sexta-feira, 4 de julho de 2014

Obesidade existencial

Baiacu 1

Baiacu é um peixe com dentes parecidos com os da piranha e quando você pesca e coça o barrigão branco dele, incha até explodir. Baiacu não é gente, morde o pé da gente. Dizem que baiacu voa, que baiacu é bicheiro, enfim, falam tudo desse estranho peixe, feio, porco, mau caráter, carreirista, fedorento que, sinceramente, não sei pra que existe. Nem ele, nem os tubarões que deveriam ser mortos a bombas, assim como cobras, ratos e aranhas.

Baiacu é também o apelido que os obesos arrastam pela vida, também chamados de bolas de sebo, colhões de boi, cloaca de Vênus e outros clássicos da baixa literatura da nossa rica, caliente e triangular língua.

Baiacu 2

O homem-baiacu inventou o regime alimentar para combater a obesidade que começa com um pequeno aumento da barriga, da cintura, das coxas e uma quase ilusória diminuição do pênis (que vira um sininho no meio da selva de banha) até transformar pessoas em massas disformes de gordura se arrastando pelas ruas suando como zebras estupradas no Parque Nacional do Quênia, onde flamingo vermelho voa de costas para não levar um tiro na cara.

A pressão arterial deste adiposo mamífero, em geral, está na faixa de 17 por 10. Ele tem pouca resistência até para copular, uma operação delicada, diga-se de passagem, pois tem que recorrer às humilhantes técnicas adotadas por mulheres grávidas de 7 meses em diante.

O regime alimentar é a única maneira do homem-baiacu virar peixe-agulha. Fechar a boca. Não existe outra saída. Mas o regime é uma das piores invenções pois faz o homem-baiacu mentir para si mesmo, se auto-cornear ao abrir a geladeira de madrugada e atacar dois litros de sorvete de coco da Kibon, ou cair de boca no famigerado Movenpick e seu veneno de nozes.

Baiacu 3

Quando começa a fazer regime, a bola de sebo fica ansiosa e, em geral, começa a tratar grosseiramente a sua mulher e (ou) companheira. Torna-se um insuportável covarde. Usa a sogra como saco de pancadas alegando que precisa fazer exercícios físicos. A crendice popular registra dramáticas crises de abstinência de homens-baiacu em dieta, aquele terrível desejo de devorar 44 chocolates Nestlé de 800 gramas, com recheio de castanha do caju. Aqui perto, no século passado, um homem quis comer a sua cadela poodle no auge de uma crise, mas foi contido por populares quando já estava com o rabo do animalzinho enterrado na garganta,

Baiacu 4

Hoje em dia é praticamente impossível encontrarmos um obeso que não esteja fazendo regime. Fazer regime alivia a culpa e furá-lo, comendo, distraidamente, uma ou outra torta alemã, um quindão, ou 57 brigadeiros é considerado “acidente de percurso”.

Não tem jeito. Homem (mulher segue outra tabela) que tem 1.70m de altura tem que pesar 60 quilos no máximo. 1.80m, 80 quilos e por aí vai. Essa é a dura realidade da quase incorruptível balança. Mais: não conheço obeso que goste de ser obeso. Conheço gordo. Obeso não. E entre gordo e obeso existe um elefante diferenciador.

Obesidade é como um namoro que vai mal das pernas. Vai se arrastando, acumulando gorduras, astral baixo, pressão alta, vagalhões de culpa, desculpas, até que um dia você ouve algo do tipo “vê se não aparece mais aqui desse jeito” e, big bang! Explode tudo. Você pensa, constata que aquela história não foi de toda má, mas em matéria de sargento já basta o guarda da esquina. E como a gordura que asfixia o coração, é preciso dar um fim as pelancas acumuladas pela repressão, pela depressão, pela desconfiança, por toda a embalagem que embrulha as relações mal resolvidas. Aí, meu amigo, é só fechar a boca e empinar o peito para perder peso e culpa. Saúde.

Texto de meu livro “Torpedos de Itaipu”, editora Artware -  1995