sábado, 1 de fevereiro de 2014

Respeitem o surrealismo das novelas das 9

“Amor à Vida” foi uma novela lisérgica, muito doida, descarrilhada, incoerente e, talvez por isso, fez um sucesso extraordinário. Afinal, novelas (em especial as das 21 horas) não são documentários e podem, sim, abusar da ficção, da invenção.

Tenho lido muitas resenhas sobre “Amor à vida” e sinto uma certa irritação quando meus colegas cobram da novela uma postura jornalística. Patrulham, passo a passo, capítulos, cenas, sequências que, indignados, gritam que são “Surreais! Surreais! Surreais!”. É lógico que são, porque as novelas são surreais e absurdas por natureza.

Li um sujeito dizer que é impossível um homem com a arrogância de César (Antonio Fagundes) chegar onde chegou, joguete cego nas mãos da hedionda Aline (Wanessa Diácomo). Taí, não sei. Conheço gente que ficou emocionalmente cego diante da paixão ou do amor torto e acabou arriando tudo. Não me parece tão absurda assim a existência de Alines nessa vida.

Outra polêmica foi o drama gay que envolveu vários personagens, em especial Félix (esplendidamente vivido por Mateus Solano), Nico (Thiago Fragoso) e Eron (Marcelo Anthnoy). “Amor à Vida” se posicionou claramente contra a homofobia.

Uma questão aberta pela novela é a conversão de patifes, canalhas, mau caracteres em gente de bem, a começar pelo próprio Félix. Na boa, só em ficção pesada. Penso que uma pessoa quando nasce mau caráter vai morrer mau caráter pela simples razão de estarmos falando de uma deformação profunda que ninguém/nada resolveu. Não conheço um ex-canalha e você, conhece algum?

Mas novela é novela, fruto da criação de um sujeito cercado de colaboradores que é capaz de fazer disco voador pousar no meio de um jantar ignorando se é ou não plausível. E aí que mora o sucesso das novelas. No caso de “Amor à Vida” (o título em si já é um deboche porque nunca vi tanta maldade em nome do amor) foi um tal de pais terem filhos, sobrinhos, amantes, tudo num mesmo círculo de pessoas e em um único hospital, o San Magno, mas, repito, dentro do vale-tudo que a invencionice, a ficção permite. Ninguém vai assistir novela esperando um épico da BBC sobre comportamento humano. Ou vai?