segunda-feira, 30 de junho de 2014

Os verdadeiros senhores da guerra

Não vamos exagerar concordando com quem diz que a nossa cultura aportou por aqui trepada na hipocrisia. Há muitas, muitas exceções. Mas não dá para engolir sem sal de frutas quando alguém, seja lá quem for, diz que foi a uma festinha animada onde rolava de tudo, fingindo que não sabe que os compradores de bagulhos, da maconha à heroína, via cocaína e ecstasy, são os verdadeiros senhores da guerra no Brasil.

Não é preciso ser gênio para concordar que o dinheiro que vai para a mão do corretor do traficante vai se transformar em armas e poder. Cada grama de droga gera milhões e milhões de reais às cidadelas do tráfico que, como bem diz o secretário de segurança do Estado, José Mariano Beltrame, tem que ser retomadas com remédio amargo. O ex-presidente Lula foi mais longe ao dizer, em discurso, que não se combate o tráfico espalhando pétalas de rosas.

Certa vez, Rubem Braga provocou um cacarejo generalizado quando escreveu que o Brasil não é uma nação, mas um acampamento provisório. Argumentou que é essa a verdadeira condição de uma pátria sem patriotas. 

No caso do tráfico parece óbvio que quem financia é quem consome, assim como, por exemplo, o mercado de automóveis cresce proporcionalmente ao volume de vendas. A hipocrisia finge que não vê, mas os "sócios" informais dessa narconojeira são os anjinhos de pau oco que compram "bagulhinhos". 

De anjinho em anjinho, os bagulhinhos transformam-se num negócio gigantesco em que a morte é o gerente geral. Muito louco o nosso Brasil, onde transmissão de corrida de Fórmula 1 tem entre os patrocinadores a cerveja, "combustível" que mais mata nas ruas e estradas.

Os Estados Unidos deram um tombo considerável no tráfico quando, no final dos anos 90, decidiram prender usuários. De preferência celebridades, ou parentes de colunáveis para gerar a chamada "visibilidade", vulgo exemplo. Claro que não foi apenas esse tipo de ação que deixou os traficantes de lá desesperados. Segundo Steven Levitt e Stephen Dubner, autores do best seller Freaknomics, a legalização do aborto nos EUA em 1975 também quebrou várias pernas no narcobussiness.

Baseados em pesquisas sérias, os autores constataram que 87% dos filhos não desejados pelas mães se tornam criminosos. Com a legalização do aborto, que nos EUA é feita com respeito, higiene e atendimento médico e psicológico em hospitais públicos, no século 21 a criminalidade atingiu níveis baixíssimos nas metrópoles por uma simples razão: segundo o Dubner e Levitt os bandidos não nasceram.

Voltando ao Rio/Brasil, se o governo continuar nessa linha de devolver a população regiões que são governadas pelo tráfico, partir para a prisão de consumidores (de preferência ilustres) e ouvir o grito do Ministério da Saúde denunciando que o aborto clandestino (segundo o Instituto de Medicina Social da Uerj, são 1 milhão e 40 por ano) é um escândalo de saúde pública. Aí sim acende-se a luz no fim do túnel. Mas, sabemos que tudo isso é improvável. O controle da natalidade não interessa àqueles que vivem da miséria e a indústria do pistolão acaba escondendo celebridades e seus "bagulhinhos" da mídia.

Mas quem sabe um dia tombam também esses tabus? Teremos, enfim, a sonhada nação inexistente de Rubem Braga?