quarta-feira, 11 de junho de 2014

Como montei a Fluminense FM


Bateu saudade. Achei esse texto que publiquei na revista Somtrês em julho de 1985, na época dirigida por Maurício Kubrusly. Foi o primeiro artigo que escrevi quando deixei a Fluminense FM, Maldita. Estava há anos e mais anos procurando até que o Google me salvou.  
   
Depois que eu e a Somtrês conversamos sobre este artigo, encontrei um amigo na praia de Itacoatiara, um rebelde paraíso situado na cidade de Niterói, Estado do Rio, onde vivo. Eu comentei que estava achando legal a idéia de escrever algumas linhas sobre a Fluminense FM na primeira pessoa. O tal sujeito respondeu que "deve ser difícil falar da própria filha" e coisas do gênero. O fato é que quando o sol se escondeu e o vento leste começava a machucar, peguei o carro e voltei para Icaraí pensando no artigo, pensando na Fluminense FM. Na verdade, essa história de filha é pura balela. A Fluminense FM foi uma grande mulher.

Uma mulher que nasceu sob o signo dos conceitos e preconceitos fabricados dentro de um mercado voltado exclusivamente para a indústria. A mais doente das indústrias, que é a da pasteurização de idéias. Quando Samuca Wainer (cuja morte não deu e nem dá para engolir) chegou para mim e disse que estava a fim de fazer uma rádio livre, acrescentei que ela deveria ser ousada, criativa e independente. Samuca tinha um jeitão exclusivo e explosivo de expor idéias, que às vezes alcançavam uma velocidade tão assustadora que sua fala não conseguia acompanhar.

Sei que ele falava, eu concordava, eu falava e ele concordava. Procuramos Ephrem Amora, superintendente do Grupo Fluminense de Comunicação, dono da Fluminense FM, e conversamos. Ephfrem, decididamente, era uma figuraça. Eu Samuca e ele trocamos idéias sobre dunas de Cabo Frio, pescas em alto-mar, Niterói e, finalmente, Rádio. Pedimos para fazer um programa de rock que iria se chamar Revolution. Dias depois, de novo com Ephrem, fomos convidados para fazer uma revolução em toda a programação da rádio. 

Estamos em setembro de 1981.
Por problemas pessoais, Samuca precisou sair e a equipe inicial da Fluminense foi formada por Sérgio Vasconcelos e Amaury Santos e ainda meu saudosíssimo amigo Alex Mariano (meu sucessor).

Mas entre dezembro e março, quando a emissora entrou no ar sua nova programação, só estávamos eu, Serginho e Amaury. Seguindo o conselho de um amigo e guru chamado João Luiz Faria Netto, optamos por uma locução exclusivamente feminina.

Mais de 100 mulheres correram para a porta da rádio quando publicamos nos jornais um anúncio pedindo "locutoras para FM sem experiência, mas com muito inglês". Tinha de tudo entre as candidatas. De física nuclear desempregada a pedicure. Foi uma barra, mas o time inicial acabou saindo. Nessa fase de implantação, o ânimo quase histérico de um personagem chamado Carlos Lacombe (gerente de promoções) foi fundamental.

Assim, para resumir, nascia, no dia 1º de março de 1982, a primeira FM empírica do Rio. Quem ligasse o rádio sentia, suor, criação, emoção, humor, tentações, gozação, inteligência, carinho, sensualidade, enfim, a Fluminense FM, a Maldita, surgia plena como uma mulher de idade desconhecida, cabelos lisos, olhos esverdeados e muito esperta. Essa menina foi recebida a pedradas pelo mercado engravatado, habituado a estilos vamp e cantadas vãs.

Afinal, perguntavam-se, que estação é essa que chega sem gírias, sem locutores do gênero mela-calcinhas e que não toca nenhum sucesso? Foi uma luta árdua que nosso departamento de marketing (um dia, eu e Lacombe, no outro, Lacombe e eu, mais tarde Alvaro Luiz Fernandes se juntou a nós) teve que enfrentar o que estava no ar. Mas, por sorte, o mercado abrigava cabeças mais abertas como a de Ignácio Machado (diretor do Ibope), roqueiro inveterado, e muita gente de propaganda que ouvia a Fluminense de cabo a rabo, mas não a programava em suas verbas por motivos até hoje inexplicados.

Mas a mulher estava lá. A cada dia, fisgando pencas e mais pencas dos ouvintes, enfeitiçados com a doçura amarga que todo recado inteligente quase que obrigatoriamente tem. Afinal, fazer rádio não é só botar música para tocar e a Fluminense vivia 24 horas de brainstorms coletivos. Obviamente, reinava a pancadaria entre os profissionais, cada um em busca de algo que pudesse inovar mais. Mas graças a essas pancadarias, o produto ia para o ar mais quente e a mulher aparecia na sacada mais nua e forte.

E, quem diria, aquela saudável e cada vez mais empírica confusão que conseguiria dar forma ao supra-sumo do absurdo seria convidada a visitar faculdades de comunicação. Faculdades que iam buscar num modelo empírico de FM respostas aos seus anseios. Os alunos queriam saber detalhes mínimos não sobre o funcionamento da Fluminense, mas sobre beabás de rádios em geral, que sinceramente, julgávamos que seus professores tivessem pelo menos abordado. Algumas perguntas guardamos como pérolas:

    * As FMs são eleitas ao vivo?
    * Como é que uma locutora só consegue trabalhar o dia inteiro? (Esse aluno não sabia que havia 7 profissionais com vozes parecidas.
    * Pode tocar disco em rádio?

Deixei a Fluminense no dia 1º de abril desse 1985. Parecia piada, mas não era. Quando bati minha carta de demissão, a impressão que tive é de que estava deixando uma mulher de verdade após quatro anos e varada de convivência diária e absolutamente orgásmica. Não foi fácil, mas aconteceu. O fato é que, na esteira dessa mini-emissora que desafiou as mais rancorosas teorias sobre rádio, muitas mudanças já sentimos no mercado.

A figura do locutor gostosão está sumindo. As meninas estão, cada vez mais, conquistando seu espaço nos microfones e o rock, pasteurizado, ou não, pode ser ouvido com relativa facilidade num montão de outras rádios. Mais: depois de ter sido dado como morto na década de 70, ressurge como morto na década de 70, ressurge no mercado um personagem fundamental chamado produtor. Os produtores estão retornando aos seus lugares, antes ocupados por um bando de cortadores de paradas da Bilboard. Rádio é, acima de tudo, uma linha de cultura, uma essência do pensamento contemporâneo e, para mexer com isso, é preciso ter formação, ter vivência, conhecimento de causa.

Se formos trilhar por esse caminho, podemos deduzir que, muito em breve, essa fobia ibopiana vai passar e todas as emissoras irão disputar os primeiros lugares com produtos realmente diferenciados, e não com ridículos listões que abortam a cultura musical dos dias de hoje. O FM segmentado vai tomar conta e, brevemente, que o diabo seja surdo, teremos rádios de samba, de rumba, de jazz, de blues, de forró, de entrevistas, debates, enfim rádios para todos os gostos para uma massa humana que está sedenta à cata de novidades. Mas isso é tema para outro artigo.  Um beijão, Maldita.

P.S. - A criação sempre esteve a serviço da sociedade. Em rádio, a criação está subordinada aos donos do espaço. É hora dos donos do espaço abrirem, sem medos, para os profissionais que acreditam na cultura pura e simples como solução para o tédio devorador de cabeças. Não estranhem os profissionais de criação. Eles parecem estranhos, têm um jeitão meio chegado ao de dono da bola, mas conhecem muito bem o que fazem, ou fazem muito o que conhecem. Não importa.


As FMs estão precisando de gás porque, simplesmente, os ouvintes não agüentam mais. Que surjam, realmente, novas Fluminenses por todo País, cada um engolindo uma fatia do mercado. Caso contrário, os dragões eletrônicos, comandados pelos deuses da orgia caótica que nos pretendem nos transformar em circuitos integrados, vão realmente conseguir transformar informação em informática. E aí, ninguém mais conseguirá segurar. Na medida em que um monte de pequenos e médios donos do espaço cederem à criação, o dragão chegará para trás, pois ele teme as idéias, ele teme o pensamento, a liberdade. Ele morre de medo, creiam. Morre mesmo.