quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

José Louzeiro: um democrata com vocação para o perigo - Texto de Antonio Ernesto Martins

Naquela segunda metade da década de 50, o sol escaldante do Rio de Janeiro ardia inclemente no firmamento da então capital do Brasil, enquanto um nordestino franzino caminhava pelo centro da cidade a caminho do trabalho. Suava em bicas. Não era para menos. A despeito do verão tropical que elevava a temperatura para perto dos 40º C, ele vestia três camisas por baixo do paletó. No entanto não era por maluquice que o fazia. Era a única estratégia encontrada para não ser roubado novamente na pensão de Botafogo onde havia alugado uma vaga, pouco depois de chegar ao Rio vindo do seu Maranhão.

Esse jovem era José Louzeiro e ainda não se podia prever que ele se transformaria em um dos maiores escritores do Brasil, pioneiro nacional do gênero romance-reportagem, autor de mais de 50 livros, 10 roteiros para longas metragens e três telenovelas para a TV.
Mas sua vocação para o perigo, seu interesse pela crônica policial, seu empenho na defesa das liberdades democráticas e sua fascinação pelo personagem delinquente já estavam presentes em sua alma quando ele chegou ao Rio de Janeiro em 1953. Veio fugindo do Maranhão para não morrer assassinado após a publicação de uma matéria sua no jornal O Combate onde denunciava um influente político por prática de tortura.

Filho de um pedreiro, Louzeiro conseguiu estudar em um colégio particular através de uma permuta que seu pai fez com a escola. Em troca dos reparos feitos no prédio o pequeno José ganhou bolsa de estudos e não demorou muito até que suas redações se destacassem nas aulas de português, chamando a atenção do diretor do colégio que o encaminhou para o poeta e membro da Academia Brasileira de Letras Corrêa da Silva. Este o recomendou ao chefe da redação do jornal O Imparcial. Assim Louzeiro ganhou seu primeiro salário como aprendiz de revisor.

Seu trabalho consistia basicamente em ler e dessa forma mergulhou na obra de grandes autores maranhenses através do suplemento de literatura do jornal. Após 2 anos na função de aprendiz tornou-se repórter policial. Sobre o motivo que o levou para esse campo de trabalho, declara:
“Sempre achei o delinquente fascinante. Tudo explode nele com muita intensidade, exaltação. Ele é capaz de praticar o crime e chorar quando é condenado. Mata sem motivo... Investigar isso era o que me atraía e ainda me atrai.”

No Rio de Janeiro, inicialmente foi trabalhar como datilógrafo em uma empresa de máquinas gráficas de segunda mão, pois achava que ali teria contato com pessoas ligadas às redações de jornais e seu plano deu certo. Conseguiu uma vaga de boy na Revista da Semana passando em seguida para redator publicitário. Daí em diante sua carreira como jornalista deslanchou e em 56 ele foi para o Jornal Luta Democrática. Trabalharia também no Diário Carioca, Última Hora e O Correio da Manhã, onde permaneceu por oito anos.

Em 58 vendeu sua máquina de escrever para custear despesas com a publicação de seu primeiro livro, Depois da Luta, pela Editora Simões. Durante a ditadura foi censurado e preso junto de outros companheiros do Correio da Manhã como Carlos Heitor Cony e Álvaro Mendes, entre outros. Perseguido pelos militares decidiu se esconder em Brasília.
“Aprendi, com os anos de reportagem policial que o melhor lugar para se esconder é ao lado da polícia. Por isso fui morar em Brasília, em um prédio na Asa Norte, no qual o síndico era coronel do exército. Mas ele me adorava! Até descobrir quem eu era. Tive que fugir novamente.”

Mudou-se então para a capital paulista e conseguiu um emprego na Folha de São Paulo onde fez uma matéria sobre uma chacina promovida pela polícia que jogou vários meninos considerados infratores do alto de um precipício.  Alguns sobreviveram e Louzeiro os entrevistou. Dessa extensa matéria, a censura autorizou a publicação de apenas 30 linhas.

De volta ao Rio escreve o livro Infância dos Mortos que conta os detalhes de sua investigação sobre esse caso e que serviu de argumento para o filme “Pixote – A lei do Mais Fraco” de Hector Babenco. A partir daí o trabalho de Louzeiro não para mais de se embrenhar pelo cinema nacional e outro filme, também de Babenco, alcança grande sucesso baseado em um livro de Louzeiro: “Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia”. O livro conta a história do bandido Lúcio Flávio Vilar Lyrio que, perseguido pelo grupo de extermínio Esquadrão da 

Morte em plena ditadura militar, é preso e morto a facadas na cadeia.
Crítico contundente das arbitrariedades do poder, José Louzeiro escreveu duas novelas de grande sucesso para a extinta TV Manchete; Corpo Santo e Guerra Sem Fim, nas quais os bastidores do crime e da corrupção estavam presentes de maneira real e ousada. Sua terceira novela, O Marajá, era baseada no governo de Fernando Collor de Melo e foi proibida de ir ao ar, apesar de nessa época a censura não existir mais no país. Desde então não conseguiu mais trabalho na TV.

Entre seus livros mais famosos também está Aracelli, Meu Amor que conta o estupro e assassinato de uma menina de 9 anos e denuncia o envolvimento de duas famílias poderosas do Espírito Santo, o que lhe rendeu mais algumas ameaças de morte. Escreveu também inúmeras biografias como a da cantora Elza Soares, da enfermeira baiana Ana Nery e a de Gregório Fortunato, braço direito de Getúlio Vargas.

Prestes há completar 82 anos, Louzeiro está debruçado sobre seu novo projeto de uma autobiografia romanceada, enquanto luta bravamente há mais de 8 anos contra a diabetes que lhe ocasionou algumas amputações como a da perna direita, de parte do pé esquerdo e de alguns dedos da mão. A partir de sua batalha contra a doença, Louzeiro escreveu em 2007 Diabetes: Inimigo Oculto.

Além de sua produtiva militância a frente do sindicato dos escritores, Louzeiro também é responsável pela iniciação e capacitação de diversos roteiristas que hoje estão atuando no mercado audiovisual brasileiro e que passaram pelos bancos de suas turmas da oficina de roteiro que ele ministrou por vários anos. Eu sou um deles e, ouvindo as histórias e causos desse maranhense, aprendi a admirá-lo. Foi baseado em uma história sua vivida na redação da Ultima Hora que escrevi o roteiro de meu primeiro curta metragem.

Agora, passados tantos outros, me preparo para meu próximo filme que será um documentário sobre esse bravo brasileiro que não temeu transitar pelo submundo da bandidagem para de lá extrair histórias reais com odores de romance, não aceitou as versões oficiais, não se curvou diante da ditadura e da censura e agora, não se intimida diante da diabetes. Uma História que precisa ser contada - para novas e antigas gerações - em romance, em reportagem, em cinema.·.