sábado, 8 de fevereiro de 2014

Me segurando para não fazer fiu fiu


                                 Dire Straits: Skateway

Texto restaurado e reeditado

Encontrei esse texto no Google. Foi publicado e depois guardado em alguma gaveta entre o ano 2000 e 2009, no extinto jornal LIG. Para quem não sabe, tempos atrás meu HD estourou. Perdi mais de 2 mil textos, cerca de 15 mil músicas e vídeos, outros milhares de endereços que estavam no Outlook Express, três livros e mais, muito mais. Não, eu não fazia backup porque, provavelmente, de vez em quando sou uma zebra. Por isso, ando catando meus textos por aí. Esse é um deles.

Vamos lá.

A quarta invenção mais sensual da civilização é a calça jeans feminina. Claro que a curiosidade vai berrar “e a outras três, meu chapa?”. Vamos lá. Terceira, o micro-biquini de lacinho; segunda a micro-calcinha de cotton; primeira o cipozinho com botão de folha de parreira, que você só encontra na Bahia.
Sei que é incorreto, mas quando cruzo com uma mulher gostosa na rua, paro, viro o pescoço e olho fixo. Meu inconsciente deve tramar algum macete pois nunca fui flagrado por uma delas. Nunca. Lembrando que mulher gostosa não tem cor, altura, idade, peso, nada. Mulher gostosa é como música boa. Bate e fica. Não tem explicação. Por timidez jamais fiz “fiu fiu”. Ainda assim, para evitar um desatino perante uma cavala bem assombrada, boto a mão na boca.

Ah, Drummond. Ah, grande Carlos Drummond de Andrade que em vez de assobiar “fiu fiu” escreveu o belo poema “A bunda, que engraçada” que lá pelas tantas se desmancha: “(...) A bunda basta-se/ Existe algo mais?/ Talvez os seios/ Ora - murmura a bunda - esses garotos/ ainda lhes falta muito que estudar/ A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio/ Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente(...)”

Falo com a certeza de que jamais em tempo algum molestei, cantei, encoxei em ônibus/barca/metrô/avião, enfim, só contemplei o que (não nego) é o maior patrimônio da Natureza, razão de viver, centro do Universo: a mulher. 

Olhar, sorver, contemplar sem atacar é um direito. Por isso, olho. Dos 18 aos 100 anos, mulher gostosa é mulher gostosa. Buñuel não acreditava em “mulher sem bunda”. Muito menos eu, mestre. Existem belas bundas retas, retinhas. Catherine Deneuve, que mesmo arfando, suando, passando mal mesmo, consegui entrevistar nos anos 90, é proprietária de uma. Belíssima.

Meu único acidente de trânsito foi uma varada na traseira de um caminhão que freou numa rua aqui da cidade. Uma diva negra saía de uma galeria como as lavas do Vesúvio inundando Pompéia. Zonzo, bati. Zonzo, confessei minha culpa. Zonzo, parti sem telefonar para o seguro.

Certa vez escrevi que o brasileiro, elegantemente, cede a frente as damas em entrada de elevador, escada de ônibus, porta de restaurantes não por educação, mas pela oportunidade de contemplar o dorso por três segundos. Já filosofava a extinta Rádio Relógio que o segundo é um milagre que não se repete e esses três segundos podem gerar euforia por horas.

Pois a calça jeans tem o poder de mapear em detalhes todos os ângulos, sulcos, riachos e deltas de uma mulher. Por isso, jamais sai de moda. E que assim seja. Tenho um amigo que quando se aporrinha corre para um shopping e fica “bebendo” manequins de vitrine ostentando jeans, calcinhas, biquínis, shorts. Amigo do peito,  a figuraça que já foi xingado de incorreto, porco-chauvinista pelos intelectuais. Pobres intelectuais.


O Dire Straits tem uma canção antiga chamada “Skateaway” que narra a tempestade de testosterona que uma mulher provoca patinando por dentro do trânsito congestionado no centro de Londres. “Aleluia, yes she comes..” canta Mark Knopfler, confessando que também é sócio desse clube que celebra a Mulher e concorda que nada valeria um planeta cheio de baleias, golfinhos e sabiás se, à bordo, não houvesse essa indecifrável estrela que, com elegância e quase doçura, nos coloca na condição de plutões periféricos, girando, girando, girando, até a última palavra, do último texto, do último poeta.