segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O crepúsculo dos egoístas mais próximos




Devido a circunstâncias da vida, a semana passada foi barra pesada. Não vou detalhar porque não é do meu feitio, mas foram dias banhados de ansiedade e, em alguns momentos, de torpor. No bojo, as temidas revelações sobre pessoas que julgamos próximas e que, quando não damos sinais de vida (como muita gente não dou sinais de vida justamente quando o tempo fecha) elas somem na paisagem.

Foi quando num ato pensado, consciente, consistente, resolvi, simbolicamente, deletar essas pessoas de meu banco de memórias e jogar o resto no lixão da futilidade existencial, o mundo do hahaha, da gargalhada social. Parei de levá-las a sério, parei de contar com elas, parei de me preocupar com seus problemas, enfim, parei, deletei mesmo. Foi duro, aliás está sendo, um esforço enorme, extraordinário, mas necessário em nome de minha saúde afetiva.

Ironicamente – vejam vocês – eu atravessava uma rua sábado e uma pessoa que mal conheço me parou quando cheguei a calçada e, para a minha surpresa, perguntou “está acontecendo alguma coisa? Você parece abalado!”. Estava. Não disse nada, mas a simples abordagem daquela pessoa quase me fez cair em prantos ali mesmo, naquela calçada úmida de chuva no meio do cipoal de concreto, calhas, táxis, ônibus. Eu só disse “muito obrigado” a pessoa quase desconhecida e segui, de volta para a minha missão.

O crepúsculo dos egoístas mais próximos, que decretei pelo meu bem e da humanidade como um todo, é compensando por parcos amigos que me ligam e compartilham comigo. Não é nada demais, ligar e compartilhar, mas nesses momentos isso é tudo. Um desses amigos, que conheço desde 1975, me liga cinco vezes por dia. Quem tem um desses pode “matar” dez falsários, estelionatários emocionais.

Minha ideia era escrever uma homenagem a Manoel de Barros, mas o nó na garganta deu lugar a este desabafo. A Manoel de Barros, uma pequena homenagem, um fragmento de sua obra:

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.