quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Quando me afasto da música o vento sopra de sudoeste



Meu querido e muito saudoso amigo Alex Mariano Franco, assassinado em 2013 por bandidos graças a leniência do Estado, era o rei dos apelidos. Conheço umas 10, 20 pessoas que foram apelidadas por ele e nunca mais se livraram dos codinomes.

Amigo desde a adolescência, ele conheceu meu “braço armado” quando foi fazer comigo a Rádio Fluminense FM, em 1981. Na época, ele me apelidou de Luiz Antonio Mulla (com dois L) por causa de meus coices que ele dizia serem “antológicos” e, também, de “imperador Bokassa”, referência a Jean-Bédel Bokassa, hediondo ditador africano que de meados dos anos 1970 até 1985 cometeu genocídio e até canibalismo quando esteve no poder.

Quando Alex me chamou de “Bokassa” pela primeira vez (eu quase tinha saído na porrada com um figurão da rádio momentos antes), dei um coice no meu querido amigo. “Alex, Bokassa é o cacete! Luiz Antonio Mulla pode, mas Bokassa nem a pau!”. Ele não perdeu a pose: “e amado chefinho, pode?” Foi o apelido que pegou.

Sempre lembro do Alex porque ainda não pude chorar a sua morte vil, canalha, covarde como deve ser chorada. Ele me dizia, sempre debochadamente, “amado chefinho, quando você para de ouvir música entra em TPM e sobra pra gente”. Tinha razão, o grande Alex.

Recentemente me afastei da música e, quando percebi, o mar tinha virado, ventos de sudoeste começaram a soprar forte e eu me vi diante de ondas de 20 metros de alturas, como aquelas de Maverick, Califórnia, com uma prancha pequena. Como no filme “Tudo por um Sonho”.

Não são as maiores ondas que tive que encarar, mas me deram trabalho. Tenho surfado nos últimos meses ouvindo petardos como o desasossega vizinhos “Quadrophenia”, do The Who (original de 1973), que ouvi no computador turbinado por amplificação Edifier que meu irmão e meu sobrinho me deram de presente.

A medida em que a guitarra lancinante de Pete Townshend, a bateria extraterrena de Keith Moon, o baixo desesperadamente genial de John Entwistle iam engolindo os 17 andares de meu prédio, fui acalmando, acalmando, acalmando e sentei para escrever esse desabafo. Por que? Não sei.

Fato é que deixei de ser Luiz Antonio Mulla em 2008, quando, sem saber, fui trabalhar num escroque calabouço corporativo que cismou de me domar. E acabou quase domando, o que me fez muitíssimo mal. Nem os 12 anos e varada de Governo em Niterói, onde fui Secretário interino de Cultura, presidente de uma fundação de arte e depois de uma empresa de turismo, eu aliviei nos coices. Ao contrário. Aí que eu tive que mandar chumbo mesmo porque política não é para babaca. Se você não chuta antes acaba linchado.

Por essas e por outras, prometo as zaralhadas de leitores aqui desta coluna, que NÃO VOU MAIS ABANDONAR A MÚSICA, que vai de rock and roll existencial até bossa nova da região de meu amigo e padrinho de estúdio Roberto Menescal, via Egberto Gismonti, Badi Assad, André Geraissati e similares.

Continuo dando coices, só que mais conceituais (?). Sem coice não dá. Uma vez, um conhecido déspota me enviou um corvo-correio (estafeta dele) com a mensagem “de concessão em concessão viramos Conceição”. O canalha tinha razão.