quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

José Louzeiro: um democrata com vocação para o perigo - Texto de Antonio Ernesto Martins

Naquela segunda metade da década de 50, o sol escaldante do Rio de Janeiro ardia inclemente no firmamento da então capital do Brasil, enquanto um nordestino franzino caminhava pelo centro da cidade a caminho do trabalho. Suava em bicas. Não era para menos. A despeito do verão tropical que elevava a temperatura para perto dos 40º C, ele vestia três camisas por baixo do paletó. No entanto não era por maluquice que o fazia. Era a única estratégia encontrada para não ser roubado novamente na pensão de Botafogo onde havia alugado uma vaga, pouco depois de chegar ao Rio vindo do seu Maranhão.

Esse jovem era José Louzeiro e ainda não se podia prever que ele se transformaria em um dos maiores escritores do Brasil, pioneiro nacional do gênero romance-reportagem, autor de mais de 50 livros, 10 roteiros para longas metragens e três telenovelas para a TV.
Mas sua vocação para o perigo, seu interesse pela crônica policial, seu empenho na defesa das liberdades democráticas e sua fascinação pelo personagem delinquente já estavam presentes em sua alma quando ele chegou ao Rio de Janeiro em 1953. Veio fugindo do Maranhão para não morrer assassinado após a publicação de uma matéria sua no jornal O Combate onde denunciava um influente político por prática de tortura.

Filho de um pedreiro, Louzeiro conseguiu estudar em um colégio particular através de uma permuta que seu pai fez com a escola. Em troca dos reparos feitos no prédio o pequeno José ganhou bolsa de estudos e não demorou muito até que suas redações se destacassem nas aulas de português, chamando a atenção do diretor do colégio que o encaminhou para o poeta e membro da Academia Brasileira de Letras Corrêa da Silva. Este o recomendou ao chefe da redação do jornal O Imparcial. Assim Louzeiro ganhou seu primeiro salário como aprendiz de revisor.

Seu trabalho consistia basicamente em ler e dessa forma mergulhou na obra de grandes autores maranhenses através do suplemento de literatura do jornal. Após 2 anos na função de aprendiz tornou-se repórter policial. Sobre o motivo que o levou para esse campo de trabalho, declara:
“Sempre achei o delinquente fascinante. Tudo explode nele com muita intensidade, exaltação. Ele é capaz de praticar o crime e chorar quando é condenado. Mata sem motivo... Investigar isso era o que me atraía e ainda me atrai.”

No Rio de Janeiro, inicialmente foi trabalhar como datilógrafo em uma empresa de máquinas gráficas de segunda mão, pois achava que ali teria contato com pessoas ligadas às redações de jornais e seu plano deu certo. Conseguiu uma vaga de boy na Revista da Semana passando em seguida para redator publicitário. Daí em diante sua carreira como jornalista deslanchou e em 56 ele foi para o Jornal Luta Democrática. Trabalharia também no Diário Carioca, Última Hora e O Correio da Manhã, onde permaneceu por oito anos.

Em 58 vendeu sua máquina de escrever para custear despesas com a publicação de seu primeiro livro, Depois da Luta, pela Editora Simões. Durante a ditadura foi censurado e preso junto de outros companheiros do Correio da Manhã como Carlos Heitor Cony e Álvaro Mendes, entre outros. Perseguido pelos militares decidiu se esconder em Brasília.
“Aprendi, com os anos de reportagem policial que o melhor lugar para se esconder é ao lado da polícia. Por isso fui morar em Brasília, em um prédio na Asa Norte, no qual o síndico era coronel do exército. Mas ele me adorava! Até descobrir quem eu era. Tive que fugir novamente.”

Mudou-se então para a capital paulista e conseguiu um emprego na Folha de São Paulo onde fez uma matéria sobre uma chacina promovida pela polícia que jogou vários meninos considerados infratores do alto de um precipício.  Alguns sobreviveram e Louzeiro os entrevistou. Dessa extensa matéria, a censura autorizou a publicação de apenas 30 linhas.

De volta ao Rio escreve o livro Infância dos Mortos que conta os detalhes de sua investigação sobre esse caso e que serviu de argumento para o filme “Pixote – A lei do Mais Fraco” de Hector Babenco. A partir daí o trabalho de Louzeiro não para mais de se embrenhar pelo cinema nacional e outro filme, também de Babenco, alcança grande sucesso baseado em um livro de Louzeiro: “Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia”. O livro conta a história do bandido Lúcio Flávio Vilar Lyrio que, perseguido pelo grupo de extermínio Esquadrão da 

Morte em plena ditadura militar, é preso e morto a facadas na cadeia.
Crítico contundente das arbitrariedades do poder, José Louzeiro escreveu duas novelas de grande sucesso para a extinta TV Manchete; Corpo Santo e Guerra Sem Fim, nas quais os bastidores do crime e da corrupção estavam presentes de maneira real e ousada. Sua terceira novela, O Marajá, era baseada no governo de Fernando Collor de Melo e foi proibida de ir ao ar, apesar de nessa época a censura não existir mais no país. Desde então não conseguiu mais trabalho na TV.

Entre seus livros mais famosos também está Aracelli, Meu Amor que conta o estupro e assassinato de uma menina de 9 anos e denuncia o envolvimento de duas famílias poderosas do Espírito Santo, o que lhe rendeu mais algumas ameaças de morte. Escreveu também inúmeras biografias como a da cantora Elza Soares, da enfermeira baiana Ana Nery e a de Gregório Fortunato, braço direito de Getúlio Vargas.

Prestes há completar 82 anos, Louzeiro está debruçado sobre seu novo projeto de uma autobiografia romanceada, enquanto luta bravamente há mais de 8 anos contra a diabetes que lhe ocasionou algumas amputações como a da perna direita, de parte do pé esquerdo e de alguns dedos da mão. A partir de sua batalha contra a doença, Louzeiro escreveu em 2007 Diabetes: Inimigo Oculto.

Além de sua produtiva militância a frente do sindicato dos escritores, Louzeiro também é responsável pela iniciação e capacitação de diversos roteiristas que hoje estão atuando no mercado audiovisual brasileiro e que passaram pelos bancos de suas turmas da oficina de roteiro que ele ministrou por vários anos. Eu sou um deles e, ouvindo as histórias e causos desse maranhense, aprendi a admirá-lo. Foi baseado em uma história sua vivida na redação da Ultima Hora que escrevi o roteiro de meu primeiro curta metragem.

Agora, passados tantos outros, me preparo para meu próximo filme que será um documentário sobre esse bravo brasileiro que não temeu transitar pelo submundo da bandidagem para de lá extrair histórias reais com odores de romance, não aceitou as versões oficiais, não se curvou diante da ditadura e da censura e agora, não se intimida diante da diabetes. Uma História que precisa ser contada - para novas e antigas gerações - em romance, em reportagem, em cinema.·.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Quando você diz que conhece alguém torna-se seu fiador moral

Texto restaurado e remixado

O cara é baba-ovo, invejoso, rancoroso, arrivista e, dizem todas as más línguas, as más inclusive, é um caloteiro, desses que não pagam a ninguém na maior cara de pau. Aí chega alguém e pergunta se você conhece o tal meliante. Você já o viu e até conversou com ele algumas vezes, mas por força de expressão acaba dizendo que “conheço sim”. Ferrou! Sem querer, virou avalista de um canalha. Melhor seria dizer, apenas, que “conheço de vista”, mas os hábitos da fala as vezes nos metem em roubada.

Por uma questão cultural dizemos que “conheço” a quem vimos algumas vezes. Pior: em muitos casos estabelecemos relações pessoais e profissionais com pessoas que não conhecemos sem tomar o cuidado de pedir referências a terceiros. Os ingleses tem esse hábito. Só fazem negócios ou se relacionam com pessoas quando três, quatro ou cinco amigos de confiança confirmam que a tal pessoa é do bem, honesta e tudo mais.

Por exemplo: não conheço nenhum Babalu, apesar de um colega, que encontrei no catamarã, ter insistido em me mandar um “abraço do Babalu”. Sabe aquele sono eventual que bate depois do almoço, você entra num catamarã social vazio e fica ao sabor da brisa? Foi o que planejei naquela tarde.

Corta! Encontrei o conhecido na chamada “fila do gado”, aquela que o povão forma para entrar na embarcação e posso afirmar do fundo do coração: o cara é chato pra cacete. Mas, fazer o que? Ele se aproximou, colou em mim e sentou a meu lado.

E tome a falar do tal Babalu que, segundo ele, é meu amigo de infância. Mentira porque passei minha infância (três a nove anos) em Angra dos Reis, não havia nenhum Babalu e, de lá, todos os meus amigos se espalharam pelo mundo.

Mas eu não estava a fim de discutir, apesar de ser rigoroso com esse papo de “fulano é seu amigo”. Não é assim.  Muitas vezes já me perguntaram “você conhece Fulano?”, e respondi, com elegância, “não, conheço só de vista”. Como disse lá em cima, dizer que conhecemos alguém nos transforma em fiadores existenciais do “conhecido”.

Não é o caso do sujeito que encontrei no catamarã que, de fato, sei quem é, mas saber quem é e conhecer são situações completamente diferentes. E quando o barco atracou no Rio, confesso que me deixei levar pela multidão e, propositalmente, me perdi do conhecido que me congestionou com uma overdose de palavras e frases soltas. Não agüentei ouvir tanta inutilidade pública e estava vendo a hora que ia pegar no sono no meio do monólogo dele.

Fui a uma reunião e, na saída, em frente ao Museu de Belas Artes, na Rio Branco, encontrei um leitor. Ele estava acompanhado da mulher, me apresentou e tal. Achei engraçado porque não o conheço e nem ele a mim, apesar de minhas crônicas e contos, eventualmente, abrirem o buraco da fechadura. O leitor estava satisfeito, cheio de “Fulaninha, esse aqui é o Luiz Antonio...” e a esposa, também constrangida, disse “muito prazer” e tudo ia muito bem até ele me perguntar para onde eu ia. Temendo que ele fosse para Niterói, sapequei um “vou até o Rio Comprido resolver uns assuntos”, quando ele rebateu “pois nós estamos indo para o Leme”.


Encerrado o encontro, quando inclusive me chamou de “amigão”, fui embora pensando. Pensando nessa profissão maluca que fabrica conhecidos pelo mundo e até amigos próximos sem que saibamos o que está acontecendo. Esquisito pra caramba.

Marca D´água, meu segundo livro, traz as marcas de adolescência e da afirmação de uma mulher que se tornou escritora visceral. Artigo de Cristina Lebre.


“Marca d'Água" é o meu segundo livro, recém-saído do forno, e que traz agora, além de poemas, as minhas primeiras aventuras no mundo dos contos. Está à venda em www.biblioteca24horas.com .  

Quando meu amigo Luiz Antonio Mello me convidou pra apresentar o "Marca d'Água" aqui na Coluna do LAM eu senti, na mesma hora, um misto de felicidade com medo, de gratidão a Deus e ao meu amigo de mais de trinta anos com uma responsabilidade enorme de publicar um artigo nesta tão incrível e brilhante coluna. Brilhante porque o texto de Luiz Antonio é sempre brilhante, rascante, salgado, sarcástico, certeiro, um "solo" de literatura, se a gente for comparar com um solo de um Mark Knopller ou de um Eric Clapton, grandes guitarristas do muito amado e compartilhado durante toda a nossa vida, o genuíno rock'roll.

Voltando ao "Marca d'Água", é muito incrível, é quase inacreditável constatar que a Cristina Lebre, uma poetisa desde a adolescência, chega à década dos cinquenta lançando seu segundo livro, neste país onde tantos carecem de tanto.  O primeiro "rebento" literário, "Olhos de Lince", foi lançado no mercado muito timidamente em 2008, e ficou meio esquecido até 2011, quando a autora aqui resolveu mergulhar no universo da poesia e dos poetas, começou a frequentar os saraus e lançamentos, e descobriu um mundo mágico onde centenas de artistas se reúnem frequentemente pra divulgar sua arte.  Daí pra frente a Cris Lebre não parou mais.  Lançou "Olhos de Lince" no Corujão da Poesia, sarau comandado pelo grande ativista cultural João Luiz, o João do Corujão, no Brinde à Poesia da poetisa mor desta capital fluminense Lucília Dowslley, que há 15 anos dedica sua vida a lançar poetas e músicos do total anonimato para um reconhecimento comercial, e não parou mais.

Assim, enquanto "Olhos de Lince" contem poemas escritos desde a minha mais pura adolescência apaixonada, mas também já preocupada com a condição humana e o desequilíbrio nas relações sociais e políticas, o "Marca d'Água" foi produzido em um tempo curto, apenas dois anos, mas dois anos de grande vivência com a poesia, fantásticos poetas e muita inspiração, pois quanto mais se lê mais se escreve, e melhor se escreve.

"Marca d'Água" tem ainda a marca da crédula poetisa adolescente, mas se mescla com uma atual ousada escritora que externa seus sentimentos, pensamentos, sensações e devaneios de forma lírica, mas também, em muitos textos e poemas, revela de maneira surpreendente sua maturidade em constatações dramáticas sobre a condição humana, o amor e a morte, a crença inabalável em Deus e a homenagem à natureza em seu mosaico de matizes de cores.

“Marca d’Água” mostra ainda um lado muito mais impessoal da autora, que inventa personagens tanto na poesia quanto na prosa, como em "A moça da casa amarela" e " O andarilho" , (poemas), e nos contos e prosas poéticas " A mulher dos saltos", " Neno" e " O lago".
Em todo o livro, no entanto, a emoção está presente.  A “Marca d’Água” de Cristina Lebre é sua lágrima sempre corrente na face, seja diante da pureza da criança, seja no mirar do pólen de uma flor. E é dessa forma que a autora pretende tocar os corações sensíveis, ou os nem tanto, mas que, num poema ou outro, identifiquem-se, em algum momento, com a transparência das emoções humanas, provocando no leitor um respirar fundo, lento e atingido em cheio pela leitura de seus versos e prosas. 


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Crack : Nada é tão ruim que não possa piorar. Artigo de Antonio Ernesto Martins

Com o lançamento de meu livro “Sacudindo o Pó da Estrada” e de meu filme “O Brilho”, tenho participado de palestras, seminários e debates que abordam a questão das drogas, já que essas duas obras tratam através de linguagens distintas desse mesmo tema, tão presente na pauta de nossa sociedade. Passados quatro anos nos quais me dediquei a pesquisar esse assunto a partir da minha experiência pessoal no vício, o desafio de tentar entender o uso e o abuso de drogas ainda me fascina e me provoca diversas reflexões.

Desde os primórdios da civilização a humanidade se relaciona com algum tipo de droga ou alucinógeno, seja em suas atividades místicas ou religiosas, seja em rituais ou costumes tradicionais. A partir do movimento da contracultura dos anos 60, o consumo de drogas tomou ares revolucionários e de contestação, criando vínculo e afinidade com a juventude que possui em sua essência essas mesmas características.

No Brasil, nessa mesma época, imperava a ditadura militar que com seus aparelhos repressivos inibia qualquer tipo de rebeldia ou de transgressão. No entanto, a despeito das inúmeras políticas de prevenção e de combate às drogas, deflagradas no mundo inteiro, o consumo e a produção continuaram aumentando vertiginosamente dentro e fora de nosso país. No final dos anos 70, com a abertura política, a anistia, o movimento pelas diretas e os ares de liberdade que voltavam a soprar por nossas terras, cria-se um cenário propício para a ampliação da distribuição de entorpecentes e entra em cena de maneira mais abrangente uma droga que, até então, se mantinha elitizada nas classes mais altas e em alguns segmentos artísticos de vanguarda: a cocaína.

Insuflada no rastro da onda “disco” que varreu o mundo, a cocaína baixou de preço, aumentou sua oferta e ofereceu aos consumidores outro tipo de “viagem”. Uma droga urbana, “nervosa”, extremamente compulsiva e inquieta que, de modo devastador, alterou a rotina dos jovens consumidores e até mesmo a dos traficantes que a comercializavam, através de seus efeitos antissociais que inibem não só o sono ou a fome, mas também as relações de ternura e as conexões com a espiritualidade.

No início dos anos 80 os jovens entre 17 e 25 anos, entre eles eu, que tinham passado sua infância e adolescência, amordaçados pelo estado ditatorial, já podiam montar suas bandas de rock e seus grupos de teatro, externando suas opiniões e críticas a uma sociedade extremamente injusta e hierarquizada. Nesse cenário a cocaína conquista diversos adeptos com a falsa promessa de uma disposição inabalável e um vigor prazeroso e contínuo, que camuflam seu alto poder de criar dependência. Eu fui um dos cooptados.

No meio disso tudo, um enorme conflito se estabelece. Um conflito certamente inerente à natureza humana e travado desde os tempos mais remotos: o conflito do homem com ele mesmo. Potencializado no conflito do viciado, que vê rapidamente sua vontade própria se esvair e mergulha numa rotina de escravidão e degradação existencial. Como isso ocorre, como é feita essa escolha diariamente, como se comporta essa mente que percebe que está se prejudicando, mas ao mesmo tempo não consegue conceber sua vida sem a droga são perguntas que ainda hoje estimulam diversos estudos e pesquisas e que, muito recentemente, conseguiram inserir no debate da sociedade a ideia da “dependência química” como uma doença e não como uma deficiência de caráter. No entanto uma significativa parcela da população ainda encara o problema sobre a ótica tradicional que marginaliza e criminaliza o usuário.

Muitas outras questões ainda permanecem obscuras e suas complexidades se acentuaram com a chegada de novas drogas, as sintéticas e principalmente o crack, e com o amplo debate mundial em torno da descriminalização e da legalização das drogas hoje consideradas ilícitas. Debate esse movido pela constatação do total fracasso da chamada guerra contra as drogas, deflagrada no planeta sob o comando dos EUA.

No Brasil a partir dos anos 90, as crackolandias, inicialmente em São Paulo e depois no Rio de Janeiro, estampadas nos jornais e na TV revelam imagens fortes de grupos de viciados que se reúnem a luz do dia e a vista dos passantes para consumir essa droga derivada da cocaína. O crack oferece a mesmas sensações da cocaína através de sua combustão e da absorção através dos pulmões, potencializando sua ação e tornando o consumidor viciado em um curtíssimo espaço de tempo. Seu baixo preço também é fator primordial para a difusão da droga entre os pobres e o quadro de dependência dessa droga é de dificílima reversão. Para aqueles, como eu, que acreditavam ter conhecido na cocaína o estágio máximo da escravidão provocada pelas drogas, o crack chega para provar que nada é tão ruim que não possa piorar.

Atualmente o crack é considerado por muitos uma epidemia no Brasil e seus efeitos nefastos alcançam o interior dos estados, as pequenas cidades e as periferias com a mesma agilidade que vitimam também os condomínios de classe média alta das grandes capitais. A necessidade da droga que passa a pautar o comportamento do dependente leva-o a se desconectar de maneira radical de seus laços afetivos e psicossociais, infringindo perdas significativas. Rapidamente o usuário está incapacitado de cumprir seus papeis sociais e se sente impelido em frequentar esses grupos que se reúnem para o consumo diário e compulsivo da droga.

O crack expõe de maneira ostensiva aos olhos da sociedade contemporânea o antigo problema da dependência química e torna visíveis aqueles seres invisíveis aos olhos de uma população que ajuda a produzi-los.  Na lógica invertida dessa mesma sociedade é a droga e seus consumidores as causas dos problemas sociais. No entanto, percebemos ao nos aproximarmos dessa população de usuários, a repetição do padrão de histórias de ruptura de laços de solidariedade, de desintegração familiar, de segregação social e econômica, de incapacidade de inserção nos apelos consumistas e diversos outros fatos geradores que pré existem a droga e criam os espaços vazios propícios para a utilização da mesma como balsamo reparador de tantas amarguras. A partir da droga cria-se uma identidade e uma rede de vínculos recíprocos que parecem amenizar a vida desses cidadãos que foram barrados na festa do capital e do consumo e não foram tratados como cidadãos pelo estado e pela própria sociedade que os recrimina.

Os motivos que levam um indivíduo a se tornar dependente ou não de alguma substância ou comportamento são inúmeros e diversificados, variando em combinações de acordo com o sujeito, sua história de vida ou o ambiente que o cerca. Acredito que é hora de mergulharmos nesse desafio de entender e desvendar as causas e o mecanismo de construção de um dependente ao invés de simplesmente demonizarmos as drogas e colocarmos na conta dos dependentes os problemas sociais que nos afligem.

O patrocínio a pesquisas sérias no campo da neurociência que possam definitivamente esclarecer o impacto real de cada substancia no cérebro humano e suas consequências também são urgentes, para desconstruir mitos e tabus e pautar agendas qualificadas de discussão pública. Iniciativas humanizadoras como a implementada recentemente pelo programa “Operação de Braços Abertos” da prefeitura de São Paulo são louváveis, apesar da desastrosa e estranha ação do Denarc.

Como vemos, esse é um assunto que está longe de obter um consenso e os questionamentos e reflexões tanto na esfera pública como particular necessitam se despir de conceitos estabelecidos previamente para poder atacar o núcleo duro da questão.




domingo, 26 de janeiro de 2014

Absurdos do capitalismo cão: inspirado em Zélocs, musa da lambança ampla, geral e irrestrita

                                                

Texto restaurado e remixado.
- Serviço de Atendimento ao Consumidor, atendente Zóda, boa tarde.
- Zenhora, meu nome é Zulvo, zou indiano com apenas 50 anos no Brasil. Meu zelular não está mandando torpedo.
- Senhor, vou transferi-lo para a central técnica.
- Central técnica, atendente Zênis, boa tarde.
27 minutos depois.
- O zenhor entendeu?
- Entendi, senhor. Qual é o modelo de seu aparelho?
- É um Ziemens modelo....não está escrito.
- Senhor, por favor abra a tampa, retire a bateria e veja o número que está colado no fundo.
- Mas ze eu retirar a bateria a ligazão vai cair.
- Senhor, ligue de um outro aparelho e com a bateria retirada veja o número. Ligue de novo, por favor.
- SAC, atendente Hânus, boa noite.
38 minutos depois.
- Então foi izzo que expliquei.
- Senhor Zulvo, vou transferir para a central técnica.
- Central técnica atendente Ziroca, boa noite.
37 minutos depois.
- Em zuma é isso...
- Senhor Zulvo, qual é o modelo do aparelho?
- Não conzigo abrir a tampa. Ezza coisa está colada.
- Quando retirar a tampa ligue novamente. Agradecemos seu contato.
- SAC bom dia, atendente Zaralho Zosta e Zilva.
35 minutos depois.
- Foi isso...tive que usar uma zerrinha chamada tico-tico.
- Então o senhor destruiu o telefone.
- Não, senhor Zaralho. Com o tempo adquiri o jeitinho brasileiro. Está aqui, modelo 3320.
- Senhor, esse modelo está fora de fabricação.
- O que fazo então?
- Senhor, não posso dizer porque essa ligação está sendo gravada.
- Eu também estou gravando a ligazão. Jeitinho brasileiro.
- Senhor, vou falar rápido e desligar. Estou com pena do senhor. Faz o seguinte: entre numa sala de bate bapo na internet, 30 a 40 anos, Rio de Janeiro, que tem sempre alguém com celular 3320 lá. Fui.
8 minutos depois.
- www.uol.com.br. Zobo/RJ.
- Loba Gostosa - Oi lobinho, você mora aonde?
- Em Niteroi. São Lourenzo dos Índios. Entrei aqui pra ver ze alguém tem zelular Ziemens modelo 3320. Usei o nick Zobo porque todo mundo usa Zobo.
- Não é zobo seu imbecil, é lobo rsrsrsrsrsrs.
- Mas eu zou indiano, escrevo com zotaque.
- Você é criativo hein? rsrsrsrsrsrsrsrs armar esse negocio de modelo de celular só pra eu te dar o meu.
- Zorra, não é izzo, Zoba....
- Se você não fosse o canalha que é, patife, mau caráter, escroto, eu até daria.
- Não zou nada dizzo sua ziranha, zalinha, zaca.
- É sim. Seu nome não é Zulvo?
- É, e daí?
- E daí que você me comeu e me largou seu zuto.
- Eu ?????????
- Eu teclo com você quase todos os dias, seu moleque. Nós fizemos amor e você sumiu.
- Mas quem é vozzê? Eu entrei aqui pra falar de zelular.
- Você sabe quem sou. Tchau moleque.
(UOL - Loba Gostosa sai da sala...)
- Zamires, zou eu. Resumindo é isso. Até de patife me zamaram naquela zala de bate papo. Zaí daquele negocio de bate papo e quero resolver o problema do zelular.
- Zulvo, você sabe que é meu irmão, mas agora estou me zodendo todo.
- Desculpe, não queria atrapalhar. Mas é que voze conhece todo mundo.
- Zulvo, estou preso na vistoria do Detran. Quatro mil de multa de pardal, extintor descarregado, a bateria caiu.
- Como é que voze conzegue falar no zelular zem bateria, Zamires?
- Não é a bateria do celular. É a do carro, zazaca. Mas, fala aí. O que aconteceu? Em sala de bate papo até filha de 30 anos me arranjaram. Aquilo é o maior caô.
- Vozê mexe com Procon e tal. Como é que faço pra botar o torpedo do celular pra funzionar...tô nervozzo, o zotaque aumenta.
- Qual é a marca e o modelo?
- Ziemens 3320.
- Hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha.
- Zorra, eu aqui na maior zerda e você ri?
- Tó rindo porque esse zagalhão explode assim que começa a parar de mandar torpedo. 3320 é uma zerda. ahahahahahahahahahaha
- E você ri?
- Tem que rir, Zulvo. Tem quer rir. Izzo aqui (zorra eu sempre pego zeu zotaque) é a maior zona. Zega o telefone e joga num lugar cheio de gente que não presta e deixa explodir. É só deixar num lugar e telefonar pra ele. Ele explode. Tchau.
- Zom dia, aí é loja da operadora de zelular?
- É sim. Boa tarde, atendente Zuruba.
- Fiquei 24 horas tentando resolver ezze problema, fora as seis horas aqui na fila.
- Hummmm. Zrêlo, vem cá. Esse senhor...
- O senhor se importa em deixar o aparelho aqui?
- Não, senhor Zrêlo. Até logo e obrigado.
- Zamires, tô no orelhão. O zelular está lá na loja.
- Tem zaranga na loja?
- Zem.
- Então pára...não liga não....criança me emociona muito e zaranga tá sempre com criança. Pára.... estou em prantos e zendo enzabado no Detran.
- Mas, Zamires, eu já liguei. Fui.



sábado, 25 de janeiro de 2014

Relógio Biológico: já tentei acertar o meu para ficar mais próximo da lânguida rotina da humanidade

* Texto de meu livro “Torpedos de Itaipu”, 1995, editora Artware.

São exatamente 2 e 14 da madrugada quando acordo mansamente, sem sobressaltos. Como se fosse seis da manhã para um triatleta. Rondo pela casa, ligo a TV e compro um travesseiro num programa de vendas pelo telefone. 

Segundo o anúncio, o tal travesseiro é um néctar de espuma, capaz de corrigir todos os problemas de ansiedade. O locutor diz que com esse travesseiro temos um sonho “reparador”. Só não prometeu que acordamos ao som de canários belgas porque a empresa fica em São Paulo. Garantiu que quem não ficasse satisfeito com o travesseiro teria seu dinheiro de volta.

Os caras são craques. Duas e 14 de um dia de semana é o momento ideal para veicular um anúncio de travesseiro. Liguei, passei o número do cartão de crédito e a mocinha encrencou. Queria colocar Niterói como cidade do interior do estado, o que significava que eu teria que buscar a encomenda no correio. 

Expliquei a paulistinha que Niterói fica, de barca, a oito quilômetros do centro do Rio. Ela não entendeu, coitadinha, e acabei comprando o travesseiro assim mesmo. Vou buscar na agência de correios mais próxima, que nunca é próxima, quando chegar.

Tem gente que fica muito angustiada quando acorda no chamado “meio da noite”. Como para mim é rotina, não sinto nada. Apenas a calma da madrugada, telefones mudos, e-mail calado, tanto que já escrevi até aqui se interrupção.

Já li e ouvi muito sobre o chamado relógio biológico. Aparentemente durmo mal, mas uma vez li numa revista de ante-sala que o tipo de sono que tenho se chama “flash”. Durmo e acordo várias vezes. De fato não é tão bom quanto o sono sem escalas, aquele que você deita a meia noite e acorda as oito na mesma posição. Mas o fato das comunicações estarem a minha disposição de madrugada me trouxe esse vício. Posso dar um giro pela internet sem ser importunado, sapatear nos satélites, conversar com o Congo. De madrugada tenho a sensação de que posso fazer tudo porque tudo funciona.

Meu relógio biológico é oportunista e prático. Em geral durmo cedo sexta e sábado para atravessar o dia seguinte na praia. E praia vou o ano inteiro porque concluí que não existem praias feias com chuva, com tempo nublado ou em plena tempestade. As praias são lindas de qualquer jeito. Em Itaipu quando chove e o vento trás aquela bruma branca ela parece com a costa da Escócia, que conheço via cinema. Nos dias frios, de céu azul profundo, lembra a Indonésia. Já sob densa tempestade lembra a capa de “Love Over Gold”, um dos grandes discos do Dire Straits. É por isso que tenho certeza de que Itaipu é a mais gostosa das filhas de Ryan.

Não sei se o fato de trabalhar 13 horas por dia interfere no meu relógio biológico. Há quem diga que isso é estresse. Só que eu nunca estou estressado, eu sou estressado. Gosto de trabalhar sob pressão, do desafio dos prazos, e quando perdi meu primeiro computador, cuja placa-mãe derreteu por causa de não sei o que, fantasiei algo do tipo “nem os computadores resistem a mim...o ". Quanta babaquice.

Uma vez disseram que sou masoquista, que despendo muita energia, etc. Só que, em 1985, experimentei ficar sem fazer nada durante três meses. Larguei tudo. Em menos de 20 dias estava de volta ao jornal, de joelhos, pedindo perdão. Nunca me senti tão mal na vida. Dormia o dia inteiro, comia pouco, tinha sonhos melancólicos, porra que depressão! Isso sim é masoquismo. No dia em que levantei para voltar ao jornal, fui fazer a barba e vi, no espelho, que estava com aquele semblante típico dos “à toas”. O suor cheira a naftalina, a cobertor das Casas Pernambucanas.

É evidente que não pretendo fazer apologia do sono “flash”, da popular e temida insônia. José Maria Monteiro de Barros (saudade desse meu amigo) me fez observar com calma aves e mamíferos. Fora as criaturas da noite, todos se recolhem no crepúsculo e se levantam na alvorada. Leio na enciclopédia do Guiness que os primeiros homens dormiam cedo e acordavam cedo. O que me assustou no texto foi a média de vida deles: 17 anos.

Essa lenda de relógio biológico só deve ser terrível para as pessoas que não gostam de dormir de dia ou sofrem amargamente com a solidão. Quem vira uma noite, no início da carreira, tem que se habituar com dois sons altamente depressivos: 1) Caminhão de leite; 2 ) Canto dos pardais e bentevis. Já quem convive mal com o dia e ama a noite é obrigado a engolir outros dois sons, também tristíssimos, de fim de tarde: 1) Canto de cigarra; 2)Sirene de obra informando que o acabou o expediente. É horrível.

Já tentei acertar meu relógio biológico para ficar mais próximo da lânguida rotina da humanidade. De 1974 a 1976 trabalhei no horário das 5 da manhã ao meio dia. Rádio tem dessas coisas. Uma ótima oportunidade para acertar o tal relógio. Não deu. Chegava em casa, tomava um banho, almoçava e dormia até as seis da tarde. A noite ia para a gandaia, ou para a faculdade, que na verdade eram a mesma coisa. Mas pouca coisa foi pior do que uma noite em que acordei as 3 horas numa pousada na serra da Bocaina, sem luz, sem livros (ler à luz de velas é terrível) e, ainda por cima, chovendo. Confesso que sofri. Sofri mais ainda com o barulho de um rio que me deixou alucinado, com uma estúpida vontade de desligá-lo. Não tem jeito. Sou bicho do mar mesmo.

Em suma, o relógio biológico não é atômico e muito menos um Rolex. O meu é um paraguaio, desses de camelô. E com licença que já são quatro da matina e preciso rever “O Pequeno Grande Homem” no DVD. Um filmaço!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

“1973- o ano que reinventou a MPB” merece se tornar um best seller

O livro do produtor musical Célio Albuquerque, lançado ontem (centenas de pessoas) na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, merece se tornar um best seller por vários motivos, a começar pela grande ideia de reunir 50 ensaístas (entre eles, muito honrado, eu) que escreveram 431 páginas sobre os discos de MPB mais importantes lançados no emblemático ano de 1973.

“1973- o ano que reinventou a MPB” foi lançado pela Sonora Editora, do pesquisador musical Marcelo Fróes e, para mim, é leitura obrigatória para quem se interessa por música brasileira de qualidade. Digo que a obra vai ser, sim, um best seller por tudo o que ouvi das quase 500 pessoas que lotaram a livraria na noite de ontem (entre elas Moraes Moreira, Roberto Menescal, João Donato). Mais: o livro chega num momento especial, difícil, complicado, bizarro da música brasileira que está assolada pela molambalização, baixaria e outros conceitos ainda menos dignos.

Lembrar de épocas como 1973 foi uma grande sacada do Célio, um viciado em qualidade como todos os ensaístas que estão à bordo deste livro, que conseguiu reunir na Travessa os melhores jornalistas musicais do Rio (e do país). Ou seja, a necessidade de ouvir ou de relembrar bons momentos, faz de “1973- o ano que reinventou a MPB” uma iguaria necessária nesses tempos de fome de qualidade que estamos vivendo.

Fiquei feliz em encontrar leitores que não conhecia e para quem autografei o livro. Não só eu, mas evidentemente o Célio Albuquerque, Nélio Rodrigues, Pedro Só e outros articulistas que deixaram na obra o seu testemunho. 
Testemunho de um tempo que mostrou que é permitido criar, ousar, delirar, surfar as ondas da qualidade musical, sem medo, sem jabá, sem baixaria.

Célio Albuquerque está de parabéns pela organização do livro, cujos textos são extraordinários. Marcelo Fróes merece aplausos por ter colocado a sua Sonora editora à frente deste ousado movimento (sim, o livro é sobre um “movimento” com nome de ano, 1973), em tempos de arrego editorial.


Best seller. “1973- o ano que reinventou a MPB” está “condenado” a se tornar um, apesar de não ser de autoajuda ou de baixa literatura. Valeu todo mundo!

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A verdade sobre a luta armada no Brasil, ou, a ditadura chegou a proibir que as rádios falassem em epidemia de meningite



Texto reeditado

Desde que foi criada a Comissão da Verdade tenho recebido correntes com e-mails enaltecendo o golpe de 1964, os algozes como alternativa moral para o país, detonando quem se engajou na luta armada que, nessas mensagens, são tratados como bandidos, ladrões, assassinos. Como se na ditadura vivêssemos numa Shangrilá tropical.

Ontem recebi uma mensagem que me deu vontade de golfar. O remetente, que copiou o e-mail para dezenas de pessoas, clamava que nós, segundo ele “brasileiros autênticos” pedíssemos que os militares saiam dos quartéis para acabar com os comunistas que tomaram conta do Brasil, como em 1964. O tal remetente disse que o golpe de 64 salvou o país das “garras vermelhas” (chega a ser engraçada essa expressão), mas que hoje o país clama pela volta dos fardados ao poder para que possamos viver livres, definitivamente, dos “comunas”.

O que esses fabricantes de e-mails (escritos aos milhares) querem é convencer que “naqueles tempos” (ditadura) não havia ladrões, vivia-se o milagre brasileiro na economia, enfim, um lixo de informações distorcidas e propositalmente equivocadas. Basta ligar a TV na Globo a noite, assistir a “Serra Pelada” e sentir a baderna que era esse país.

Na ditadura os meios de Comunicação estavam sob censura, especialmente a partir do famigerado AI-5, baixado pelo marechal-presidente Arthur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968 que degolou todos os direitos de liberdade de expressão no país.

A ditadura manipulava inflação, crescimento econômico, epidemias, enfim, sob o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o” roubaram muito. Só na construção da Transamazônica, usina de Itaipu e Perimetral Norte (sim, existiu uma estrada ao norte com esse nome) foram bilhões.

Em 1974, para combater uma gravíssima epidemia de meningite no país, que matou muita gente, a ditadura (na época sob o comando de Ernesto Geisel), em vez de fazer vacinas decidiu censurar a imprensa. Eu trabalhava no jornalismo Radio Tupi AM, uma emissora popular, e chegavam várias ordens de censura da Polícia Federal proibindo a emissora de mencionar a palavra meningite.

Até o AI-5 a oposição conseguia funcionar relativamente, mas a partir do AI-5 todas as vozes que não babassem os ovos dos ditadores eram cassadas ou assassinadas/torturadas. Foi quando a luta armada de esquerda começou a ganhar força, tentando peitar a ditadura.

Hoje já está mais do que claro que foi um erro, um gravíssimo erro. A História (sempre ela, sábia) explica que os verdugos, a tortura, a matança da ditadura foi uma reação à luta armada, um argumento com o qual nunca concordei.

No Araguaia, pouco mais de 60 militantes do PC do B (Partido Comunista do Brasil, hoje o mesmo – urgh! – de Netinho de Paula, o cantor/vereador candidato a prefeitura de São Paulo) entraram em confronto com as tropas do Exército. Coube ao general Hugo Abreu, que entrevistei em 1978, a missão de fazer a chacina.

Ele chegou lá com centenas de militares e até napalm usou. Pendurou guerrilheiros mortos de cabeça para baixo em helicópteros e, munido de um alto-falante, alertava a população sobre o perigo de dar apoio aos comunistas. Morreu muita gente no Araguaia. Pior: sumiu muita gente naquela selva e é isso que a Comissão da Verdade pretende desvendar.

No círculo civil (aliás, havia muitos civis beijando a boca da ditadura) o maior carrasco foi o delegado do Dops de São Paulo Sergio Paranhos Fleury, o homem que matou Carlos Lamarca e torturou e matou outras dezenas e mais dezenas de pessoas. Dizem que ele morreu assassinado em seu iate.

Para se ter uma breve ideia do que acontecia naqueles tempos vale à pena ir até uma locadora e alugar o DVD do filme “Pra Frente Brasil”, de 1982, dirigido por Roberto Farias. Mas quem quiser ir fundo no assunto, leia a coleção “As Ilusões Armadas”, quatro livros de Élio Gaspari que vão ser relançados não e deixam dúvidas.

Como se sabe, a luta armada perdeu. Muitos morreram, a maioria (dizem) desapareceu e outros tantos foram para o exílio. Em 1979, o general presidente João Baptista Figueiredo assinou a anistia e todos voltaram. Todos, sem distinção, mesmo os mais ferrenhos radicais, disseram que a luta armada foi um erro e que a democracia deveria ser conquistada através de meios pacíficos, o que, de fato acabou acontecendo.

E a democracia, digam o que disserem, é o melhor regime já inventado. O fato de poder escrever essas linhas na certeza de que não serei preso e detonado por causa disso é um exemplo. Mínimo, mas é.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Copa nas coxas num país feito em cima da perna


Obras de vários estádios atrasadas apesar de custarem uma dinheirama infinita aos cofres públicos, ou seja, a nós. Obras em aeroportos também se arrastam, atrasam, a ponto de algumas autoridades-atrizes aparecerem na TV simulando raivinha, rosnando falso, batendo o pesinho contras as empreiteiras que não são de sua predileção. Ou alguém ainda duvida que existem empreiteiras, digamos, mais queridinhas?

Brasil, o país da Copa, estará pronto para o maior e mais fútil espetáculo de futebol da Terra? Não, mas a malandragem vai dar um jeito de maquiar tudo. Afinal o Brasil está nas coxas na saúde, educação, infraestrutura, combate à corrupção, enfim, é uma nação que está largada (des) graças a um governo que só vê espelho e urna na sua frente.

A Copa simboliza a maneira como o governo conduz o decantado (por ele) desenvolvimento da nação: nas coxas. A mediocridade é tamanha que a presidente convocou ministros para discutem o rolezinho, temendo que seja um pavio. Um pavio revolucionário e caótico que será aceso quando? Na Copa é claro. O governo não pode sorrir para o rolezinho (por causa da classe média) e não pode surrar o rolezinho (por causa das classes mais pobres e dos partidos nanicos que apoiam o suposto movimento).

A Copa virou o princípio, o meio e o fim. Afinal, vai acontecer três meses antes das eleições para presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Provavelmente vai ser a campanha mais cara da história porque terá que capturar um eleitor supostamente anestesiado pelos vapores da Copa. Ganhe o Brasil, perca o Brasil, o torcedor ainda estará lesado em outubro, mês eleitoral.

O que o governo não quer admitir (será que não sabe?) é que o povo mudou. O povo que vai votar (a força) em outubro vai julgar a saúde, educação, segurança pública, cultura e, alguns poucos, a Copa do Mundo de Futebol. 

Acabou essa balela de que “o povo alienado mistura Copa com política”. Com a seleção ex-canarinho (há quem chame, hoje, de canalhinha) vencendo ou perdendo, a maioria dos eleitores vão para as urnas pensando em mensalão, saúde, segurança pública, educação, corrupção.

Aquele povo que ficava histérico a ponto de votar em qualquer governo quando o Brasil ganhava não está mais aqui. Amadureceu e partiu, rumo ao infinito. Aquele povo que era usado como massa de manobra em tempos de manifestações nas ruas, pegou um táxi e partiu. Ou seja, estamos diante de um outro Brasil, com outra República, outros brasileiros.


No fundo o governo sabe disso e lastima. Lastima que o brasileiro não seja mais aquela foca amestrada capaz de fazer qualquer coisa em troca de uma sardinha. Felizmente, em outubro, vença o Brasil, não vença o Brasil estará nas cabines para julgar o governo que tenta desesperadamente manipula-lo com suas bolsas isso, bolsas aquilo. Por isso me arrisco a dizer que esse brasileiro também já não existe mais. Que bom!

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O show de Carl Palmer no CBBB-Rio: o baterista desceu o braço e as diferenças etárias no palco e na plateia desapareceram como em passe de mágica.

Resenha de Antonio Ernesto Martins, especial para a Coluna do LAM


No sábado passado a Carl Palmer Band aterrissou na tenda montada ao lado do CCBB do Rio de Janeiro para um show dentro da programação da Mostra Internacional de Rock Progressivo. Oportunidade única para os aficionados desse estilo que, depois do auge nos anos 70, caiu no descrédito em tempos de música previsível, preguiçosa e de fácil digestão, com pouca – ou nenhuma - elaboração rítmica e conceitual.

Já nos arredores do evento era possível identificar os cabelos longos – dos que conseguiram conservá-los - e grisalhos que se esparramavam timidamente sobre as indefectíveis t shirts com estampas de grupos como Yes, Pink Floyd, Gentle Giant, Jethro Tull e outros jurássicos dando um clima de deja vu que só era contestado pela presença também significativa de jovens e até crianças que, provavelmente, acompanhavam seus pais, tios e avôs.  

Lotação esgotada, casa cheia e muita expectativa até que Carl Palmer subiu ao palco acompanhado dos jovens músicos Paul Bielatowicz (guitarra) e Simon Fitzpatrick (baixo). Em uma forma física invejável para um senhor prestes a completar 64 anos, Palmer desceu o braço e as diferenças etárias no palco e na plateia desapareceram como em passe de mágica.

O entrosamento da banda e o virtuosismo dos músicos que acompanhavam Palmer já puderam ser constatados nos primeiros acordes, mas não diminuíram a expectativa dos fãs do Emerson, Lake & Palmer que esperavam ver um revival do repertório da banda, um dos mais vitoriosos e marcantes grupos de rock progressivo de todos os tempos. Mas o Power trio montado por Palmer foi além.

Números como Knife Edge (ELP-1970) e Hoedown (Trilogy-1972) mostraram o franzino Paul Bielatowicz se agigantando em novos arranjos sem a pretensão de ocupar espaços deixados pela ausência do órgão Hammond e do sintetizador Moog de Keith Emerson que foram a marca registrada do som do ELP. E a opção de partir para um som mais pesado e original, embora ainda marcado pelas tradicionais convenções extraídas da música clássica, parece que foi a escolha certa. Foi possível confirmar isso a partir da execução primorosa do movimento O Fortuna da ópera Carmina Burana, que levantou os primeiros aplausos realmente enlouquecidos da plateia.

E as gratas surpresas continuaram com o solo do excepcional baixista Simon Fitzpatrick que contemplou o público com uma versão emocionante de Stairway to Heaven do Led. Falar sobre a bateria de Palmer é um desafio, pois nela a levada e o solo se confundem e nunca conseguimos adivinhar para onde o músico vai antes que ele chegue lá. E é exatamente isso que fez com que o show na tenda do CCBB se transformasse em um dos shows que vou guardar na prateleira dos melhores que já assisti. O show foi mais curto do que todos esperavam, mas o bis com Fanfare for the Common Man, com direito a solo apoteótico e irreverente de Mr. Palmer compensou. Nota 10 também para o som extremamente bem equalizado.

Para os que acreditam que o rock progressivo é um estilo superado e chato, com suas suítes lisérgicas intermináveis e estéreis, a Carl Palmer Band mostrou aos cariocas que diante de tanta mediocridade que reina na música mundial, uma progressive band pode fazer algo muito importante e necessário: surpreender-nos positivamente, com um virtuosismo que não é uma simples masturbação musical, mas que se comunica com o público e nos tira do conforto e do lugar comum. Showzaço onde Carl Palmer exibiu talento e simpatia, autografando pôsteres e CDs após a apresentação. Única resalva foi a ausência, apesar de inúmeros pedidos urrados pela plateia e por mim, de pelo menos um trecho do álbum Tarkus (1971), em minha opinião, o melhor do ELP.


Overdose de tecnologia

Eu tinha uma agenda no computador onde registrei todos, absolutamente todos os meus compromissos. Não sei por que, numa manhã, a tal agenda deu pau. Não queria abrir de jeito nenhum. Procurei me acalmar (tecnologia e pânico não combinam), reiniciei o computador e tentei abrir de novo. Nada. Em suma, a agenda de última geração foi para o espaço por razões que até hoje ignoro.

Meu computador é aquele modelo All-in-One da HP (excelente marca) com mouse, teclado e monitor sem fio. No início (ano passado) foi uma maravilha, máquina super prática, ótima mobilidade, enfim, os gênios da HP acertaram na mosca. Era o que pensava até as 3 horas da madrugada de um dia de semana quando a pilha do mouse descarregou e eu tive que interromper uma matéria que escrevia, com prazo.

Peguei o carro e parti para as lojas de conveniência de postos de gasolina atrás de uma pilha. Para não ter dúvida, levei o mouse comigo e, ufa!, no terceiro posto encontrei a pilha. Comprei duas (o teclado tem pilha também) e retornei para casa. Consegui terminar o trabalho. Mas, no dia seguinte, comprei um mouse convencional e quando acabar a segunda pilha do teclado (uma já se foi) vou comprar outro com fio. Ou seja, no final voltarei a ter um desktop convencional. Problema? Nenhum. O negócio é ficar tranquilo, dormir bem, sem estresse.

O episódio da agenda no computador serviu para que eu simplificasse mais a minha vida tecnológica, que já não era exagerada. Eu poderia simplesmente baixar a instalar outra agenda, ou usar a do Google, mas optei por usar um antigo telefone celular Nokia (para mim a melhor marca) que comprei em 2005 (isso mesmo, lá em 2005!) cujo código de segurança tornou-se indecifrável. Em outras palavras o telefone não aceita chip de nenhuma operadora. Pois, desde o episódio da agenda que “morreu” na minha máquina ele se tornou a minha nova ferramenta para marcar compromissos. Simples, fácil e, sobretudo, tranquila.

Aproveitei e fiz um arrastão de tecnologia. Usava um smartphone que, cheio de novidades, volta e meia me induzia ao erro. Como uso duas operadoras, configurei o smartphone para a operadora que menos uso e a que mais uso, o dia todo, reside num pequeno celular Nokia C-02, muitíssimo simples, que vê e-mails e navega o básico. Só. Que beleza!

Um dia desses peguei um táxi que parecia camelô vietnamita. A bordo, um GPS, um monitor que checava corridas on line (o cara recebia a chamada pelo monitor), mais uma central de multimídia com previsão do tempo, temperatura externa, interna, mais o rádio de comunicação, smartphone e um sistema de som compatível com pendrive. Estava tocando Anitta (para meu desespero) e depois dela uma cordilheira de baixarias já que, dependendo da capacidade, um pendrive pode armazenar meses de música sem repetir. Ah, sim, no meio desse cipoal tecnológico estava o taxista, orgulhoso de seus brinquedos. Eu pensei: “se eu fico seis horas aqui dentro, jogo o carro num abismo”.

Pergunto aos leitores, esse sentimento de overdose de tecnologia é um problema meu ou todo mundo sente? Meu irmão, que toda a humanidade chama de Fernando mas eu chamo de Cesar (ele se chama Fernando Cesar) é o cara que conheço que mais entende de computadores e afins. Ele já tinha um portátil chamado CP-500 se não me engano na segunda metade dos anos 70. Seu telefone é de última geração, o GPS do celular está OK, do carro também, e cada vez mais ele estuda e dá aulas de tecnologia.

Para ele, tenho certeza, a overdose de tecnologia não faz mal algum. Para mim? Por displicência de raciocínio, preguiça mental, sei lá mais o que essas coisas não funcionam. Não tenho paciência para insistir, não gosto de ler manuais e pago para não me aborrecer.

Mas a questão é: estou sozinho nisso? Fora meu irmão, alguém mais é vidrado nas novas tecnologias que, quando bem tratadas, funcionam perfeitamente? Ou tem muita gente de saco cheio disso tudo também? Aguardo opiniões.


domingo, 19 de janeiro de 2014

Foi num domingo, não muito distante, que o Facebook me censurou. Deve ter se arrependido.

 Texto restaurado e remixado.

Domingo é dia de leveza, de banzo. Preguiça de levantar, de sair, ir a praia. Vontade de dar “pause” e ficar à toa. Domingo é o dia do “nada de novo existe neste planeta” Os jornais chegam obesos as bancas, com 70% dos assuntos classificados pelos mal humorados abutres existenciais como “dispensáveis”.

Os amargos e rancorosos costumam golfar que “jornal de domingo é fútil e inútil”. Como um apaixonado pela profissão, surfando em redações e afins desde os 16 anos, não acredito em bons jornais frívolos. Acredito, isso sim, em jornalistas bananas, ou afetados, ou salta pocinhas (essa roubei do grande Paulo Francis) que perambulam por aí.

Ou, pior ainda, já vi, vejo e verei jornalistas ruins que conseguem trabalhar porque são baratos. Só por isso. E tome eZiste com Z, notícia mal apurada ou o “googlepress”. Para eles, está no Google é lei. Se sair lá que um ovo botou uma codorna eles copiam colam no texto e publicam, sem o menor constrangimento.

Lembro que, tempos atrás, num domingo, estava navegando na web à caça de mais notícias sobre a tragédia no Japão quando, para dar uma refrescada, entrei no Facebook. Fui recebido por uma nota da trilhardária corporação informando que eu, não pacato cidadão brasileiro, ficaria (como fiquei) sete dias sem poder convidar ou aceitar convite de ninguém na referida rede social. Motivo, segundo eles: uma denúncia informou que eu teria rompido com o regulamento da instituição, que mais parece manual de convivência de Clarissas enclausuradas.

Claro que fiquei furioso. Afinal, quem mexe com Comunicação e acata uma denuncia sem apurar é amador. Ou safado. No caso do Facebook, fico com a segunda opção e também com a primeira. E se você conhece algum jornalista que não tem um, apenas um desafeto, desconfie. Ou é incompetente ou incompetente. São as únicas opções.

Jornalistas que exercem plenamente a profissão (sem modéstia alguma eu me sinto nesse bolo) com certeza acabam fazendo com que alguém se sinta contrariado. Vocês acham que Collor adora bons jornalistas? E Sarney? E o diretor de uma novela ruim? E...(a lista é infinita).

Aí um desafeto desses vai lá no Facebook e diz que eu estou rasgando o regulamento deles que está colado no elevador virtual da corporação. Acho que eles falaram em Normas de Conduta. Hahahahaha, na boa, querem coisa mais abstrata?

O que fiz? Pedi socorro a amiga Jussara Simões, tradutora top de linha. Escrevi um texto curto (que ela passou para o inglês) e mandei para eles. Na mensagem, elegante por sinal, eu convido a corporação a fazer uma devassa em minha página para ver se há algum desvio de conduta, de ética, de honestidade.

Não deu em nada porque a tal corporação não passa de um amontoado de robôs controlados por nerds falso-moralistas que ficam o dia todo descabelando o palhaço olhando pelo buraco da fechadura do banheiro feminino.

O que mais me intriga nisso tudo é que o tal do Facebook é chamado de “rede social”. Belo título. No entanto, pela terceira vez eles me dão uma carcada, sempre baseados em “uma denúncia”. Começo a crer que aquilo não passa de uma rede anti-social, alimentada por delatores de baixa categoria. Não é o caso deste blog.  A empresa que hospeda o site (Blogger) até agora não se meteu comigo.

No caso desse travesti chamado Facebook, já seria de péssimo gosto censurar. Ainda mais baseado em “denúncias” vãs. Quer dizer que se eu escrever para lá dizendo que uma moça chamada Chapeuzinho Vermelho anda molestando um lobo na floresta, o que é um acinte a moral, aos bons costumes e também a ecologia, eles vão lá e crau? Sem apurar? Sem saber se é ou não é? Sem ouvir a outra parte? Na boa, os bordéis são muito mais éticos e profissionais.

Mas como disse na primeira linha, hoje é domingo. Para vocês, queridos leitores, desejo sombra, água fresca, muita saúde, praia, neve, o que há de melhor em cada ponto do mundo onde esta coluna chega. Mas para a rede anti-social tenho uma péssima notícia: não vou sair de lá. Vou continuar fazendo o que faço, conversando com pessoas legais, postando músicas, fotos, obras de arte, enfim, tudo o que aquela perobada, aquela playboyzada de american pie desconhece.

Acho que o bom censor tem que saber o que está censurando. No mínimo. Na ditadura brasileira a censura era burra pra cacete. Até “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, que Machado de Assis publicou em 1880, os primatas degolaram achando se tratar de um manifesto cubano. Eu mesmo já atendi a seguinte ligação de um censor: “Fica proibida a divulgação, menção ou mera referência ao vestido da excelentíssima esposa do Ministro da Agricultura, Fulano de Tal”. Não sabíamos de nada e a própria censura abriu nosso apetite. Fomos apurar. Fato: a tal senhora levantou o vestido num vão de escada onde copulou animadamente com um dos convidados. Tipo da notícia que, para mim, não tem o menor interesse. O vestido era dela, podia levantar para quem quisesse e a imprensa dita séria tem mais o que fazer. Mas, censura é censura.

Encerrando, fica o alerta: rede social não existe. É igual a disco voador e patrocínio, já vi mas não acredito. O que existe é um monte de cartesianos bisbilhotando palavras, frases, fotos de pessoas distraídas que entram no Facebook para se distrair, fazer contatos profissionais e tudo mais. Sim, mudei e passei a tratar aquele muquifo digital como mídia eletrônica no dia 14 de dezembro de 1968, o dia seguinte da assinatura do AI-5 no Brasil, que matou, torturou, perseguiu, sequelou. E nós, jornalistas, achamos uma delícia passar com a bola entre as pernas desses répteis.

P.S. – Como há muita gente do bem sendo vitimada pelas hienas do Facebook, aqui vai o texto que mandei para lá, traduzido pela Jussara Simões. Basta copiar, colar e assinar porque eles não sabem diferenciar nada. Vamos lá:

Para: support@fb.com; domain@fb.com

Assunto: Justice!

Dear Sirs,

Just over one hour ago (8:30 PM - GMT -3), I was told by Facebook that I won't be able to add new friends or be added for seven days.
On the note Facebook sent me, they said I've been punished because I broke the rules of behavior (Facebook's Statement of Rights and Responsibilities). 
This is not true. I invite you to scan my Facebook rpofile, where you´ll only find Arts, Culture, Friends, City, Life. If you visit http://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Antonio_Mello, you'll see who I am, my life history, and my CV. 

I kindly request that you lift this suspension because I've done nothing wrong, and I must have been denounced by some envious person, which is something that usually happens to well known journalists.
My best regards, AQUI ENTRA SEU NOME, CIDADE E PAÍS. Só isso.