quarta-feira, 30 de julho de 2014

Numa agência bancária, ano 2000 (gostaria que fosse uma ficção, mas não é)

Texto restaurado e remixado

Um senhor de uns 80 anos, depois de enfrentar a longa fila de idosos na agência do banco, sentou-se na mesa de uma das subgerentes que povoam aquele antro. Eu estava atrás e ouvi tudo.

- Boa tarde, minha senhora, eu...

- Alto lá! O senhor não tem saldo suficiente para sentar na minha mesa!
Sinceramente, achei que aquela mulher estava de gozação. Achei que era amiga do tal senhor, que tudo não passava de uma brincadeira, mas para minha surpresa e horror, ela dizia a verdade.

- Desculpe, senhora, mas é que eu estou dependendo só de uma assinatura 
sua.

- Vocês são engraçados...acham que banco é asilo de caridade.

- Mas, minha senhora, sou cliente do banco há muitos anos.

- Porque quer. Eu nunca obriguei ninguém a ser cliente deste banco e muito menos da “MINHA” agência!

O homem levantou e foi embora. Chegou a minha vez.

- Boa tarde, tenho saldo para sentar na sua mesa, dona Andréia (nome real)?

- O que deseja?

- Não desejo. Comunico que a senhora vai ter que rubricar este documento, na forma da Lei.

Ela rubricou.

- Ouvi seu diálogo de vaca com o senhor antes de mim.

- O que é isso? Fala baixo!

- Eu só falo baixo, dona Andréia. A senhora é que é chegada a uma histeria.

- Bom...então está tudo resolvido, né?

- A senhora está louca para me ver fora da SUA agência, não é?

- Não...não é bem isso, ela dizia simulando súbita mansidão.

- O castigo vem à vista, com muitos juros, dona Andréia.

Levantei e saí. Na calçada procurei o senhor que foi humilhado pela baranga do banco, mas não encontrei. Quinze dias depois li no jornal: “Bandidos seqüestram gerente de banco em casa para assaltar agência”.

O texto não trazia o nome do banco, nem a agência e nem o nome da gerente. Liguei para o jornal, onde tenho um monte de colegas e, bingo! A seqüestrada foi a dona Andréia. Os bandidos, que sumiram, entraram na casa dela as 5 horas da manhã e foram até o quarto. Amordaçaram a “dona” da agência e a levaram para lá. Limparam o cofre já que Andréia tinha todas as senhas e chaves. Eu queria que os assaltantes tivessem sido presos só para ir a delegacia cumprimentá-los, mas até hoje não há notícias.

Dois dias depois do assalto espetacular, fui ao banco ver a cara de Andréia. Como estaria aquela víbora prepotente, mau caráter, arrogante? Não estava lá. Informaram que, em estado de choque, foi hospitalizada. Pensei em “visitá-la” no hospital, mas aí seria demais.

Três, quatro, cinco meses, nada de Andréia voltar. Foi quando soube (o destino é sensacional) que ela foi aposentada com distúrbios mentais, o mesmo caso do senhor de 80 anos que não tinha saldo para sentar na mesa dela.


Ponto final.