domingo, 23 de novembro de 2014

Pelegos querem a volta da censura à imprensa


                                      

Uma das prioridades do governo é a famigerada regulação da mídia, uma ideia que, noves fora tudo, no fim das contas pretende amordaçar o exercício livre do jornalismo no Brasil. Sonho da pelegada pendurada em cargos públicos, muito bem remunerada, os meios de comunicação passariam a ser submetidos a regras que ele, governo, iria (ou irá?) impor segundo suas necessidades escusas e escroques.

Para variar, o mestre Zuenir Ventura (eleito novo imortal da Academia Brasileira de Letras) falou muito bem sobre o tema em sua entrevista ao Globo, 15 dias atrás. O jornalista Maurício Meireles perguntou o que ele acha da regulação da mídia e Zuenir respondeu que “Isso esconde impulsos autoritários. Encobre um pouco um desejo de censura que vem sempre do poder. Quem está sujeito à crítica sempre acha que é preciso controlar a imprensa de alguma maneira. O ideal, para o poder, é que a imprensa pense a favor. 
Essa história de imprensa de oposição só é agradável para quem não está no poder. Acho que a sociedade hoje não vai admitir uma coisa dessas. Por mais que vejamos manifestações dizendo que a imprensa se excedeu, é muito melhor assim. Quem viveu a ditadura sabe. Hoje há quem diga que na ditadura não tinha violência nem corrupção. Tinha sim, mas não se sabia. Hoje o país é um nervo exposto. As vezes cheira mal, mas você está vendo tudo. Tem que ser assim”.

É uma atitude antidemocrática? Totalmente. Pior: ouço poucas vozes no Congresso gritando contra essa medida que, calando a boca (a porrada?) dos jornalistas, varrerá a corrupção + armações + descasos + incompetência + índice inflacionários altos + o Brasil real, enfim, para debaixo do tapete. Os congressistas que elegemos não tocam no assunto porque, em sua maioria absoluta, comem no pires dos pelegos que tomaram o Planalto as migalhas do banquete que os reaças que desgovernam a nação cospem no lixo todos os dias.

Neste 2004 celebrei 42 anos de jornalismo. Comecei muito cedo aqui em Niterói como colunista do Jornal de Icaraí. Em seguida, atravessei a Baía e fui trabalhar em grandes veículos (todos censurados) inclusive O Pasquim que, várias vezes, encontrei fechado pelos verdugos com seus donos (Jaguar, Ziraldo, Paulo Francis e companhia) presos. Escrevi também no ultra radical de esquerda Movimento, que a ditadura acabou fechando definitivamente. Nunca fui preso porque Deus não quis.

Vi a censura entrar na minha vida e na dos meus colegas, alguns deles submetidos a tortura (e por isso deixaram o Brasil definitivamente) e nunca poderia imaginar que ela estaria dando sinais de retorno nas mãos de um partido que nasceu justamente com o apoio dos jornais alternativos que deram a maior força a Lula quando ele assumiu o sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo. Eu estava no Pasquim quando todos do jornal entrevistamos o então líder sindical, em 1978. Eu vi Lula recusar uísque e pedir um copo de cachaça. Vejam vocês.

Agora sinto o odor da hiena retornando à savana. Ela, o abutre, a coisa ruim, o caos de qualquer democracia. Ela, a censura. Como em dezenas de vezes no Império, na Velha República, no Estado Novo, nos regimes mais duros como o de 1964-1984, a guilhotina da mordaça impediu que a população soubesse dos podres de reis, viscondes, barões, generais, senadores, deputados, vereadores, presidentes, ministros, presidentes de estatais, guardas da esquina. 

Aqueles que sentem saudade da ditadura porque era, segundo eles, um regime limpo, devem se lembrar que os que escreviam alguma coisa contra sumiam ou eram covardemente mortos como o grande Vladimir Herzog, enforcado numa cela do DOI CODI (unidade do Exército) em São Paulo, em 1975, depois de ter sido preso na redação da TV Cultura, acusado não se sabe de que e assassinado por razões até hoje misteriosas.

A tal regulação da mídia (que é a cara do decano da tortura no Brasil, Filinto Muller, nazista sem carteirinha que foi braço direito de Getúlio Vargas no Estado Novo) vai servir para, por exemplo, baixar a inflação. Censurada, a mídia terá que bater cabeça para qualquer índice. Ídem com relação ao desemprego, a falta de chuvas, energia, etc. Vocês sabiam que até 1979 era proibido divulgar quando a temperatura ambiente passava dos 40 graus? Por que? Porque caso a mídia divulgasse mais de 40 graus, as leias trabalhistas da época obrigavam os empresários (que davam muita grana a ditadura) a pagar insalubridade a massa de trabalhadores que padecia no calor. 

Sabiam que a inflação de 10% da ditadura foi maquiada? Que todas as taxas de crescimento alto e desemprego baixo foram inventadas?
Agora, caso a regulação se torne realidade, tudo será como antes, mas, com certeza, o pau vai comer porque pelo que observo, ouço, entrevisto, as novas gerações estão do nosso lado e não toleram não só a hedionda corrupção que assalta a nação como as manobras que querem fazer para varrerem o lixo para debaixo dos carpetes federais.