sexta-feira, 14 de março de 2014

O Homem Invisível - texto de Antonio Ernesto Martins


O poder da invisibilidade tem permeado o imaginário humano desde tempos remotos. Os espíritos invisíveis ou os super heróis dos desenhos animados dotados desse super poder, fascinaram e ainda fascinam muita gente das mais diversas origens e idades. Essa capacidade de ver sem ser visto, essa possibilidade de agir sem ser detectado aparece recorrentemente como um recurso útil para os mais diversos projetos, mas também pode acarretar dilemas e dificuldades para quem lançar mão dessa habilidade. Do romance de Herbert George Wells, “O Homem Invisível” (1897), passando pelo seriado de TV americano dos anos 60 com o mesmo nome até diversos personagens de filmes de animação mais recentes, a capacidade de se tornar invisível atrai atenção e desperta a imaginação.

Hoje, nas nossas metrópoles, vivemos outras invisibilidades mais complexas e menos glamurosas. Nosso olhar, submetido a um jorro constante e exagerado de imagens e informações que nos chegam das mais variadas fontes e sem que necessitemos da maioria delas, acaba nos obrigando a privilegiar o foco em detrimento das periferias do campo visual. Assim a todo momento estamos olhando sem ver, visualizando sem enxergar. Nas ruas, no computador, em casa, diante da TV ou até mesmo defronte a uma obra de arte, perdemos várias informações que não são processadas devidamente em nosso cérebro devido a essa enxurrada imagética.  Mas nossa seleção visual muitas vezes também tem contornos sociais, políticos e ideológicos e é nesse ponto que gostaria de propor uma reflexão sobre a foto que acompanha esse texto.

Essa foto foi tirada por mim em uma praça do bairro do subúrbio carioca onde moro. Nossa cidade, como muitas outras espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, vive o drama da dependência química que, principalmente através do crack, tornou “visível” um problema social terrível e de difícil enfrentamento. As crackolandias na medida em que se estabelecem a beira dos grandes corredores urbanos ou são objeto das matérias sensacionalistas da mídia, obrigam nosso olhar. Mas será que conseguimos ver?

Passando por essa praça e a partir do meu interesse por essa questão identifiquei nessa pessoa, coberta por um cobertor sujo em um calor de mais de 30º C, uma dessas vítimas da nossa invisibilidade seletiva e social. Passamos diariamente por personagens como esse, mas nesse caso, a invisibilidade e o anonimato parecia claramente ser uma opção do sujeito e não objeto de nossa indiferença ou preconceito. Debaixo daquele cobertor, uma história, uma vida, um irmão ou irmã, estava se preservando do olhar da sociedade. Provavelmente por não querer ser visto, julgado e analisado por essa mesma sociedade que não o incluí nem o aceita. Mas que o julga, o estuda, o recolhe para centros de triagem, tenta em vão afastá-lo das drogas e das ruas, mas que não tem capacidade de combater diretamente as causas e as distorções que provocam tanta desigualdade e que jogam milhões nessa mesma condição de indigência.

Notei que a pessoa manuseava algum objeto próximo a sua boca. Os movimentos ocultos de seus braços denunciavam essa ação. Um questionamento ético sobre se eu tinha o direito ou não de tirar aquela foto me sobreveio. Mas diante do anonimato preservado no ângulo que escolhi, resolvi fazer o registro com meu celular e chegando em casa postei nas redes sociais pedindo simplesmente que as pessoas comentassem o que viam naquela cena. A primeira constatação sobre esse tipo de invisibilidade veio no baixíssimo número de pessoas que se pronunciaram aceitando o desafio. Como se aquele cobertor realmente tivesse poderes sobrenaturais de tornar o cidadão e suas mazelas invisíveis. Certamente outras fotos publicadas que apresentassem situações esdrúxulas ou envolvessem fofocas de celebridades receberiam cem vezes mais posts. Dos poucos que reagiram a minha provocação uma pequena parte reproduziu o senso comum com observações infelizes carregadas de preconceitos referindo-se mal disfarçadamente ao indivíduo oculto pelo cobertor como marginal, fraco de caráter, inimigo e perigoso. 

Outros maldisseram as drogas e o Brasil e classificaram a cena de triste, angustiante, inadmissível. Os mais espirituais decretaram que só Deus teria a resposta para isso e os espirituosos definiram como sensação de vazio.  Os colegas do Laboratório de Antropologia Audiovisual da UFRJ reagiram de maneira mais qualificada e científica evitando os estereótipos, mas todos enxergavam naquela representação iconográfica um problema social grave.  Mas seria o crack, ou qualquer outro abuso de droga, a população de rua e os eventuais delitos cometidos, os problemas sociais? Ou estes seriam os efeitos dos verdadeiros problemas sociais implícitos na desigualdade crônica e exagerada de nossa sociedade, que mantém a lógica consumista e individualista de nosso mundo? Problema complexo demais para que eu pudesse chegar a uma conclusão definitiva ali diante daquele irmão ou irmã com o cobertor na praça, principalmente imprensado como eu estava por um compromisso profissional que para mim era inadiável.

Andei uns cinquenta metros já de posse da foto na memória de meu celular, mas me incomodei com minha distancia e frieza. Se as drogas na sociedade contemporânea é um assunto que me interessa e sobre o qual me debruço com minha literatura e meu cinema, não é suficiente e justo que eu, do alto de minha arrogância passe por aquele sujeito como se ele fosse invisível. Simplesmente usurpando sua imagem para minhas reflexões. Precisava ver seu rosto, ouvir sua história, oferecer ajuda.

Mesmo sabendo que o tempo que eu, dentro das prioridades da minha própria sobrevivência, entendia ter como disponível para aquela abordagem provavelmente seria insuficiente para qualquer efeito positivo e duradouro, voltei e me aproximei desse cidadão ou cidadã. Agora pela frente, para me esquivar dos poderes de invisibilidade do cobertor. Fui tentando me preparar para qualquer reação, mesmo agressiva, que poderia vir daquele que seria invadido por mim e surpreendido em uma prática recriminada pela sociedade.

Diante dele ou dela, os poderes do cobertor continuaram ocultando seu rosto. Mas a sua ação me foi revelada: ele ou ela estava comendo um pão velho e sujo. Tirava pequenos pedaços e os levava a boca. Envergonhado e confuso fui embora sem me sentir capaz, naquele momento, de ultrapassar aquela fronteira da invisibilidade social que eu acabara de ajudar a fortalecer.