e tomar o café da manhã. Uma garrafa de Caracu e três ovos crus. Mais: saber onde morava Valquíria, quanto cobrava, enfim, Quêncio estava a fim de conferir. No bar, foi direto ao assunto. O dono, espanhol como passaporte boliviano, foi logo avisando que “ela não atende gente do bairro”. Por que?, quis saber Quêncio. “Sei lá porque”.

- Mas eu cheguei no bairro ontem, Quêncio afirmou mudando a pontuação de aspas para travessão por mero comodismo.
- Não interessa. Você já é um local, uma minhoca da terra. Não vai ter Valquiria não.

Mas, Quêncio não iria desistir fácil. Foi lá na casa de Valquíria e tocou a campainha. A voz de um gay no interfone parecia abortar a primeira missão: “Valquíria não atende gente do bairro”.

E assim se passaram os dias. Através de um amigo cracker (a versão turbo de hacker) descobriu até o e-mail de Valquíria. “Desejo ardentemente sua cavalgada, minha amada”, escreveu desesperado sem ser respondido. 

Semanas, meses, Quêncio já tinha perdido sete quilos de tanto se masturbar imaginando como seria a cavalgada de Valquíria, que até ônibus de turismo atraia para o Méier.

Até que um dia, confusão, alarido, desespero no Méier. Valquíria havia partido de madrugada, abandonando todos. Gente chorando nas calçadas, turistas esmurrando muros de chapisco e, no meio da confusão, Quêncio sem trema procurava uma explicação.

Voltou para casa arrasado, como metade da cidade. Para onde teria ido Valquíria e sua cavalgada? Quencio sentou o computador e viu que um e-mail havia chegado. Assunto: A Cavalgada. Texto – Quêncio, a sua Valquíria sou eu, seu bobo. Adolfo Wagner, seu gerente do Itaú.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Você já levou petelecos de um salta pocinhas?


Texto restaurado e reeditado

Prefiro levar um soco no queixo do que ficar tomando petelecos de salta pocinhas (quem inventou essa foi o Paulo Francis) que ficam perambulando por aí, na falta do que fazer, apesar da nova série de “Malhação” estar para começar. Hoje recebi uma mensagem sinuosa como as curvas de judas (escrevo com j minúsculo mesmo) e não me enquadrei entre as pessoas que ele, como Monalisa (que não sabemos se ri ou chora) estava criticando, usando como mote a fofoquinha de salão de depilação de virilha. Ahhh, a indiscreta decadência dos salta pocinhas, que fingem que perderam a chave do armário, apesar da porta ser aberta por fora.

Aconteceu no Facebook. O cara (não conheço, nunca vi), que um outro fofoqueirA me disse se chamar peido (com p minúsculo) resolveu escrever (muito mal por sinal) uma série de atrocidades sobre gente que vive com o boi na sombra, surfando numa suposta onipotência, enfim, não cheguei a ler a mensagem toda porque respeito minhas calejadas quatro décadas de jornalismo/radialismo e tem texto que não dá para passar goela abaixo, mesmo insinuando serem calcinhas de seda pura.

Mas, na boa, muito entre nós, detesto mensagens cifradas. Pior: cifradas por um imbecil. O imbecil, o tal do peida (com p minúsculo) quando está com o pé embaixo, com a cabeça rodando, deitado na cama, consegue se imbecilizar ainda mais e a sagrada ligação meio-mensagem se transforma num curto circuito, numa barafunda ou, como o fofoqueirA deve dizer num nojento ninho de baratas (urgh!).

Não sei se já aconteceu com vocês, mas fico furioso quando, por exemplo, leio um fofoqueirA que insinua, insinua, insinua e nada diz. Meus instintos pegam um elevador e vão para o subsolo, desejando surrar peida (com p minúsculo) e similares até virar patê. Por isso, a minha admiração por mestres como Élio Gaspari que atiram de escopeta 12, sem medo disso ou daquilo. Agora, para atirar ele antes apura tudo com precisão, checa e recheca informações para não pagar mico e tomar um processo na cara.


A internet é uma dádiva tecnológica, mas como tudo que é genial também tem seu lado podre. Por exemplo, abrigar amadores que acham que escrevem, acham que apuram, acham que existe notícia com uma versão só e não duas no mínimo. Peida (com p minúsculo) é um desses protozoários que habitam esse chamado cybermundo, tentando defecar (sempre anacronicamente) na biografia alheia já que, por falta de cabeça, tronco e membros, não construiu a sua. Todo jornalista sabe que devemos apurar uma notícia ouvindo todas as partes envolvidas no fato, e não sair disparando petelecos, mensagenzinhas cifradas, enfim, fazendo fofoquinha, como a dona peida (com p minúsculo) faz. 

Volto ao Francis. Isso não é gente trabalhando com Comunicação. Isso é salta pocinhas cavando intrigas, distribuindo petelecos anacrônicos na própria cara. Cai dentro, peida (com p minúsculo).

terça-feira, 25 de junho de 2013

A Universidade Federal Fluminense deve graves explicações a população

Sugestão para os manifestantes que ocupam as ruas do país clamando por justiça, moralidade, democracia

Vamos direto aos fatos:

1 – O Hospital Universitário Antonio Pedro (HUAP) pertence a Universidade Federal Fluminense (UFF). O HUAP já foi referência nacional em atendimento ao público, mas há mais de três anos a sua emergência está fechada. Por causa disso, mais uma vez o boato de que o hospital vai ser privatizado (o que seria uma tragédia) corre pela cidade. A população de Niterói, cidade que sofre com a falta de hospitais públicos e privados, quer saber da UFF: Por que a emergência do HUAP está lacrada? Falta de dinheiro não é, como mostram os itens a seguir.

2 – Há quase quatro anos a Universidade demoliu o Cine Art UFF e o Teatro para construir novas unidades com verba do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, do Governo Federal. As obras andam, param, andam, param, se arrastam. E a cidade está sem um cinema e um teatro que ao longo dos anos se tornaram imprescindíveis. De novo a pergunta: Por que a UFF não termina a obra do Centro de Artes (que abriga o cinema e o teatro) já que falta de dinheiro não é?

3 – Meses atrás a UFF comprou o Cinema Icaraí. Pagou 17 milhões de reais. Objetivo: além de abrigar ali a sua esplêndida Orquestra Sinfônica Nacional, seriam construídas novas salas de cinema, enfim, tudo lindo, tudo maravilhoso. Mas, a realidade mostra para todos nós que a única obra que a UFF fez foi colocar um tapume de metal cercando o andar térreo do cinema. Mais nada. Queremos saber: por que a UFF ainda não iniciou a obra de restauração do Cinema Icaraí?


São perguntas que estão nas ruas de Niterói e a Universidade (que pertence ao governo logo, em tese, a todos nós) tem a obrigação de responder. 

Quase pronto o livro sobre os 30 anos do Circo Voador

 Maria Juçá com Jards Macalé
O Circo em 1983
O Circo hoje
    Legião Urbana no noitaça de 9 de outubro de 1985
Texto restaurado e reeditado

Maria Juçá me ligou. Para quem não sabe, ela é a dona, mentora, mãe, irmã, amiga de várias gerações de rockers dos anos 80, 90, 00. Sem Maria Juçá não teria rolado a célebre parceria Circo Voador-Rádio Fluminense FM em 1982, 83, 84, 85, batizada por Perfeito Fortuna de Rock Voador.

Juçá é minha irmã e, para não variar, rimos pra cacete no telefone. Ela está finalizando o livraço que conta a história dessa nave de ousadia que está pousada na Lapa. Políticos com p minúsculo bem que tentaram deportá-lo, mas o Circo mora lá até hoje e, tenho certeza, ganhou a eternidade graças ao apoio popular. Estamos vendo, hoje, que sem o apoio popular nada vai pra frente.

Não esquecerei das zilhões de noites que passei ali, assistindo a tudo o que é novo, tradicional, alternativo. Longos papos com o “pré-colombiano” amigo Jamari França do lado de fora enquanto a Legião Urbana se preparava para tocar na antológica noite de 9 de outubro de 1985. A banda entrou no palco, plateia ensandecida, e Renato Russo foi ao microfone e gritou: “Hoje é dia de celebração. Vamos celebrar a morte de um carrasco chamado Emílio Garrastazu Médici, general-presidente que ajudou a jogar o país nos porões da tortura, morte, covardia”.

Queria muito que um grande amigo meu, também jornalista Cezar Motta (foi sub-editor na histórica Radio JB AM entre 1975 e 1980) assistisse a esse show, impregnado de política saudável, porque foi ele (Cezar) um dos que acenderam o meu pavio para a necessidade de uma democracia, etc, etc, etc. Mas o Cezar já tinha se mudado para Brasília.

O Circo Voador é um patrimônio da anarquia inteligente. Anarquia que vai de Caetano Veloso, Jorge Mautner, Macalé, Egberto Gismonti as novas bandas que tenho assistido como a extraordinária Kapitu e Sanatore, ambas que arrancam o couro. Aliás, Juçá, quando o Sanatore e a Kapitu vão tocar aí? 

Mais: o Circo de Maria Juçá oxigena o Rio e o Brasil de inteligência, cultura, ousadia, enfim, tudo o que todos nós merecemos. Isso, há 30 anos!!!!

Por isso, se você mora no Rio vá ao Circo. Garanto que vai sair de lá pensando (e sentindo) a cultura do Brasil diferente. Se você não é do Rio, mais ainda porque, além do Corcovado, do Pão de Açucar, do Jardim Botânico e de todas as praias, existe um lugar que respira arte de qualidade. E esse lugar se chama Circo Voador, com a grife da genial (literalmente falando) Maria Juçá. 

Um lugar que está virando um grande livro.

Veja a Legião:


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Medo de polícia

Texto restaurado e reeditado

Não vou por na conta da ditadura porque, felizmente, nunca fui preso nem torturado, mas confesso que tenho medo de polícia. Não gosto de ver um carro da PM porque sei que, à bordo, estão, em geral, dois primatas fardados mal treinados, inexperientes, psicologicamente imaturos e com o dedo no gatilho de armas de grosso calibre, ou com as armas que cospem balas de borracha que estão longe de ser “não letais”, como afirmam os governantes.

Toda semana morre um por “fatalidades” provocadas por policiais. Estranho, mas ao invés de causar segurança, tranquilidade, um carro da polícia me deixa ansioso, inseguro, com a sensação de que vou tomar bala a qualquer momento por...por...por nada. Por isso, sempre ando com todos os documentos, IPVA do carro pago, vistoria feita, identidade, CPF, enfim, apesar de nunca ter sido preso (nem por desacato) a presença da polícia me provoca um profundo mal estar. Lido com policiais da mesma forma que me relaciono com cachorros que não conheço. Gesticulo lentamente e procuro falar pausadamente e com a voz baixa. Movimentos bruscos podem custar a vida.

Quando me pedem documentos faço tudo em câmera lenta. O momento mais crítico é quando vou soltar o cinto de segurança do banco. Sempre aviso, “vou por a mão aqui para soltar o cinto”. Ainda assim, a presença daquela pistola ou fuzil a meio metro de minha cabeça, nas mãos de um policial visivelmente nervoso e despreparado, quase me leva ao desatino.

Um dia desses, numa roda de amigos, percebi que não sou o único a ter medo de polícia. A maioria confessou o receio e a ansiedade que um carro da polícia provoca nos inocentes. Nos culpados, sinceramente não sei. Mas está aí a realidade mostrando que estamos lidando com homo sapiens sociais, boçais fardados, que respondem a qualquer suposta provocação com tiros.




domingo, 23 de junho de 2013

Cadeia para os bandidos infiltrados nas manifestações

O Brasil começa mais uma semana com várias manifestações de rua anunciadas. Saudavelmente sem comando, sem partidos, autenticamente populares, os manifestantes só não conseguiram se livrar dos bandidos (chamados carinhosamente por alguns de “radicais”) que se infiltram no movimento e acabam destruindo e saqueando lojas, monumentos, prédios públicos.

Sabemos que quando a polícia quer, prende. Sabemos também que, por razões que merecem ser apuradas, as polícias não estão se empenhando em prender e mandar julgar esses marginais, passando a impressão de que querem ver o circo pegar fogo.

Afinal, de vez em quando uma ou outra voz pede golpe de estado. Os golpistas não se conformam que uma sociedade democrática funcione normalmente e acham que só a ditadura, torturando e matando, pode resolver as mazelas do país.

Prender bandidos é uma obrigação da polícia. Mandar a polícia prender é uma obrigação da presidente da República e dos governadores.

Hoje nos jornais os intelectualóides masturbam teorias sobre o rumo desse movimento de rua, causas, consequências. Ora, está claro que enquanto mensaleiros estiverem soltos, Renan estiver na presidência do senado, a inflação subindo, enfim, o “monstro” das ruas só vai sossegar quando começar a perceber mudanças reais, palpáveis, de fato. Palavras? As ruas já estão de saco cheio.

P.S. - Estréia quarta-feira, dia 3 de julho. Clique e assista:http://www.youtube.com/watch?v=1KI9v0vnBQA


sexta-feira, 21 de junho de 2013

João do Corujão, o guerrilheiro das letras







Benito Corbal, de barba, à esquerda
Na noite dessa sexta-feira encontrei com João Luiz de Souza, eternizado como João do Corujão da Poesia, Universo da Leitura. Num momento em que as veias abertas do Brasil ganham as ruas, cobrando qualidade existencial, cultural, política, social, depois de anos e mais anos sob um estranho mormaço, foi um privilégio encontrar o João. Num lugar que cada vez me encanta mais, o Espaço 29, um mix de restaurante, espaço cultural, galeria criado pelo Alexandre Pinto, na rua Moreira Cesar 29, em frente ao Trade Center, em Icaraí, Niterói. O Espaço 29 está se revelando um ponto de encontro de cabeças e almas brilhantes.

Sempre senti uma enorme admiração pelo João Luiz, a quem fui apresentado pelo amigo comum Benito Corbal . João, que tem como marca armações brancas em óculos de grau, é assessor de cultura da Universidade Salgado de Oliveira, a Universo, que, segundo ele, desde o princípio, quase 10 anos atrás, graças a reitora Marlene Salgado, dá irrestrito apoio ao movimento Corujão da Poesia que engole vários pontos do Rio e o Espaço 29 em Niterói mostrando poesias. Poesias de pessoas comuns que vão lá e declamam, riem, choram, permitem que as letras se transformem em emoções, novamente em letras, novamente em emoções num movimento contínuo, belo, simples, íntegro.

Esse movimento não existiria não fosse a força, o empenho, a paixão de João Luiz que, como todo cidadão acima de qualquer suspeita, tem o saudosíssimo Darcy Ribeiro em sua galeria de heróis. João trabalhou com esse gênio maior da constelação dos agitadores culturais e educacionais do país. Viva Darcy!!!!!


João Luiz, João do Corujão, João do Povo, João da Guerrilha Cultural, muito bom encontrar com você. Sou seu fã, meu caro, e vamos divulgar MUITÍSSIMO o seu Corujão da Poesia, Universo da Leitura em nosso programa de TV “Café Paris” que estou tramando com o Luiz Augusto Erthal, da editora Nitpress. Falarei do programa semana que bem. Forte abraço, grande e raro guerrilheiro!

Provocadores, boateiros, Estado e governo

Leio no UOL que a Fifa está ameaçando cancelar a Copa das Confederações. Motivo: arruaceiros a serviço não se sabe de quem ou do que, coagiram membros da Federação em Salvador, ontem a noite, atirando bombas nos hotéis onde estão hospedados e promovendo quebra-quebra. Futebol é o de menos. O que pesa é o dano político de um cancelamento desses.

Mais uma vez o que assistimos ontem a tarde/noite foi a ação dos provocadores e abutres, que estão presentes em todos os momentos das tragédias políticas do Brasil. Um país que teve cabo Anselmo e outros traíras que acabaram jogando o Brasil no fosso.

A tentativa de invasão do Itamaraty foi muitíssimo grave. Como também foi o nítido desprezo da polícia em entrar naquele espelho d´água e retirar os provocadores de lá. Deixaram rolar como se fossem cúmplices dos abutres.

Esses provocadores, arruaceiros, abutres e similares deveriam ser presos e dizer para quem (ou o que) estão servindo. Mas, ao que me parece, a polícia prende e solta como se já soubesse quem são os mentores intelectuais dos bandidos, quem sabe parceiros de ideologia.

A polícia não gosta de democracia. No Facebook começo a ler, preocupado, pessoas clamando pela volta da ditadura, como se sangue e lágrimas fossem resolver a questão. Confundem Estado com governo. Nossa crise é de governo e não de Estado e, por isso, sugiro a quem tem dúvidas sobre as cruciais diferenças entre um e outro que recorra ao Google.


Estou preocupado com esse desprezo da polícia em apurar quem está por trás dos arruaceiros. Estou preocupado porque nessas horas quem acaba dançando é a democracia.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Recebi este e-mail e repasso aos leitores:

Em três dias, a maioria das pessoas no Brasil terá recebido esta mensagem. Esta é uma ideia que realmente deve ser considerada e repassada para o Povo.

Lei de Reforma do Congresso de 2013 (emenda à Constituição) PEC de iniciativa popular: Lei de Reforma do Congresso (proposta de emenda à Constituição Federal)

1. Fica abolida qualquer sessão secreta e não-pública para qualquer deliberação efetiva de qualquer uma das duas Casas do Congresso Nacional. Todas as suas sessões passam a ser abertas ao público e à imprensa escrita, radiofônica e televisiva.

2. O congressista será assalariado somente durante o mandato. Não haverá ‘aposentadoria por tempo de parlamentar’, mas contará o prazo de mandato exercido para agregar ao seu tempo de serviço junto ao INSS referente à sua profissão civil.

3. O Congresso (congressistas e funcionários) contribui para o INSS. Toda a contribuição (passada, presente e futura) para o fundo atual de aposentadoria do Congresso passará para o regime do INSS imediatamente. Os senhores Congressistas participarão dos benefícios dentro do regime do INSS exatamente como todos outros brasileiros. O fundo de aposentadoria não pode ser usado para qualquer outra finalidade.

4. Os senhores congressistas e assessores devem pagar por seus planos de aposentadoria, assim como todos os brasileiros.

5. Aos Congressistas fica vetado aumentar seus próprios salários e gratificações fora dos padrões do crescimento de salários da população em geral, no mesmo período.

6. O Congresso e seus agregados perdem seus atuais seguros de saúde pagos pelos contribuintes e passam a participar do mesmo sistema de saúde do povo brasileiro.

7. O Congresso deve igualmente cumprir todas as leis que impõe ao povo brasileiro, sem qualquer imunidade que não aquela referente à total liberdade de expressão quando na tribuna do Congresso.

8. Exercer um mandato no Congresso é uma honra, um privilégio e uma responsabilidade, não um uma carreira. Parlamentares não devem servir em mais de duas legislaturas consecutivas.
“Se cada pessoa repassar esta mensagem para um mínimo de vinte pessoas, em três dias a maioria das pessoas no Brasil receberá esta mensagem. A hora para estaPEC - Proposta de Emenda Constitucional - é AGORA.

É ASSIM QUE VOCÊ PODE CONSERTAR O CONGRESSO.

Se você concorda com o exposto, REPASSE.  Caso contrário, basta apagar e dormir sossegado.




A "conexão Varginha", ou, é difícil ouvir boa música, mas ela existe

Texto restaurado e reeditado
Comprei por oito reais protetores de ouvido Nexcare, da 3M. Está disponível em farmácias e são muito úteis nesses tempos de vagabundagem musical, além, é claro, de nos livrarem dos primatas que utilizam indevidamente, por exemplo, celulares com rádio em transporte público. Recomendo. São ótimos, minúsculos, imperceptíveis, confortáveis.

É lógico que respeito o direito das pessoas comprarem Michel Teló, Luan Santana, Thiaguinho e dezenas e mais dezenas de outros que navegam nos turbulentos mares do baranguismo cultural. No entanto, prefiro não atirar pedras e buscar opções.

Sempre foi assim. Historiadores dizem que desde que “inventaram” a música popular, as mais cultuadas pelos povos são de péssimo gosto. Aqui no Brasil, não há uma fase, um período de exceção. Primeiros lugares sempre foram ocupados por barangas, mas fazer o que? Nada? O que é isso? Vamos buscar as opções no chamado mercado alternativo que está sempre cheio de coisas valiosas. No mainstream, vulgo esquemão, escapam, felizmente, Tulipa Ruiz, Moska, Caetano, Gil e muito mais do que uma meia dúzia de todas as gerações.

Para se ouvir boa música no rádio, antes da invenção do streaming da internet, era uma luta. Hoje, você acessa www.radios.com.br e escolhe uma entre milhares que são oferecidas no maior cardápio de opções radiofônicas do mundo. Radios.com.br é sensacional e fica na cidade de Varginha (MG), terra dos E.T.s. Tem radio de bossa nova, rock, blues, jazz, samba, chorinho, notícias, efeitos especiais, tudo da melhor qualidade. É só dar um clique. Em tempo, o E.T. virou símbolo da cidade.

Destaque também para a Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles (http://ims.uol.com.br/radiobatuta) que traz o melhor da tradição da MPB e ainda a Radio Vitrola (www.radiovitrola.net) com a nata de tudo que é bom em vários universos. Para quem gosta de flash backs a Radio Good Times (www.radiogoodtimes.com.br) arrebenta.

As cidades estão cheias de shows em circuitos alternativos que revelam ótimos artistas. Vale conferir. Em outras palavras, da mesma forma que a música ruim, chula, de baixa qualidade impera no chamado esquemão, a música boa, limpa, gostosa, de todos os gêneros e estilos sempre arrebentou e vai continuar arrebentando nos circuitos e mídias periféricas. É só correr atrás.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Redução das passagens pode ser uma bofetada na corrupção

V de vingança. V de vitória. Revogados aumentos de preços de passagens dos transportes de massa no Rio, Niterói, São Paulo e outras cidades.

No Rio, o prefeito gemeu. Disse que pelo menos 200 milhões de reais vão deixar de ser investidos ano que vem. Ótimo!!!! A maquiagem da zona portuária, batizada mauricescamente de Porto Maravilha, custará bilhões e não fará falta alguma caso tenha que ser suspensa.

Agora é a hora de voltarem as ruas pela Saúde que se encontra num estado lamentável. Com inteligência, educação e SEM DAR ESPAÇO PARA OS PROVOCADORES, esses marginais que se juntam aos manifestantes com o intuito de saquear lojas, destruir o patrimônio e provocar para ver a canoa virar.

Além disso, com menos dinheiro em caixa, pela lógica, os bandidos da máquina pública vão ter que roubar menos.


O povo decidiu. Primeiro passo. Sem partidos, sem artistas famosos, provando que uma sociedade livre não precisa de cafetões.

Indignação dispensa explicação

Av. Rio Branco, 1968

Sociólogos, antropólogos, psicólogos sociais, cientistas políticos buscam desesperadamente explicações para as manifestações nas ruas de todo o Brasil. Não vão encontrar porque a indignação é um sentimento que dispensa explicações. Uma revolta que se acumula durante anos e mais anos, sob o estranho silêncio do povo. Agora, por conta da trilhardária Copa das Confederações e com a desculpa de 20 centavos nas passagens de ônibus o povo foi para a rua. Por que?

- A população está indignada com o escândalo do mensalão e agora desabafa nas ruas.

- Proposta de Emenda Constitucional 37 (PEC 37) que limita a ação do Ministério Público, para a alegria dos ladravazes.

- Roubalheira ampla, geral e irrestrita em todos os escalões do governo.

- Inflação real, a que sentimos na pele, faz a inflação oficial parecer deboche. Aumento da gasolina, dos alimentos, dos serviços.

- A arrogância de Zé Dirceu, Genuíno e outros mensaleiros ditando regras.

- Partidos políticos assumiram a condição de banca de negócios.

- Falta de lideranças íntegras, honestas éticas.

- ........................................................ (preencha você mesmo)


Há explicação para um desabafo coletivo? Claro que não. Se o Brasil não mudar urgentemente, o “monstro” (foto) de Elio Gaspari vai pegar.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Bicicleta, pura utopia de primeiro mundo

Texto reeditado
Estava a caminho do trabalho quando uma pesquisadora chegou junto a janela de meu carro num sinal de trânsito. Com um computador minúsculo na mão, perguntou se eu estava usando o carro para o trabalho ou lazer, se eu iria percorrer uma distância superior a 20 quilômetros e, finalmente, o que achava da ideia de usar bicicleta no lugar de carro.

Expliquei que estava indo para o trabalho, menos distante do que os 20 quilômetros sugeridos. Respondi que quanto a não substituição do carro por bicicleta disse que eram tantos motivos que não iria dar tempo. Por isso, respondo aqui.

Bicicleta em cidades médias e grandes no Brasil ainda é suicídio. Por que? Ora, sejamos sensatos. Ninguém respeita. Carros, ônibus, caminhões e motos passam por cima de dúzias por mês porque, como não tem motor, a bicicleta é uma presa fácil que só acelera o que conseguimos pedalar. Com motor, a motocicleta se safa mais rápido, mas ainda assim as motos vivem enchendo as emergências de todas as cidades.

Se existissem ciclovias (mesmo assim sem pedestres), eu até pensaria na hipótese, mas aí esbarraria em outro fator: o suor. Quem anda de bicicleta debaixo dessa lua tropical (em qualquer estação do ano) chega ao destino lavado de suor, em geral mal humorado, distribuindo desculpas, enfim, é horrível. Já passei por essa situação uma vez. Fui de bicicleta a um brunch em casa de amigos e quando cheguei parecia aquela garoupa suada que Erasmo Carlos cita em uma de suas canções. Na boa, senti o nojo, o ar de “chega pra lá, molambo” nos olhos dos outros convivas. E, para piorar, roubaram minha bicicleta apesar do cadeado e da corrente. Voltei para casa de táxi.


Bicicleta é muito bonitinha na Europa ou em algumas cidades da América do Norte, mas no Brasil, calor crônico, bofetada pra todo o lado, ônibus, taxis, carros, motos, todo mundo cercando a “magrinha” é mera utopia. Utopia de inverno porque, como já disse ali em cima, mesmo que tivéssemos ciclovias eficientes o suor seria o grande predador dos ciclistas.

sábado, 15 de junho de 2013

Saudade de Big Boy e da sua Eldo Pop FM



Mário Henrique Peixinho
Sábado passado, assim que li o materaço de Carlos Albuquerque no Segundo Caderno do Globo sobre a página do grande e saudosíssimo Big Boy, no Facebook. Fui até o You Tube e fiquei ouvindo algumas vinhetas da grande criação do radialista, a Eldo Pop FM, no início dos anos 70.
Quem quiser conhecer a página que a família do Big Boy, com fotos, gravações dos tempos da Rádio Mundial, e muito mais basta clicar aqui: 


Ah, sim, já que é para matar as saudades dê um pulo nas vinhetas da Eldo clicando aqui:


Eu, meu irmão Fernando Mello e o amigo/irmão Marcio Paulo Maia Tavares ouvíamos a Eldo Pop o dia todo. Tínhamos praticamente decorado a programação que Big Boy fez com peixinho, toda baseada nas centenas de álbuns que ele trouxe dos Estados Unidos. A rádio não tinha locução e, por isso, aquelas bandas não eram anunciadas. Acabaram virando um enigma, mito. Desvendar cada uma delas virou uma mania para os ouvintes.

Tenho certeza de que se não tivesse morrido em 7 de março de 1977, em consequência de uma crise de asma, Big Boy não deixaria a Eldo Pop morrer.  Ele sempre dizia ao pessoal da rádio (não cheguei a ter contato com ele) que a Eldo era um diamante que estava sendo lapidado devagar e que iria revolucionar os anos 80. Não deu.

Quando fui montar a Globo FM, em 1985, Peixinho me mostrou a discoteca da Eldo Pop. Intacta, toda em vinil. Claro que, manuseando aqueles discos, bateu um nó na garganta.

Hoje, chuva miúda caindo por aqui, papo sobre Big Boy, claro que bateu saudade dele e da sua Eldo Pop. Com certeza uma emissora que entrou para a história.