sábado, 31 de maio de 2014

Novo texto "A Onda Maldita - a saga de um gigante", do ouvinte da Fluminense FM e leitor deste blog Ailton Pereira Rock







Parte da equipe da Rádio em 1983

Minha vida era um palco iluminado pelo sol da minha terra, agitada pelo samba da minha terra; e pelos ritmos de outras terras, como tango e bolero; mambo e rumba; fox-trot e balada; fado e tarantela; e acalmada por alguma valsa dolente, executada por Tia Amélia a um piano, ao cair da tarde; e pelos lamentos de Luiz Gonzaga, no programa “A Hora Sertaneja.
       Além dessa musicalidade e das marchinhas de Carnaval, havia a batida marcial e soldados marchando, enquanto aviões da FAB queimavam impostos dos contribuintes no céu azul-anil de nossa pátria, comemorando a vitória da FEB na Segunda Guerra Mundial, da qual meu pai fez parte, que acabou com duas bombas atômicas sobre o Japão. Nasci horas depois que explodiu a segunda.
       Os anos do pós-guerra foram de exaltação do machismo, exacerbado pelos filmes de guerra e do faroeste, em que tudo era resolvido a socos e a bala. Entretanto, foi justamente um filme de Hollywood, “Blackboard Jungle” (Sementes da Violência), de 1956, que anunciou para o mundo e para os próprios americanos o estouro da boiada, com Bill Haley & His Comets tocando uma country-balad, “Rock around the clock”. Para mim, foi o início de uma revolução. Adeus, Tia Amélia; adeus, lamento nordestino; adeus, ritmos cubanos, proibidos depois do bloqueio a Cuba, quando a “Guerra Fria” esquentou de vez e eclodiram golpes militares na América do Sul.
       E no entanto, era preciso cantar. Eu vivia roletando o “dial” a procura de Rhythm & Blues, que um radialista, Alan Freed, havia apelidado de Rock and Roll, em 1951, e que se diversificou com a Invasão Britânica, que provocou a Reação Americana e, em seguida, Hard Rock, Heavy Metal,  Rock Progressivo, Rock Eletrônico, Punk, Pós-Punk  e New Wave.  Tudo isso, porém, foi atropelado pela Disco Music, uma febre que contaminou as rádios, que já não difundiam muito o Rock, limitando-se a The Beatles, muito; Rolling Stones, menos;  e Pop Rock, demais. Elas entraram na onda do “bate-estaca”.
       Foi nesse contexto que, sob o comando de um jovem jornalista de Niterói, surgiu a Rádio Fluminense FM, 94,9, conhecida como “A Maldita”, que atropelou as outras emissoras da mesma maneira que a Disco Music havia atropelado o Rock.
       Esse jovem, incansável e obstinado (amante e profundo conhecedor de Rock & Roll, tendo a excelente banda inglesa The Who como sua favorita), mesmo com parcos recursos - sem dinheiro até para comprar fita casette, o que obrigava seu pessoal a apagar material valioso para reutilizar as fitas, e tentando inutilmente convencer o dono da emissora de que o aparelhamento da rádio era investimento com retorno garantido e não despesa – contratou mulheres como locutoras, dando um golpe no machismo, brindou seus ouvintes com Rock da melhor qualidade e divulgou as bandas do BRock dos anos 80, que sem essa ajuda teriam acabado antes mesmo de se tornarem conhecidas do grande público. Também entrou em várias lutas  por boas causas, enfrentou a censura imposta pela ditadura, tornou a Fluminense a única rádio de Rock do Brasil e a emissora oficial do primeiro Rock in Rio, que apresentou no palco os nomes indicados por ele. Sob seu comando, a Maldita chegou ao quarto lugar em audiência, superando grandes emissoras de difusão nacional e foi, no rádio, o que o Pasquim foi na imprensa, um nanico superando gigantes. Em resumo, uma emissora de rádio que tinha tudo para dar errado, mas que, graças ao talento, ousadia, improviso e profissionalismo desse jovem e sua equipe, e de seu amigo Samuel Wainer Filho, conseguiu um sucesso inigualado.
       A saga desse herói, que mais do que ídolo se tornou um mito, pode ser melhor avaliada com a leitura, altamente recomendada, da terceira edição do livro “A Onda Maldita – como nasceu a Fluminense FM”  - Niterói, RJ: Nitpress, 2012; escrito por Luiz Antônio Mello, o jovem heróico do qual vos falo e do qual sou fã. 

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Também tenho direito à ficção

Desde ontem, quando postei aqui o texto “A Vela” (leia abaixo, depois deste) recebi alguns e-mails (luizantoniomello@gmail.com) perguntando se eu havia me inspirado em alguma situação real para escrever a história da solitária mulher velejando perto de uma praia. Não, não me inspirei em fato nenhum. “A Vela” é uma ficção, pura invenção, fantasia mesmo, mas agradeço a quem me escreveu e as pessoas que postam seus comentários no espaço que existe ali embaixo, depois do texto.

Mergulhei fundo no mundo da ficção quando escrevi meu primeiro romance, “5 e 15”, que foi lançado em 2006. Não foram poucas as pessoas que leram o livro e depois mandaram e-mails de perguntas do tipo “como nasceu a ideia que você colocou no capítulo X ?”. Sempre respondi “não sei” porque de fato não tenho a menor suspeita de onde vem as idéias.

Por isso senti muito receio em lançar meu primeiro romance, que levei quase 10 anos escrevendo, parando, quase desistindo. Minha escola é o Jornalismo, totalmente ligado ao fato, ao real,  a informação consolidada. Como estou me movimentando para escrever um segundo romance as idéias parecem albatrozes me circundando.

O mundo da ficção permite tudo, absolutamente tudo. Estou acompanhando a mais uma temporada da série “24 horas” (canal Fox, terças 22h30m), um dos mais delirantes vôos ficcionais que já vi na tela. Claro que perde para Superman e Homem Aranha, mas uma bomba nuclear explodindo em Los Angeles e toda a confusão sendo resolvida praticamente por um único homem (o agende Jack Bauer), que com uma única pistola mata 15 por minuto, mostra que o delírio dos roteiristas de ficção não tem qualquer limite.

Todo ser humano tem suas ficções. Isso é fato comprovado até por revistas de fofocas. Existem as ficções do bem, que se transformam em livros, filmes, peças de teatro, poesias, letras de música e as do mal, muito chegadas a paranóias, medos inexplicáveis e dezenas de outras conseqüências. Fato é que há muitos anos li num livro que botar pra fora as boas ficções faz bem a saúde.

Eventualmente me aventuro a escrever devaneios totalmente ficcionais. Mas, ainda assim, alguns leitores perguntam se o que escrevi aconteceu ou não. Ou então, se aquela idéia foi inspirada em alguma experiência pessoal que vivi, enfim, parece que alguns leitores precisam ver um pouco de realidade nas ficções. Outra delas se chamou “Nado Noturno” e foi apenas um vadio devaneio. Não, mais do que um devaneio. Eu realmente senti desejo de realizar o nado noturno descrito no texto, nas condições emocionais em que se encontrava o personagem.

Mas se os leitores perguntarem como aquela idéia veio à tona, sinceramente não saberei explicar. Sentei no computador, abri o programa de texto e o cursor ficou piscando, piscando, provocando como as canetas no passado diante de uma folha em branco de papel. Me ocorreu a ideia de escrever alguma coisa sobre o amor, e acho que “Nado Noturno” raspa, sim, no amor, mas quando comecei a escrever o texto foi andando sozinho, como um carrinho de rolimã descendo uma ladeira.

Tenho colegas jornalistas que se dão muito bem com a ficção, mas eles sempre dizem que o pavio é aceso por algum elemento factual, alguma coisa que aconteceu ou que eles achavam que iria acontecer. Outros não conseguem. No máximo produzem uns ensaios, sempre baseados em fatos, dados, comprovações.

Um de meus primeiros textos de ficção brotou da história que foi contada em uma roda por um lendário cascateiro de Niterói, que já citei aqui na Coluna. Ele disse que certa vez estava numa bóia de pneu de caminhão na Praia de Icaraí, pegou no sono e acordou em Copacabana. Sem ter o que fazer, dormiu de novo e acordou em Icaraí. E ai daquele que o questionasse porque além de truculento ele brigava bem pra cacete. Tanto que, anos mais tarde quando publiquei a história num jornal local (totalmente maquiada, disfarçada, cheia de artifícios, mas não adiantou porque ele reconheceu) o cara andou me procurando. Diziam que queria me dar uma surra.


Até que o acaso me fez encontrá-lo na fila do extinto cinema Icaraí e ele me tratou amavelmente, ofereceu pipoca e o falecido (eu acho) Chucola, drops de Coca Cola. Entendi. No fundo, ele adorou ver sua história publicada, apesar de todas as deformações que cometi para ocultá-lo. Vai entender. Aliás, entender pra que? Por que temos essa cisma de querer entender muitas coisas que nos são totalmente inexplicáveis, entre elas a ficção?

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Quando o pragmatismo bateu na minha porta




1994? Pode ser. 1991? Também pode. Como pode ter acontecido em 1997, não sei precisar, mas aquela manhã morna foi inesquecível. Uma manhã de sábado, nublada, quase abafada. Devia ser 11 e meia e eu lia os jornais esparramado no sofá da sala.

Meu interfone interior estava desligado e, talvez por isso, quase me assustei quando ouvi as três batidas na porta. Batidas fortes, secas, precisas, decididas. Deixei o jornal de lado, levantei e fui abrir.

Em minha frente estava um sujeito que não era risonho, mas também não fedia a antipatia. Não se fazia de íntimo e parecia me conhecer muito bem. Como uma flecha foi direto ao assunto.

- Chegou a hora de me conhecer, meu chapa. Muito prazer, eu me chamo Pragmatismo e certamente você já ouviu falar de mim. Aliás, falam muito mal de mim por aí, mas como bom pragmático, ignoro.

Pragmatismo entrou, vestia calça jeans e uma camiseta preta. Calçava botinas de couro. Caminhou devagar olhando as estantes de disco e livros que eu mantinha na sala. Não comentou. Foi até a janela, olhou para fora, pigarreou e sentou na outra ponta do sofá.
- Não vai me oferecer um café? Ele perguntou.

Levantei e fui fazer. Café solúvel. Bebi o meu na cozinha mas o de Pragmatismo levei numa xícara, explicando que eu gostaria de servir um café turco mas não sabia fazer.

- Não importa, disse o visitante. O importante é que temos o café possível e não o ideal. E o possível é sempre mais fundamental do que as possibilidades. E é por isso que estou aqui.

Calado, eu acompanhava o ritmo levemente acelerado da fala daquele sujeito atonal que, eventualmente, passava a mão nos cabelos mas que em nenhum momento demonstrou indecisão, insegurança. Ele prosseguiu:

- Você finalmente amadureceu, meu chapa. Graças a muita porrada que você não conta para ninguém porque acha que o bom cabrito não berra. Quer saber? Você está certo. O bom cabrito não berra mesmo não. Plateia nenhuma merece assistir ao espetáculo do nosso sofrimento. Mais: você amadurece cada vez que abre mão de ideias pueris em prol de fatos concretos mas sem aquele banho de prata vagabunda que os imaturos dão.
Comecei a entender.

- É bom mesmo que você fique quieto porque hoje quem fala aqui sou eu, o tão decantado e esculachado Pragmatismo. Bem, rapaz, a sua maturidade significa que você vai começar a considerar a possibilidade de achar que ser cabeça de sardinha é melhor do que bunda de baleia. O que acha disso? Acha aviltante, ofensivo, papo de babaca trocar o bundão da baleia pela cabeça da sardinha só porque sardinha é pequena? Ou acha que cabeça é cabeça, não importa como, pragmaticamente falando.

Quantas vezes você abriu mão de projetos de vida que não julgava serem ideais. E lá vem ele de novo, ideal, ideal, ideal, essa coisa que não existe. Não existe, rapaz! Não existe mulher ideal, trabalho ideal, vida ideal. O que existe é o possível que a gente transforma em ideal. O possível exige que a gente jogue com a bola no chão porque o jogo é de botão. A vida não é para amadores, príncipes encantados, fadas madrinhas. A vida é mel e fel.

Você deve estar se perguntando por que escolhi visitá-lo hoje. É que nos últimos tempos você tem demonstrado “desilusões” com as ilusões e isso é absolutamente do cacete porque quem se desilude com as ilusões começa a surfar a onda do real. E a onda do real é, foi e sempre será a mais concreta, sensacional e segura porque é REAL. REAL, meu chapa!

Quando você disse naquela roda de amigos, meses atrás, que não briga mais com ninguém, parecia eu falando. Quem briga é amador. E não existe nada mais melancólico do que amador existencial. Existe? Ah, sim, os amadores da vida tem promotores e juízes sentados em seus tribunaizinhos julgando e condenando em vez de estarem tocando a vida.

Eu ainda tenho muito que falar com você, especialmente quando você disse que o rei da música brasileira pareceu tolo ao cantar que quer ter um milhão de amigos. Doce ilusão. Doce não, amarga, ruim, péssima, porque ilusão é o que há de pior.

Já vou indo, mas volto. Continue assim: não recuse o que surge porque não é do seu agrado pueril. Continue avaliando o que vai ganhar, crescer, evoluir e depois, quem sabe, abrir um jardim de infância para educar as suas neuroses de menino. Boa ideia, não? Um abraço, até breve.



terça-feira, 27 de maio de 2014

A cada 10 dias uma pessoa morre defendendo o meio ambiente no Brasil - Por Marcio Astrino - Greenpeace Brasil

No Brasil, a cada dez dias uma pessoa morre por defender o direito à terra e ao meio ambiente. Somos, de longe, o país mais perigoso para as lideranças que arriscam suas vidas combatendo a devastação ambiental. O dado é da organização não-governamental Global Witness.

Segundo a pesquisa, entre 2002 e 2013, 448 pessoas morreram no Brasil por defender o meio ambiente. Muito mais que o dobro do índice em Honduras, que está em segundo lugar com 109 assassinatos.

Em 2013, segundo relatório anual realizado pela Pastoral da Terra, 20 dos 34 assassinatos registrados no campo, e 174 das 241 pessoas ameaçadas de morte ocorreram na Amazônia. Lá estão 55% das Populações Tradicionais que, no ano passado, foram vítimas de algum tipo de violência.

Foi também para lutar contra essas injustiças que há mais de uma década o Greenpeace chegou à Amazônia. Na última semana, lançamos a campanha Chega de Madeira Ilegal, que pretende não só impedir que a floresta tombe, mas também lutar contra a violência à qual as pessoas que vivem na floresta são submetidas.

Garantir a sobrevivência da floresta é lutar por milhões de pessoas que dependem dela para viver. A extração ilegal de madeira na Amazônia segue a todo vapor. E, como sempre, continua gerando conflitos e ameaçando muitas vidas.

Mais de 20 mil brasileiros já enviaram mensagens à presidente Dilma e aos pré-candidatos à presidência pedindo providências para que as ilegalidades no setor – e a violência que vem nesse rastro – ganhe um ponto final.  Com a sua ajuda podemos continuar denunciando as ilegalidades e o descontrole do setor madeireiro na Amazônia.

Junte-se a nós: www.greenpeace.org.br


domingo, 25 de maio de 2014

Uma magistral história ecologicamente incorreta

Rio de Janeiro: ônibus elétrico nos anos 1960.

Minha cunhada Milena Beranger encontrou esse texto na internet, de autoria de um professor chamado Paulo Jubilut. Achei muito bom e, por isso, reproduzo.

Na fila do supermercado, o caixa diz a uma senhora idosa:

- A senhora deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico não são amigáveis com o ambiente.

A senhora pediu desculpas.

- Não havia essa onda verde no meu tempo.

O empregado respondeu: - Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com o nosso ambiente.

- Você está certo - responde a velha senhora - nossa geração não se preocupou adequadamente com o ambiente.Naquela época, as garrafas de leite, garrafas de refrigerante e cerveja eram devolvidos à loja. A loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso, e eles, os fabricantes de bebidas, usavam as garrafas, umas tantas outras vezes.

Realmente não nos preocupamos com o ambiente no 
nosso tempo. Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhávamos até o comércio, ao invés de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência a cada vez que precisamos ir a dois quarteirões.

Nós não nos preocupávamos com o ambiente. Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. Roupas secas: a secagem era feita por nós mesmos, não nestas máquinas bamboleantes de 220 volts. A energia solar e eólica é que realmente secavam nossas roupas. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas.

Mas é verdade: não havia preocupação com o ambiente, naqueles dias. Naquela época só tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto. E a TV tinha uma tela do tamanho de um lenço, não um telão do tamanho de um estádio; que depois será descartado como?

Na cozinha, tínhamos que bater tudo com as mãos porque não havia máquinas elétricas, que fazem tudo por nós. Quando embalávamos algo um pouco frágil para o correio, usamos jornal amassado para protegê-lo, não plástico bolha ou pellets de plástico que duram cinco séculos para começar a degradar.

Naqueles tempos não se usava um motor a gasolina apenas para cortar a grama, era utilizado um cortador de grama que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não precisava ir a uma academia e 
usar esteiras que também funcionam a eletricidade. Os ônibus, chamados de troley, eram elétricos e não poluiam cidades como o Rio e São Paulo.

Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o ambiente. Bebíamos diretamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos.

Canetas: recarregávamos com tinta tantas vezes ao invés de comprar outra. Amolávamos as navalhas, ao invés de jogar fora todos os aparelhos 'descartáveis' e poluentes só porque a lâmina ficou sem corte.
Na verdade, tivemos uma onda verde naquela época. 

Naqueles dias, as pessoas tomavam o bonde ou ônibus e os meninos iam em suas bicicletas ou a pé para a escola, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas. Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.

Então, não é risível que a atual geração fale tanto em "meio ambiente", mas não quer abrir mão de nada e não pensa em viver um pouco como na minha época?


sábado, 24 de maio de 2014

A solidão é o maior desafio existencial da espécie humana

Terminei a releitura da autobiografia de Pete Townshend, líder e fundador do The Who. No final do livro ele diz que está compondo a sua terceira ópera rock que se chama “Floss”. Em 1969 ele escreveu Tommy, em 1973 Quadrophenia e agora Floss que, ele diz, tem muito a ver com a solidão humana. Aliás, o afeto, os desencontros, a rejeição, carência e o sentimento agudo de solidão são presenças constantes na obra não só de Townshend, mas de grandes nomes como o Pink Floyd, U2, R.E.M. e outros.
Não adianta fugir, correr, pular cercas. Ela é o maior desafio existencial da espécie humana. Solidão. Por mais que saibamos se tratar da condição humana básica e que em muitos casos se apresenta como um agudo sentimento passageiro, a solidão é impiedosa. Machuca, fere, marca. Musa de milhares de canções, filmes, poemas, livros.
Flagelo dos que não suportam conviver com suas ebulições interiores, ignora a regra, provada e comprovada, de que o homem é o mais solitário dos mamíferos. Por mais solidário que às vezes demonstre parecer.
A solidão exige muita resistência, criatividade, autocompreensão. Os que se tornam reféns deste deserto que ora se apresenta como fato consumado, ora como circunstância de momento, cai nos braços da culpa, que é bem pior. É fato que todos os seres humanos eventualmente estejam nas garras da solidão.
Transformá-la em criação é o desafio. Desafio possível.

O solitário latino, por inúmeras razões socioculturais, parece padecer mais. Ninguém sabe ao certo por que a solidão, apesar de voraz, é imprecisa. Muito imprecisa. E nos pega sem dia e hora marcados. Pega, mas não leva.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Enfim, novos ventos na TV aberta: o sensacional “Tá no ar: a TV na TV”


O programa “Tá no Ar: a TV na TV”, que a Rede Globo exibe nas noites de quinta-feira, desde o dia 10 de abril, é disparado o melhor e mais audacioso humorístico da TV. Aberta e fechada. Não há nada mais impagável e sensacional na área do que o programa criado por Marcelo Adnet e Marcius Melhem.

Moderno (sem ser modernoso), dinâmico, ágil, com uma boa saudável dose de absurdo, “Tá no Ar” tem um jeitão da antiga TV Pirata que promoveu uma revolução na televisão brasileira nos anos 1980. Um dos destaques é a paródia dos programas mundo cão e seus apresentadores sanguinários que “Tá no Ar” batizou de “Jardim Urgente”. Um apresentador de terno e gravata, enquadrado de corpo inteiro, fala de atrocidades cometidas por crianças em um jardim de infância com a linguagem de jornalismo policial.

Está na Wikipédia: “Marcelo Adnet não teve seus programas bem aceitos pela crítica. Prometendo ajudar Adnet, Melhem idealizou um programa para que ele pudesse "brilhar". Marcelo complementou dizendo: "O Marcius foi muito generoso comigo. É um cara que conhece a casa muito melhor do que eu, ele me deixou muito a vontade para trabalhar, para ser como eu sou.". Para o novo projeto a dupla pensou num programa de esquetes, mas segundo eles com um jeito diferente e atualizado dos demais.

Pela Globo ser conhecida por não citar nomes de outras emissoras nos programas, Melhem comentou: "(...) ficam umas coisas no ar que a Globo não deixa isso ou aquilo, mas isso nunca chegou (para nós), não foi uma questão. A gente foi fazendo o que achava que era legal fazer, e fomos avançando e fomos fazendo".

Fernando Oliveira do portal R7, comentou positivamente a estreia do programa intitulando sua matéria como a "melhor estreia da Globo". Ele elogiou a liberdade que o programa tem em falar sobre outras emissoras, de programas da própria Globo, de comerciais e de ativistas que protestam contra a programação da TV. Já Mauricio Stycer do UOL chamou atenção para o ativista nordestino que se assemelha aos internautas que criticam a programação da emissora.



quinta-feira, 22 de maio de 2014

Manual do Orgasmo

Ficção extraída de meu livro “Torpedos de Itaipu”, editora Artware, 1995

Parecia filme italiano. Eu estava numa livraria dando um tempo. Chovia pra cacete lá fora e o trânsito lembrava um enorme jacaré bêbado. Livraria vazia. Entra um casal. Ele calmo, jeitão de economista do Banco Central, óculos com lentes fundo de garrafa, meio mal humorado. Ela, agitada, colorida, enfiada numa malha rosa arrochada; mulher grande, brincalhona, muito, mas muito gostosa.

O aguaceiro engordou na rua. Não gosto de andar na chuva porque toda hora enfiam um umbrella na minha cara. Umbrella é guarda-chuva em inglês...só pra contrariar. Brasileiro, apesar de tropical, convive muito mal com as tempestades.

Voltando ao casal, ia tudo muito bem até ela pedir um livro, subindo o tom da voz. “O senhor tem o Manual do Orgasmo?”. Até eu fiquei sem saber o que fazer. Quem estava embrulhando parou de embrulhar, quem estava empilhando livros parou de empilhar e eu que estava lendo orelhas parei de olhar. Como todos prevíamos, o tal homem sereno virou um mamute enfurecido.

Completamente verde de ódio o sujeito levou a mulher para um canto e, tentando falar baixo, vociferou: “Precisava me humilhar? Vamos embora! Chega! Eu não aguento mais!”. E saíram no toró mesmo, soltando faíscas.
Não precisava ser desta forma. Muito se fala em alma feminina, nos cuidados que temos que ter com a mulher, com os desejos da mulher, com a liberdade da mulher, com a sensibilidade da mulher. Mas que fim levou a alma masculina?

Uma mulher que entra numa livraria com o marido e pede, vociferando, o “Manual do Orgasmo” está querendo barraco. Ou então pedindo. Alguém dirá “quem sabe, era meio burrinha”. Não! Não existe mulher burra. Se aquele mulheraço estivesse a fim de comprar o tal manual para usufruir teria ido sozinha, ou com amigas, irmãs, com o cachorro, tudo, menos com o marido. Uma sutil (???) maneira de dizer “benzinho, você está precisando afogar melhor o seu gansinho”. E o tal livro (acabei dando uma olhada) parece manual de funcionamento de freezer. A tomada é aqui, você liga ali, tem um botãozinho que faz isso, uma carrapeta que faz aquilo. Pior: sem garantia, sem Procon.

Voltando ao drama da alma masculina, por mais que as revoluções sociais, conceituais e etc e tal ensinem, o homem precisa ser enganado. Precisa achar que é o princípio, meio e fim de uma mulher. Precisa ser herói, único, indispensável, insubstituível, eterno. O homem sabe que é mentira, mas essa mentira é sua fonte de sobrevivência. Em outras palavras, o homem é um imbecil. Numa boa, sem ofensas. Ah, mas as coisas mudaram, dirão alguns. 

Mudaram coisa nenhuma. O homem ainda é o mesmo primata das cavernas, macho, guerreiro, predador de lobos. E pobre da mulher que cair no conto da evolução.

Um dos maiores confrontos do homem é o mistério que ronda o orgasmo da mulher. Está provado que a maioria dos homens vai para a cama muito mais interessada em fazer um belo workshop do que em sentir prazer. Cama é uma espécie de showroom. Um leitor, certa vez, confidenciou num bar na avenida Amaral Peixoto: “ Olha, não existe nada mais importante do que uma mulher derrubada, com aquela cara de bagaço, esgotada. É quando me sinto Hércules, Sansão, Homem Aranha”. Pergunto sobre a sua satisfação pessoal. 
O cara ri, bate com o copo de Genebra na mesa e arremessa: “Prazer eu sinto com um cacho que tenho lá na subida da Caixa D´água.”

O homem é um golfinho sexual. Vai para a cama para ser aplaudido de pé, ou de joelhos. Condenada estará a mulher que, estonteada pela hipnose liberalista que de vez em quando bate em alguns, confessa que ele é mais um. Ele sabe. Todos sabem. Mas o homem que ser o único, the best, o único, The Beatles naquele palco. Dentro dessa conjuntura imagine o que o tal sujeito da livraria sentiu quando a mulher, ao pedir o Manual do Orgasmo, declarou publicamente que seu macho falha, pifa, dá tilt, é mosca de padaria.

Um conhecido meu separou-se da mulher há uns dois anos. Vivia reclamando que a vida estava ruim, que não a amava mais, etc. Conversaram, muita choradeira e ponto final. Três meses após a separação ele me contou que tinha dormido na casa dela. “Saudade é fogo”, comentei. Mas ele rebateu: “Saudade nada. Soube que ela já estava saindo com outro sujeito, me bateu paranoia e eu fui lá. Conseguir melar tudo”.

O pior é que, até hoje, quando a ex-mulher começa a roçar em outro ele vai lá e crau! Só para não perder o lugar que ele mesmo não quis. E ainda diz que ´ex-mulher não existe`. Alma masculina é chumbo grosso.

Homem liberam só existe em anúncios de uísque. Nós, machos, seres rudimentares e inferiores, nascemos com várias escrituras imaginárias na cabeça, e apesar da psicanálise, da cromoterapia, da neurolinguística, dos florais de Bach, da homeopatia, enfim, de toda a modernidade ainda somos os mesmos... e (por que não?) vivemos como nossos pais, como cantou Belchior nos anos 1970.

Haverá cura para o homem na sociedade contemporânea? Vai chegar o dia em que ele conseguirá viver sem honra ou mérito, ou sem honra, ou sem mérito? Será que um dia a mulher poderá comprar o Manual dos Orgasmo o lado do marido como se estivesse comprando alpiste para o canário? Viveremos momentos onde ex-mulheres imediatas (segundo a literatura, a mulher se livra definitivamente de um homem num prazo que corresponde a 20% ao da convivência. Exemplo: conviveu 20 anos levará quatro para se livrar) poderão namorar livremente por aí? Não. Porque o maior drama do homem não é viver sem mulher, e sim viver sem urras, elogios e “obrigado meu amo”.



quarta-feira, 21 de maio de 2014

Empresas de eletricidade metem a mão nos nossos bolsos

Quando recebi a conta de luz de abril fiquei indignado. Estava 100% mais cara do que nos meses anteriores. Liguei para a concessionária reclamando e diante da resposta de uma atendente alegando que “houve uma falha no nosso sistema e por isso tivemos que cobrar o valor pela média de consumo anual”, fui reclamar com a Agência Nacional de Energia Elétrica, a Aneel. Por que? Porque a média de meu consumo é 120% menos do que o valor cobrado.

Apesar de não acreditar e nem confiar em nenhum órgão do governo, liguei para 167, número da Aneel. Um funcionário ouviu minha reclamação, anotou o número do protocolo da queixa que fiz junto a concessionária e ficou por aí.

Até hoje (quase três semanas depois) a única informação que recebi foi através de uma carta mentirosa da concessionária dizendo que os técnicos verificaram os equipamentos e constataram estar tudo normal. Como assim? Não houve um problema técnico que levou esses mesmos técnicos a taxarem a conta com base na média do consumo:

Enfim, é uma bandalha só. Uma bandalha que não está acontecendo só comigo. Leia essa reportagem que saiu no Globo caderno Niterói no último domingo:

Moradores de Icaraí questionam aumento repentino na conta de luz

- Num dos casos, fatura subiu 1.800% em abril

- Ampla alega ‘medição por média’

Marco Grillo (Email · Facebook · Twitter)
Igor Mello (Email)

Moradores de dois edifícios de Icaraí compartilharam do mesmo susto quando abriram a conta de luz no início deste mês: um aumento exorbitante no valor da fatura. A questão foi observada em um prédio na Travessa Antônio Pedro e outro na Rua Cinco de Julho.

Entre os clientes da Ampla que relataram o problema, o caso da tradutora Isadora de Campos é o que chama mais atenção: acostumada a um consumo médio que variava entre 100 kWh e 300 kWh, ela se deparou com uma fatura que trazia um consumo de 2.660 kWh. A conta de março, no valor de R$ 80, saltou para R$ 1.539 no mês seguinte, um aumento de 1.823%.
- No meu prédio há, pelo menos, outros quatro casos assim, inclusive no apartamento da minha irmã - relata a consumidora, que mora em um apartamento de cerca de 50 metros quadrados na Rua Cinco de Julho

A concessionária informou para Isadora que a cobrança foi feita baseada em uma média do consumo nos meses anteriores a maio no ano passado. Ela, no entanto, alugou o apartamento justamente em maio de 2013. O imóvel estava vazio antes deste período.

Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a cobrança por média é permitida por lei desde que a concessionária não consiga, por algum motivo, medir o consumo de energia no mês correspondente. Foi o que alegou a Ampla em relação a diversos moradores do edifício Montmatre, na Travessa Antônio Pedro, em Icaraí. Entre os prejudicados estão os pais de Isadora, os professores Jorge Lúcio de Campos e Sandra Márcia de Campos, de 55. No caso deles, a conta subiu de uma média de R$ 300 para R$ 656, crescimento de 118%.

- Uma concessionária, até por ser um serviço público, acima de tudo tem que ser transparente. Eu não quero pagar pouco, apenas o meu consumo - reforça Jorge.

De acordo com a Aneel, caso o consumidor não concorde com a cobrança, deve procurar a concessionária. Caso a situação não seja resolvida, o caminho é entrar em contato com a Aneel por meio do número 167.

Segundo o zelador do prédio, Geraldo Luís Cordeiro, não houve nenhuma mudança no procedimento de leitura dos relógios. Apesar disso, muitos outros moradores do prédio reclamaram do mesmo tipo de problema nos últimos dias:

- Pelo menos 15 dos 85 condôminos reclamaram de aumentos na conta de luz sem explicação. E o interessante é que, para cada um deles, os funcionários da Ampla dão uma explicação diferente - ressalta o funcionário.

Apesar de a Ampla ter alegado aos consumidores que os relógios do condomínio estão em locais de difícil acesso, o que impediria a medição, o controle de acesso realizado pela portaria mostra que funcionários da concessionária realizaram a medição no mês em questão.


Em nota, a Ampla afirma que o valor da conta dos clientes foi calculado com base na média anual de consumo, por questões operacionais. Questionada, a concessionária não explicou o motivo de o controle de acesso do prédio mostrar a entrada dos funcionários para conferirem o relógio que mostra o consumo de energia.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Correção: Centro de Artes da UFF só será reinaugurado depois da Copa

Acabei de ser informado que não está confirmada para 9 de junho a reinauguração do Centro de Artes da UFF.

O reitor vai marcar a data (depois da Copa) e, em seguida, a Assessoria de Comunicação da UFF vai entrar em contato divulgando dia e horas corretos da inauguração.

Mais: teatro e galeria de arte vão ser inaugurados antes. O cinema depois, em outra data.

É isso aí.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Cine Arte UFF vai ser reinaugurado dia 9

Até que enfim! Após anos e mais anos de reforma, o Centro de Artes da UFF (cinema, teatro e galeria de artes) vai ser reinaugurado no próximo dia 9 de junho. A informação é de Gilson Monteiro em sua página no Globo, caderno Niterói.

Luz, som, segurança, tudo absolutamente de última geração. Para nós que vivemos em Niterói e amamos, por exemplo, o cinema, é uma grande notícia. Se for mantida a mesma (e tradicional) filosofia do Cine Arte UFF (filmes de arte e alguns alternativos), somada a alta tecnologia, estaremos bem servidos. Mais: Gilson informa que o teatro vai ser a nova morada da Orquestra Sinfônica da Universidade, uma das melhores do país.

Inaugurado em 1969 por Nelson Pereira dos Santos, o Cine Arte UFF é um patrimônio cultural do país. Ali, gerações e mais gerações conheceram grandes diretores como o próprio Nelson, Cacá Diegues, Bergman e dezenas de outros que ganharam homenagens especiais. Foi lá que assisti ao documentário que mostra o fim dos Beatles, “Let it Be” e também ao showzaço do Led Zeppelin registrado pelo filme “Rock é Rock mesmo”.

Amigos e colegas vinham do Rio para participar dos festivais promovidos naquele cinema que deve manter como diretor de programação o grande Paulo Máttar. A UFF inaugurou o curso de cinema no Brasil e, em vários momentos, alunos mostravam seus curtas e média metragens em séries especiais que foram produzidas nos anos 1970, 80 e 90. Ou seja, além de mostrar para o público o bom cinema não comprometido com grandes bilheterias o Cine Arte UFF serve, também, de laboratório para a sua faculdade de cinema com a participação do público.


A reinaugração do Centro de Artes da UFF é, sem dúvida, a notícia cultural mais importante deste ano no Brasil. Vale conferir.

domingo, 18 de maio de 2014

Praia de Itaipu: saudade do futuro

Para quem reproduz este blog em outros lugares

Amigos alertam que vários textos publicados aqui no blog estão reproduzidos em outros na web. Dei um Google e comprovei. No entanto, todos citaram meu nome e este blog como fonte, o que deixa a questão no zero a zero. Não me importo quando republicam o que escrevo em outros lugares, desde que citem a fonte.

Hoje, pesquei um pequeno texto abaixo sobre a “minha” ex-praia, Itaipu, que poderá a voltar a ser linda, daí o título “Saudade do futuro”.

                      Saudade do futuro

Transformada em favela a beira mar, a praia de Itaipu ia receber um choque urbanístico de primeira linha. Até o museu de arqueologia seria ser restaurado. Quem viu o projeto de salvação de Itaipu garante que está para lá de deslumbrante, mas a pergunta que não sossega é por que a urbanização foi engavetada?

Escrevo ouvindo uma seleção de artistas do selo californiano de new age music Windham Hill Records, que tive o privilégio de lançar no Brasil no inicio dos anos 90. Entre os que se destacam, um dos melhores violonistas que conheço, Michael Hedges, lamentavelmente morto em um acidente de carro em 1998. Pior, ele esteve no Brasil, tocou, e eu não soube. A divulgação nunca se mostrou tão incompetente como na passagem dele por aqui. Aqui, um dos momentos mágicos de M.H. -



Bem, eu estava falando de Itaipu, praia que frequentava desde a segunda metade dos anos 80, mas devido contínuo e voraz processo de baranganização tornou-se inviável. Não vou lá há mais um bom tempo, mas, com certeza, se o tal projeto de restauração sair do papel voltarei a freqüentar com o maior prazer. Aquela praia tem um astral especial, espacial, é depositária fiel de grandes momentos afetivos que vivi (e com certeza vou continuar vivendo), enfim, Itaipu mora nos dois lados de meu peito.


Hoje não quero escrever muito. Tenho muita coisa para falar de Itaipu. Optei pelo silêncio das lembranças. Lembranças de ontem e de amanhã. 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Sem Jeito me mandou lembranças

Hoje foi um dia que comprovou, mais uma vez, que sou um sujeito totalmente desajeitado quando o assunto é serviços domésticos e similares. Três exemplos. De manhã cedo, por volta das 7 horas, escovava os dentes depois do banho e resolvi trocar a lâmpada do banheiro. A que fica no teto, que com as duas nas laterais da pia, formam um conjunto.

Fui na área de serviço, peguei a fatídica escadinha de alumínio, abri, pus embaixo do lustre e subi. Vamos direto aos fatos: 1 – quando retirava o lustre, deixei que ele escapasse da minha mão. Explodiu no chão. Sem problemas. Desci, peguei a lâmpada nova, subi de novo a escadinha e consegui retirar a queimada, o que para mim cheirou a vitória. Mas na hora de enroscar a lâmpada nova, Sem Jeito baixou de novo. Apertei demais e a lâmpada estourou na minha mão e só não me cortei porque estava com uma toalha enrolada. Em suma: como hoje foi dia da diarista deixei que ela providenciasse a troca da lâmpada, o que ele fez em menos de três minutos.

Fato dois: peguei o carro e fui para o primeiro compromisso do dia. A direção estava pesada e, lembrei, há tempos que não calibrava os pneus. Parei num posto e, eu mesmo, desci e fui naquela engenhoca digital de encher pneus. Cravei lá 27 libras e fui espetar a mangueira no primeiro pneu. Inexplicavelmente, depois de alguns minutos, percebi que o pneu estava esvaziando. Teimoso, continuei a insistir até o pneu ficar totalmente vazio. Chamei um frentista que, sem saber que estava diante de uma mula (eu) comentou “seu pneu está muito vazio...como é que o carro estava andando?” E, como a diarista, em menos de cinco minutos encheu os quatro pneus do carro.

No final do dia cheguei em casa e aí foi um com combo de cagadas domésticas. Tomei o segundo banho e sentei no sofá. Olhei para a mesinha, sem mais nem porque peguei o telefone sem fio e comecei a mexer, com o pensamento longe. Fiz alguma besteira ali e apaguei todos, mas todos os números da agenda. E, não satisfeito, levantei e tropecei num cabo de alimentação do DVD que, detonado, foi ao chão.


Só me resta ficar parado, quieto, e assumir definitivamente que sou um mamífero, bípede, completamente irracional quando o assunto é “tarefas cotidianas que exigem a mágica palavra Jeito”. Com J de jumento.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O fim da Copa dos otários


Por essa o governo não esperava. Nas ruas, em vez de otários pintando muros de verde e amarelo, multidões indignadas com a dinheirama que o sistema despeja na copa do Mundo, em detrimento da saúde, dos transportes, da educação, da inflação. O povo, lúcido, vai torcer sim pelo Brasil na Copa do Mundo, mas não vai dar a cara a tapa, não vai fazer parte de corrente pra frente nenhuma em prol dos corruptos endinheirados do governo e da Fifa, entidades que faturam bilhões com esse evento.

O governo que está aí muito lembra o regime militar, que usava a Copa do Mundo para dopar o povo. Naqueles tempos éramos sim alienados, frouxos, arregados por causa da censura, das perseguições, da violência. Hoje o governo permanece aparelhado, mas não tem coragem de rasgar a Constituição e mandar as tropas para as ruas nos obrigarem a colar bandeirinhas do Brasil em fios de alta tensão, estupro verde amarelo tantas vezes praticado nos anos 60 e 70.


Não tenho a menor ideia do que irá acontecer no país durante a Copa, mas pelo que vejo aqui na sala de espera a coisa está muito mais para punk rock do que para manipuladoras e alienantes marchinhas de carnaval. Vamos ver. Valeu, brasileiros!

terça-feira, 13 de maio de 2014

O obsoleto mundo dos reaças

Fila de banco. Duas mulheres conversavam animada/desanimadamente sobre seus celulares. Uma, calça jeans, dorso retilíneo, bem interessante, dizia que o seu aparelho era um iPhone 4. A outra, mais para adiposa, mas também gostosa, ostentava um iPhone 5. Eu segurava, apenas, uma quase alérgica curiosidade empunhando meu Nokia C2 ano 2012, pequeno, barato e notável, mas já ultrapassado segundo o mundo cão.

Pensei em me meter entre as duas. Participar da conversa. Dizer o que penso de modelo Y ser mais isso do que modelo X que é mais aquilo que o modelo Z, mas bateu preguiça. Vai que me enfio ali e as duas acham que é assédio, o que, muito entre nós aqui nessa cabana, não seria assédio não. Seria o velho e bom tesão.com.br.

Um amigo, gigaintelectual, tem um Fusca 1982 na garagem de seu prédio, no Leblon. Ele me disse uma vez que o melhor carro do mundo é o táxi. Concordei. Quando vivia em Paris, anos 70, ele tinha um Citroen 2 CV, xodó dos existencialistas. Foi ele quem me apresentou a Oscar Niemeyer na célebre tarde em que o mestre da arquitetura decidiu almoçar num restaurante no Flamengo, Rio.

Meu amigo estava na equipe que fez Brasília com Oscar e Lúcio Costa, mas nem por isso abre mão do jeans, dos óculos tartaruga, da eterna aparência sarada de 70 anos de idade (acho que ele desligou seu taxímetro) e de Sartre, de quem também foi amigo.

Esses caras me mostram que esse papo de obsoleto mundo é e sempre foi uma babaquice, mas lamentavelmente funciona ou a senha “se liga, se liga freguesia, celular é nas Casas Bahia” não teria se eternizado. Em 1976 eu estava no MAM, Rio, no velório de Di Cavalcanti. Ouvi no rádio e fui lá como repórter da saudosa Radio Jornal do Brasil AM, ícone do jornalismo.

De repente entra Glauber Rocha. Descabelado, com um outro cara com uma câmera Bolex de 16 mm. Maior escândalo. Glauber gritava “close na cara do defunto! Close na cara do defunto” e o cinegrafista praticamente trepava no caixão para arrancar o close da cara do Di Cavalcanti. As fotos de Ronald Theobald contam 60% dessa história.

Claro, fui falar com o Glauber que eu conhecia não sei de onde. Aos berros, olho pra mim e vociferou “esse aí....o Di... nunca pintou modelinho de revista. Esse aí...o Di, nunca acreditou em arte obsoleta como a minha. Não é isso que falam de mim...hein?!?!”, me perguntou, olhos arregalados. Nada respondi porque ainda não tinha chegado a uma conclusão sobre “Terra em Transe” e “Deus e o Diabo na terra do Sol” que assisti, sem camisa, no Cinema Um na Prado Junior (Copacabana), lendária Pradão, que fez um Festival Glauber em 1975, por aí. Para não variar o ar condicionado do cinema estava pifado, para não variar a maioria dos homens estava sem camisa, e para não variar uns cinco ou seis estavam só de cueca, um hábito totalmente glauberiano que virou norma naquela sauna.
No festival Bergman, e no Truffaut e no Cacá, o traje cueca começava a se transformar em maioria naquele templo do novo cinema na Pradão, rua de belas putas populares. Um dia, um homem que se dizia dono do Cinema, de terno, gravata e advogado a tira colo, entrou, mandou acender as luzes do cinema e expulsar os seminus. Ninguém saiu, as luzes apagaram e a sessão continuou. Enterraram o assunto. O cara sumiu. O advogado também.

O consumismo nasceu obsoleto porque já carecia de um novo modelo para faturar. O sujeito compra um carro, paga 70 mil, fica todo satisfeito e no semestre seguinte mudam o farol, as lanternas e o câmbio. É trocar ou perder 80% na desvalorização. Em semanas seu “último tipo” passa a condição de ultrapassado. Incomodado, o ex-feliz proprietário arranca sangue das vísceras e troca (perdendo um dinheirão) o “velho” por um novo que, seis meses depois sai de linha para dar lugar a um outro modelo. E por aí vai. Ladeira acima? Ladeira abaixo? Não sei. Não sou economista e muito menos veterinário para entender os pitís (não tem acento agudo no i) da sociedade emergente crônica.

Quando Lula era o estadista do Brasil e começou aquela conversa sobre compra de aviões de caça, o “muso” era o F-18. O Brasil comprou o Gripen, puro sangue da Suécia, ilha eterna e maravilhosamente pornô. Os americanos matavam com AR-15, mas os russos ensinaram a fazer fuzis maiores lançando o ultra fashion AK-47 que tem um jeitão meio vintage. Dêem uma olhada nele, atrás do inexistente Bin Laden. O AK é um fuzil autoral.
Segundo a Wikipidea foi inventado em 1942 por Mikhail Kalashnikov que morreu ano passado, um jovem sargento das forças blindadas soviéticas que levou um balaço em 1942 e, no estaleiro, inventou o AK, arma de grife que os traficantes do Rio cultuam como a um disco de Belo, ícone do pagode e do narcotráfico consentido. Lembram que Belo foi preso dentro de um armário, em casa, cheio de armas e drogas anos atrás? Que fim levou essa ocorrência policial? Tornou-se obsoleta?

Enfim, é preciso estar muito atento e forte para não ceder a ditadura nada branda dos reaças que apregoam o estado obsoleto de ser. Até implantes dentários entraram nessa porque, dizem, o parafuso de titânio é melhor do que a coroa de ouro, li numa revista de inutilidades na antesala do meu dentista.

Será que um dia haverá homens e mulheres com a validade vencida? Por falar nisso, sabem o que um médico amigo me disse? Que os laboratórios estão reduzindo de propósito a vida útil dos remédios para que a validade vença logo e o consumidor tenha que comprar o modelito em voga, já que não existe antibiótico vintage. Mais: ele me disse que muitos remédios vem com 28 comprimidos porque os laboratórios sabem que o médico vai prescrever para 30 dias e o infeliz do consumidor, no comprimido número 28, terá que comprar outra caixa. É dose? Não, não é. Era.


domingo, 11 de maio de 2014

Relendo a autobiografia de Pete Townshend, pai do The Who


Quando a autobiografia do líder do The Who saiu no Brasil, em outubro do ano passado, devorei as quase 500 páginas rapidamente. Li ansioso, curioso, faminto de informações sobre este músico que é um de meus heróis e que, pela primeira vez, tornou pública parte de sua vida.

Publiquei aqui neste blog uma resenha enfiando o cacete na biografia, e em alguns momentos afirmei que Townshend se mostrou dissimulado, sinuoso, escorregadio ao descrever vários temas e situações. Por exemplo, escrevi:
“Townshend é um gênio? É. E quem está falando não é um fã, mas um jornalista e radialista, um reles técnico. Seu livro é bom? Mais ou menos. 

Esperava muito mais. Ele empurrou muita coisa privada abaixo (corte de 500 páginas? Falhas na edição brasileira?), inclusive uma abordagem mais profunda de “Quadrophenia” que é tratado quase que a meia bomba, ao contrário de “Tommy”, citado página sim, noutra também. Outro injustiçado é seu álbum-solo “Empty Glass”, um dos melhores discos da história do rock. 

Townshend prefere ficar enchendo nosso saco tentando convencer que “Iron Man” e “Psychoderelict” são sensacionais (não gosto desses discos) e que sua mulher Rachel é um gênio musical incompreendido.
No primeiro semestre do ano que vem lerei de novo. Espero traduzir o confusionismo townsheniano e, quem sabe, descobrir mais informações relevantes neste labirinto editorial que é o livro de Peter Dennis Blanford Townshend.”

Bom, conforme prometi estou na releitura do livro e, de fato, muitos pontos ficaram mais claros agora que leio devagar, atentamente. Por exemplo, ele encheu a bola de Quadrophenia. O que eu não tinha percebido na primeira leitura é que ele entra e sai no tema Quadrophenia várias vezes. Errei também ao dizer que ele não valorizou seu álbum-solo “Empty Glass”. Ele fala muito, e muito bem do disco. Ou seja, o que na correria da leitura inicial eu entendi como dissimulação na verdade é um estilo de escrita subjetivo, indireto, porém, com todos os elementos.

Em suma, vale a leitura. É um livro sobre Townshend, sobre o Who, sobre, afeto, rock, vida, mundo, mar, praia, conflitos, drogas, bebidas, enfim, existência desse bardo de 69 que segue cumprindo a sua sina.