sexta-feira, 7 de março de 2014

Cabeça na Parede

Texto restaurado e reeditado                                                 

Noite dessas, perambulando pela internet, li alguma coisa sobre o Muro das Lamentações, em Jerusalém. Conheço algumas pessoas que foram lá e ficaram levemente horrorizadas vendo gente ululando e batendo com a cabeça no Muro. Não conheço a fundo a história do Muro, mas sei que é sagrado. E respeito tudo o que é sagrado porque sou cristão e mantenho com o desconhecido a mesma relação que mantenho com o mar: temor reverencial. 

Não me meto com o desconhecido porque não quero que ele se meta comigo.
Um freqüentador de meu extinto fotolog estava se lamuriando com a falta disso, falta daquilo, que esse é o país do descaso, enfim, usou de suas prerrogativas tecnológicas para encher e chutar o saco da pequena multidão que freqüentava o fotolog. Que por sinal não era meu. Fiz para a banda The Who e a seu criador Pete Townshend até hoje na ativa, cuspindo fogo pelo mundo com sua adolescente energia dos 68 anos e a seus fãs, a quem chamava de whozers.                                                    

A lamúria mata. Mata vaca, galinha, peixe-boi, piranha. Aliás, sugiro ao Ibama que a piranha seja promovida logo a condição de mamífero. Basta de hipocrisia. Lamentação compulsiva mata até o próprio pelo pubiano humano que trepa no chororô como cavalo de batalha e sai pela humanidade como um forno de microondas torrando a paciência alheia.

Independente da sua conotação histórica, o Muro das Lamentações é de extrema utilidade pública/emocional/existencial. Se o cara encosta, bate com a cabeça, soca, chuta, se roça nas pedras e depois taca álcool está no lugar certo. O que não suporto é lamentação crônica numa padaria, num ônibus, numa van, infernizando o nosso complexo auditivo.

É por essas e por outras que defendo a criação de réplicas reduzidas do Muro para serem espalhadas pelas cidades. Pequenos lugares onde o cidadão pare e descarregue toda a sua mágoa, o seu beicinho, o seu suposto fracasso existencial, cornofobia, enfim, descabele o fandango. Essas réplicas poderiam ser acolchoadas para o usuário bater com a cabeça, com a glande, dar chicotadas no próprio lombo, um vale tudo em prol da saúde pública.                                                       

Imagino o cara saindo de casa dizendo “vou até ali no Muro e já volto”, em vez de tostar, grelhar o seu entorno que somos nós. Ah, sim, os Muros públicos deveriam ter revestimento acústico para o usuário poder uivar, mugir, rugir, gralhar, gritar nomes livremente. Como palpiteiro, penso que iria fazer bem não somente a nós como ao próprio chafurdador de derrotas. Li num manual de carro que esbofetear metaforicamente melhora a pressão arterial, a pele fica mais lisa, enfim, como diria Lulu Santos, “tudo azul/todo mundo nu”.