quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Estava de cabeça quente...continuo fã do The Who

 
       

Um dia desses publiquei aqui na Coluna um desabafo. Escrevi que deixava de ser fã do The Who depois de ouvir o novo CD da banda, “Quadrophenia Live in London”, lançado algumas semanas atrás. De cabeça quente, como um mandril, considerei uma falta de respeito a uma banda que já teve na bateria o monstruoso Keith Moon e no contrabaixo o “Dedos de Trovão” John Entwistle.

Comecei a atirar porque considero “Quadrophenia”, originalmente lançada em 1973, a obra prima do Who. Quiçá do rock. Na verdade é um disco do fundador da banda, guitarrista, cantor, pianista, compositor, escritor, roteirista de cinema etc Pete Townshend. É um disco dele, bombástico, que ouvi pela primeira vez descendo a serra de Teresópolis com Zé da Gaita no banco do carona da Variant 1972 de meu pai.

Descemos a serra até o posto Garrafão, mas logo depois subimos. Não me lembro de ter ouvido música tão alto dentro de um carro. Por conta disso, um dos alto falantes de grave estourou e meus tímpanos quase foram para o espaço. Passei uns 15 dias na serra com zumbido.

Ao longo de minha vida, Quadrophenia se fez presente em vários momentos. Na verdade é a minha trilha sonora pessoal e também de boa parte de amigos da minha geração. Por isso, ao ouvir o CD duplo do Who tocando sem Moon e Entwistle (ambos mortos por causa de drogas) em Londres, mais do que enfurecido fiquei decepcionado. A meu ver, Townshend não deveria ter profanado sua própria obra, etc. etc. etc.

Ontem à noite, conversei longamente com meu irmão (metade do planeta chama de Fernando e a outra, como eu, de César) e a mulher dele, Milena, minha cunhada-irmã, sobre um assunto extremamente emocional, visceral, comovente.

Quando me levava até o portão, onde estava meu carro, meu irmão falou do tal artigo que aqui publiquei anunciando o fim da minha relação com o Who. Ele disse que ficou “triste” com o que leu. Não só ele, como muita gente que me mandou e-mails para luizantoniomello@gmail.com (respondo a todos).

O que meu irmão não sabia é que eu também fiquei meio chumbado dois ou três dias depois que publiquei o desabafo. Afinal, desde meus 14 anos de idade, The Who está em minha vida, direta ou indiretamente. Comecei ouvindo “Tommy” (1969), depois o explosivo “Live at Leeds” (1970), corri atrás e consegui na extinta Modern Sound (templo do disco no Rio de Janeiro) o primeirão da banda, “ My Generation” (1965), “A Quick One” (1966), “The Who Sell Out” (1967) e depois veio a cordilheira: “Who´s Next” (1971), “Quadrophenia” (1973), enfim, toda a discografia até “Who are You” (1978) o último que Keith Moon gravou. Continuei ouvindo e comprando os discos, continuei fã, li oito biografias da banda, duas de Pete Townshend, escrevi não sei quantas páginas de jornais, revistas, sites sobre a banda, fiz dezenas de programas de rádio e TV, enfim, uma vez no Estadão escrevi que “conheço mais The Who do que a mim mesmo”. Minha analista na época ficou chocada quando leu.

Fato é que a cabeça esfriou e nesse momento, enquanto escrevo, ouço um disco maravilhoso: “Endless Wire” (de 2006) disco que o Who gravou sem Moon e sem Entwistle. Um disco sublime, comocional, visceral, como eu, meu irmão e minha cunhada estávamos ontem à noite. Pete Townshend, meu ídolo desde sempre, tem a capacidade de escrever as músicas certas para momentos e lugares certos.

Continuo fã do Who e de Townshend. Continuo fã dessa banda que transcende sua discografia. Lógico que não vou mais ouvir o tal “Quadrophenia: Live in London” e sugiro aos que forem comprar que, por favor, ouçam antes o original de “Quadrophenia” cuja capa é aquela que está ali em cima.

Valeu, Pete! Estou de volta a fila do gargarejo.