sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O grito do Pink Floyd na pequena rua engolida pelo calor



Ouça "Speak To Me" e Breathe aqui.

Tempos atrás, eu vinha andando por uma pequena rua que não conheço, no miolo de um bairro operário provavelmente o mais quente que já pisei, fora Bangu, no Rio. Eram duas da tarde e, penso, a temperatura ali passava dos 40 graus. Não falo da tal sensação térmica, invenção pequeno-burguesa dos neo-meteorologistas, mas de temperatura mesmo.

Não lembro no que pensava, afundando o pé naquela lama asfáltica desesperadora e opaca, doença industrial que ajudou a enterrar o planeta. Ou alguém duvida que o nosso planeta, outrora azul, foi enterrado vivo pela especulação imobiliária, desmatamento, poluição generalizada?

Caminhava pela rua sem árvores e com a calçada cheia de buracos e, de repente, ouvi um grito conhecido. Conhecido, não, muito conhecido. Meio grilado (medo de desabar em minha cabeça) parei embaixo de uma marquise ligeiramente podre e ouvi o final de “Speak To Me”, faixa que abre o genial e eterno álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, 1973. Na sequência, emendada, depois do grito desesperado, aflito, tomado de agonia, o alívio de “Breathe”.

Não quis saber de onde estava vindo aquela música que caiu como luva em meu estado emocional. No meio do calor, tomado de dúvidas, pensamentos caóticos e muitas vezes incoerentes, o grito da música no meio daquele maçarico existencial boçal foi a trilha exata que o destino escolheu para sonorizar a minha angústia.

Angústia que clamava pela suavidade de “Breathe” que, não sei porque, a pessoa que ouvia abaixou o volume logo nos primeiros acordes. Provavelmente também estava vivendo uma crise de histeria parecida com a minha e queria mais grito, mais gritos, algum berro, mas, ao contrário de mim, não quis o conforto da suavidade de “Breathe”.

Continuei andando pela rua que, apesar de pequena, suja, estreita, parecia não acabar. Cruzei com pessoas que pareciam zumbis, banhadas de suor, apáticas, lesadas, balas perdidas andando reto sem ter o que falar, ouvir, olhar. Olhar o que naquela paisagem hedionda? Provavelmente eu também devia estar assim, caminhando estaticamente, olhos secos, boca seca, suor, leve desespero e muita angústia.

Pensei “quando chegar a um computador vou escrever alguma coisa agradecendo a pessoa que colocou “Speak To Me” e “Breathe” justamente na hora que eu estava passando por aquela picada.” E é o que faço agora. Mais do que um desabafo, esse texto pretende agradecer a anônima pessoa que gritou através do Pink Floyd mas que não quis arrefecer, como eu. Sim, com “Breathe” arrefeci porque eu precisava me comportar já que entraria em uma reunião de trabalho meia hora depois. Tive que calar. Pior: tive que dissimular, inventar um alívio inexistente porque em 28 minutos teria que estar encenando um outro papel, a do brasileiro gente boa que adora o país tropical, o calor, o suor, e abomina crises existenciais que ele, brasileirinho, chama de coisas de babaca.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

José Louzeiro: um democrata com vocação para o perigo - Texto de Antonio Ernesto Martins

Naquela segunda metade da década de 50, o sol escaldante do Rio de Janeiro ardia inclemente no firmamento da então capital do Brasil, enquanto um nordestino franzino caminhava pelo centro da cidade a caminho do trabalho. Suava em bicas. Não era para menos. A despeito do verão tropical que elevava a temperatura para perto dos 40º C, ele vestia três camisas por baixo do paletó. No entanto não era por maluquice que o fazia. Era a única estratégia encontrada para não ser roubado novamente na pensão de Botafogo onde havia alugado uma vaga, pouco depois de chegar ao Rio vindo do seu Maranhão.

Esse jovem era José Louzeiro e ainda não se podia prever que ele se transformaria em um dos maiores escritores do Brasil, pioneiro nacional do gênero romance-reportagem, autor de mais de 50 livros, 10 roteiros para longas metragens e três telenovelas para a TV.
Mas sua vocação para o perigo, seu interesse pela crônica policial, seu empenho na defesa das liberdades democráticas e sua fascinação pelo personagem delinquente já estavam presentes em sua alma quando ele chegou ao Rio de Janeiro em 1953. Veio fugindo do Maranhão para não morrer assassinado após a publicação de uma matéria sua no jornal O Combate onde denunciava um influente político por prática de tortura.

Filho de um pedreiro, Louzeiro conseguiu estudar em um colégio particular através de uma permuta que seu pai fez com a escola. Em troca dos reparos feitos no prédio o pequeno José ganhou bolsa de estudos e não demorou muito até que suas redações se destacassem nas aulas de português, chamando a atenção do diretor do colégio que o encaminhou para o poeta e membro da Academia Brasileira de Letras Corrêa da Silva. Este o recomendou ao chefe da redação do jornal O Imparcial. Assim Louzeiro ganhou seu primeiro salário como aprendiz de revisor.

Seu trabalho consistia basicamente em ler e dessa forma mergulhou na obra de grandes autores maranhenses através do suplemento de literatura do jornal. Após 2 anos na função de aprendiz tornou-se repórter policial. Sobre o motivo que o levou para esse campo de trabalho, declara:
“Sempre achei o delinquente fascinante. Tudo explode nele com muita intensidade, exaltação. Ele é capaz de praticar o crime e chorar quando é condenado. Mata sem motivo... Investigar isso era o que me atraía e ainda me atrai.”

No Rio de Janeiro, inicialmente foi trabalhar como datilógrafo em uma empresa de máquinas gráficas de segunda mão, pois achava que ali teria contato com pessoas ligadas às redações de jornais e seu plano deu certo. Conseguiu uma vaga de boy na Revista da Semana passando em seguida para redator publicitário. Daí em diante sua carreira como jornalista deslanchou e em 56 ele foi para o Jornal Luta Democrática. Trabalharia também no Diário Carioca, Última Hora e O Correio da Manhã, onde permaneceu por oito anos.

Em 58 vendeu sua máquina de escrever para custear despesas com a publicação de seu primeiro livro, Depois da Luta, pela Editora Simões. Durante a ditadura foi censurado e preso junto de outros companheiros do Correio da Manhã como Carlos Heitor Cony e Álvaro Mendes, entre outros. Perseguido pelos militares decidiu se esconder em Brasília.
“Aprendi, com os anos de reportagem policial que o melhor lugar para se esconder é ao lado da polícia. Por isso fui morar em Brasília, em um prédio na Asa Norte, no qual o síndico era coronel do exército. Mas ele me adorava! Até descobrir quem eu era. Tive que fugir novamente.”

Mudou-se então para a capital paulista e conseguiu um emprego na Folha de São Paulo onde fez uma matéria sobre uma chacina promovida pela polícia que jogou vários meninos considerados infratores do alto de um precipício.  Alguns sobreviveram e Louzeiro os entrevistou. Dessa extensa matéria, a censura autorizou a publicação de apenas 30 linhas.

De volta ao Rio escreve o livro Infância dos Mortos que conta os detalhes de sua investigação sobre esse caso e que serviu de argumento para o filme “Pixote – A lei do Mais Fraco” de Hector Babenco. A partir daí o trabalho de Louzeiro não para mais de se embrenhar pelo cinema nacional e outro filme, também de Babenco, alcança grande sucesso baseado em um livro de Louzeiro: “Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia”. O livro conta a história do bandido Lúcio Flávio Vilar Lyrio que, perseguido pelo grupo de extermínio Esquadrão da 

Morte em plena ditadura militar, é preso e morto a facadas na cadeia.
Crítico contundente das arbitrariedades do poder, José Louzeiro escreveu duas novelas de grande sucesso para a extinta TV Manchete; Corpo Santo e Guerra Sem Fim, nas quais os bastidores do crime e da corrupção estavam presentes de maneira real e ousada. Sua terceira novela, O Marajá, era baseada no governo de Fernando Collor de Melo e foi proibida de ir ao ar, apesar de nessa época a censura não existir mais no país. Desde então não conseguiu mais trabalho na TV.

Entre seus livros mais famosos também está Aracelli, Meu Amor que conta o estupro e assassinato de uma menina de 9 anos e denuncia o envolvimento de duas famílias poderosas do Espírito Santo, o que lhe rendeu mais algumas ameaças de morte. Escreveu também inúmeras biografias como a da cantora Elza Soares, da enfermeira baiana Ana Nery e a de Gregório Fortunato, braço direito de Getúlio Vargas.

Prestes há completar 82 anos, Louzeiro está debruçado sobre seu novo projeto de uma autobiografia romanceada, enquanto luta bravamente há mais de 8 anos contra a diabetes que lhe ocasionou algumas amputações como a da perna direita, de parte do pé esquerdo e de alguns dedos da mão. A partir de sua batalha contra a doença, Louzeiro escreveu em 2007 Diabetes: Inimigo Oculto.

Além de sua produtiva militância a frente do sindicato dos escritores, Louzeiro também é responsável pela iniciação e capacitação de diversos roteiristas que hoje estão atuando no mercado audiovisual brasileiro e que passaram pelos bancos de suas turmas da oficina de roteiro que ele ministrou por vários anos. Eu sou um deles e, ouvindo as histórias e causos desse maranhense, aprendi a admirá-lo. Foi baseado em uma história sua vivida na redação da Ultima Hora que escrevi o roteiro de meu primeiro curta metragem.

Agora, passados tantos outros, me preparo para meu próximo filme que será um documentário sobre esse bravo brasileiro que não temeu transitar pelo submundo da bandidagem para de lá extrair histórias reais com odores de romance, não aceitou as versões oficiais, não se curvou diante da ditadura e da censura e agora, não se intimida diante da diabetes. Uma História que precisa ser contada - para novas e antigas gerações - em romance, em reportagem, em cinema.·.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Quando você diz que conhece alguém torna-se seu fiador moral

Texto restaurado e remixado

O cara é baba-ovo, invejoso, rancoroso, arrivista e, dizem todas as más línguas, as más inclusive, é um caloteiro, desses que não pagam a ninguém na maior cara de pau. Aí chega alguém e pergunta se você conhece o tal meliante. Você já o viu e até conversou com ele algumas vezes, mas por força de expressão acaba dizendo que “conheço sim”. Ferrou! Sem querer, virou avalista de um canalha. Melhor seria dizer, apenas, que “conheço de vista”, mas os hábitos da fala as vezes nos metem em roubada.

Por uma questão cultural dizemos que “conheço” a quem vimos algumas vezes. Pior: em muitos casos estabelecemos relações pessoais e profissionais com pessoas que não conhecemos sem tomar o cuidado de pedir referências a terceiros. Os ingleses tem esse hábito. Só fazem negócios ou se relacionam com pessoas quando três, quatro ou cinco amigos de confiança confirmam que a tal pessoa é do bem, honesta e tudo mais.

Por exemplo: não conheço nenhum Babalu, apesar de um colega, que encontrei no catamarã, ter insistido em me mandar um “abraço do Babalu”. Sabe aquele sono eventual que bate depois do almoço, você entra num catamarã social vazio e fica ao sabor da brisa? Foi o que planejei naquela tarde.

Corta! Encontrei o conhecido na chamada “fila do gado”, aquela que o povão forma para entrar na embarcação e posso afirmar do fundo do coração: o cara é chato pra cacete. Mas, fazer o que? Ele se aproximou, colou em mim e sentou a meu lado.

E tome a falar do tal Babalu que, segundo ele, é meu amigo de infância. Mentira porque passei minha infância (três a nove anos) em Angra dos Reis, não havia nenhum Babalu e, de lá, todos os meus amigos se espalharam pelo mundo.

Mas eu não estava a fim de discutir, apesar de ser rigoroso com esse papo de “fulano é seu amigo”. Não é assim.  Muitas vezes já me perguntaram “você conhece Fulano?”, e respondi, com elegância, “não, conheço só de vista”. Como disse lá em cima, dizer que conhecemos alguém nos transforma em fiadores existenciais do “conhecido”.

Não é o caso do sujeito que encontrei no catamarã que, de fato, sei quem é, mas saber quem é e conhecer são situações completamente diferentes. E quando o barco atracou no Rio, confesso que me deixei levar pela multidão e, propositalmente, me perdi do conhecido que me congestionou com uma overdose de palavras e frases soltas. Não agüentei ouvir tanta inutilidade pública e estava vendo a hora que ia pegar no sono no meio do monólogo dele.

Fui a uma reunião e, na saída, em frente ao Museu de Belas Artes, na Rio Branco, encontrei um leitor. Ele estava acompanhado da mulher, me apresentou e tal. Achei engraçado porque não o conheço e nem ele a mim, apesar de minhas crônicas e contos, eventualmente, abrirem o buraco da fechadura. O leitor estava satisfeito, cheio de “Fulaninha, esse aqui é o Luiz Antonio...” e a esposa, também constrangida, disse “muito prazer” e tudo ia muito bem até ele me perguntar para onde eu ia. Temendo que ele fosse para Niterói, sapequei um “vou até o Rio Comprido resolver uns assuntos”, quando ele rebateu “pois nós estamos indo para o Leme”.


Encerrado o encontro, quando inclusive me chamou de “amigão”, fui embora pensando. Pensando nessa profissão maluca que fabrica conhecidos pelo mundo e até amigos próximos sem que saibamos o que está acontecendo. Esquisito pra caramba.

Marca D´água, meu segundo livro, traz as marcas de adolescência e da afirmação de uma mulher que se tornou escritora visceral. Artigo de Cristina Lebre.


“Marca d'Água" é o meu segundo livro, recém-saído do forno, e que traz agora, além de poemas, as minhas primeiras aventuras no mundo dos contos. Está à venda em www.biblioteca24horas.com .  

Quando meu amigo Luiz Antonio Mello me convidou pra apresentar o "Marca d'Água" aqui na Coluna do LAM eu senti, na mesma hora, um misto de felicidade com medo, de gratidão a Deus e ao meu amigo de mais de trinta anos com uma responsabilidade enorme de publicar um artigo nesta tão incrível e brilhante coluna. Brilhante porque o texto de Luiz Antonio é sempre brilhante, rascante, salgado, sarcástico, certeiro, um "solo" de literatura, se a gente for comparar com um solo de um Mark Knopller ou de um Eric Clapton, grandes guitarristas do muito amado e compartilhado durante toda a nossa vida, o genuíno rock'roll.

Voltando ao "Marca d'Água", é muito incrível, é quase inacreditável constatar que a Cristina Lebre, uma poetisa desde a adolescência, chega à década dos cinquenta lançando seu segundo livro, neste país onde tantos carecem de tanto.  O primeiro "rebento" literário, "Olhos de Lince", foi lançado no mercado muito timidamente em 2008, e ficou meio esquecido até 2011, quando a autora aqui resolveu mergulhar no universo da poesia e dos poetas, começou a frequentar os saraus e lançamentos, e descobriu um mundo mágico onde centenas de artistas se reúnem frequentemente pra divulgar sua arte.  Daí pra frente a Cris Lebre não parou mais.  Lançou "Olhos de Lince" no Corujão da Poesia, sarau comandado pelo grande ativista cultural João Luiz, o João do Corujão, no Brinde à Poesia da poetisa mor desta capital fluminense Lucília Dowslley, que há 15 anos dedica sua vida a lançar poetas e músicos do total anonimato para um reconhecimento comercial, e não parou mais.

Assim, enquanto "Olhos de Lince" contem poemas escritos desde a minha mais pura adolescência apaixonada, mas também já preocupada com a condição humana e o desequilíbrio nas relações sociais e políticas, o "Marca d'Água" foi produzido em um tempo curto, apenas dois anos, mas dois anos de grande vivência com a poesia, fantásticos poetas e muita inspiração, pois quanto mais se lê mais se escreve, e melhor se escreve.

"Marca d'Água" tem ainda a marca da crédula poetisa adolescente, mas se mescla com uma atual ousada escritora que externa seus sentimentos, pensamentos, sensações e devaneios de forma lírica, mas também, em muitos textos e poemas, revela de maneira surpreendente sua maturidade em constatações dramáticas sobre a condição humana, o amor e a morte, a crença inabalável em Deus e a homenagem à natureza em seu mosaico de matizes de cores.

“Marca d’Água” mostra ainda um lado muito mais impessoal da autora, que inventa personagens tanto na poesia quanto na prosa, como em "A moça da casa amarela" e " O andarilho" , (poemas), e nos contos e prosas poéticas " A mulher dos saltos", " Neno" e " O lago".
Em todo o livro, no entanto, a emoção está presente.  A “Marca d’Água” de Cristina Lebre é sua lágrima sempre corrente na face, seja diante da pureza da criança, seja no mirar do pólen de uma flor. E é dessa forma que a autora pretende tocar os corações sensíveis, ou os nem tanto, mas que, num poema ou outro, identifiquem-se, em algum momento, com a transparência das emoções humanas, provocando no leitor um respirar fundo, lento e atingido em cheio pela leitura de seus versos e prosas. 


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A nossa fé é inexplicável. E daí?

Texto restaurado e reeditado

Meu caro amigo, recebi o seu e-mail ontem. Sei que a mensagem atravessou um deserto, algumas metrópoles e o oceano Atlântico em questão de segundos. Como você bem escreveu, “chegaria da mesma forma se eu tivesse colocado a mensagem numa garrafa e atirado ao mar que cerca essa ilha de angústia transformada em alívio nos últimos dias, quando fui apresentado, pessoalmente, a Fé”.

Não, não vou publicar o seu e-mail como você pede porque está pessoal demais. Ando cada vez mais cauteloso com este blog que (obrigado, leitores !!!!!) está chegando aos 120 mil acessos, desde que entrou no ar em outubro de 2012. Aliás, muito entre nós meu caro amigo, sua mensagem é impublicável porque, penso, a maioria não iria entender. Entender a Fé? O momento em que a Fé entra em nossa vida, nosso corpo, nosso hálito? Como explicar? Como entender?

Como explicar, como entender o poder da música? Que sentimento me faz ficar zonzo quando ouço Claire de Lune de Debussy, de preferência com Nelson Freire ao piano, ou “Hawkmoon 269” com o U2, “Gallows Pole” e mais tudo do Zeppelin, tudo do Who, tudo de Caetano, Milton, dessa bela morena chamada Céu, enfim, não dá para explicar e nem entender o que essas músicas fazem com a gente.

A Fé é assim. A diferença é que ela surge no horizonte quando estamos passando por algum sufoco. A minha Fé em Deus aconteceu numa noite de tempestade, raios para todos os lados, lá em 1974, ou 1975. Eu estava dirigindo uma Brasília na estrada e, de repente, sem mais nem menos, um Opala que vinha na pista contrária perdeu a direção, e, sei lá porque, como, de que jeito, capotou e passou por cima de meu carro. Por cima, sem tocar!!!!! Parei, socorri o sujeito (que estava bêbado) e depois, bem depois, tremi. Tremi de ansiedade. Tremi de emoção. Eu tinha acabado de ser apresentado a Fé.

A Fé é etérea e justa. Justa como as coisas honestas que fazemos todos os dias, ajudando pessoas, projetos para pessoas, escrevendo para pessoas porque a vida só faz sentido se nos dedicarmos as pessoas. As coisas? As coisas vem e vão e são consequência das pessoas.

Lendo sua mensagem, meu caro amigo, quase não o reconheço. Quando deixou o Brasil, naquele 2006 sob forte calor, você comentava com a sua companheira que estava saindo do caos para encontrar o cosmos. Não quis polemizar, não quis te contestar, mas essa frase é a primeira na rota dos iludidos. Ainda assim, te mandei um e-mail dizendo que li (acho que na obra de Carl Gustav Jung) que a ansiedade antecipatória deturpa as coisas. Ouso ir mais longe: você deformou as coisas, a ponto de tratar países como felicidade pré-paga.

Aí aconteceu aquilo tudo, você acabou preso, perdemos o contato. Minha amiga diplomata te ajudou, sua mulher te ajudou, até seu companheiro de cela te ajudou. Ainda assim, já solto, já com um sub-emprego na Holanda, você insistia na trilha da análise, das convicções cerebrais que nos diferem dos macacos. Stanley Kubrick insinuou em “2001, uma Odisséia no Espaço” que a alienação dos macacos atirou a espécie na felicidade, contrastando com HAL, o computador mau caráter.

Sim, estou falando demais, estou escrevendo besteiras, tudo para te dizer (e a sua mulher) que estou feliz pra cacete por você ter encontrado a Fé. Que bom! Que bom! Para mim, a Fé é como uma daquelas ondas gigantes de 25 metros, que são quase comuns na “minha” Maverick, “minha” Califórnia, que quando descemos 70% estão nas mãos de Deus, 20% com o acaso, 5% com a sorte e somente os outros 5% com o nosso talento.

Deixe fluir, deixe rolar. Não sou teólogo, mas sei que a Fé chega até nós assim mesmo. Você quase morreu, foi salvo sabe-se lá como (li que o incêndio em seu prédio foi de grandes proporções) e hoje está inteiro.

Obrigado pela mensagem, obrigado pelas ótimas notícias e viva a nossa Fé. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Crack : Nada é tão ruim que não possa piorar. Artigo de Antonio Ernesto Martins

Com o lançamento de meu livro “Sacudindo o Pó da Estrada” e de meu filme “O Brilho”, tenho participado de palestras, seminários e debates que abordam a questão das drogas, já que essas duas obras tratam através de linguagens distintas desse mesmo tema, tão presente na pauta de nossa sociedade. Passados quatro anos nos quais me dediquei a pesquisar esse assunto a partir da minha experiência pessoal no vício, o desafio de tentar entender o uso e o abuso de drogas ainda me fascina e me provoca diversas reflexões.

Desde os primórdios da civilização a humanidade se relaciona com algum tipo de droga ou alucinógeno, seja em suas atividades místicas ou religiosas, seja em rituais ou costumes tradicionais. A partir do movimento da contracultura dos anos 60, o consumo de drogas tomou ares revolucionários e de contestação, criando vínculo e afinidade com a juventude que possui em sua essência essas mesmas características.

No Brasil, nessa mesma época, imperava a ditadura militar que com seus aparelhos repressivos inibia qualquer tipo de rebeldia ou de transgressão. No entanto, a despeito das inúmeras políticas de prevenção e de combate às drogas, deflagradas no mundo inteiro, o consumo e a produção continuaram aumentando vertiginosamente dentro e fora de nosso país. No final dos anos 70, com a abertura política, a anistia, o movimento pelas diretas e os ares de liberdade que voltavam a soprar por nossas terras, cria-se um cenário propício para a ampliação da distribuição de entorpecentes e entra em cena de maneira mais abrangente uma droga que, até então, se mantinha elitizada nas classes mais altas e em alguns segmentos artísticos de vanguarda: a cocaína.

Insuflada no rastro da onda “disco” que varreu o mundo, a cocaína baixou de preço, aumentou sua oferta e ofereceu aos consumidores outro tipo de “viagem”. Uma droga urbana, “nervosa”, extremamente compulsiva e inquieta que, de modo devastador, alterou a rotina dos jovens consumidores e até mesmo a dos traficantes que a comercializavam, através de seus efeitos antissociais que inibem não só o sono ou a fome, mas também as relações de ternura e as conexões com a espiritualidade.

No início dos anos 80 os jovens entre 17 e 25 anos, entre eles eu, que tinham passado sua infância e adolescência, amordaçados pelo estado ditatorial, já podiam montar suas bandas de rock e seus grupos de teatro, externando suas opiniões e críticas a uma sociedade extremamente injusta e hierarquizada. Nesse cenário a cocaína conquista diversos adeptos com a falsa promessa de uma disposição inabalável e um vigor prazeroso e contínuo, que camuflam seu alto poder de criar dependência. Eu fui um dos cooptados.

No meio disso tudo, um enorme conflito se estabelece. Um conflito certamente inerente à natureza humana e travado desde os tempos mais remotos: o conflito do homem com ele mesmo. Potencializado no conflito do viciado, que vê rapidamente sua vontade própria se esvair e mergulha numa rotina de escravidão e degradação existencial. Como isso ocorre, como é feita essa escolha diariamente, como se comporta essa mente que percebe que está se prejudicando, mas ao mesmo tempo não consegue conceber sua vida sem a droga são perguntas que ainda hoje estimulam diversos estudos e pesquisas e que, muito recentemente, conseguiram inserir no debate da sociedade a ideia da “dependência química” como uma doença e não como uma deficiência de caráter. No entanto uma significativa parcela da população ainda encara o problema sobre a ótica tradicional que marginaliza e criminaliza o usuário.

Muitas outras questões ainda permanecem obscuras e suas complexidades se acentuaram com a chegada de novas drogas, as sintéticas e principalmente o crack, e com o amplo debate mundial em torno da descriminalização e da legalização das drogas hoje consideradas ilícitas. Debate esse movido pela constatação do total fracasso da chamada guerra contra as drogas, deflagrada no planeta sob o comando dos EUA.

No Brasil a partir dos anos 90, as crackolandias, inicialmente em São Paulo e depois no Rio de Janeiro, estampadas nos jornais e na TV revelam imagens fortes de grupos de viciados que se reúnem a luz do dia e a vista dos passantes para consumir essa droga derivada da cocaína. O crack oferece a mesmas sensações da cocaína através de sua combustão e da absorção através dos pulmões, potencializando sua ação e tornando o consumidor viciado em um curtíssimo espaço de tempo. Seu baixo preço também é fator primordial para a difusão da droga entre os pobres e o quadro de dependência dessa droga é de dificílima reversão. Para aqueles, como eu, que acreditavam ter conhecido na cocaína o estágio máximo da escravidão provocada pelas drogas, o crack chega para provar que nada é tão ruim que não possa piorar.

Atualmente o crack é considerado por muitos uma epidemia no Brasil e seus efeitos nefastos alcançam o interior dos estados, as pequenas cidades e as periferias com a mesma agilidade que vitimam também os condomínios de classe média alta das grandes capitais. A necessidade da droga que passa a pautar o comportamento do dependente leva-o a se desconectar de maneira radical de seus laços afetivos e psicossociais, infringindo perdas significativas. Rapidamente o usuário está incapacitado de cumprir seus papeis sociais e se sente impelido em frequentar esses grupos que se reúnem para o consumo diário e compulsivo da droga.

O crack expõe de maneira ostensiva aos olhos da sociedade contemporânea o antigo problema da dependência química e torna visíveis aqueles seres invisíveis aos olhos de uma população que ajuda a produzi-los.  Na lógica invertida dessa mesma sociedade é a droga e seus consumidores as causas dos problemas sociais. No entanto, percebemos ao nos aproximarmos dessa população de usuários, a repetição do padrão de histórias de ruptura de laços de solidariedade, de desintegração familiar, de segregação social e econômica, de incapacidade de inserção nos apelos consumistas e diversos outros fatos geradores que pré existem a droga e criam os espaços vazios propícios para a utilização da mesma como balsamo reparador de tantas amarguras. A partir da droga cria-se uma identidade e uma rede de vínculos recíprocos que parecem amenizar a vida desses cidadãos que foram barrados na festa do capital e do consumo e não foram tratados como cidadãos pelo estado e pela própria sociedade que os recrimina.

Os motivos que levam um indivíduo a se tornar dependente ou não de alguma substância ou comportamento são inúmeros e diversificados, variando em combinações de acordo com o sujeito, sua história de vida ou o ambiente que o cerca. Acredito que é hora de mergulharmos nesse desafio de entender e desvendar as causas e o mecanismo de construção de um dependente ao invés de simplesmente demonizarmos as drogas e colocarmos na conta dos dependentes os problemas sociais que nos afligem.

O patrocínio a pesquisas sérias no campo da neurociência que possam definitivamente esclarecer o impacto real de cada substancia no cérebro humano e suas consequências também são urgentes, para desconstruir mitos e tabus e pautar agendas qualificadas de discussão pública. Iniciativas humanizadoras como a implementada recentemente pelo programa “Operação de Braços Abertos” da prefeitura de São Paulo são louváveis, apesar da desastrosa e estranha ação do Denarc.

Como vemos, esse é um assunto que está longe de obter um consenso e os questionamentos e reflexões tanto na esfera pública como particular necessitam se despir de conceitos estabelecidos previamente para poder atacar o núcleo duro da questão.




Surfboard, uma leve frustração que penso transformar em filme

Lembro bem. Eu devia ter uns 13 anos quando envolvido pelas ondas no mar de Itapuca (Niterói), onde pegava surf de peito, decidi virar surfista profissional. Enquanto esperava boas ondas, de preferência bem altas e quebrando devagar, fazia meus planos. Faria um curso intensivo de surf com o amigo Jiló (um dos melhores do Estado do Rio), terminaria o ensino médio e cairia dentro nos campeonatos.

Certo de que surfaria bem (não fazia feio encarando ondas de peito) no futuro deixaria Niterói, o Estado do Rio e, se desse, o Brasil em busca de ondas e de uma situação financeira que pudesse me manter com um certo conforto. Eu não tinha ideia naquela manhã que um dia o surfboard se tornaria uma indústria milionária, cheia de patrocínios e grandes oportunidades.

O plano ficou me martelando aquele ano. De fato eu queria ser um surfista e a única pessoa que sabia disso era meu saudoso tio Evaldo, irmão de minha mãe, com quem eu compartilhava minhas dúvidas, angústias, ansiedades de adolescente. Sentei com ele num bar em São Francisco e expus minhas ideias. 

Liberal, cabeça boa, democrata, tio Evaldo me deu a maior força mas garantiu que, lamentavelmente, meu plano não daria certo. Por que? Porque surfar era caro, muito caro, e eu não teria condições de arranjar bons patrocinadores porque, quisesse ou não, era um principiante.

Concordei com ele, banhado de frustração. Tanto que cancelei o curso com Jiló. Melhor não saber surfar do que aprender e não poder me dedicar 24 horas por dia. Agradeci a meu tio por mais aquela demonstração de paciência e fui embora para casa. A pé. Morava em Icaraí, meu tio quis me dar uma carona de carro mas eu precisava caminhar. E foi o que fiz.

Voltei a estudar. A princípio faria Medicina e fui parar no Curso Miguel Couto, Centro do Rio, onde conheci grandes figuras de quem me tornei amigo. Fiz vestibular e, como era de se esperar (não me entendi com a química inorgânica e nem ela comigo) levei bomba. Fiz outro para Comunicação e passei em oitavo lugar. O futuro médico ia estudar jornalismo.

Mas toda a vez que o mar ficava grosso eu ia ver os caras surfarem. Não perdia uma ressaca. Rio, Niterói, Itaúna (Saquarema) eu vivia entre os surfistas sem saber surfar por razões que já expliquei. Na faculdade decidi que seria dono de uma revista de surf, de preferência na Califórnia e cheguei a conversar com um colega que me convidou para fazer uma revista de ciência. Até fizemos e ficou boa. Esse cara me disse que eu só conseguiria fazer uma revista de surf se dominasse completamente o inglês e a área comercial (vender anúncios). Como eu não me garantia nessas áreas, decidi virar plateia eterna do surfboard e partir para uma vida profissional viável, concreta, como, graças  Deus, consegui e consigo.

Pus essa foto aqui na Coluna porque é tipo do trabalho que sei fazer. Câmeras nas mãos, enquadrar pranchas e ondas e depois editar com uma grande trilha sonora. É o que pretendo fazer, um projeto para 2015, um grande vídeo de surfe cheio de músicas maravilhosas. É a tal lei das compensações.


domingo, 26 de janeiro de 2014

Absurdos do capitalismo cão: inspirado em Zélocs, musa da lambança ampla, geral e irrestrita

                                                

Texto restaurado e remixado.
- Serviço de Atendimento ao Consumidor, atendente Zóda, boa tarde.
- Zenhora, meu nome é Zulvo, zou indiano com apenas 50 anos no Brasil. Meu zelular não está mandando torpedo.
- Senhor, vou transferi-lo para a central técnica.
- Central técnica, atendente Zênis, boa tarde.
27 minutos depois.
- O zenhor entendeu?
- Entendi, senhor. Qual é o modelo de seu aparelho?
- É um Ziemens modelo....não está escrito.
- Senhor, por favor abra a tampa, retire a bateria e veja o número que está colado no fundo.
- Mas ze eu retirar a bateria a ligazão vai cair.
- Senhor, ligue de um outro aparelho e com a bateria retirada veja o número. Ligue de novo, por favor.
- SAC, atendente Hânus, boa noite.
38 minutos depois.
- Então foi izzo que expliquei.
- Senhor Zulvo, vou transferir para a central técnica.
- Central técnica atendente Ziroca, boa noite.
37 minutos depois.
- Em zuma é isso...
- Senhor Zulvo, qual é o modelo do aparelho?
- Não conzigo abrir a tampa. Ezza coisa está colada.
- Quando retirar a tampa ligue novamente. Agradecemos seu contato.
- SAC bom dia, atendente Zaralho Zosta e Zilva.
35 minutos depois.
- Foi isso...tive que usar uma zerrinha chamada tico-tico.
- Então o senhor destruiu o telefone.
- Não, senhor Zaralho. Com o tempo adquiri o jeitinho brasileiro. Está aqui, modelo 3320.
- Senhor, esse modelo está fora de fabricação.
- O que fazo então?
- Senhor, não posso dizer porque essa ligação está sendo gravada.
- Eu também estou gravando a ligazão. Jeitinho brasileiro.
- Senhor, vou falar rápido e desligar. Estou com pena do senhor. Faz o seguinte: entre numa sala de bate bapo na internet, 30 a 40 anos, Rio de Janeiro, que tem sempre alguém com celular 3320 lá. Fui.
8 minutos depois.
- www.uol.com.br. Zobo/RJ.
- Loba Gostosa - Oi lobinho, você mora aonde?
- Em Niteroi. São Lourenzo dos Índios. Entrei aqui pra ver ze alguém tem zelular Ziemens modelo 3320. Usei o nick Zobo porque todo mundo usa Zobo.
- Não é zobo seu imbecil, é lobo rsrsrsrsrsrs.
- Mas eu zou indiano, escrevo com zotaque.
- Você é criativo hein? rsrsrsrsrsrsrsrs armar esse negocio de modelo de celular só pra eu te dar o meu.
- Zorra, não é izzo, Zoba....
- Se você não fosse o canalha que é, patife, mau caráter, escroto, eu até daria.
- Não zou nada dizzo sua ziranha, zalinha, zaca.
- É sim. Seu nome não é Zulvo?
- É, e daí?
- E daí que você me comeu e me largou seu zuto.
- Eu ?????????
- Eu teclo com você quase todos os dias, seu moleque. Nós fizemos amor e você sumiu.
- Mas quem é vozzê? Eu entrei aqui pra falar de zelular.
- Você sabe quem sou. Tchau moleque.
(UOL - Loba Gostosa sai da sala...)
- Zamires, zou eu. Resumindo é isso. Até de patife me zamaram naquela zala de bate papo. Zaí daquele negocio de bate papo e quero resolver o problema do zelular.
- Zulvo, você sabe que é meu irmão, mas agora estou me zodendo todo.
- Desculpe, não queria atrapalhar. Mas é que voze conhece todo mundo.
- Zulvo, estou preso na vistoria do Detran. Quatro mil de multa de pardal, extintor descarregado, a bateria caiu.
- Como é que voze conzegue falar no zelular zem bateria, Zamires?
- Não é a bateria do celular. É a do carro, zazaca. Mas, fala aí. O que aconteceu? Em sala de bate papo até filha de 30 anos me arranjaram. Aquilo é o maior caô.
- Vozê mexe com Procon e tal. Como é que faço pra botar o torpedo do celular pra funzionar...tô nervozzo, o zotaque aumenta.
- Qual é a marca e o modelo?
- Ziemens 3320.
- Hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha.
- Zorra, eu aqui na maior zerda e você ri?
- Tó rindo porque esse zagalhão explode assim que começa a parar de mandar torpedo. 3320 é uma zerda. ahahahahahahahahahaha
- E você ri?
- Tem que rir, Zulvo. Tem quer rir. Izzo aqui (zorra eu sempre pego zeu zotaque) é a maior zona. Zega o telefone e joga num lugar cheio de gente que não presta e deixa explodir. É só deixar num lugar e telefonar pra ele. Ele explode. Tchau.
- Zom dia, aí é loja da operadora de zelular?
- É sim. Boa tarde, atendente Zuruba.
- Fiquei 24 horas tentando resolver ezze problema, fora as seis horas aqui na fila.
- Hummmm. Zrêlo, vem cá. Esse senhor...
- O senhor se importa em deixar o aparelho aqui?
- Não, senhor Zrêlo. Até logo e obrigado.
- Zamires, tô no orelhão. O zelular está lá na loja.
- Tem zaranga na loja?
- Zem.
- Então pára...não liga não....criança me emociona muito e zaranga tá sempre com criança. Pára.... estou em prantos e zendo enzabado no Detran.
- Mas, Zamires, eu já liguei. Fui.



sábado, 25 de janeiro de 2014

Relógio Biológico: já tentei acertar o meu para ficar mais próximo da lânguida rotina da humanidade

* Texto de meu livro “Torpedos de Itaipu”, 1995, editora Artware.

São exatamente 2 e 14 da madrugada quando acordo mansamente, sem sobressaltos. Como se fosse seis da manhã para um triatleta. Rondo pela casa, ligo a TV e compro um travesseiro num programa de vendas pelo telefone. 

Segundo o anúncio, o tal travesseiro é um néctar de espuma, capaz de corrigir todos os problemas de ansiedade. O locutor diz que com esse travesseiro temos um sonho “reparador”. Só não prometeu que acordamos ao som de canários belgas porque a empresa fica em São Paulo. Garantiu que quem não ficasse satisfeito com o travesseiro teria seu dinheiro de volta.

Os caras são craques. Duas e 14 de um dia de semana é o momento ideal para veicular um anúncio de travesseiro. Liguei, passei o número do cartão de crédito e a mocinha encrencou. Queria colocar Niterói como cidade do interior do estado, o que significava que eu teria que buscar a encomenda no correio. 

Expliquei a paulistinha que Niterói fica, de barca, a oito quilômetros do centro do Rio. Ela não entendeu, coitadinha, e acabei comprando o travesseiro assim mesmo. Vou buscar na agência de correios mais próxima, que nunca é próxima, quando chegar.

Tem gente que fica muito angustiada quando acorda no chamado “meio da noite”. Como para mim é rotina, não sinto nada. Apenas a calma da madrugada, telefones mudos, e-mail calado, tanto que já escrevi até aqui se interrupção.

Já li e ouvi muito sobre o chamado relógio biológico. Aparentemente durmo mal, mas uma vez li numa revista de ante-sala que o tipo de sono que tenho se chama “flash”. Durmo e acordo várias vezes. De fato não é tão bom quanto o sono sem escalas, aquele que você deita a meia noite e acorda as oito na mesma posição. Mas o fato das comunicações estarem a minha disposição de madrugada me trouxe esse vício. Posso dar um giro pela internet sem ser importunado, sapatear nos satélites, conversar com o Congo. De madrugada tenho a sensação de que posso fazer tudo porque tudo funciona.

Meu relógio biológico é oportunista e prático. Em geral durmo cedo sexta e sábado para atravessar o dia seguinte na praia. E praia vou o ano inteiro porque concluí que não existem praias feias com chuva, com tempo nublado ou em plena tempestade. As praias são lindas de qualquer jeito. Em Itaipu quando chove e o vento trás aquela bruma branca ela parece com a costa da Escócia, que conheço via cinema. Nos dias frios, de céu azul profundo, lembra a Indonésia. Já sob densa tempestade lembra a capa de “Love Over Gold”, um dos grandes discos do Dire Straits. É por isso que tenho certeza de que Itaipu é a mais gostosa das filhas de Ryan.

Não sei se o fato de trabalhar 13 horas por dia interfere no meu relógio biológico. Há quem diga que isso é estresse. Só que eu nunca estou estressado, eu sou estressado. Gosto de trabalhar sob pressão, do desafio dos prazos, e quando perdi meu primeiro computador, cuja placa-mãe derreteu por causa de não sei o que, fantasiei algo do tipo “nem os computadores resistem a mim...o ". Quanta babaquice.

Uma vez disseram que sou masoquista, que despendo muita energia, etc. Só que, em 1985, experimentei ficar sem fazer nada durante três meses. Larguei tudo. Em menos de 20 dias estava de volta ao jornal, de joelhos, pedindo perdão. Nunca me senti tão mal na vida. Dormia o dia inteiro, comia pouco, tinha sonhos melancólicos, porra que depressão! Isso sim é masoquismo. No dia em que levantei para voltar ao jornal, fui fazer a barba e vi, no espelho, que estava com aquele semblante típico dos “à toas”. O suor cheira a naftalina, a cobertor das Casas Pernambucanas.

É evidente que não pretendo fazer apologia do sono “flash”, da popular e temida insônia. José Maria Monteiro de Barros (saudade desse meu amigo) me fez observar com calma aves e mamíferos. Fora as criaturas da noite, todos se recolhem no crepúsculo e se levantam na alvorada. Leio na enciclopédia do Guiness que os primeiros homens dormiam cedo e acordavam cedo. O que me assustou no texto foi a média de vida deles: 17 anos.

Essa lenda de relógio biológico só deve ser terrível para as pessoas que não gostam de dormir de dia ou sofrem amargamente com a solidão. Quem vira uma noite, no início da carreira, tem que se habituar com dois sons altamente depressivos: 1) Caminhão de leite; 2 ) Canto dos pardais e bentevis. Já quem convive mal com o dia e ama a noite é obrigado a engolir outros dois sons, também tristíssimos, de fim de tarde: 1) Canto de cigarra; 2)Sirene de obra informando que o acabou o expediente. É horrível.

Já tentei acertar meu relógio biológico para ficar mais próximo da lânguida rotina da humanidade. De 1974 a 1976 trabalhei no horário das 5 da manhã ao meio dia. Rádio tem dessas coisas. Uma ótima oportunidade para acertar o tal relógio. Não deu. Chegava em casa, tomava um banho, almoçava e dormia até as seis da tarde. A noite ia para a gandaia, ou para a faculdade, que na verdade eram a mesma coisa. Mas pouca coisa foi pior do que uma noite em que acordei as 3 horas numa pousada na serra da Bocaina, sem luz, sem livros (ler à luz de velas é terrível) e, ainda por cima, chovendo. Confesso que sofri. Sofri mais ainda com o barulho de um rio que me deixou alucinado, com uma estúpida vontade de desligá-lo. Não tem jeito. Sou bicho do mar mesmo.

Em suma, o relógio biológico não é atômico e muito menos um Rolex. O meu é um paraguaio, desses de camelô. E com licença que já são quatro da matina e preciso rever “O Pequeno Grande Homem” no DVD. Um filmaço!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

“1973- o ano que reinventou a MPB” merece se tornar um best seller

O livro do produtor musical Célio Albuquerque, lançado ontem (centenas de pessoas) na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, merece se tornar um best seller por vários motivos, a começar pela grande ideia de reunir 50 ensaístas (entre eles, muito honrado, eu) que escreveram 431 páginas sobre os discos de MPB mais importantes lançados no emblemático ano de 1973.

“1973- o ano que reinventou a MPB” foi lançado pela Sonora Editora, do pesquisador musical Marcelo Fróes e, para mim, é leitura obrigatória para quem se interessa por música brasileira de qualidade. Digo que a obra vai ser, sim, um best seller por tudo o que ouvi das quase 500 pessoas que lotaram a livraria na noite de ontem (entre elas Moraes Moreira, Roberto Menescal, João Donato). Mais: o livro chega num momento especial, difícil, complicado, bizarro da música brasileira que está assolada pela molambalização, baixaria e outros conceitos ainda menos dignos.

Lembrar de épocas como 1973 foi uma grande sacada do Célio, um viciado em qualidade como todos os ensaístas que estão à bordo deste livro, que conseguiu reunir na Travessa os melhores jornalistas musicais do Rio (e do país). Ou seja, a necessidade de ouvir ou de relembrar bons momentos, faz de “1973- o ano que reinventou a MPB” uma iguaria necessária nesses tempos de fome de qualidade que estamos vivendo.

Fiquei feliz em encontrar leitores que não conhecia e para quem autografei o livro. Não só eu, mas evidentemente o Célio Albuquerque, Nélio Rodrigues, Pedro Só e outros articulistas que deixaram na obra o seu testemunho. 
Testemunho de um tempo que mostrou que é permitido criar, ousar, delirar, surfar as ondas da qualidade musical, sem medo, sem jabá, sem baixaria.

Célio Albuquerque está de parabéns pela organização do livro, cujos textos são extraordinários. Marcelo Fróes merece aplausos por ter colocado a sua Sonora editora à frente deste ousado movimento (sim, o livro é sobre um “movimento” com nome de ano, 1973), em tempos de arrego editorial.


Best seller. “1973- o ano que reinventou a MPB” está “condenado” a se tornar um, apesar de não ser de autoajuda ou de baixa literatura. Valeu todo mundo!

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A verdade sobre a luta armada no Brasil, ou, a ditadura chegou a proibir que as rádios falassem em epidemia de meningite



Texto reeditado

Desde que foi criada a Comissão da Verdade tenho recebido correntes com e-mails enaltecendo o golpe de 1964, os algozes como alternativa moral para o país, detonando quem se engajou na luta armada que, nessas mensagens, são tratados como bandidos, ladrões, assassinos. Como se na ditadura vivêssemos numa Shangrilá tropical.

Ontem recebi uma mensagem que me deu vontade de golfar. O remetente, que copiou o e-mail para dezenas de pessoas, clamava que nós, segundo ele “brasileiros autênticos” pedíssemos que os militares saiam dos quartéis para acabar com os comunistas que tomaram conta do Brasil, como em 1964. O tal remetente disse que o golpe de 64 salvou o país das “garras vermelhas” (chega a ser engraçada essa expressão), mas que hoje o país clama pela volta dos fardados ao poder para que possamos viver livres, definitivamente, dos “comunas”.

O que esses fabricantes de e-mails (escritos aos milhares) querem é convencer que “naqueles tempos” (ditadura) não havia ladrões, vivia-se o milagre brasileiro na economia, enfim, um lixo de informações distorcidas e propositalmente equivocadas. Basta ligar a TV na Globo a noite, assistir a “Serra Pelada” e sentir a baderna que era esse país.

Na ditadura os meios de Comunicação estavam sob censura, especialmente a partir do famigerado AI-5, baixado pelo marechal-presidente Arthur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968 que degolou todos os direitos de liberdade de expressão no país.

A ditadura manipulava inflação, crescimento econômico, epidemias, enfim, sob o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o” roubaram muito. Só na construção da Transamazônica, usina de Itaipu e Perimetral Norte (sim, existiu uma estrada ao norte com esse nome) foram bilhões.

Em 1974, para combater uma gravíssima epidemia de meningite no país, que matou muita gente, a ditadura (na época sob o comando de Ernesto Geisel), em vez de fazer vacinas decidiu censurar a imprensa. Eu trabalhava no jornalismo Radio Tupi AM, uma emissora popular, e chegavam várias ordens de censura da Polícia Federal proibindo a emissora de mencionar a palavra meningite.

Até o AI-5 a oposição conseguia funcionar relativamente, mas a partir do AI-5 todas as vozes que não babassem os ovos dos ditadores eram cassadas ou assassinadas/torturadas. Foi quando a luta armada de esquerda começou a ganhar força, tentando peitar a ditadura.

Hoje já está mais do que claro que foi um erro, um gravíssimo erro. A História (sempre ela, sábia) explica que os verdugos, a tortura, a matança da ditadura foi uma reação à luta armada, um argumento com o qual nunca concordei.

No Araguaia, pouco mais de 60 militantes do PC do B (Partido Comunista do Brasil, hoje o mesmo – urgh! – de Netinho de Paula, o cantor/vereador candidato a prefeitura de São Paulo) entraram em confronto com as tropas do Exército. Coube ao general Hugo Abreu, que entrevistei em 1978, a missão de fazer a chacina.

Ele chegou lá com centenas de militares e até napalm usou. Pendurou guerrilheiros mortos de cabeça para baixo em helicópteros e, munido de um alto-falante, alertava a população sobre o perigo de dar apoio aos comunistas. Morreu muita gente no Araguaia. Pior: sumiu muita gente naquela selva e é isso que a Comissão da Verdade pretende desvendar.

No círculo civil (aliás, havia muitos civis beijando a boca da ditadura) o maior carrasco foi o delegado do Dops de São Paulo Sergio Paranhos Fleury, o homem que matou Carlos Lamarca e torturou e matou outras dezenas e mais dezenas de pessoas. Dizem que ele morreu assassinado em seu iate.

Para se ter uma breve ideia do que acontecia naqueles tempos vale à pena ir até uma locadora e alugar o DVD do filme “Pra Frente Brasil”, de 1982, dirigido por Roberto Farias. Mas quem quiser ir fundo no assunto, leia a coleção “As Ilusões Armadas”, quatro livros de Élio Gaspari que vão ser relançados não e deixam dúvidas.

Como se sabe, a luta armada perdeu. Muitos morreram, a maioria (dizem) desapareceu e outros tantos foram para o exílio. Em 1979, o general presidente João Baptista Figueiredo assinou a anistia e todos voltaram. Todos, sem distinção, mesmo os mais ferrenhos radicais, disseram que a luta armada foi um erro e que a democracia deveria ser conquistada através de meios pacíficos, o que, de fato acabou acontecendo.

E a democracia, digam o que disserem, é o melhor regime já inventado. O fato de poder escrever essas linhas na certeza de que não serei preso e detonado por causa disso é um exemplo. Mínimo, mas é.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Golfinhos, sardinhas e o fundamental marketing do incentivo


Texto restaurado e remixado  

Quando os golfinhos de Miami fazem o serviço direito, os treinadores dão uma sardinha. É assim também com os poodles de circo, com os cavalos de Varsóvia, cachorros de Brasília. Não sei quando, mas penso que há alguns milhares de anos atrás, o Poder descobriu que o reconhecimento gera mais produção. No caso dos golfinhos e dos poodles, a sardinha diz “parabéns, você fez direito”. No caso dos humanos, inventaram troféus, medalhas e comendas, aumento de salário, promoções.

Estou me referindo a Ayrton Senna, Sebastian Vettel e Rubens Barrichello. Senna venceu a primeira, a nação urrou, vieram troféus, medalhas, elogios, abrindo uma seqüência de vitórias que comprovavam, mais uma vez, a força, o poder do reconhecimento. Incentivado, ego bem nutrido, Ayrton Senna foi campeão mundial, tocou o topo do mundo da F-1. O alemão Sebastian Vettel está surfando uma onda maior. Foi só vencer a primeira, sentir o reconhecimento e foi tomado por uma força extraordinária que o fez bicampeão do mundo, por antecipação. E Rubens Barrichello?

Há uns tempos alguém escreveu que ele não tem estrela. Não é só isso. O que faltou a Rubens Barrichello foi incentivo, apoio, reconhecimento e sorte. A tal sardinha dos golfinhos. A bem da verdade, para ganhar sardinha é preciso vencer, uma palavra que parece não frequentar muito o caderninho do piloto.

Com a cumplicidade dele, forçaram Barrichello a ser o sucessor imediato de Senna, quando este morreu. Incentivada por ele, a mídia desprezou o seu estado emocional diante da morte do ídolo, desprezaram seu carro ruim, enfim, queriam um campeão imediato. Logicamente, Barrichello não conseguiu. Virou objeto de chacota, piada. Como se a Ferrari fosse uma marca molamba, onde entra qualquer um. Quem conhece minimamente automobilismo sabe o que custa chegar a ser piloto de uma Ferrari.

Lógico que a dona da Ferrari, a Fiat, sabendo que o Brasil é o maior consumidor de carros da marca no mundo, precisava ter um piloto brasileiro na escuderia. Marketing. Mas quantos poderiam estar ali? Ainda assim, escolhido a dedo, Rubens Barrichello não foi alimentado pelo reconhecimento do público, da mídia.

Já entrava no autódromo com medo. Não de explodir no murol e morrer, mas de fracassar. Para o Coliseu lotado, terceiro lugar de Barrichello é fracasso. Logo, não é ele quem não tem estrela. Nós é que não a fabricamos.
Ninguém vive bem sem reconhecimento. Como pessoa e como profissional. Mais: esse reconhecimento só “faz efeito” quando parte, também, de alguém que admiramos e conhece mais e melhor o que fazemos.

Nos anos 1990, Alan Proust elogiou abertamente Barrichello. Gerard Berger ídem, mas as vaias soaram mais alto. Nada é mais lamentável do que a babada de ovo de um medíocre oportunista. Pior: como é triste e lamentável ver um “xefe” ungido a uma função de líder, acreditar nas babaovices dos arrivistas. Tempo.

Arrivista, segundo o dicionário - que ou quem se determinou a triunfar a qualquer preço, mesmo em prejuízo de outrem. E foi o que mais aconteceu com Barrichello na Ferrari. Baba-ovos tentando comprar o seu lugar na base do abano, puxa-saquismo, a ponto de um “xefe” da Ferrari ter sido degolado por, digamos, cair em ciladas amadoras. Lembram?

Europeus e norte-americanos inventaram o “marketing do incentivo”, hoje estrela maior na gestão de empresas. Descobriram que as antigas chibatadas funcionam bem menos do que um elogio REAL e digno. Desde milênios os guerreiros europeus recebiam comendas, medalhas, terras, castelos. 
Reconhecimento. Mas de todos os símbolos os mais cruciais sempre foram “Diplomas de Bravura, Honra ao Mérito, Reconhecimento” etc.

Daí surgiu a idéia de expor publicamente fotos do “funcionário do mês” (o marketing americano explica que a escolha deve ser feita pelos próprios colegas, em eleição direta), premiar o desempenho com viagens, jóias, day off, tudo para dizer “parabéns, você é bom!”. Em outro plano, inventaram o Premio Nobel, Prêmio Pulitzer, Oscar, Grammy, Prêmio Esso, Premio Tony, etc.
Aqui, quem avalia esse texto é o leitor. Os comentários dos leitores, os elogios e as críticas, por si só, já geram aquela sensação de reconhecimento. O mutismo seria horrível. Escrever sem ser lido, discutido, aplaudido, criticado, é um desastre. Da mesma forma que trabalhar sem saber se “é por aí mesmo”.

Muita gente acha que o salário no fim do mês já basta. Mas penso que a maioria precisa do reconhecimento para crescer mais, partir pra cima. Sem aquele medo do Barrichello. Que não é de gasolina, não é de fogo, explosão. 

É o medo do silêncio, da apatia, da vaia implícita.