segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Crack : Nada é tão ruim que não possa piorar. Artigo de Antonio Ernesto Martins

Com o lançamento de meu livro “Sacudindo o Pó da Estrada” e de meu filme “O Brilho”, tenho participado de palestras, seminários e debates que abordam a questão das drogas, já que essas duas obras tratam através de linguagens distintas desse mesmo tema, tão presente na pauta de nossa sociedade. Passados quatro anos nos quais me dediquei a pesquisar esse assunto a partir da minha experiência pessoal no vício, o desafio de tentar entender o uso e o abuso de drogas ainda me fascina e me provoca diversas reflexões.

Desde os primórdios da civilização a humanidade se relaciona com algum tipo de droga ou alucinógeno, seja em suas atividades místicas ou religiosas, seja em rituais ou costumes tradicionais. A partir do movimento da contracultura dos anos 60, o consumo de drogas tomou ares revolucionários e de contestação, criando vínculo e afinidade com a juventude que possui em sua essência essas mesmas características.

No Brasil, nessa mesma época, imperava a ditadura militar que com seus aparelhos repressivos inibia qualquer tipo de rebeldia ou de transgressão. No entanto, a despeito das inúmeras políticas de prevenção e de combate às drogas, deflagradas no mundo inteiro, o consumo e a produção continuaram aumentando vertiginosamente dentro e fora de nosso país. No final dos anos 70, com a abertura política, a anistia, o movimento pelas diretas e os ares de liberdade que voltavam a soprar por nossas terras, cria-se um cenário propício para a ampliação da distribuição de entorpecentes e entra em cena de maneira mais abrangente uma droga que, até então, se mantinha elitizada nas classes mais altas e em alguns segmentos artísticos de vanguarda: a cocaína.

Insuflada no rastro da onda “disco” que varreu o mundo, a cocaína baixou de preço, aumentou sua oferta e ofereceu aos consumidores outro tipo de “viagem”. Uma droga urbana, “nervosa”, extremamente compulsiva e inquieta que, de modo devastador, alterou a rotina dos jovens consumidores e até mesmo a dos traficantes que a comercializavam, através de seus efeitos antissociais que inibem não só o sono ou a fome, mas também as relações de ternura e as conexões com a espiritualidade.

No início dos anos 80 os jovens entre 17 e 25 anos, entre eles eu, que tinham passado sua infância e adolescência, amordaçados pelo estado ditatorial, já podiam montar suas bandas de rock e seus grupos de teatro, externando suas opiniões e críticas a uma sociedade extremamente injusta e hierarquizada. Nesse cenário a cocaína conquista diversos adeptos com a falsa promessa de uma disposição inabalável e um vigor prazeroso e contínuo, que camuflam seu alto poder de criar dependência. Eu fui um dos cooptados.

No meio disso tudo, um enorme conflito se estabelece. Um conflito certamente inerente à natureza humana e travado desde os tempos mais remotos: o conflito do homem com ele mesmo. Potencializado no conflito do viciado, que vê rapidamente sua vontade própria se esvair e mergulha numa rotina de escravidão e degradação existencial. Como isso ocorre, como é feita essa escolha diariamente, como se comporta essa mente que percebe que está se prejudicando, mas ao mesmo tempo não consegue conceber sua vida sem a droga são perguntas que ainda hoje estimulam diversos estudos e pesquisas e que, muito recentemente, conseguiram inserir no debate da sociedade a ideia da “dependência química” como uma doença e não como uma deficiência de caráter. No entanto uma significativa parcela da população ainda encara o problema sobre a ótica tradicional que marginaliza e criminaliza o usuário.

Muitas outras questões ainda permanecem obscuras e suas complexidades se acentuaram com a chegada de novas drogas, as sintéticas e principalmente o crack, e com o amplo debate mundial em torno da descriminalização e da legalização das drogas hoje consideradas ilícitas. Debate esse movido pela constatação do total fracasso da chamada guerra contra as drogas, deflagrada no planeta sob o comando dos EUA.

No Brasil a partir dos anos 90, as crackolandias, inicialmente em São Paulo e depois no Rio de Janeiro, estampadas nos jornais e na TV revelam imagens fortes de grupos de viciados que se reúnem a luz do dia e a vista dos passantes para consumir essa droga derivada da cocaína. O crack oferece a mesmas sensações da cocaína através de sua combustão e da absorção através dos pulmões, potencializando sua ação e tornando o consumidor viciado em um curtíssimo espaço de tempo. Seu baixo preço também é fator primordial para a difusão da droga entre os pobres e o quadro de dependência dessa droga é de dificílima reversão. Para aqueles, como eu, que acreditavam ter conhecido na cocaína o estágio máximo da escravidão provocada pelas drogas, o crack chega para provar que nada é tão ruim que não possa piorar.

Atualmente o crack é considerado por muitos uma epidemia no Brasil e seus efeitos nefastos alcançam o interior dos estados, as pequenas cidades e as periferias com a mesma agilidade que vitimam também os condomínios de classe média alta das grandes capitais. A necessidade da droga que passa a pautar o comportamento do dependente leva-o a se desconectar de maneira radical de seus laços afetivos e psicossociais, infringindo perdas significativas. Rapidamente o usuário está incapacitado de cumprir seus papeis sociais e se sente impelido em frequentar esses grupos que se reúnem para o consumo diário e compulsivo da droga.

O crack expõe de maneira ostensiva aos olhos da sociedade contemporânea o antigo problema da dependência química e torna visíveis aqueles seres invisíveis aos olhos de uma população que ajuda a produzi-los.  Na lógica invertida dessa mesma sociedade é a droga e seus consumidores as causas dos problemas sociais. No entanto, percebemos ao nos aproximarmos dessa população de usuários, a repetição do padrão de histórias de ruptura de laços de solidariedade, de desintegração familiar, de segregação social e econômica, de incapacidade de inserção nos apelos consumistas e diversos outros fatos geradores que pré existem a droga e criam os espaços vazios propícios para a utilização da mesma como balsamo reparador de tantas amarguras. A partir da droga cria-se uma identidade e uma rede de vínculos recíprocos que parecem amenizar a vida desses cidadãos que foram barrados na festa do capital e do consumo e não foram tratados como cidadãos pelo estado e pela própria sociedade que os recrimina.

Os motivos que levam um indivíduo a se tornar dependente ou não de alguma substância ou comportamento são inúmeros e diversificados, variando em combinações de acordo com o sujeito, sua história de vida ou o ambiente que o cerca. Acredito que é hora de mergulharmos nesse desafio de entender e desvendar as causas e o mecanismo de construção de um dependente ao invés de simplesmente demonizarmos as drogas e colocarmos na conta dos dependentes os problemas sociais que nos afligem.

O patrocínio a pesquisas sérias no campo da neurociência que possam definitivamente esclarecer o impacto real de cada substancia no cérebro humano e suas consequências também são urgentes, para desconstruir mitos e tabus e pautar agendas qualificadas de discussão pública. Iniciativas humanizadoras como a implementada recentemente pelo programa “Operação de Braços Abertos” da prefeitura de São Paulo são louváveis, apesar da desastrosa e estranha ação do Denarc.

Como vemos, esse é um assunto que está longe de obter um consenso e os questionamentos e reflexões tanto na esfera pública como particular necessitam se despir de conceitos estabelecidos previamente para poder atacar o núcleo duro da questão.