quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Batendo com a cabeça na Parede



Uns dois anos atrás, dias antes do Natal, perambulando pela internet, li alguma coisa sobre o Muro das Lamentações, em Jerusalém. Conheço algumas pessoas que foram lá e ficaram levemente horrorizadas vendo pessoas ululando e batendo com a cabeça no Muro.

Não conheço a fundo a história do Muro, mas, é lógico, sei que é sagrado. E respeito tudo o que é sagrado porque sou cristão e mantenho com o desconhecido a mesma relação que mantenho com o mar: temor reverencial. Não me meto com o desconhecido porque não quero que ele se meta comigo. Aprendi muito sobre o judaísmo em minha adolescência em Teresópolis, onde muitas amigas judias me contaram histórias sobre fé, crença, fatos, lugares.

Também na época do Natal, um frequentador de meu extinto fotolog estava se lamuriando com a falta disso, falta daquilo, que esse é o país do descaso, que o mundo é o caos, enfim, usou de suas prerrogativas tecnológicas para encher e chutar o saco da pequena multidão que frequentava o tal fotolog. Que por sinal não era meu. Fiz para a banda The Who e a seu criador Pete Townshend até hoje na ativa, cuspindo fogo pelo mundo com sua adolescente energia dos 69 anos e a seus fãs, a quem chamo de whozers.                                                    

A lamúria mata. Mata vaca, galinha, peixe-boi, piranha. Aliás, sugiro ao Ibama que a piranha seja promovida logo a condição de mamífero. Basta de hipocrisia. Lamentação compulsiva mata até o próprio pelo pubiano humano que trepa no chororô como cavalo de batalha e sai pela humanidade como um forno de microondas torrando a paciência alheia.

Independente da sua conotação histórica, o Muro das Lamentações é de extrema utilidade pública/emocional/existencial. Se o cara encosta, bate com a cabeça, soca, chuta, se roça nas pedras e depois taca álcool está no lugar certo. O que não suporto é lamentação crônica numa padaria, num ônibus, numa van, no nosso complexo auditivo.

É por essas e por outras que defendo a criação de réplicas reduzidas do Muro para serem espalhadas pelas cidades. Pequenos lugares onde o cidadão pare e descarregue toda a sua mágoa, o seu beicinho, o seu suposto fracasso existencial, cornofobia, enfim, descabele o fandango. Essas réplicas poderiam ser acolchoadas para o usuário bater com a cabeça, dar chicotadas no próprio lombo, enfim, cometer um vale tudo em prol da saúde pública.                                                       

Imagino o cara saindo de casa dizendo “vou até ali no Muro e já volto”, em vez de tostar, grelhar o seu entorno que somos nós. Ah, sim, os Muros públicos deveriam ter revestimento acústico para o usuário poder uivar, mugir, rugir, gralhar, gritar nomes livremente. Como palpiteiro, penso que iria fazer bem não somente a nós como ao próprio chafurdador de derrotas. Li no manual de meu carro que esbofetear metaforicamente melhora a pressão arterial, a pele fica mais lisa, enfim, como diria Lulu Santos, “tudo azul/todo mundo nu”.