quarta-feira, 19 de março de 2014

Negócio da China

Texto restaurado e reeditado

A História conta que dos séculos 16 a 18 um navio ia da Índia para a China em um ano e meio (ida e volta). Como era uma viagem muito perigosa, se num grupo de três naus duas afundassem, ainda assim o negócio dava lucro. Mas, os portugueses da Índia descobriram que podiam fazer viagens muito mais curtas e com lucros muitíssimo maiores. Daí a expressão “Negócios da China”.

Atualmente afirmo com muita tranquilidade que qualquer negócio da China, ou com a China, é a maior roubada para qualquer pessoa ou país em qualquer ponto do planeta. A China pratica um regime escravocrata de trabalho, utilizando mão de obra totalmente desqualificada, tecnologia pirateada e retrógrada, enfim, é um esgoto a céu aberto de aberrações éticas.

O problema é que, sempre pensando em se dar bem, muitos brasileiros compram produtos chineses que, por serem extremamente vagabundos, custam muito menos. Eu mesmo já fui vítima dessa lambança. Fui comprar num site de São Paulo um relógio baratíssimo que só chegou mais de dois meses depois. Pior: no site não tem “fale conosco”, nem telefone, nem e-mail. Foi quando descobri, através de leitores no Facebook, que a tal empresa é chinesa.

Como vivemos sob um regime densamente populista desde o Sr. Luis Ignacio Lula da Silva, qualquer país entra no Brasil e faz o que bem entende. A China tomou conta e está provocando uma quebradeira em nosso parque industrial. O governo nada faz porque, porque, porque, sei lá porque. Essa é uma das caixas pretas dos regimes populistas.

Você compra produtos chineses, caro leitor? Não falo de artigos que são fabricados na China e nem sabemos disso, mas daqueles que trazem atrás, ou embaixo, o famigerado Made in China. Antro da escravidão, aquela terra de gente que padece consegue colocar aqui dentro produtos até 87% mais baratos porque sua mão de obra é treinada pela chibata, movida pela tortura e a tecnologia utilizada por 100% das empresas é deliberadamente pirata.

Claro que se eu soubesse que a tal empresa onde comprei meu relógio era chinesa não faria o negócio. Por que? Porque comprar da China é contribuir para o escárnio, para a lambança, para tudo o que existe de pior nas relações humanas.



sexta-feira, 14 de março de 2014

O Homem Invisível - texto de Antonio Ernesto Martins


O poder da invisibilidade tem permeado o imaginário humano desde tempos remotos. Os espíritos invisíveis ou os super heróis dos desenhos animados dotados desse super poder, fascinaram e ainda fascinam muita gente das mais diversas origens e idades. Essa capacidade de ver sem ser visto, essa possibilidade de agir sem ser detectado aparece recorrentemente como um recurso útil para os mais diversos projetos, mas também pode acarretar dilemas e dificuldades para quem lançar mão dessa habilidade. Do romance de Herbert George Wells, “O Homem Invisível” (1897), passando pelo seriado de TV americano dos anos 60 com o mesmo nome até diversos personagens de filmes de animação mais recentes, a capacidade de se tornar invisível atrai atenção e desperta a imaginação.

Hoje, nas nossas metrópoles, vivemos outras invisibilidades mais complexas e menos glamurosas. Nosso olhar, submetido a um jorro constante e exagerado de imagens e informações que nos chegam das mais variadas fontes e sem que necessitemos da maioria delas, acaba nos obrigando a privilegiar o foco em detrimento das periferias do campo visual. Assim a todo momento estamos olhando sem ver, visualizando sem enxergar. Nas ruas, no computador, em casa, diante da TV ou até mesmo defronte a uma obra de arte, perdemos várias informações que não são processadas devidamente em nosso cérebro devido a essa enxurrada imagética.  Mas nossa seleção visual muitas vezes também tem contornos sociais, políticos e ideológicos e é nesse ponto que gostaria de propor uma reflexão sobre a foto que acompanha esse texto.

Essa foto foi tirada por mim em uma praça do bairro do subúrbio carioca onde moro. Nossa cidade, como muitas outras espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, vive o drama da dependência química que, principalmente através do crack, tornou “visível” um problema social terrível e de difícil enfrentamento. As crackolandias na medida em que se estabelecem a beira dos grandes corredores urbanos ou são objeto das matérias sensacionalistas da mídia, obrigam nosso olhar. Mas será que conseguimos ver?

Passando por essa praça e a partir do meu interesse por essa questão identifiquei nessa pessoa, coberta por um cobertor sujo em um calor de mais de 30º C, uma dessas vítimas da nossa invisibilidade seletiva e social. Passamos diariamente por personagens como esse, mas nesse caso, a invisibilidade e o anonimato parecia claramente ser uma opção do sujeito e não objeto de nossa indiferença ou preconceito. Debaixo daquele cobertor, uma história, uma vida, um irmão ou irmã, estava se preservando do olhar da sociedade. Provavelmente por não querer ser visto, julgado e analisado por essa mesma sociedade que não o incluí nem o aceita. Mas que o julga, o estuda, o recolhe para centros de triagem, tenta em vão afastá-lo das drogas e das ruas, mas que não tem capacidade de combater diretamente as causas e as distorções que provocam tanta desigualdade e que jogam milhões nessa mesma condição de indigência.

Notei que a pessoa manuseava algum objeto próximo a sua boca. Os movimentos ocultos de seus braços denunciavam essa ação. Um questionamento ético sobre se eu tinha o direito ou não de tirar aquela foto me sobreveio. Mas diante do anonimato preservado no ângulo que escolhi, resolvi fazer o registro com meu celular e chegando em casa postei nas redes sociais pedindo simplesmente que as pessoas comentassem o que viam naquela cena. A primeira constatação sobre esse tipo de invisibilidade veio no baixíssimo número de pessoas que se pronunciaram aceitando o desafio. Como se aquele cobertor realmente tivesse poderes sobrenaturais de tornar o cidadão e suas mazelas invisíveis. Certamente outras fotos publicadas que apresentassem situações esdrúxulas ou envolvessem fofocas de celebridades receberiam cem vezes mais posts. Dos poucos que reagiram a minha provocação uma pequena parte reproduziu o senso comum com observações infelizes carregadas de preconceitos referindo-se mal disfarçadamente ao indivíduo oculto pelo cobertor como marginal, fraco de caráter, inimigo e perigoso. 

Outros maldisseram as drogas e o Brasil e classificaram a cena de triste, angustiante, inadmissível. Os mais espirituais decretaram que só Deus teria a resposta para isso e os espirituosos definiram como sensação de vazio.  Os colegas do Laboratório de Antropologia Audiovisual da UFRJ reagiram de maneira mais qualificada e científica evitando os estereótipos, mas todos enxergavam naquela representação iconográfica um problema social grave.  Mas seria o crack, ou qualquer outro abuso de droga, a população de rua e os eventuais delitos cometidos, os problemas sociais? Ou estes seriam os efeitos dos verdadeiros problemas sociais implícitos na desigualdade crônica e exagerada de nossa sociedade, que mantém a lógica consumista e individualista de nosso mundo? Problema complexo demais para que eu pudesse chegar a uma conclusão definitiva ali diante daquele irmão ou irmã com o cobertor na praça, principalmente imprensado como eu estava por um compromisso profissional que para mim era inadiável.

Andei uns cinquenta metros já de posse da foto na memória de meu celular, mas me incomodei com minha distancia e frieza. Se as drogas na sociedade contemporânea é um assunto que me interessa e sobre o qual me debruço com minha literatura e meu cinema, não é suficiente e justo que eu, do alto de minha arrogância passe por aquele sujeito como se ele fosse invisível. Simplesmente usurpando sua imagem para minhas reflexões. Precisava ver seu rosto, ouvir sua história, oferecer ajuda.

Mesmo sabendo que o tempo que eu, dentro das prioridades da minha própria sobrevivência, entendia ter como disponível para aquela abordagem provavelmente seria insuficiente para qualquer efeito positivo e duradouro, voltei e me aproximei desse cidadão ou cidadã. Agora pela frente, para me esquivar dos poderes de invisibilidade do cobertor. Fui tentando me preparar para qualquer reação, mesmo agressiva, que poderia vir daquele que seria invadido por mim e surpreendido em uma prática recriminada pela sociedade.

Diante dele ou dela, os poderes do cobertor continuaram ocultando seu rosto. Mas a sua ação me foi revelada: ele ou ela estava comendo um pão velho e sujo. Tirava pequenos pedaços e os levava a boca. Envergonhado e confuso fui embora sem me sentir capaz, naquele momento, de ultrapassar aquela fronteira da invisibilidade social que eu acabara de ajudar a fortalecer. 





sexta-feira, 7 de março de 2014

Cabeça na Parede

Texto restaurado e reeditado                                                 

Noite dessas, perambulando pela internet, li alguma coisa sobre o Muro das Lamentações, em Jerusalém. Conheço algumas pessoas que foram lá e ficaram levemente horrorizadas vendo gente ululando e batendo com a cabeça no Muro. Não conheço a fundo a história do Muro, mas sei que é sagrado. E respeito tudo o que é sagrado porque sou cristão e mantenho com o desconhecido a mesma relação que mantenho com o mar: temor reverencial. 

Não me meto com o desconhecido porque não quero que ele se meta comigo.
Um freqüentador de meu extinto fotolog estava se lamuriando com a falta disso, falta daquilo, que esse é o país do descaso, enfim, usou de suas prerrogativas tecnológicas para encher e chutar o saco da pequena multidão que freqüentava o fotolog. Que por sinal não era meu. Fiz para a banda The Who e a seu criador Pete Townshend até hoje na ativa, cuspindo fogo pelo mundo com sua adolescente energia dos 68 anos e a seus fãs, a quem chamava de whozers.                                                    

A lamúria mata. Mata vaca, galinha, peixe-boi, piranha. Aliás, sugiro ao Ibama que a piranha seja promovida logo a condição de mamífero. Basta de hipocrisia. Lamentação compulsiva mata até o próprio pelo pubiano humano que trepa no chororô como cavalo de batalha e sai pela humanidade como um forno de microondas torrando a paciência alheia.

Independente da sua conotação histórica, o Muro das Lamentações é de extrema utilidade pública/emocional/existencial. Se o cara encosta, bate com a cabeça, soca, chuta, se roça nas pedras e depois taca álcool está no lugar certo. O que não suporto é lamentação crônica numa padaria, num ônibus, numa van, infernizando o nosso complexo auditivo.

É por essas e por outras que defendo a criação de réplicas reduzidas do Muro para serem espalhadas pelas cidades. Pequenos lugares onde o cidadão pare e descarregue toda a sua mágoa, o seu beicinho, o seu suposto fracasso existencial, cornofobia, enfim, descabele o fandango. Essas réplicas poderiam ser acolchoadas para o usuário bater com a cabeça, com a glande, dar chicotadas no próprio lombo, um vale tudo em prol da saúde pública.                                                       

Imagino o cara saindo de casa dizendo “vou até ali no Muro e já volto”, em vez de tostar, grelhar o seu entorno que somos nós. Ah, sim, os Muros públicos deveriam ter revestimento acústico para o usuário poder uivar, mugir, rugir, gralhar, gritar nomes livremente. Como palpiteiro, penso que iria fazer bem não somente a nós como ao próprio chafurdador de derrotas. Li num manual de carro que esbofetear metaforicamente melhora a pressão arterial, a pele fica mais lisa, enfim, como diria Lulu Santos, “tudo azul/todo mundo nu”.


segunda-feira, 3 de março de 2014

Nas mãos de Deus


Texto restaurado e reximado

Estava andando por uma calçada não muito perto de casa quando, na minha frente, a poucos metros, uma mulher pisou em falso e caiu. Ela estava de mão dada com uma criança de, no máximo, quatro anos.

As pessoas que estavam por perto, quase que em coro, gritaram “meu Deus!”. Corremos para ajudar. A criança chorou um pouco, um pequeno arranhão no cotovelo, nada demais, mas estava muito assustada. A mãe, nervosa. Muito. Achava que a filha poderia ter se machucado, que o temperamento da menina era fechado, se culpava pelo incidente.

Nada aconteceu. A pequena multidão se desfez. O marido da mulher chegou e a levou para dentro de uma farmácia. Antes, agradeceu a todos nós pela ajuda. E de novo, praticamente em coro, ouvi “vá com Deus”.

O Senhor está em minha vida até nos atos-reflexos. Sei que muitos leitores desta coluna não acreditam em Deus e não quero, de forma alguma, que pensem que estou tentando forçar uma barra. É que me deu vontade de escrever. Só isso.

Minha fé em Deus é radicalmente inabalável por razões concretas que vivencio, vivenciei e vou vivenciar. O caso do tombo na calçada que abriu esse texto, que poderia ter tido conseqüências graves (foi uma queda muito feia) e outros tombos bem mais profundos que muitos levam ao longo da vida, muitas vezes geram a “senha” “meu Deus!”. No meu caso, há muitos anos (podem por aí umas décadas) fui levado por um grande amigo, Roberto Marra, a conhecer uma pessoa que está entre as mais maravilhosas, generosas, sensíveis, éticas que conheço: meu amigo Téo Elias, que é da Igreja Betânia.

Quem leu meu livro “A Onda Maldita – como nasceu a Rádio Fluminense FM” 
visitou o abismo em que caí em 1985. Não tive o menor constrangimento em contar tudo, expor em via pública porque quis compartilhar com os leitores. Pois, neste ano de 1985, conheci o Téo e mais tarde o Josué Rodrigues. Como a Betânia está longe de ser uma instituição de fanáticos lá conheci outras faces de Deus. Aprendi que a fé é uma questão pessoal, totalmente pessoal.

Deus é uma energia cotidiana em mim e habita meus atos, fatos, emoções, decisões. Há uns anos assisti a um filme de surfe chamado “Nas mãos de Deus” e é aquilo mesmo. Na adolescência peguei muita onda de peito, com pranchas pequenas de madeira (hoje o esporte é conhecido com bodyboard), mas depois fui tragado por minha onda predileta que é a Comunicação. O filme é sobre ondas gigantes e o título mais do que apropriado. Surfistas, como astronautas, paraquedistas e outros que vivem no limite de fato estão nas mãos de Deus. Como nós. Todos nós.