quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Golfinhos, sardinhas e o fundamental marketing do incentivo


Texto restaurado e remixado  

Quando os golfinhos de Miami fazem o serviço direito, os treinadores dão uma sardinha. É assim também com os poodles de circo, com os cavalos de Varsóvia, cachorros de Brasília. Não sei quando, mas penso que há alguns milhares de anos atrás, o Poder descobriu que o reconhecimento gera mais produção. No caso dos golfinhos e dos poodles, a sardinha diz “parabéns, você fez direito”. No caso dos humanos, inventaram troféus, medalhas e comendas, aumento de salário, promoções.

Estou me referindo a Ayrton Senna, Sebastian Vettel e Rubens Barrichello. Senna venceu a primeira, a nação urrou, vieram troféus, medalhas, elogios, abrindo uma seqüência de vitórias que comprovavam, mais uma vez, a força, o poder do reconhecimento. Incentivado, ego bem nutrido, Ayrton Senna foi campeão mundial, tocou o topo do mundo da F-1. O alemão Sebastian Vettel está surfando uma onda maior. Foi só vencer a primeira, sentir o reconhecimento e foi tomado por uma força extraordinária que o fez bicampeão do mundo, por antecipação. E Rubens Barrichello?

Há uns tempos alguém escreveu que ele não tem estrela. Não é só isso. O que faltou a Rubens Barrichello foi incentivo, apoio, reconhecimento e sorte. A tal sardinha dos golfinhos. A bem da verdade, para ganhar sardinha é preciso vencer, uma palavra que parece não frequentar muito o caderninho do piloto.

Com a cumplicidade dele, forçaram Barrichello a ser o sucessor imediato de Senna, quando este morreu. Incentivada por ele, a mídia desprezou o seu estado emocional diante da morte do ídolo, desprezaram seu carro ruim, enfim, queriam um campeão imediato. Logicamente, Barrichello não conseguiu. Virou objeto de chacota, piada. Como se a Ferrari fosse uma marca molamba, onde entra qualquer um. Quem conhece minimamente automobilismo sabe o que custa chegar a ser piloto de uma Ferrari.

Lógico que a dona da Ferrari, a Fiat, sabendo que o Brasil é o maior consumidor de carros da marca no mundo, precisava ter um piloto brasileiro na escuderia. Marketing. Mas quantos poderiam estar ali? Ainda assim, escolhido a dedo, Rubens Barrichello não foi alimentado pelo reconhecimento do público, da mídia.

Já entrava no autódromo com medo. Não de explodir no murol e morrer, mas de fracassar. Para o Coliseu lotado, terceiro lugar de Barrichello é fracasso. Logo, não é ele quem não tem estrela. Nós é que não a fabricamos.
Ninguém vive bem sem reconhecimento. Como pessoa e como profissional. Mais: esse reconhecimento só “faz efeito” quando parte, também, de alguém que admiramos e conhece mais e melhor o que fazemos.

Nos anos 1990, Alan Proust elogiou abertamente Barrichello. Gerard Berger ídem, mas as vaias soaram mais alto. Nada é mais lamentável do que a babada de ovo de um medíocre oportunista. Pior: como é triste e lamentável ver um “xefe” ungido a uma função de líder, acreditar nas babaovices dos arrivistas. Tempo.

Arrivista, segundo o dicionário - que ou quem se determinou a triunfar a qualquer preço, mesmo em prejuízo de outrem. E foi o que mais aconteceu com Barrichello na Ferrari. Baba-ovos tentando comprar o seu lugar na base do abano, puxa-saquismo, a ponto de um “xefe” da Ferrari ter sido degolado por, digamos, cair em ciladas amadoras. Lembram?

Europeus e norte-americanos inventaram o “marketing do incentivo”, hoje estrela maior na gestão de empresas. Descobriram que as antigas chibatadas funcionam bem menos do que um elogio REAL e digno. Desde milênios os guerreiros europeus recebiam comendas, medalhas, terras, castelos. 
Reconhecimento. Mas de todos os símbolos os mais cruciais sempre foram “Diplomas de Bravura, Honra ao Mérito, Reconhecimento” etc.

Daí surgiu a idéia de expor publicamente fotos do “funcionário do mês” (o marketing americano explica que a escolha deve ser feita pelos próprios colegas, em eleição direta), premiar o desempenho com viagens, jóias, day off, tudo para dizer “parabéns, você é bom!”. Em outro plano, inventaram o Premio Nobel, Prêmio Pulitzer, Oscar, Grammy, Prêmio Esso, Premio Tony, etc.
Aqui, quem avalia esse texto é o leitor. Os comentários dos leitores, os elogios e as críticas, por si só, já geram aquela sensação de reconhecimento. O mutismo seria horrível. Escrever sem ser lido, discutido, aplaudido, criticado, é um desastre. Da mesma forma que trabalhar sem saber se “é por aí mesmo”.

Muita gente acha que o salário no fim do mês já basta. Mas penso que a maioria precisa do reconhecimento para crescer mais, partir pra cima. Sem aquele medo do Barrichello. Que não é de gasolina, não é de fogo, explosão. 

É o medo do silêncio, da apatia, da vaia implícita.