quarta-feira, 4 de junho de 2014

QUADROPHENIA, ópera rock sobre a rejeição. Versão ao vivo lançada em CD e DVD



















O amigo Hilário Alencar enviou uma mensagem informando que a tour mundial do The Who apresentando Quadrophenia virou CD duplo e DVD que vão ser lançados até o final deste mês lá fora. Sensacional! Valeu pela dica Hilário.

Quadrophenia, álbum lançado em 1973, é a melhor obra de Pete Townshend, líder da banda que este ano está fazendo 50 anos de idade. Ano passado a editora Globo lança no Brasil a autobiografia que Pete Townshend escreveu ao longo de quase 20 anos e que se chama, lá fora, Who I AM.

É lógico que ele fala de sua amizade com o melhor baterista da história do Rock, Keith Moon, morto em 1978, aos 31 anos, de overdose. É evidente que Townshend fala da formação do Who e da sua própria formação psicológica. Afinal, aos sete anos, foi molestado sexualmente pela avó e mais tarde, já com The Who, tomou todas as drogas e bebidas até entrar em coma no banheiro de um bar, em 1980 (ele diz que sobreviveu por milagre), se internar na clinica da psiquiatra Meg Petarson e sair limpo em 1981. A ela ele dedicou seu terceiro álbum-solo All The Best Cowboys Have Chinese Eyes e permanece limpo até hoje.

Townshend publicou seus traumas em Tommy (1969) e Quadrophenia (1973). Acho que para o criador da banda, guitarrista, cantor, compositor, poeta, romancista, teatrólogo, cineasta Peter Dennis Blanford Townshend, londrino de 68 anos, também. De 1973, ano em que Quadrophenia foi lançado, não conheço (nem ouvi falar) de um show do Who, ou de Townshend sozinho, que não tenha sido incluída uma faixa do álbum.

Álbum duplo conceitual que prefiro chamar de ópera-rock, Quadrophenia nasceu no mesmo ano de The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, outro poema a genialidade. Mas, o que Townshend escreveu fez com que vários críticos, biógrafos e fãs começassem a chamar o disco de “álbum da minha vida” porque, de ponta a ponta, ele aborda todos os tipos, formas e conseqüências do hediondo e deformador sentimento de rejeição.

Em 1979 o diretor Franc Roddam lançou o filme que, evidentemente, contou com a consultoria de Pete Townshend que numa dessas pisadas na jaca que eventualmente dá, entregou a direção musical a John Entwistle, baixista do Who, que deve a delicadeza de destruir a obra original. Até flauta doce o saudoso baixista (morto de cocaína com vinho em 2002) meteu na trilha sonora que, comprei, ouvi uma única vez e derreti em seguida, transformando o vinil em cinzeiro, como já havia feito com uma série de outros discos, para mim, execráveis.

Assisti ao filme Quadrophenia em 1981, mas sem legenda. Até os ingleses tem dificuldade de entender o dialeto mod (grupo de pós-adolescentes que formavam quadrilhas de lambretas em Londres no inicio dos anos 60) mas um dia, para a minha surpresa, Quadrophenia passou no Corujão, tipo três horas da madrugada de uma quinta para sexta-feira, dublado. Há coisas nesse mundo que desisti de entender, como, por exemplo, esse filme na Rede Globo. Aliás, ali em cima tem um link do You Tube com o filme na íntegra, mas sem legenda ou dublagem.

O filme é ambientado em 1963 e conta a história de um garoto chamado Jimmy Cooper (vivido pelo ator Phil Daniels) que, com a sua lambreta, vive rodando com os outros colegas mods (expressão de que vem de moderns), filhos de operários, que são molestados e perseguidos pelos rockers, de classe média, montados em potentes motocicletas.

Jimmy briga em casa e é expulso com tapas na cara, chamado de vagabundo. Vai trabalhar, se defende de uma injustiça, manda o chefe tomar no ... e é demitido. Se apaixona por uma garota, mas durante uma viagem do bando a Brighton, litoral onde rolou de fato uma batalha campal com os rockers, dezenas de presos e feridos, ele flagra a namorada com um cara dando amassos num beco.

E as rejeições vão se acumulando, Jimmy ingerindo cada vez mais doses cavalares de anfetaminas, até perceber que o único sentido de sua vida é o bando, a ideologia mod. Bando este que tinha um líder, rebelde radical que no filme é vivido por Sting, admirado, cultuado por Jimmy Cooper. A lambreta de Sting é cromada, cheia de espelhos, enfim, “cavalo” de um verdadeiro líder.

Até que um dia, atravessando mais uma crise de angústia, Jimmy vê a lambreta do líder encostada em frente a um hotel. Pior: flagra o próprio líder anarquista trabalhando como carregador de malas (“Bell Boy”), dizendo “sim, senhor”, “sim, senhora”, recebendo gorjetas, enfim, um capacho social. 

Desesperado, Jimmy espera Sting entrar e rouba a lambreta dele. Sem família, sem mulher, sem trabalho, sem grupo de amigos, decide se atirar de uma escarpa britânica. Com a lambreta do personagem de Sting. Mas, há sempre um mas, Townshend deixa em aberto se Jimmy Cooper morreu pois a lambreta cai no abismo vazia.

Os danos das rejeições são profundamente tratadas nesse filme que a crítica mundial classificou como “drama”. Aos que perguntam se é uma autobiografia de Townshend, a resposta é não. Aos que perguntam se retrata a adolescência de mais de 80% dos fãs do Who, com certeza a resposta é sim.