domingo, 14 de dezembro de 2014

Contemplar bundas agora é crime

https://www.youtube.com/watch?v=vcwl-Q7pAtY

                                                          


Dias atrás a TV mostrou uma reportagem ridícula. Em Nova Iorque, uma mulher prendeu uma micro-câmera nas costas para flagrar o que ela chamou de tarados que assediam mulheres nas ruas. Para ela, homens que contemplam a sua bunda (que por sinal não é lá essas coisas), mesmo sem falar nada, estão assediando. Leva a imagem para a polícia e tenta complicar a vida dos apreciadores. No dia seguinte escrevi no Facebook que se fosse comigo ia pegar prisão perpétua porque olho mesmo. Não falo nada, não mexo um músculo, mas quando uma mulher interessante passa, paro e olho.
Xico Sá, colega jornalista e escritor, disse semana passada que usa a técnica do “ponto futuro”. Quando a mulher vem ele calcula onde ela irá passar em poucos segundos e olha para aquele ponto, evitando que ele tenha que parar e virar o pescoço. Figuraça e Xico.

Encontrei o texto abaixo no Google. Foi publicado e depois guardado em alguma gaveta entre o ano 2000 e 2009, num jornal local de Niterói. Vamos lá:
A quarta invenção mais sensual da civilização é a calça jeans feminina. Claro que a curiosidade vai berrar “e a outras três, meu chapa?”. Vamos lá. Terceira, o micro-biquini de lacinho; segunda a micro-calcinha de cotton; primeira o cipozinho com botão de folha de parreira, que você só encontra na Bahia.

Sei que agora chamam de incorreto, mas quando cruzo com uma mulher gostosa na rua, paro, viro o pescoço e olho. Meu inconsciente deve tramar algum macete pois nunca fui flagrado por uma delas. Nunca. Lembrando que mulher gostosa não tem cor, altura, idade, peso, nada. Mulher gostosa é como música boa. Bate e fica. Não tem explicação. Por timidez jamais fiz “fiu fiu”. Ainda assim, para evitar um desatino perante uma cavala bem assombrada, boto a mão na boca.

Ah, Drummond. Ah, grande Carlos Drummond de Andrade que em vez de assobiar “fiu fiu” escreveu o belo poema “A bunda, que engraçada” que lá pelas tantas se desmancha: “(...) A bunda basta-se/ Existe algo mais?/ Talvez os seios/ Ora - murmura a bunda - esses garotos/ ainda lhes falta muito que estudar/ A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio/ Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente(...)”

Falo com a certeza de que jamais em tempo algum molestei, cantei, encoxei em ônibus/barca/metrô/avião, enfim, só contemplei o que (não nego) é o maior patrimônio da Natureza, razão de viver, centro do Universo: a mulher. Olhar, sorver, contemplar sem atacar é um direito. Por isso, olho. Dos 18 aos 100 anos, mulher gostosa é mulher gostosa. Buñuel não acreditava em “mulher sem bunda”. Muito menos eu, mestre. Existem belas bundas retas, retinhas. 

Catherine Deneuve, que mesmo arfando, suando, passando mal mesmo, consegui entrevistar nos anos 1990, é proprietária de uma. Belíssima.
Meu único acidente de trânsito foi uma varada na traseira de um caminhão que freou numa rua aqui da cidade. Uma diva negra saía de uma galeria como as lavas do Vesúvio inundando Pompeia. Zonzo, bati. Zonzo, confessei minha culpa. Zonzo, parti sem telefonar para o seguro.

Certa vez escrevi que o brasileiro, elegantemente, cede a frente as damas em entrada de elevador, escada de ônibus, porta de restaurantes não por educação, mas pela oportunidade de contemplar o dorso por três segundos. Já filosofava a extinta Rádio Relógio que o segundo é um milagre que não se repete e esses três segundos podem gerar euforia por horas.

Pois a calça jeans tem o poder de mapear em detalhes todos os ângulos, sulcos, riachos e deltas de uma mulher. Por isso, jamais sai de moda. E que assim seja. Tenho um amigo que quando se aporrinha corre para um shopping e fica “bebendo” manequins de vitrine ostentando jeans, calcinhas, biquínis, shorts. Amigo do peito,  a figuraça que já foi xingado de incorreto, porco-chauvinista pelos intelectuais. Pobres intelectuais.

O Dire Straits tem uma canção antiga chamada “Skateaway” (assista clicando no link lá em cima) que narra a tempestade de testosterona que uma mulher provoca patinando por dentro do trânsito congestionado no centro de Londres. “Aleluia, yes she comes” canta Mark Knopfler, confessando que também é sócio desse clube que celebra a Mulher e concorda que nada valeria um planeta cheio de baleias, golfinhos e sabiás se, à bordo, não houvesse essa indecifrável estrela que, com elegância e quase doçura, nos coloca na condição de plutões periféricos, girando, girando, girando, até a última palavra, do último texto, do último poeta.