sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Arthur Dapieve me fez ouvir de novo o último disco do Pink Floyd




Contaminado por críticas de alguns colegas, que chamaram o último disco do Pink Floyd, “The Endless River”, de golpe, lixo, sobra e tudo mais, acabei não ouvindo direito. Fui displicente, dei só uma verificada, escutei sem ouvir.

Hoje, em sua coluna no Globo, o colega Arthur Dapieve escreveu “Sobem os créditos” onde elogia “The Endless River” com naturalidade, sagacidade e muita precisão. Ao longo do artigo, ele escreve:

“(...) Foi diante da imagem de uma vaca que o meu coração se abriu pela primeira vez. A vaca que está — desde 1970 e para todo o sempre — na capa de “Atom heart mother”. O irmão mais velho de um colega de escola tinha o LP. Vê-lo e ouvi-lo de longe deu-me taquicardia. Ela nunca passou. E, mais uma vez, se intensificou quando botei para tocar “The endless river”, concebido pelos dois membros restantes da banda, o guitarrista David Gilmour e o baterista Nick Mason, para ser o último disco do Floyd.

“A imagem a ser perscrutada agora é a de um homem sozinho num bote, remando num oceano de nuvens em direção ao Sol nascente. Na contracapa, remadas adiante, o homem não está mais lá. De modo bem floydiano, “the endless river” era o penúltimo verso da última faixa do CD anterior, o mediano “The division bell”. (A quem interessar possa: o último verso era “forever and ever”, e o nome da música era “High hopes”.) “The endless river”, o disco, foi quase todo montado a partir das sobras de estúdio de vinte anos atrás, quando o tecladista Rick Wright estava bem. Ele morreu em 2008.

“A música do Floyd sempre foi a apoteose da sinestesia, isto é, profundamente visual. O novo CD faz-me pensar em créditos subindo numa tela, depois de um épico de 49 anos de duração.(...)
“(...) O fato de “The endless river” ser praticamente instrumental o aproxima dos discos do Floyd no começo da década de 70 do século passado, quando foi necessário lidar com a partida do primeiro líder, Syd Barrett, devido à loucura induzida por drogas. Foi apenas a partir do clássico-dos-clássicos “The dark side of the moon” (1973) que o trabalho do grupo voltou a equilibrar vozes e instrumentos.

“(...) Um fecho digno para um disco digno, às vezes bem bonito, que não envergonha o passado que homenageia.(...).
Curiosamente, ontem eu pensava sobre “The Endless River” ser ruim ou hermético. 

Por causa do artigo, pus o disco para tocar na Rdio (www.rdio.com), também disponível em na Spotify (www.spotify.com) e constatei: 1) de fato eu estava com má vontade; 2) The Endless River é um disco difícil, extremamente cerebral, que exige muita atenção; 3) Espero mudar meu ponto de vista. 

Sem querer comparar, mas quase comparando, o álbum tem alguns sintomas de “The Final Cut” (de 1983), último trabalho do Pink Floyd com Roger Waters a bordo. Na verdade, o disco é praticamente dele. Sozinho.

Agora, vamos ao rio sem fim, despedida de um dos grupos que mais mexeram com a cabeça do mundo.