terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Um culto aos decibéis - revista Veja, 16 de janeiro de 1985

                           
                                                      
                                           AC/DC no estádio River Plate, Argentina, 2011

Estúdio da Fluminense FM, 1983. Locutoras Cristina Carvalho, Monika Venerabille e eu.

Convidado pela revista Veja, escrevi este artigo que foi publicado na edição de 16 de janeiro de 1985, seção “Ponto de Vista” – páginas amarelas. Aqui, alterei apenas a divisão dos parágrafos.

Chegou a hora dessa gente esverdeada mostrar seu valor. Finalmente a partir de 21 de janeiro, o day after do rock in Rio, o país terá que conviver com uma estranha tribo. Uma tribo de roqueiros que tem no heavy metal sua base existencial e a ele se entrega como a um deus urbano e contemporâneo.

Esses rockers, conhecidos entre nós como metaleiros, são absolutamente peculiares e vivem uma puberdade conflitante e confusa como todos os adolescentes. Além de serem discriminados dentro de casa (de certa forma a causa que os levou ao encontro dos “heavy deuses”), os metaleiros acabaram sitiados numa caverna onde somente outros metaleiros são capazes de descobri-los. Dentro do rock eles também são arremessados para o subsolo por outros roqueiros de outras tribos que veem nos metaleiros apenas um bando de débeis mentais.

O Brasil, hoje, tem mais de 100 mil desses garotos que buscam na mais ensurdecedora das guitarras a catarse que muitos barbados procuram, por exemplo, dentro da psicanálise. Em sua maioria, vivem a margem das cidades, compondo uma espessa parede de compreensões que acaba transformando o grito em linguagem e o sangue (artificial) em forma de expressão.

São amantes da fantasia. Sabem que os integrantes do Kiss são vegetarianos, não bebem e não se drogam. Mas preferem acreditar num Kiss que mata pintos sobre o palco, se embebeda sem parar e no final destrói os hotéis por onde passa. Os metaleiros sabem que os Scorpions vivem com mulheres e filhos mas preferem vê-los como um grupo que adora jaulas com cobras e aranhas venenosas, além de intermináveis orgias.

Em bando eles se juntam (só homens) para audições coletivas de obras fonográficas decibélicas e depois saem as ruas em busca de filmes de terror ou de qualquer obra do diretor Steven Spielberg, ídolo de todos, nas telas. E, apesar das pulseiras cheias de pregos e tachinhas, cabelos enormes, roupas de couro ou curvim, correntes e cadeados espalhados pelos braços, os metaleiros não são violentos nas ruas.

São porém capazes de tudo dentro de um recinto fechado, principalmente se ali estiverem se apresentando bandas ao vivo. Se um desses grupos tocar algo distante do que os metaleiros entendem como rock, não restará cadeira sobre cadeira.

Cercados entre os tensos e intensos 12 e 18 anos de idade, os metaleiros querem que o Brasil se dane. Para eles, os políticos não passam de ladrões, os generais de “canas “ e só comparecem a comícios se os oradores partirem para o total radicalismo.

Esses garotos, responsáveis pelo sustento-base das gravadoras (os discos internacionais mais vendidos em todo o mundo são de heavy metal), não leem jornais, considerados farsas. São alienados profissionais e acham que uma letra do grupo AC/DC vale mais que um editorial em qualquer jornal do mundo.

Temem o sexo, optando pela masturbação. Temem a mulher, optando pelo machismo, que é pregado fartamente nas letras de seus grupos prediletos. Só não temem três coisas: pai, mãe e polícia. Recentemente o músico Lobão, do grupo Lobão e os Ronaldos, fez declarações grosseiras sobre os metaleiros.

Mas não foi só ele quem falou e fala mal dessa tribo. Muitos músicos de outras facções não cansam de tentar espatifar ou rachar esse grupo que não acredita em poder. Em contrapartida, parece que, em caso de vingança as palavras de ordem dos metaleiros são “lata no palco e desprezo nas ruas”.

Os metaleiros serão muito mais numerosos depois do Rock in Rio, mas o Brasil não precisa temê-los. Eles só querem rock pesado e uma gravação pirada no Thin Lizzy. São ou serão eleitores de votos nulos, se drogam pouco (no máximo maconha) e querem que vá tudo, literalmente, para o inferno. O inferno para eles é o céu. Parece que o demônio é rei, mas também dentro da fantasia.

A religião, propriamente, nunca chegou perto dos metaleiros mais próximos dos rituais hollywoodianos, pintados pelos grupos em suas músicas. Eles não tem e não querem formar opinião sobre coisa alguma. Difícil é a situação dos pais desses garotos. Entre um psiquiatra e outro, para onde costumam arrastar seus metaleiros, acabam, convencidos que esse barulho todo não passa de uma fase adolescente do roqueiro, que só se eterniza entre os profissionais e assim mesmo na base da cenografia. Afinal, quando Ozzy Osbourne enforca anões no palco e arranca cabeças de morcego com os dentes, ele próprio sabe que isso não passa de uma grande e lucrativa piada. 

Só que, no início da carreira, o grupo ao qual pertenceu se envolvia com magia negra e transcrevia suas experiências nos discos.

Tentar entender os metaleiros é tentar desvendar mistérios adolescentes. Eles estão presentes no mundo inteiro, colocando abaixo promessas e perspectivas e endeusando o que não existe. Acima de tudo, o movimento cresce pela falta de ídolos universais. Parece mais confortável acreditar no que não existe dos que nas alianças políticas entre gregos e troianos ou na inflação de 300%. Em última análise, os metaleiros não fazem mal a ninguém. Só que também não acreditam em ninguém.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

‘Ora que melhora!’, a mensagem no vidro de um carro

                           
                                                      
Texto restaurado e reeditado

Antigamente as mensagens, digamos, automotivas eram vistas (e lidas) nos pára-choques de caminhões. Mensagens bem humoradas, outras mais reflexivas, mas quase todas de bem com a vida. Com o passar do tempo, essas mensagens acabaram chegando ao automóvel através dos adesivos. Linguagem direta, objetiva.

Tempos atrás, debaixo de chuva, a bordo de um táxi vi as ruas cheias de gente com a aparência de cansaço, uma imagem meio em Cãmera lenta. Resolvi me distrair lendo os dizeres dos adesivos dos carros que tentavam se deslocar naquele trânsito preguiçoso e muitas vezes irritante dos dias chuvosos.

A primeira que li no vidro de um carro foi: "Ora que melhora!". Gostei da mensagem, da ideia, da intenção. Afinal, se existe um conceito universal que une todas as religiões, crenças e correntes filosóficas é o poder da oração, poder esse que a ciência já reconhece há bastante tempo.

Mais à frente, na tampa do porta-malas de um carro bem usado, um adesivo anunciava: "É velho, mas é meu". Também gostei. Afinal, que história é essa de que todos têm que ter carros novos, sapatos novos, roupas novas? Essa mensagem extremamente positiva de certa forma mostrou o orgulho do proprietário daquele carro. O cheiro de vitória, mais uma etapa de sua vida, simbolizada por prestações e mais prestações que finalmente foram quitadas.

Claro que em ano eleitoral começam a surgir nomes e apelidos em vidros de todos os tipos de veículos anunciando que alguém vai se candidatar a alguma coisa. E esse alguém, com toda a razão, confia no poder dos adesivos. O que faz uma pessoa comprar e colocar, muitas vezes em letras garrafais, a frase "Vivo arranhado, mas não largo a minha gata" no vidro traseiro do carro? Há ainda o já tradicional: "Eu amo minha família", que surgiu depois do "Eu amo minha esposa". Acho que não há explicação, a não ser o desejo dessas pessoas em dividir suas histórias, ou brincar com nossos humores.

Mensagens em adesivos colocados em veículos estão longe de ser uma exclusividade brasileira. Os norte-americanos adoram adesivar seus carros, motos, caminhões, ônibus, com mensagens que muitas vezes não fazem o menor sentido. Uma delas é "Não me siga, estou perdido também", que pode ter mil conotações. Desde o perdido no trânsito banal até o perdido na vida, nas perspectivas, no emaranhado de dúvidas e angústias, características básicas dos seres humanos.

No caso do "Ora que melhora!", que vi no trânsito moroso, chamou minha intenção porque no táxi ao lado uma senhora de idade fechou os olhos e juntou as mãos assim que leu a mensagem. Só ela sabe porque orou, para quem ou o que orou, mas o fato é que a mensagem atingiu seu objetivo. Eu, inclusive, também fiz uma oração porque acredito, sim, no "Ora que melhora".

Muito já se escreveu e falou sobre as frases de pára-choques de caminhões. Há, inclusive, um livro a respeito que li há anos atrás e que lamentavelmente perdi. O autor colecionou as frases ao longo de anos viajando pelas estradas brasileiras e reuniu um esplêndido coquetel de reflexões, algumas de extrema sensibilidade, outras de ótimo humor, mas nenhuma negativa, difamadora, rancorosa.

Quando migraram para os carros, o objetivo foi o mesmo. Humor, boas sacadas, fé e muito pouca baixaria. O que é muito bom para todos nós.


domingo, 29 de dezembro de 2013

Se a corrupção permitir as mortes nas estradas podem diminuir

                           
                                                      


Primeiro ato. Faz tempo, bastante tempo. Nem existia telefone celular e a ponte Rio-Niterói não estava privatizada. Lembro que era o governo daquele...daquele...daquele Sarney que foi vice do outro, o Tancredo. Que patifaria, hein?

A ponte era uma buraqueira só, metade dos postes estava sem luz, era um verdadeiro rali. Meia noite e poço. Perto do vão central (ando devagar) um caminhão me deu uma fechada. Dava para notar que o motorista estava completamente bêbado.

Não discuti. Acelerei forte, cheguei bem antes dele a praça do pedágio, demorei para encontrar alguém da Polícia Rodoviária. Achei. Achei e narrei. Caminhão cor tal, marca tal, placa tal. O policial garantiu que iria agir com rigor.

Entrei no carro e saí. Parei lá na frente para ver o que iria acontecer. O policial de fato mandou o caminhão encostar. O motorista abriu a porta, saiu, e os dois (não havia outro policial) ficaram conversando.

Deixei o carro apagado porque achava que o motorista ia em cana, pois cambaleava na frente do policial. Lá pelas tantas...esfreguei os olhos porque era duro de acreditar...mas, lá pelas tantas o motorista foi na carroceria, pegou duas galinhas brancas, deu para o policial, entrou no caminhão e foi embora. Nunca mais esquecerei porque acabava ali a minha confiança em qualquer coisa que tenha o odor do Estado.

Mas, vamos lá. Vi no fantástico que o INSS vai cobrar dos motoristas que matam e sequelam nas estradas vão ter que pagar a conta, ou seja: por exemplo, bebeu, bateu, aleijou alguém? Vai ter que pagar o tratamento, pensão por invalidez, etc. Dessa forma, o governo acha que a conta de 40 bilhões de reais por ano que gasta com vítimas do trânsito vai baixar porque: 1 – com o risco de morrer numa grana muita gente vai seguir a lei; 2 – com assassinos pagando o governo vai economizar. Mas e a corrupção? E as galinhas, “leite das crianças” e outros ingredientes da industria do jabá que impera em muitos lugares?

Se a corrupção deixar (vai deixar?) essa ideia é boa porque (o INSS tem razão) com a possibilidade de dor no bolso muitos inconsequentes beberão menos ou até vão parar de beber antes de singrar (e sangrar) as estradas. Certo? Certo, mas e a corrupção?

Bom, a corrupção só morre a pauladas. Você tem celular com câmera? Eu tenho. Se eu gravasse a imagem das galinhas brancas e mandasse para uma emissora de TV forte, com certeza ia dar confusão. O policial provavelmente seria demitido e um flagrante desses faz com que os colegas corruptos de todo o país fiquem de orelha em pé.

Tá, tá bom, os menos otimistas acham que o preço do jabá vai subir, mas, bem ou mal, se todos nós gravarmos, fotografarmos e levarmos (ou enviarmos) para a mídia, a coisa dá uma travada. Dá, sim. Só não vale meter político no meio porque aí, de Tancredo em Tancredo, de Sarney em Sarney, deu nisso que está aí. Ou não?


Barbárie no octógono, nova versão da horda que ia ao Coliseu torcer para leão comer cristão

                           
                                                      
Leio que o lutador Anderson Silva quebrou a perna durante a luta contra o outro imbecil, Chris Weidman. Isso sem falar do sangue que jorrou, da histeria da torcida clamando por morte, exatamente como a horda que ia ao coliseu romano ver leão comer cristão, dois mil anos atrás.

Anderson Silva é um bilionário, assim como todos os campeões dessa boçal modalidade chamada MMA, ou UFC (não vou perder meu tempo pesquisando prováveis diferenças entre as duas modalidades), e ganha a vida dando e arrancando sangue nos octógonos da vida, uma rinha de luxo sustentada pela dinheirama das redes de TV, da indústria do álcool, do jogo e também da publicidade “limpa” de uma maneira geral.

Torço para que esses bípedes continuem se destruindo à vontade porque sou contra qualquer tipo de censura. O que me incomoda, e muito, é a divulgação maciça dessa barbárie pelos meios de comunicação, especialmente no Brasil, país falso-moralista que proíbe, por exemplo, briga de galos. Ora, podemos pegar o galo, matar o galo, por na panela e comer, mas não podemos assistir os galos imitarem Anderson Silva. Por que?

O ser humano não está tão distante dos primatas assim. Eu diria que nosso antepassado mais direto, o macaco, mora no octógono da esquina, como vemos na foto que ilustra essa coluna. Afinal, a massa (pelo que observo) fica histérica e goza quando lutadores arrancam vísceras nos octógonos do mundo. Esquisita a espécie humana. Por um lado torce para que todas as doenças tenham cura e, por outro, alimenta a morte apostando em MMA/UFC, roleta russa (aquela do revólver na cabeça com uma bala só) e na Coréia do Norte paga ingresso para assistir a fuzilamento de condenados.

As crianças não entendem nada, e na falta de explicação, vendo seus pais urrarem de alegria vendo na TV homens matando homens num ringue de luxo acabam, as crianças, achando que isso é normal e tocam a vida. Torta. Fazer o que?


sábado, 28 de dezembro de 2013

Surfando no resto do passado de 2014

                           
                                                      
Ouvindo um disco de 1973, escrevo neste restinho do passado de 2014, futuro de 2012, vulgo hoje. Para muitos, especialmente os existencialistas, o hoje é o que importa já que o ontem já foi e o amanhã é uma possibilidade.

No entanto, sentado aqui na antesala de 2014, observo tudo o que plantamos neste ano que está indo, literalmente, para o espaço. Muita coisa. 2014 será a hora da abençoada e merecida colheita, ao som de Neil Young (Harvest Moon, lua da colheita, veja aqui).

Entre colegas, conhecidos e amigos, fiz uma enquete informal e a maioria gostou de 2013, cada qual com seus motivos. Espero que para o leitor, o ano dito velho tenha sido generoso, bacana, honesto e que 2014 venha com força mostrando a tal colheita (fui dormir com esta palavra na cabeça) que vai, sim, acontecer. Por que não?

Leio sobre o planeta e, bom isso, parece que vivemos uma daquelas fases de trégua entre os mortais. Não há nenhuma grande guerra internacional, nem epidemia, a fome continua injusta e no seus devidos lugares e noto o amadurecimento e humanização das relações dos Estados Unidos com o chamado Terceiro Mundo. Graças a um homem chamado Barack Obama, que cumprimentou Raul Castro (presidente de Cuba, irmão de Fidel) no velório de Nelson Mandela, e telefonou para o presidente do Irã informando que descongelou bilhões de dólares para o país. O Irâ concordou em acabar com o seu arsenal nuclear. Que diferença para aqueles símios da família Bush!

Essa não é uma mensagem de ano novo, apesar do jeitão. Ainda tenho muito a falar de 2013, um ano que jogou na mesa (pode ser impressão minha) muita maturidade dos líderes mundiais. Quanto ao Brasil, segue o caminho que a população desejou e não há nada a fazer contra a opinião popular. Mas o Brasil é tema para outro artigo. Específico, especial, brasileiro com muito orgulho.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Porque as rádios via internet não decolam no Brasil

                           
                                                      

O rádio é um veículo que depende 100% dos anunciantes. Não dá para vender o sinal e os canais que são disponibilizados, por exemplo, pelas TVs por assinatura onde as rádios entram como um plus, um brinde.

Para o rádio na web faturar a tecnologia vai ter que inventar (e popularizar) um sistema que coloque a webradio em pé de igualdade com a FM. Ou seja, o ouvinte que entrar no seu carro, ou no táxi, ônibus, van, vai pegar o seletor de canais e sintonizar na rádio X, que funciona na internet. Sem complicações.

Hoje já existe uma possibilidade parecida com essa, mas ainda é confusa, complicada. A humanidade está sem tempo e quer entrar no carro, digitar uma tecla e pou! Ouvir rádio. Não dá para ficar lendo gigantescos tutoriais ensinando como ouvir uma emissora na internet. Em outras palavras tem que ser tudo muito simples e muito rápido.

Em muitas cidades planeta afora já se ouve rádio de internet como se fosse FM, uma informação que ainda não consegui checar com precisão. Parece que não é bem assim. O rádio depende mil por cento da liberdade do ouvinte para sobreviver e atrair anunciantes.

Mais: a webradio que ouço fica em Santa Barbara, California e se chama Radio Paradise. Para ouvir no computador (qualquer computador) é só digitar www.radioparadise.com e uma chuva de rock, blues, folk da melhor qualidade (com locução suave e sem anúncios ou vinhetas) cai nas caixas de som. Pena que não exista um jeito de conectá-la no carro, mas, dizem os mais otimistas, é uma questão de pouco tempo. No Brasil, pouco tempo? Hahahahahahaha. 

Os maus políticos e os cafetões da fé, que detém milhares de concessões de rádio, vão deixar a webradio móvel surgir? Duvido! Como a Radio Paradise sobrevive? Doações dos ouvintes que, espontaneamente pagam para ouvir.
Por isso, ainda não acredito em sucesso comercial do Rádio na internet. Ainda! E não é por falta de opção. Quem acessa o gigaportal www.radios.com.br (que fica em Varginha, MG) chega a ficar tonto com tantas opções. Mas, nenhuma delas dá para se ouvir na estrada, na rua, na chuva, na fazenda, o que é o ideal.


Niterói virou uma gigantesca cracolândia

                           
                                                      

Campo de S. Bento, Icaraí. Foto do leitor Alex Joopert: O Globo

Molambada geral. Minha cidade, Niterói, hoje transformada em cidade escarrada para a periferia da periferia do Rio, como se não bastasse a sujeira, os assaltos 24 horas, a barbárie na praia de Icaraí onde a prefeitura insiste em fazer Reveillon para as sub-cidades do entorno, assiste agora, todas, literalmente TODAS as praças estão ocupadas por vagabundos, pivetes, assaltantes, todos viciados em crack.

Perguntei a Polícia Militar o que ela pretende fazer e a resposta foi curta, ridícula, a la Poncio Pilatos: “crack é problema da prefeitura.” O oficial que conversou comigo disse ainda, em off, que “o abandono das praças e similares em Niterói ajudam a esconder e abrigar os marginais”.

Proporcionalmente, Niterói ostenta um dos mais caros IPTUs do Brasil, o que deveria fazer a prefeitura tratar a população a pão de mel. No entanto, o que se vê no Jardim São João, Praça da República, Campo de São Bento é um tapa na cara dos cidadãos. Tudo largado, mato crescendo, marginais assaltando.

Com relação ao Reveillon na praia de Icaraí, que é sim uma barbárie, todo ano é a mesma coisa. Para quem não sabe, o IPTU na praia de Icaraí é um dos mais caros da América Latina e é justamente para lá que a prefeitura “convida” a lambança, a molambalização de Niterói que vive na periferia da cidade para levar seus trailers que vendem cachaça e similares, mais cachorro quente de origem duvidosa (ah, você pergunta por Vigilância Sanitária? 
Desculpe mas hahahaha, só rindo) e muita briga, facada e estupro na areia da praia.

Essa laia tem que torcer, e muito, para que eu jamais seja prefeito de Niterói porque meu decreto número um seria acabar com toda e qualquer interrupção no trânsito (e na paz) da Praia de Icaraí, seja para Reveillon, bloco das piranhas, procissões, parada gay, shows, enfim, tudo. Aí você pergunta “mas onde seria feita a tradicional queima de fogos do dia 31 de dezembro?”. Elementar, meu caro, no Caminho Niemeyer, espaço subutilizado que, ao fundo, tem uma bela vista do Rio.


Niterói está entregue a marginália ampla, geral e irrestrita, a vagabundos que tomam banho nas esquinas usando latas d´água, enfim, a cidade virou esgoto social. Fazer o que? Sei lá. Fugir daqui começa a se tornar uma ideia mais do que concreta.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O obsoleto planeta dos reaças

                           
                                                      

                                          Olho.
Acabei de sair de uma fila. Banco. Duas mulheres conversavam animada/desanimadamente sobre seus celulares. Uma, calça jeans, dorso retilíneo, bem interessante, dizia que o seu aparelho era um iPhone 3. A outra, mais para adiposa, mas também gostosa, ostentava um iPhone 4. Eu segurava, apenas, uma quase alérgica curiosidade empunhando meu Nokia C2 ano 2012, pequeno, barato e notável, mas já ultrapassado segundo o  mundo cão.

Ia me enfiar entre as duas. Participar da conversa. Dizer o que penso de modelo Y ser mais isso do que modelo X que é mais aquilo que o modelo Z, mas bateu preguiça. Vai que me enfio ali e as duas acham que é assédio, o que, muito entre nós aqui nessa nova cabana, não seria assédio não. Seria o velho e bom tesão.com.br.

Um amigo, gigaintelectual, tem um Fusca 1982 na garagem de seu prédio, no Leblon. Ele me disse uma vez que o melhor carro do mundo é o táxi. Concordei. Quando vivia em Paris, anos 70 , ele tinha um Citroen 2 CV, xodó dos existencialistas. Foi ele quem me apresentou a Oscar Niemeyer na célebre tarde em que o mestre da arquitetura decidiu almoçar num restaurante no Flamengo, Rio.

Meu amigo estava na equipe que fez Brasília com Oscar e Lúcio Costa, mas nem por isso abre mão do jeans, dos óculos tartaruga, da eterna aparência sarada de 70 e varada anos de idade (acho que ele desligou seu taxímetro) e de Sartre, de quem também foi amigo.

Esses caras me mostram que esse papo de mundo obsoleto, obsoleto mundo é e sempre foi uma babaquice, mas lamentavelmente funciona ou a senha “se liga, se liga freguesia, celular é nas Casas Bahia” não teria se eternizado. Em 1976 eu estava no MAM, Rio, no velório de Di Cavalcanti. Cobertura para a Rádio JB AM.

De repente entra Glauber Rocha. Descabelado, com um outro cara com uma câmera Bolex de 16 mm. Maior escândalo. Glauber gritava “close na cara do defunto! Close na cara do defunto” e o cinegrafista praticamente trepava no caixão para arrancar o close da cara do Di Cavalcanti. As fotos de Ronald Theobald contam 60% dessa história.

Claro, fui falar com o Glauber que eu conhecia não sei de onde. Aos berros, olho pra mim e vociferou “esse aí....o Di... nunca pintou modelinho de revista. Esse aí...o Di, nunca acreditou em arte obsoleta como a minha. Não é isso que falam de mim...hein?!?!”, me perguntou, olhos arregalados. Nada respondi porque ainda não tinha chegado a uma conclusão sobre “Terra em Transe” e “Deus e o Diabo na terra do Sol” que assisti, sem camisa no Cinema Um na Prado Junior (Copacabana) que fez um Festival Glauber em 1975, por aí. Para não variar o ar condicionado do cinema estava pifado, para não variar a maioria dos homens estava sem camisa, e para não variar uns cinco ou seis estavam só de cueca, um hábito totalmente glauberiano que virou norma naquela sauna. 

No festival Bergman, e no Truffaut e no Cacá, o traje cueca começava a se transformar em maioria naquele templo do novo cinema na Pradão, rua de belas putas populares. Um dia, um homem que se dizia dono do Cinema, de terno, gravata e advogado a tira colo, entrou, mandou acender as luzes do cinema e expulsar os seminus. Ninguém saiu, as luzes apagaram e a sessão continuou. Enterraram o assunto. O cara sumiu. O advogado também.

O consumismo nasceu obsoleto porque já carecia de um novo modelo para faturar. O sujeito compra um carro, paga 70 mil, fica todo satisfeito e no semestre seguinte mudam o farol, as lanternas e o câmbio. É trocar ou perder 80% na desvalorização. Em semanas seu “último tipo” passa a condição de ultrapassado. Incomodado, o ex-feliz proprietário arranca sangue das vísceras e troca (perdendo um dinheirão) o “velho” por um novo que, seis meses depois sai de linha para dar lugar a um outro modelo. E por aí vai. Ladeira acima? Ladeira abaixo? Não sei. Não sou economista e muito menos veterinário para entender os pitís (não tem acento agudo no i) da sociedade emergente crônica.

Quando Lula era o estadista do Brasil e começou aquela conversa sobre compra de aviões de caça, o “muso” era o F-18. O Brasil comprou o Gripen, puro sangue da Suécia, "ilha" eterna e maravilhosamente pornô. Os americanos matavam com AR-15, mas os russos ensinaram a fazer fuzis maiores lançando o ultra fashion AK-47 que tem um jeitão meio vintage. Dêem uma olhada nele, atrás do inexistente Bin Laden. O AK é um fuzil autoral.

Segundo a Wikipidea foi inventado em 1942 por Mikhail Kalashnikov que morreu um dia desses, um jovem sargento das forças blindadas soviéticas que levou um balaço em 1942 e, no estaleiro, inventou o AK, arma de grife que os traficantes do Rio cultuam como a um disco de Belo, ícone do pagode e do narcotráfico consentido. Lembram que Belo foi preso dentro de um armário, em casa, cheio de armas e drogas anos atrás? Que fim levou essa ocorrência policial? Tornou-se obsoleta?

Enfim, é preciso estar muito atento e forte para não ceder a ditadura nada branda dos reaças que apregoam o estado obsoleto de ser. Até implantes dentários entraram nessa porque, dizem, o parafuso de titânio é melhor do que a coroa de ouro, li numa revista de inutilidades na antesala do meu dentista.


Será que um dia haverá homens e mulheres com a validade vencida? Por falar nisso, sabem o que um médico amigo me disse? Que os laboratórios estão reduzindo de propósito a vida útil dos remédios para que a validade vença logo e o consumidor tenha que comprar o modelito em voga, já que não existe antibiótico vintage. Mais: ele me disse que muitos remédios vem com 28 comprimidos porque os laboratórios sabem que o médico vai prescrever para 30 dias e o infeliz do consumidor, no comprimido número 28, terá que comprar outra caixa. É dose? Não, não é. Era.

O barraco mudo entre Bob Dylan e Joan Baez

                           
                                                      
Baez e Dylan

Tempos atrás recebi um texto com uma entrevista de Joan Baez (faz 73 anos dia 9 de janeiro) a um site de celebridades dos Estados Unidos onde ela toca num assunto que todo mundo achava que já estava mais do que resolvido: o seu rolo com Bob Dylan (73 anos em maio). Os dois se apaixonaram e ficaram juntos entre 1963 e 1965. Tempo pra caramba.

Baez parece não ter varrido plenamente Bob Dylan de suas memórias. Gozado é que quando ela esteve no Brasil, em maio de 1981, quando a ditadura a proibiu de cantar sob a alegação de que era subversiva, depois da entrevista coletiva no Rio ficamos conversando noite a dentro. Ela descasca bem um espanhol e lá pelas tantas falei de Bob Dylan. Ela ficou muda. E depois disse que não gostaria de tratar de assuntos mais desagradáveis do que as censuras brasileira, argentina e chilena; ela foi proibida de cantar também no Chile e Argentina.

No texto que recebi, ela diz que Bob Dylan foi dissimulado e levemente mau-caráter com ela. “Logo que nos conhecemos ele falava até em casamento, mas na semana seguinte ficava tocando violão, fumando haxixe e maconha, olhando para o teto como se eu não estivesse ali”. O curioso é que numa das vezes em que esteve no Brasil (quando se apresentou no antigo Imperator, no Méier, anos 90 eu acho), o cronicamente mal humorado Dylan, que não queria dar entrevista, saiu do carro andando em frente ao hotel e eu perguntei “about miss Joan Baez, what...”. Não passei daí. Ele parou e me torrou com o olhar. Seguiu em frente.

Um amigo meu, que não vejo desde os anos 80, grande conhecedor de música folk dizia que o caso de Dylan e Baez foi o velho “amor de pica, onde bate fica”. Eu sempre discordei dele porque a Joan, antes de namorar Dylan, era fã do cantor e a questão aparentemente não passava por ingredientes fálicos. 

Bom, fato é que ela não superou até hoje, apesar de inúmeras vezes ter sido vista sorrindo ao lado do músico em diversas ocasiões depois do barraco entre os dois. A reação dela na minha frente quando falei de Bob Dylan foi outra demonstração de que o cara deve ter feito uma lambança das grandes. Meu amigo me dizia, ainda, que Dylan fez de Joan tangerina, chupou e depois jogou o bagaço fora. Será? Não sei, mas que existe um tufão entre ela e ele, isso há.

Por falar em Bob Dylan e o segundo volume de suas “Crônicas”? Iam ser três livros, saiu um, muito bem traduzido pelo historiador Eduardo Bueno, mas o segundo e o terceiro volume, nada. Nem lá fora. O que terá acontecido? É. Esquisitão esse Bob Dylan mesmo.




quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Quando você diz que conhece alguém torna-se seu avalista

                           
                                                      

Texto restaurado e remixado

O cara é invejoso, rancoroso, provinciano, arrivista e, dizem as más (?) línguas um caloteiro, desses que não pagam a ninguém na maior cara de pau. Aí chega alguém e pergunta se você conhece o tal meliante. Você já o viu e até conversou com ele algumas vezes, mas por força de expressão acaba dizendo que “conheço sim”. Ferrou! Sem querer, virou avalista de um canalha. Melhor seria dizer, apenas, que “conheço de vista”, mas os hábitos da fala as vezes nos metem em roubadas.

Por uma questão cultural dizemos que “conheço” a quem vimos algumas vezes. Pior: em muitos casos estabelecemos relações pessoais e profissionais com pessoas que não conhecemos sem tomar o cuidado de pedir referências a terceiros. Os ingleses tem esse hábito. Só fazem negócios ou se relacionam com pessoas quando três, quatro ou cinco amigos de confiança confirmam que a tal pessoa é do bem, honesta e tudo mais.

Por exemplo: não conheço nenhum Babalu, apesar de um colega, que encontrei no catamarã, ter insistido em me mandar um “abraço do Babalu”. Sabe aquele sono eventual que bate depois do almoço, você entra num catamarã social vazio e fica ao sabor da brisa? Foi o que planejei naquela tarde.

Corta! Encontrei o conhecido na chamada “fila do gado”, aquela que o povão forma para entrar na embarcação. Como ele não lê esse blog, posso afirmar do fundo do coração: o cara é chato pra cacete. Mas, fazer o que? Ele se aproximou, colou em mim e sentou a meu lado.

E tome a falar do tal Babalu que, segundo ele, é meu amigo de infância. Mentira porque passei minha infância (três a nove anos) em Angra dos Reis, não havia nenhum Babalú e, de lá, todos os meus amigos se espalharam pelo mundo. Mas eu não estava a fim de discutir, apesar de ser rigoroso com esse papo de “fulano é seu amigo”. Não é assim.  Muitas vezes já me perguntaram “você conhece Fulano?”, e respondi, com elegância, “não, conheço só de vista”. Como disse lá em cima, dizer que conhecemos alguém nos transforma em fiadores existenciais do “conhecido”.

Não é o caso do sujeito que encontrei no catamarã que, de fato, sei quem é, mas saber quem é e conhecer são situações completamente diferentes. E quando o barco atracou no Rio, confesso que me deixei levar pela multidão e, propositalmente, me perdi do conhecido que me congestionou com uma overdose de palavras e frases soltas. Não agüentei ouvir tanta inutilidade pública e estava vendo a hora que ia pegar no sono no meio do monólogo dele.

Fui a uma reunião e, na saída, em frente ao Museu de Belas Artes, na Rio Branco, encontrei um leitor. Ele estava acompanhado da mulher, me apresentou e tal. Achei engraçado porque não o conheço e nem ele a mim, apesar de minhas crônicas e contos, eventualmente, abrirem o buraco da fechadura. O leitor estava satisfeito, cheio de “Fulaninha, esse aqui é o Luiz Antonio...” e a esposa, também constrangida, disse “muito prazer” e tudo ia muito bem até ele me perguntar para onde eu ia. Temendo que ele fosse para Niterói, sapequei um “vou até o Rio Comprido resolver uns assuntos”, quando ele rebateu “pois nós estamos indo para o Leme”.


Encerrado o encontro, quando inclusive me chamou de “amigão”, fui embora pensando. Pensando nessa profissão maluca que fabrica conhecidos pelo mundo e até amigos próximos sem que saibamos o que está acontecendo. Querem saber? No fundo, acho isso tudo sensacional.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Espíritos de porco enchem a internet de vírus

                           
                                                      
Texto restaurado e reeditado

Recebi hoje este e-mail de um grande amigo:

Nos próximos dias estejam atentos: não abram qualquer mensagem que contenha um arquivo anexo chamado:

"Atualização do Windows Live" independentemente de quem te enviar.

É um vírus que queima todo o disco rígido. Este vírus virá de uma pessoa conhecida que tem a tua lista de endereços. É por isso que deves enviar esta mensagem a todos os teus contatos.

Se receber alguma mensagem com o anexo "Windows Live Update", mesmo que seja enviado por um amigo, não o abras e desliga imediatamente o teu computador.

Este é o pior vírus anunciado pela CNN, e foi classificado pela Microsoft como o vírus mais destrutivo que já existiu.

Este vírus foi descoberto ontem pela McAfee.

Não há possibilidade de reparação para este tipo de vírus.

De onde surgiu a expressão espírito de porco? No portal Terra há uma explicação: no período da escravidão nenhum dos escravos queria ter a tarefa de matar os porcos nas fazendas.

Nessa época havia uma crença de que o espírito do porco ficava no corpo de quem o matava e o atormentava pelo resto de seus dias. Então, diz-se que quem comete crueldades está tomado por esse 'espírito malévolo'. A explicação está no livro “O bode expiatório”, do professor Ari Riboldi.

Meses atrás fui atacado mais uma vez por um poderoso vírus. Foi na página do Facebook. O cracker responsável postou a isca no meu mural dizendo “Luiz Antonio Mello, saiba quem visitou seu perfil no Facebook. Em seguida, um link.

Quem clicou no link teve a senha do Facebook (e outras) levada pelo cracker. O que fiz? Fui no mural e postei um grande aviso dizendo “não clique no link.” Espero que ninguém tenha caído, mas caso tenha ocorrido sugiro que passe o antivírus e desinstale o navegador, baixando de novo e reinstalando. Por exemplo, quem usa o Google Chrome deve desinstalá-lo, baixar de novo e reinstalar.

Uso computadores desde o final dos anos 80 e a internet logo no inicio, anos 90. Essa questão do vírus foi o meu contato com o lado escuro da informática. Com a chegada da internet os vírus se multiplicaram e, constantemente, éramos atacados por eles. A tecnologia foi aprimorando os antivírus e hoje é raro bater um vírus.

Esse episódio no Facebook me deixou zonzo porque mostra a sofisticação que os espíritos de porco chegaram. Eles invadiram a rede social (que eu julgava quase blindada) enviaram um “convite” meu para que as pessoas clicassem no link-armadilha. Só fui saber que estava “convidando” pessoas para a roubada quando vi o convite no meu mural.

Fulo da vida e assustado (afinal, tenho quase 5 mil pessoas na minha lista de “amigos” do FB) fiz um aviso para que ninguém clicasse naquilo, passei o antivírus na minha máquina, desinstalei e reinstalei o navegador (Google Chrome).


Faz parte do comportamento humano. Desde os primatas existe o espírito de porco. Hoje, em tempos de alta tecnologia, ele continua aí, mas algo me diz que, um dia, vamos derrotá-lo. Peço desculpas a quem caiu na cilada, apesar de não ter culpa nenhuma.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Fases e Frases de Natal

                           
                                                      

Coluna restaurada e reeditada

Curiosamente tive a minha primeira insônia deste 2013, justo no final. Quando já estava pegando no sono, comecei a sonhar que estava dirigindo um carro chinês, o que provocou um imediato sobressalto. Para mim (opinião não é palavrão) carro chinês é pesadelo.

Aí alguém vai perguntar “como é que você afirma se nunca teve um?” e rebaterei com o maior prazer “não tive e nem terei, porque além de ser montado com mão de obra escrava, o carro chinês é o que existe de pior nesse estranho mundo contemporâneo”.

Mas eu estava falando de texto de Natal. Gosto dessa minha birosca por várias razões, entre elas o fato dos leitores participarem ativamente deixando ali embaixo os seus comentários. Acho que cada um traz dentro de si um Natal diferente. Conheço pessoas que amam, outras que detestam.

O meu Natal é totalmente lúdico, tem neve, Papai Noel com trenó puxado por renas num céu azul-petróleo bem frio, crianças as gargalhadas fazendo guerra de bolas de neve e, claro, os sinais de Deus. Quais sinais? Não sei porque Deus sinaliza o tempo todo, de todas as formas, caminhos, descaminhos. Deus é Deus.

Ontem ouvi um cidadão dizer para a sua amiga/mulher/namorada/amasia/não sei, algo do tipo “acho o Natal uma boçalidade”. Não sou de me meter na conversa dos outros, mas por que uma boçalidade? Perguntei a mim mesmo enquanto caminhava perdido numa rua qualquer.

Nesse meu rápido rali à pé pelas cercanias do Humaitá (onde fui a uma festa de amigo oculto) notei, sim,uma euforia meio histérica nas pessoas, mas preferi valorizar as vitrines das lojas que, não sei se por coincidência ou por regulamento fashion, estão mais tradicionais. Numa delas, modernosa de janeiro a dezembro, havia até um presépio completo, com vários populares tirando fotos com seus celulares.

Lembrei ainda do enorme texto de Natal que escrevi ontem para publicar aqui no blog mas que, por razões que ainda desconheço (acho que a mão da auto-crítica estava pesada demais) acabei deletando. Lembro de cenas envolvendo flocos de neve, cachorros, crianças e pinheiros, ou seja, um cenário nada tropical.

Mas, é a tal história, da mesma maneira que o hemisfério norte do planeta jamais conseguirá fazer um carnaval como nós fazemos, nós aqui jamais conseguiremos concretizar o imaginário do Natal como eles conseguem. Por que? Cadê a neve? Cadê o frio? Cadê as renas? Cadê...enfim, cadê, entendeu?

Como disse, não sei quantos textos de Natal escreverei este mês. Mas é bom lembrar que, por trás do Natal, indústria e comércio gostam de alimentar a inflação. Por isso, compre somente o estritamente necessário porque, leio nos jornais de economia, estão especulando demais. Falarei sobre isso mais adiante. Fiquem com algumas reflexões natalinas.

Você não vai encontrar nessas frases nenhuma sacada genial, mas apenas o que alguns escritores, filósofos e pessoas anônimas sentiram e escreveram sobre o Natal. Uma data tão poderosa que só o silêncio da contemplação sabe explicar.

"Não existe o Natal ideal, só o Natal que você decide criar como reflexo de seus valores, desejos e tradições." (Bill McKibben).

"O Natal é um tempo de benevolência, perdão, generosidade e alegria. A única época que conheço, no calendário do ano, em que homens e mulheres parecem, de comum acordo, abrir livremente seus corações."(Charles Dickens)

"Natal é tempo de encontros e reencontros, procure ser e fazer feliz . É tudo o que importa!   (L. Bonotto)

"Será que diante de tantas evidências de felicidade seria utópico conseguirmos fazer do Natal uma data que se repetisse, trezentas e sessenta e cinco vezes por ano?" (Ivan Teorilang).

"Lembre-se, se o Natal não é achado em seu coração você não o encontrará debaixo da árvore" (Charlotte Carpenter).

"Ainda que se percam outras coisas ao longo dos anos, mantenhamos o Natal como algo brilhante. Regressemos à nossa fé infantil." (Grace Noll Crowel).

"A única pessoa realmente cega na época de Natal é aquela que não têm o Natal em seu coração." (Helen Keller).

"Há mais, muito mais, para o Natal do que luz de vela e alegria; o espírito de doce amizade que brilha todo o ano. É consideração e bondade, é a esperança renascida novamente, para a paz, para entendimento, e para benevolência dos homens." (Autor Desconhecido).

"Paz e generosidade e ter graça é compreender o verdadeiro significado de Natal." (Calvin Coolidge).

"Bendita seja a data que une a todo mundo numa conspiração de amor." (Hamilton Wright Mabi).

"É tempo de reflexão, vejamos o que construímos de bom para a humanidade e, em todo Natal, façamos esta reflexão para que possamos construir um mundo melhor." (Bruno Calil Fonseca).


domingo, 22 de dezembro de 2013

Faxina afetiva de final de ano

                           
                                                       
Estou fazendo uma faxina afetiva neste final deste 2013, especialmente em relação a um episódio de injúria e difamação que me atingiu uns anos atrás. 

O episódio me custou um amigo (o cara acreditou em quem me difamou) e alguns colegas. A maioria caiu em si, me pediu desculpas e eu, claro, relevei. Mas esse meu amigo permaneceu mudo.

Hoje de manhã mandei um torpedo (SMS) para o celular que acho que ainda é o dele. Mensagem extremamente sincera. Desejei feliz Natal e um 2014 com muita Saúde e Sucesso. Mandei a mensagem e, se o celular ainda for o dele, recebeu. Se não for ficarei sem saber.

Dizem que zerar o nosso “odômetro afetivo” faz bem a saúde e essa época do ano é muito propícia para isso. Felizmente, não há mais casos graves a serem resolvidos e revelados mas, ainda assim, prossigo na faxina. Quero entrar em 2014 totalmente certo de que fiz a minha parte.


Não vou aconselhar ninguém a fazer o mesmo porque cada um age de acordo com a sua vontade. E minha vontade, somente ela, me fez mandar o tal SMS. 

Espero que o destinatário leia e caia em si. Se não cair, lamento. Muito. Na certeza de que seguem a vida, os rumos e, sobretudo, a Justiça Divina.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Verão, estação de uma baranga chamada sensação térmica

                           
                                                         
Óleo sobre tela "Verão Carioca" de Christine Drummond

Texto restaurado e remixado

O verão oficial entrou em cena. Mais uma estação pirata no Brasil que abriga no calendário apenas duas estações: quente e muito quente. Eventualmente, no inverno, dá uma esfriada, o cheiro de naftalina dos casacos ganha as ruas, mas é muito breve e rápido. Nosso negócio é com o suor e ar condicionado e não com lareiras e cachecóis.

Todo mundo reclama do calor, mas o verão é adorado. Sempre foi. Até os últimos, quando as temperaturas passaram de 40 graus e os meios de Comunicação importaram dos Estados Unidos uma baranga chamada sensação térmica. Cheguei a ler nos jornais que no último verão a tal da sensação térmica bateu os 50 graus algumas vezes. Dei um Google ver como se mede a tal sensação, mas ao constatar que é uma equação de eficácia duvidosa, chutei pro alto.

Verão tem a seu favor algumas datas cruciais: Natal, Ano Novo e Carnaval. Daí a lenda de que o país entra em férias em dezembro e só volta a trabalhar na segunda-feira depois da quarta de cinzas. Mentira. Quer dizer (olha a elegância, rapá!), não é verdade. Brasileiro trabalha pra cacete. Em alguns países europeus como a Espanha, há 30% mais feriados (fora o ronco diário depois do almoço) do que aqui.

Verão é aeroporto de mitos. No topo da lista as praias do Rio. Durante séculos cariocas sacanearam paulistanos por causa de praias que, diziam, nós temos e os paulistanos não. Ouso informar que praia no verão carioca é virtual. Superlotadas, tomadas de flanelinhas, camada de ozônio furada, cachorros largando barro na areia, poucos são loucos de se aventurarem a um mergulho em Ipanema, Leblon ou na eterna Princesinha do Mar, minha amada Copacabana e seu amante inseparável, o Leme.

Como hoje todo mundo tem carro, milhões se deslocam de todos os pontos rumo as praias. Estimulados pela propaganda maciça de cerveja na internet, TV, jornais, rádios, revistas, enchem a cara. Muitos brigam. Mal intencionados fazem arrastões e num domingo apenas 20% conseguem curtir a chamada “praiana” sem se aporrinhar.

Em suma, na boa, sem provocações, os paulistanos são veranistas mais felizes porque, na certeza de que não tem praias, inventam piscinas, vão as represas, partem para dentro dos cinemas. É hora da revanche. Quem já passou um fim de semana em São Paulo (capital) sabe do que falo. Passei vários, quando trabalhei no Estadão e o que mais fiz foi me divertir, relaxar, ir a dezenas e dezenas de piscinas, cinemas, parques.

O penúltimo verão foi palco de um horror na região serrana do Estado do Rio. Aos que dizem que “aquilo já era esperado por causa da profusão de favelas”, peço um humilde peraí. Conheço a fundo a Serra dos Órgãos e, subindo para Teresópolis meses depois do dilúvio dava para ver dezenas de barreiras que formavam línguas de barro em áreas de vegetação nativa. Mas, é claro que a favelização (de ricos também) das encostas agravou mais. Fora isso, o péssimo hábito de construir em beira de riachinho romântico, saído de historinha tipo Alice no País das Maravilhas, que quando bate um toró de verão vira rio asfixiado que sai do leito detonando tudo e todos pela frente.

Verão lança modas. No último notei que muitas mulheres usavam calça jeans com uma espécie de saco na região, digamos, genital. Um copo de éter em qualquer libido. Como já escrevi aqui na coluna, depois da calcinha e do seu primo próximo, o biquíni de lacinho, calça jeans feminina é o que existe de mais sensual, mas os fazedores de moda puseram esse saco embaixo do zíper e deu no que deu.

Como em todo verão, meus colegas de grosso calibre saíram de férias. Jornais e revistas infestados de interinos, o que irritou muita gente. É no verão que as concessionárias de luz gozam com as contas astronômicas (des) graças o uso de ar condicionado. Cheguei a entrevistar um engenheiro que garantiu que quanto mais novo é o aparelho menos luz ele consome.

Só que é no verão que o desgoverno autoriza os aumentos de tarifas e nós, talvez por estarmos trôpegos de calor, nada fazemos. A última manifestação saudável de protesto contra a má qualidade de serviços foi em Piratininga, Niterói, anos 90. Consumidores apedrejaram uma subestação de energia.

Em suma, espero que todos vocês tenham um ótimo verão. Quanto as centenas (literalmente falando) de leitores que vivem na Europa, Ásia, Estados Unidos, espero que o inverno não seja tão complicado. E que surja um novo Albert Camus para escrever mais um “Núpcias, o Verão”, que releio ano sim, ano não. E você, nunca leu? Corra e compre.