sábado, 7 de junho de 2014

Surfboard

Lembro bem. Eu devia ter uns 11 anos quando envolvido pelas ondas no mar de Itapuca, Niterói (FOTO) , onde pegava surf de peito, decidi virar surfista profissional. Enquanto esperava boas ondas, de preferência bem altas e quebrando devagar, fazia meus planos. Faria um curso intensivo de surf com o amigo Jiló (um dos melhores do Brasil), terminaria o ensino médio e cairia dentro nos campeonatos.

Certo de que surfaria bem (não fazia feio encarando ondas de peito) no futuro deixaria Niterói, o Estado do Rio e, se desse, o Brasil em busca de ondas gigantes e de uma situação financeira que pudesse me manter com um certo conforto. Eu não tinha ideia naquela manhã que um dia o surfboard se tornaria uma indústria milionária, cheia de patrocínios e grandes oportunidades.

O plano ficou me martelando aquele ano. De fato eu queria ser um surfista e a única pessoa que sabia disso era meu saudoso tio Evaldo, irmão de minha mãe, com quem eu compartilhava minhas dúvidas, angústias, ansiedades de adolescente. Sentei com ele num bar em São Francisco e expus minhas ideias. 
Liberal, cabeça boa, democrata, tio Evaldo me deu a maior força mas garantiu que, lamentavelmente, meu plano não daria certo. Por que? Porque surfar era caro, muito caro, e eu não teria condições de arranjar bons patrocinadores porque, quisesse ou não, era um principiante.

Concordei com ele, banhado de frustração. Tanto que cancelei o curso com Jiló. Melhor não saber surfar do que aprender e não poder me dedicar 24 horas por dia. Agradeci a meu tio por mais aquela demonstração de paciência e fui embora para casa. A pé. Morava em Icaraí, meu tio quis me dar uma carona de carro mas eu precisava caminhar. E foi o que fiz.

Voltei a estudar. A princípio faria Medicina e fui parar no Curso Miguel Couto, Centro do Rio, onde conheci grandes figuras de quem me tornei amigo. Fiz vestibular e, como era de se esperar (não me entendi com a química inorgânica e nem ela comigo) levei bomba. Fiz outro para Comunicação e passei em oitavo lugar. O futuro médico foi estudar jornalismo.

Mas toda a vez que o mar ficava grosso eu ia ver os caras surfarem. Não perdia uma ressaca. Rio, Niterói, Itaúna (Saquarema) eu vivia entre os surfistas sem saber surfar por razões que já expliquei. Na faculdade decidi que seria dono de uma revista de surf, de preferência na Califórnia e cheguei a conversar com um colega que me convidou para fazer uma revista de ciência. Até fizemos e ficou boa. Esse cara me disse que eu só conseguiria fazer uma revista de surf se dominasse completamente o inglês e a área comercial (vender anúncios). Como eu não me garantia nessas áreas, decidi virar plateia eterna do surfboard e partir para uma vida profissional viável, concreta, como, graças  Deus, consegui e consigo.

Tipo do trabalho que sei e gosto de fazer. Ligar câmeras, enquadrar pranchas e ondas e depois editar com uma grande trilha sonora. É o que pretendo fazer, um projeto para 2015, um grande vídeo de surfe cheio de músicas maravilhosas. É a tal lei das compensações.