segunda-feira, 30 de junho de 2014

Os verdadeiros senhores da guerra

Não vamos exagerar concordando com quem diz que a nossa cultura aportou por aqui trepada na hipocrisia. Há muitas, muitas exceções. Mas não dá para engolir sem sal de frutas quando alguém, seja lá quem for, diz que foi a uma festinha animada onde rolava de tudo, fingindo que não sabe que os compradores de bagulhos, da maconha à heroína, via cocaína e ecstasy, são os verdadeiros senhores da guerra no Brasil.

Não é preciso ser gênio para concordar que o dinheiro que vai para a mão do corretor do traficante vai se transformar em armas e poder. Cada grama de droga gera milhões e milhões de reais às cidadelas do tráfico que, como bem diz o secretário de segurança do Estado, José Mariano Beltrame, tem que ser retomadas com remédio amargo. O ex-presidente Lula foi mais longe ao dizer, em discurso, que não se combate o tráfico espalhando pétalas de rosas.

Certa vez, Rubem Braga provocou um cacarejo generalizado quando escreveu que o Brasil não é uma nação, mas um acampamento provisório. Argumentou que é essa a verdadeira condição de uma pátria sem patriotas. 

No caso do tráfico parece óbvio que quem financia é quem consome, assim como, por exemplo, o mercado de automóveis cresce proporcionalmente ao volume de vendas. A hipocrisia finge que não vê, mas os "sócios" informais dessa narconojeira são os anjinhos de pau oco que compram "bagulhinhos". 

De anjinho em anjinho, os bagulhinhos transformam-se num negócio gigantesco em que a morte é o gerente geral. Muito louco o nosso Brasil, onde transmissão de corrida de Fórmula 1 tem entre os patrocinadores a cerveja, "combustível" que mais mata nas ruas e estradas.

Os Estados Unidos deram um tombo considerável no tráfico quando, no final dos anos 90, decidiram prender usuários. De preferência celebridades, ou parentes de colunáveis para gerar a chamada "visibilidade", vulgo exemplo. Claro que não foi apenas esse tipo de ação que deixou os traficantes de lá desesperados. Segundo Steven Levitt e Stephen Dubner, autores do best seller Freaknomics, a legalização do aborto nos EUA em 1975 também quebrou várias pernas no narcobussiness.

Baseados em pesquisas sérias, os autores constataram que 87% dos filhos não desejados pelas mães se tornam criminosos. Com a legalização do aborto, que nos EUA é feita com respeito, higiene e atendimento médico e psicológico em hospitais públicos, no século 21 a criminalidade atingiu níveis baixíssimos nas metrópoles por uma simples razão: segundo o Dubner e Levitt os bandidos não nasceram.

Voltando ao Rio/Brasil, se o governo continuar nessa linha de devolver a população regiões que são governadas pelo tráfico, partir para a prisão de consumidores (de preferência ilustres) e ouvir o grito do Ministério da Saúde denunciando que o aborto clandestino (segundo o Instituto de Medicina Social da Uerj, são 1 milhão e 40 por ano) é um escândalo de saúde pública. Aí sim acende-se a luz no fim do túnel. Mas, sabemos que tudo isso é improvável. O controle da natalidade não interessa àqueles que vivem da miséria e a indústria do pistolão acaba escondendo celebridades e seus "bagulhinhos" da mídia.

Mas quem sabe um dia tombam também esses tabus? Teremos, enfim, a sonhada nação inexistente de Rubem Braga?

domingo, 29 de junho de 2014

Com uma pequena ajuda dos amigos

Tempos atrás, vi na TV um comercial de uma montadora de automóveis que inseriu na trilha sonora uma versão bem suave de With a Little Help From My Friends, um clássico dos Beatles de 1967.  A canção veio ao mundo no lendário álbum Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, e rapidamente estourou em todo o planeta. Há quem não saiba, mas quem canta na versão original é Ringo Starr.

A música ganhou diversas versões, sendo a mais brilhante delas, na minha opinião, a que o gigacantor Joe Cocker mostrou no festival de Woodstock, em 1969. Certa vez, numa entrevista, Cocker atribuiu o sucesso de sua versão de With a Little Help... não à música em si, mas à necessidade que as pessoas têm dessa figura sagrada chamada amigo.

A música cultua a "pequena ajuda dos amigos", capaz de nos erguer, nos fortalecer, enfim, Lennon & McCartney deixaram claro que "sem amigos não dá". No comercial de TV a imagem mostra diversas formigas trabalhando em uma árvore, simbolizando a união que faz a força, que nos aproxima da perfeição.

Quem nunca precisou de "uma pequena ajuda dos amigos"? William Shakespeare escreveu: "Perguntei a um sábio a diferença que havia entre amor e amizade, ele me disse essa verdade... O amor é mais sensível, a amizade mais segura. O amor nos dá asas, a amizade o chão. No Amor há mais carinho, na amizade, compreensão. O amor é plantado e com carinho cultivado, a amizade vem faceira, e com troca de alegria e tristeza, torna-se uma grande e querida companheira. Mas quando o Amor é sincero ele vem com um grande amigo, e quando a amizade é concreta, ela é cheia de amor e carinho. Quando se tem um amigo ou uma grande paixão, ambos sentimentos coexistem dentro do seu coração."

Enquanto escrevo ouço uma arrepiante versão de With a Little Help From my Friends com o Deep Purple. Aliás, não conheço uma versão dessa canção que não abra os portais da minha emoção. Certamente num momento pessoal de muita comoção, Albert Einstein escreveu: "Pode ser que um dia deixemos de nos falar.../Mas, enquanto houver amizade/Faremos as pazes de novo./ Pode ser que um dia o tempo passe.../ Mas, se a amizade permanecer, / Um de outro há de se lembrar. /Pode ser que um dia nos afastemos.../ Mas, se formos amigos de verdade/ A amizade nos reaproximará./ Pode ser que um dia não mais existamos.../ Mas, se ainda sobrar amizade,/ Nasceremos de novo, um para o outro. / Pode ser que um dia tudo acabe.../ Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,/ Cada vez de forma diferente. / Sendo único e inesquecível cada momento /Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre./ Há duas formas para viver a sua vida: / Uma é acreditar que não existe milagre./ A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre./ Especialmente os amigos."

Dia 20 é o Dia do Amigo. Li na internet. Muita gente ridiculariza a data, acha que dia do amigo é todo dia, enfim, aquela balela. Mas, a meu ver, nesse corre-corre em que vivemos a data se tornou importante porque, no mínimo, leva muita gente a lembrar dos amigos, procurar um ou outro. Afinal, não foi à toa que os Beatles fizeram With a Little Help From My Friends. Paul McCartney fez o disco praticamente sozinho e, em muitos momentos, precisou, sim, de uma pequena ajuda dos amigos.


sábado, 28 de junho de 2014

Museu do Ingá inaugura exposição sobre golpe militar e seus desdobramentos no antigo Estado do Rio de Janeiro



Texto do blog de Márcio Kerbel

Sede de governo do antigo Estado do Rio de Janeiro, o Museu do Ingá inaugura, na terça-feira, 01 de julho, às 18h, a exposição "Ressonâncias - Rio de Janeiro, 1964", uma reflexão sobre as dimensões políticas, sociais e culturais do golpe de Estado enfatizando seus desdobramentos na história regional do Rio de Janeiro. 

São cerca de 150 documentos divididos entre as salas do histórico prédio, que entre 1903 e 1975 foi sede do poder executivo fluminense e palco da política estadual em 1964, e que atualmente é o museu do Ingá , em Niterói.
  
A pesquisa resulta da parceria entre a Secretaria de Estado de CUltura, Superintendência de Museus, a Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro (FUNARJ), a Comissão da Verdade e da Justiça (CEV-Rio) e o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ). A curadoria da exposição é do historiador Paulo Knauss, diretor geral do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro e da historiadora Anderea Telo da Côrte, coordenadora do Centro de Estudo da História Fluminense do Museu do Ingá. 

Diante do golpe de 64, os dois governos estaduais que margeavam a baía de Guanabara adotaram posições diferentes: Niterói, capital do antigo Estado do Rio, então governada por Badger da Silveira era um importante aliado do presidente deposto João Goulart. Na outra margem, o Rio de Janeiro, capital da Guanabara, tinha como governador, Carlos Lacerda, lider da ala mais conservadora da UDN, um dos incentivadores do golpe militar.  

De acordo com os curadores esta é a primeira vez que o público poderá relacionar um fato nacional - como o golpe de estado que depôs o presidente Goulart e acabou por interromper a rotina democrática – e sua repercussão na política regional, destacando as diferentes posições dos governantes a partir de seus respectivos palácios de governo - o Ingá e o Guanabara. “No caso do Palácio do Ingá, um importante teatro dos acontecimentos da época, a exposição Ressonâncias cumpre uma importante função ao trazer para o presente flashes da história do antigo estado do Rio, extinto pelo decreto da fusão em 1975, e de seu último governador eleito, Badger Silveira”, explica Andréa Telo da Côrte.


Serviço

Ressonâncias – Rio de Janeiro, 1964
Abertura: terça-feira, 01 de julho, às 18h
Visitação: de 01 de julho a 31 de agosto
Local: Museu do Ingá 
Rua Presidente Pedreira, 78, Ingá, Niterói, RJ - + 55 21 2717-2919
Grátis
Visitas: terça a sexta: 12h às 17h
Sábados, Domingos e feriado: 13h às 17h
As visitas mediadas para grupos serão realizadas com agendamento prévio pelo telefone 
(21) 2717-2903 - museudoinga@hotmail.com


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Arraiais, fogueiras, lembranças

Tempos atrás almocei com o amigo Eduardo Lamas da “Mais e Melhores Produções Artísticas” (www.maisemelhores.com.br) no sempre agradabilíssimo bistrô do “Arlequim”, no Paço Imperial, centro do Rio. Muitos papos, ótimos planos, conversa regada a muitos CDs e DVDs raros que frequentam o magistral acervo da loja.

Na volta, a caminho do catamarã para Niterói, vi na Praça 15 (não uso algarismos romanos) um cartaz anunciando uma festa junina. Típica e tradicional. O desenho trazia uma fogueira, gente fantasiada e até os incorretos (e hoje inviáveis) balões. Embarquei e a meu lado sentou um sujeito que era a cara do Danny Devito: baixo, gordo, careca, que não largava o celular. 

Fez várias ligações porque a linha caia. Ele orientava uma mulher do outro lado que arrumava a sua mala. Foi gozado. Ele dizia “não, gravata não precisa, vou descansar...bota as duas escovas de dentes, muitas meias e cuecas de algodão porque lá faz frio...não, o casaco de courvin vou levar na mão caso esfrie no caminho. Ah, leva meu radinho” e assim o cara veio até Niterói falando.

Voltando ao cartaz da festa junina, me bateu uma profunda saudade. Saudade dos grandes arraiais que frequentei ao longo do tempo, onde mergulhei em arraiais com fogueiras gigantescas, bandeirinhas, pau-de-sebo, comidas típicas, quadrilha e namoradas. Muitas.

Senti saudade da minha infância, apesar de ter frequentado os arraiais até 1999, eu acho. Saudade daquele cheiro de lenha queimada, do som primitivo dos conjuntos tocando e, logicamente, dos balões, meu fascínio desde que nasci. Saudade de um arraial gigantesco que fui certa vez em Teresópolis, outro em Friburgo, mais outro em Araruama, vários no Rio e em Niterói e, em Porto Alegre também. Foi no arraial da minha querida POA que soube que São João também é padroeiro de lá, como é de Niterói.


Este ano vou correr atrás de pelo menos uma festa julina. Meu lado lúdico cobra, quase implora. Merece. Com bombas, crianças a caráter e tudo mais. Quem procura, acha. 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Mutretagem até no calendário

Tenho amigos e colegas que são brilhantes. Um deles é Joaquim Ferreira dos Santos, que conheci nos tempos em que ele era tão parecido com John Lennon que os visitantes se confundiam no saudoso navio do Jornal do Brasil, atracado na avenida Brasil, 500. Chegou até a rolar uma lenda de que, certa vez, em Nova Iorque, pediam autógrafos a ele. “Mentira”, me respondeu um Joaquim de péssimo humor num dia de “pescoção” (fechamento de edição) no Caderno B.

Tempos atrás, em sua crônica semanal no Globo, Joaquim falou das mudanças do inverno e da complicação que elas estão trazendo para os cronistas atuais. Digo, bons cronistas atuais que, por sinal, são poucos. O que lemos muito é baixa ajuda e similares, o que não vem ao caso. Se bem que gosto não se discute. Há quem goste de tomar sorvete assistindo ao Dr. Drauzlio Varella no Fantástico dizendo que sorvete dá sapinho, cândila vaginalis, enfim, há gosto pra tudo.

A minha questão aqui na Coluna do LAM também tem a ver com o calendário. O amigo Alvaro Luiz Fernandes me avisou, logo que a Coluna inaugurou, que ao escrever todos os dias eu estava pesando a mão. A alegação dele é que as pessoas não tem tempo para ler tudo o que aparece. Tem razão.
Por isso, optei por segunda, quarta, sexta e domingo. Querem saber? Domingo ainda não engoli, mas as estatísticas da empresa que hospeda a Coluna (quem quiser saber qual é - aliás, tem muita gente querendo- é vá até www.fariasmelloberanger.com.br) e clique em “fale conosco”. Meu irmão Fernando informa. Pois a estatística insiste em informar que há bastante leitores domingo.

Mas vamos lá. A média de cliques entre quinta-feira e domingo foi de 2.300, contra 5.500 em fins de semana comuns. Para um feriado na Copa do Mundo que deixou as cidades desertas foi um bom índice.

Calendário é assim mesmo. Júlio Cesar meteu 31 dias. Depois, Augustus, injuriado, empurrou 31 também e fevereiro que não tem pistolão ficou com 28. Maior surubium, diria Marco Antonio que, ex-gay e apaixonado por Cleópatra perdeu 420 navios e o trono em Roma. Coisas da vida, cantaria Roberto Carlos quase dois mil anos depois.


Bom, isso tudo pra saber de vocês: tá bom assim? Segunda, quarta, sexta e domingo? Respostas para luizantoniomello@gmail.com

terça-feira, 24 de junho de 2014

Relógio biológico: todo mundo tem um

São exatamente 2 e 14 da madrugada quando acordo mansamente, sem sobressaltos como se fosse seis da manhã para um triatleta. Ando pela casa, ligo a TV e compro um travesseiro num programa de vendas pelo telefone. 

Segundo o comercial, o tal travesseiro é um néctar de espuma, capaz de proporcionar um sono mágico. Só não prometeu que acordamos ao som de canários belgas porque a empresa fica em São Paulo. Garantiu que quem não ficasse satisfeito com o travesseiro teria seu dinheiro de volta.

Os caras são craques. Duas e 14 de um dia de semana é o momento ideal para veicular um anúncio de travesseiro. Liguei, passei o número do cartão de crédito e a mocinha encrencou. Queria colocar Niterói como cidade do interior do estado, o que significava que eu teria que buscar a encomenda no correio. Expliquei a paulistinha que Niterói fica, de barca, a oito quilômetros do centro do Rio. Ela não entendeu, coitadinha, e acabei não comprando travesseiro algum.

Tem gente que fica angustiada quando acorda no chamado “meio da noite”. Como para mim é quase rotina, não sinto nada. Apenas a calma da madrugada, telefones mudos, e-mail calado, tanto que já escrevi até aqui se interrupção.

Já li e ouvi muito sobre o chamado relógio biológico. Aparentemente durmo mal, mas uma vez li numa revista de antesala que o tipo de sono que tenho se chama “flash”. Durmo e acordo várias vezes. De fato não é tão bom quanto o sono sem escalas, aquele que você deita a meia noite e acorda as oito na mesma posição. Mas o fato das comunicações estarem a minha disposição de madrugada me trouxe esse vício. Posso dar um giro pela internet sem ser importunado, sapatear nos satélites, conversar com o Congo. De madrugada tenho a sensação de que posso fazer tudo porque tudo funciona. Meu relógio biológico é oportunista e prático.

Não sei se o fato de trabalhar 13 horas por dia interfere no meu relógio biológico. Há quem diga que isso é estresse. Só que eu nunca estou estressado, eu sou estressado. Gosto de trabalhar sob pressão, do desafio dos prazos, e quando perdi meu primeiro computador, cuja placa-mãe derreteu por causa de não sei o que, fantasiei algo do tipo “nem os computadores resistem a mim...”. Quanta palhaçada.

Uma vez disseram que sou masoquista, que despendo muita energia, etc. Só que, em 1985, experimentei ficar sem fazer nada durante três meses. Larguei tudo. Em menos de 20 dias estava de volta ao jornal, de joelhos, pedindo perdão. Nunca me senti tão mal na vida. Dormia o dia inteiro, comia pouco, tinha sonhos melancólicos, que depressão! Isso sim é masoquismo. No dia em que levantei para voltar ao jornal, fui fazer a barba e vi, no espelho, que estava com aquele semblante típico dos “à toas”. O suor cheira a naftalina, a cobertor das Casas Pernambucanas.

É evidente que não pretendo fazer apologia do sono “flash”, da popular e temida insônia. José Maria Monteiro de Barros (saudade desse meu amigo) me fez observar com calma aves e mamíferos. Fora as criaturas da noite, todos se recolhem no crepúsculo e se levantam na alvorada. Leio em algum lugar do Google que os primeiros homens dormiam cedo e acordavam cedo. O que me assustou no texto foi a média de vida deles: 17 anos.

Essa lenda de relógio biológico só deve ser terrível para as pessoas que não gostam de dormir de dia ou sofrem amargamente com a solidão. Quem vira uma noite, no início da carreira, tem que se habituar com dois sons altamente marcantes: 1) Caminhão de leite; 2) Canto dos pardais e bentevis. Já quem convive mal com o dia e ama a noite é obrigado a engolir outros dois sons, também tristíssimos, de fim de tarde: 1) Canto de cigarra; 2) Sirene de obra informando que o acabou o expediente. É horrível.

Já tentei acertar meu relógio biológico para ficar mais próximo da lânguida rotina da humanidade. De 1974 a 1976 trabalhei no horário das 5 da manhã ao meio dia. Rádio tem dessas coisas. Uma ótima oportunidade para acertar o tal relógio. Não deu. Chegava em casa, tomava um banho, almoçava e dormia até as seis da tarde. A noite ia para a gandaia, ou para a faculdade. Mas pouca coisa foi pior do que uma noite em que acordei as 3 horas numa pousada na serra da Bocaina, sem luz, sem livros (ler à luz de velas é terrível) e, ainda por cima, chovendo. Confesso que sofri. Sofri mais ainda com o barulho de um rio que me deixou alucinado, com uma estúpida vontade de desligá-lo. Não tem jeito. Sou bicho do mar mesmo.


Em suma, o relógio biológico não é atômico e muito menos Rolex. O meu é um paraguaio, desses de camelô. E com licença que já são quatro da matina e preciso rever “O Pequeno Grande Homem” no DVD. Um filmaço!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A confusão gerada pelos e-mails mal escritos

"Joguei um limão n´água/Pesado, foi pro fundo/ A água ficou turva/ Camarão não tem pescoço." (Anônimo)

A colega Cora Rónai, do Globo, uma das maiores autoridades em computadores que conheço escreveu, um dia desses, que os e-mails estão entrando em extinção. Segundo ela, as pessoas estão optando pelo uso de outras ferramentas mais ágeis como o whatsapp e as mensagens reservadas (inbox) no Facebook. Mas, enquanto isso, segue a barbárie.

Um amigo tem horror as chamadas novas tecnologias. Ele é um sujeito de opiniões fortes e sempre muito bem humoradas. Como exemplo desse seu horror ao que chama “dessas maquininhas” está um fato curioso. Ano passado ele participava de uma reunião, mesa grande, várias pessoas e percebeu que duas delas não paravam de mexer em seus celulares. A reunião acabou e ele, curioso, perguntou o que as duas estavam fazendo. “Estavam trocando mensagens pelos smartphones”, conta ele entre fulo da vida e achando graça. “Por que não esperaram a reunião acabar e foram bater um papo ao vivo?”, pergunta.

Tenho uma relação íntima com a Comunicação das novas tecnologias desde o início dos anos 90. Com prazer mantenho este blog, escrevo para alguns outros sites, lancei um livro eletrônico, vulgo e-book, enfim, vou fundo. Mas sou extremamente cauteloso quando o assunto é enviar e-mail.

A maioria das pessoas que troca e-mails comigo é desconhecida. A maioria não sabe escrever direito e, por isso, gera uma série de confusões, ruídos na Comunicação e, muitas vezes, o que era para ser simples acaba numa grande babel regida pelo mal entendido. Se a nova Comunicação, em vez de e-mail, adotasse a pintura ou o desenho, eu estava ferrado. Não sei desenhar a mais tosca das árvores. Continuaria utilizando o telefone, telegrama, carta no correio, mas pintura e desenho jamais.

Só que muita gente, mesmo sem saber escrever (deixo claro que ninguém é obrigado a nada) dispara e-mails que chegam as raias do surrealismo. Mensagens respondendo “aquilo que você disse não é bem assim. Fui verificar e vi que não é”. Como? Que confusão.

Se eu não soubesse escrever, o máximo que teclaria num e-mail seria, por exemplo, “preciso falar com você” ou então, como disse ali em cima, partiria para o telegrama e telefone. Ainda mais agora que as operadoras de celulares estão se comendo no escuro e, tudo indica, essa caríssima modalidade de Comunicação tende a ficar menos extorsiva.


Não solto pipa perto das redes elétricas. Nunca enviei um desenho para qualquer pessoa como forma de Comunicação. Aliás, francamente, desisti de desenhar aos 15, 16 anos, quando percebi que não dou para isso. Quanto a quem manda e-mails sem saber escrever, sugiro que...sugerir o que? Que situação constrangedora. Tá bom, sugiro que não envie para mim porque detesto charadas.

sábado, 21 de junho de 2014

Xô! Urubus das redes sociais

                                


Tempos atrás, meio tarde, meio cedo (ainda não cheguei a conclusão se meia noite é cedo ou tarde), estava no Facebook conversando com pessoas visíveis, invisíveis, reais, virtuais e tudo mais. Logo que acessei o FB notei que a caixa de mensagens estava cheia e das oito ou 10, umas quatro eram do mais indigno baixo astral.

Percebi que várias pessoas que estavam depositando ali seus rancores, ódios, complexos e similares contra a Humanidade eram as mesmas, transformando aquele lugar, entre aspas, numa espécie de caderneta de poupança de fracassos. Ou lixão de desesperança. Gente que usa as redes sociais para estragar o ambiente, todo dia, toda hora. Não estou falando das pessoas que desabafam, que compartilham problemas, mas das viciadas em tragédias, em negativismo, em pessimismo, provavelmente amantes do jornalismo mundo cão.

O que fiz? De reflexo, quase impensadamente, confesso, deletei todas as hienas da minha lista. Digo impensadamente porque se eu fosse refletir mais cinco ou 10 minutos com certeza ia relevar, argumentando para mim mesmo que “coitado, deve estar passando por uma fase difícil”. Mas, o ato impensado contra-argumentou que tem gente que está em fase difícil desde que nasceu por uma razão muito simples: gosta de gemer. Gosta de reclamar. Gosta de criticar na base do azedume. E, numa boa, com toda a franqueza, eu não sou telhado pra urubu largar barro em cima.

Deletei os personagens e escrevi no próprio Facebook dizendo que não agüentava mais baixo astral e que, por isso, tinha feito uma devassa em minha lista de “amigos”, degolando vários. Sob a montagem visual, escrevi um texto em maiúsculas: “FIZ UMA LIMPEZA NA MINHA RELAÇÃO DE AMIGOS AQUI NO FB. DETONEI TODOS OS PESSIMISTAS, NEGATIVÓIDES, GENTE DE MAL COM A VIDA QUE EM VEZ DE PARTIR PARA CRÍTICAS CONSTRUTIVAS DECIDIU OPTAR PELA LAMÚRIA, PELO FARFALHAR DO "DESGRACISMO". BASTA!!! NÃO TENHO MAIS SACO.
EGOÍSMO? NÃO. O NOME DISSO É QUALIDADE DE VIDA. CHATO VOCÊ DIZER QUE ESTÁ CHOVENDO E OUVIR O CRI CRI CRI DOS GRILÓIDES. AÍ VOCÊ FALA QUE ESTÁ UM BELO DIA E CRI CRI CRI. NÃO AGUENTEI. SAÍ DETELANDO, SUAVEMENTE. NUMA BOA. NÃO FOI EXPURGO A LA MAO TSÉ TUNG.”

Para a minha surpresa, no dia seguinte 146 comentários apoiando o que fiz. Sim, 146! Ou seja, quando os reis da animação inventaram a hiena Hardy Ha Ha (“ó vida...”) sabiam que havia demanda.

Criticar é fundamental. Por exemplo, um dia desses choveu e o trânsito deu um no em toda a região metropolitana do Rio hoje. Filas quilométricas nas barcas. Muita gente reclamou, com razão.


Não estou condenando o senso crítico ou o desabafo de um mau momento, que todo ser humano tem. Eu limei, passei a foice, nos viciados em baixo astral, “droga” que a meu ver está entre as piores porque é transmitida pelo ar e acaba contaminando. Estou longe de ser um alienado que fica soltando pipa perto de cabos de alta tensão. Mas, usar redes pessoais, sociais e até pensamentos que servem única e exclusivamente a lamúria, aos horrores, ao “tudo está errado”, tô fora. 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Os Beatles chegaram a um ponto em que implodiram

Gosto de reler essa conversa de Paul McCartney com Anthony Decurtis, da Rolling Stone americana.

Como foi o "verão do Amor" (1967) para você?

Paul McCartney - Legal pra caramba. Tínhamos acabado de decidir que suspenderíamos as turnês porque já não estava mais valendo muito a pena. Parecia que não estávamos progredindo, o público continuava berrando, mas a gente se encheu daquilo.

Tínhamos a ideia de fazer um disco que sairia em turnê por nós. Isso veio de uma história que tínhamos lido a respeito do Cadillac de Elvis fazendo turnê. Achamos que era uma idéia maravilhosa: ele não sai em turnê, só manda o Cadillac. Fantástico! Então, pensamos: "Vamos despachar um disco". Passamos mais tempo em estúdio e o resultado foi Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967). Então, foi maravilhoso.

Estávamos amadurecendo? Não sei. Olhando em retrospecto agora, éramos praticamente crianças, apesar de nos sentirmos muito adultos. Tanta coisa tinha acontecido com tanta rapidez, certamente desde a viagem dos Beatles para os Estados Unidos em 1964. Em essência, aqueles três anos foram a diferença entre "I Want to Hold Your Hand" e "Sgt. Pepper's." Os tempos estavam mudando, como o sr. Dylan disse. Só estávamos seguindo nossos instintos, mas havia um grande arroubo de energia, as idéias vinham rápidas e consistentes. Todos os tipos de idéias novas - artísticas, políticas, musicais.

Começamos a escrever coisas que eram diferentes porque nossas conversas, nossos pensamentos e nossos sentimentos eram diferentes. Estávamos passando muito mais tempo longe da estrada, com outros artistas, e isso nos permitiu investigar outras coisas. Tínhamos muitos amigos no mundo da música e no mundo da arte, e havia uma grande fertilização cruzada. Foi uma época ótima para experimentar coisas e tudo isso penetrou na nossa música e no nosso estilo de vida.

Eu me lembro do impacto de Sgt. Pepper's como algo instantâneo e onipresente, tocando em toda casa noturna a que se ia, toda loja de roupa, toda loja de discos. Você fazia idéia de que teria esse tipo de efeito?

Macca - Foi ótimo, para falar a verdade. Como tínhamos parado de excursionar, a mídia começava a sentir que as coisas estavam calmas demais, o que criou um vácuo, de modo que puderam falar mal de nós. Diziam: "Ah, a fonte secou". Mas nós sabíamos que não tinha secado. Sabíamos o que estávamos fazendo, e sabíamos que nossa fonte estava longe de secar. Na verdade, o oposto estava acontecendo - vivíamos uma enorme explosão de forças criativas.

Nós pressentimos isso. Realmente não comentamos o assunto com muita gente. Tocávamos uma demo aqui, outra ali [para os amigos] e tal, mas o mundo de maneira geral não sabia de nada. Mas, como disse, o que alguns críticos comentavam era: "Ah, eles estão acabados". Enquanto isso, estávamos lá trabalhando com alegria, como os Sete Anões - "Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, trabalho!" [risos]. Estávamos nos divertindo muito, obviamente, montando essa coisa. Daí, quando saiu, foi fantástico. Naquela época, costumávamos lançar [álbuns] na sexta-feira, e aquele fim de semana foi uma coisa. Eu me lembro de ter recebido telegramas que diziam coisas como: "Vida longa a Sgt. Pepper's!". Esse era o sentimento geral, e era maravilhoso.

Naquele domingo, Jimi Hendrix tocaria no Saville Theatre no West End de Londres, e ele abriu o show com o tema de Sgt. Pepper's. Cara, o disco estava mesmo em todo lugar! E é claro que nós só ficamos surfando naquela onda artística. Foi bem bacana exercer tanta influência assim. Como eu disse, era verão, e o sol brilhava, e lá estávamos todos nós, no maior astral [risos]! Eu me sinto muito privilegiado por ter vivido aquilo, em primeiro lugar e, em segundo, por ter sido o epicentro dos acontecimentos.

Deve ter sido uma sensação muito estranha - passar por mudanças enormes e, simultaneamente, gerar mudanças similares para milhões de outras pessoas.

Macca -Foi sobrenatural. Nós tínhamos nos acostumado com uma parte disso simplesmente por sermos os Beatles. Até "I Want to Hold Your Hand" tinha deixado as pessoas loucas. Mas agora a coisa passava para outro nível. Estávamos entrando no coração e na mente de todos.

Parecia muito que Sgt. Pepper's fazia parte do sentimento daquela época em que, de algum modo, tudo iria se transformar, que nada jamais voltaria a ser como antes.

Macca - É engraçado, conheço muita gente que, depois dos anos 1960, teve uma sensação de decepção que nunca passou. Eu pessoalmente achava que, ao passo que tudo estava mudando, não necessariamente significava que tudo mudaria. Nós tínhamos longas discussões a respeito de como um dia as pessoas da nossa geração se tornariam primeiros-ministros, e seria bem sobrenatural [para eles] o fato de terem sido afetados por esse período. Mas, ao mesmo tempo, éramos realistas, e pensávamos: "É, mas vão continuar sendo políticos". Dava para saber que tudo que estava acontecendo no mundo mudaria a ordem das coisas em alguns aspectos, mas não em todos. E isso está provado pelos nossos líderes atuais. Eles continuam presos aos anos 40 ou algo assim.

Houve algum acontecimento específico que fez com que você se desse conta de que os anos 60 não cumpririam suas promessas?

Macca - Suponho que preciso considerar o rompimento dos Beatles como o momento mais sombrio. Os Beatles chegaram a um ponto em que implodiram - todos tinham dinheiro e fama e, de vez em quando, era inevitável que nos irritássemos uns com os outros. Eu tinha conduzido a dança um pouco em Sgt. Pepper's. Para mim, o título e a idéia toda foi inspirada pela época e pela fertilização cruzada com os outros artistas.

Queria que fosse algo do tipo: "Uau, cada um de nós tem sua lista de heróis [na capa] e vamos assumir estes alter egos. Seremos pessoas novas fazendo este disco, e podemos mais ou menos viver nestes corpos novos e fazer um álbum como se fôssemos outra banda". Aquilo foi libertador. Mas, depois disso, não dava para sentir que era possível seguir em frente como aquela outra banda. Você inevitavelmente voltava à terra, fazia parte dos Beatles.

E foi aí que os problemas começaram...

Macca - Foi quando começamos a discutir assuntos comerciais, principalmente com o advento de Allen Klein - ou "um certo empresário norte-americano", ou seja lá como somos obrigados a nos referir a ele. Deixemos para o departamento jurídico resolver. As conversas passaram a ser assim: "Ah, que merda, vamos ter mesmo que pensar sobre isso agora ou perderemos tudo por que trabalhamos". E isso causou um racha tremendo.

Você acabou processando os outros Beatles.

Macca - Foi o pior momento da minha vida, quando me informaram que não poderia me opor a esse tal de Klein, esse "suposto empresário norte-americano". Como ele não era uma das partes de nenhum dos nossos acordos, precisei brigar contra os outros três caras. Foi uma situação com a qual me debati durante meses. Ou era: "Não, não brigue com esses caras e perca tudo para todo o sempre" ou "Brigue com esses caras e salve tudo". Foi um dilema. No final, pensei: "Acho que eles não sabem o que estão fazendo, estão cometendo um erro pavoroso". Então eu, de fato, briguei no Tribunal Superior e venci, por sorte. Isso criou um estigma terrível para mim, como sabia que criaria - não tinha entrado naquilo de bobo. Sabia qual seria o preço. Mas achei que, no fim, as pessoas descobririam que tinha razão. E foi gratificante quando todos os caras, no final, piscaram para mim e disseram: "Foi bom você ter feito aquilo". Até Yoko [Ono] reconheceu isso. Mas foi uma coisa horrorosa de se viver. Foi quando o sonho se desfez para mim.

Houve um ponto em que você sentiu que, apesar da dissolução da banda, seria capaz de seguir em frente e continuar a se divertir?

Macca - Fazer o álbum McCartney (1970) foi bom para mim nesse aspecto, porque realmente retornei às raízes. Eu me senti bem, e isso é bom. Até hoje, as pessoas reparam naquele álbum. Com freqüência acontece com os artistas e os músicos - eu ia dizer especialmente, mas acho que está mais para igualmente - de o trabalho ser aquilo que faz você se compreender.

A música é especialmente boa para isso, é uma boa terapia. Estava passando pela coisa terrível de perder a amizade daqueles meus camaradas da vida toda, e para quê? Bom, a mim parecia que o motivo era tentar salvar a vida deles. Aliás, não existiria uma [gravadora] Apple para estar em litígio com a Apple, não existiria problema algum com Steve Jobs - e não existe mesmo, falando nisso, já foi tudo resolvido -, mas não existiria uma Apple Records hoje.

Tudo teria desaparecido; a coisa toda simplesmente não existiria. Não haveria nenhum show em Las Vegas, não haveria nenhuma destas coisas que agora estão aí tão gloriosas se não tivesse tomado aquela atitude. Mas foi uma decisão dura de verdade. Foi uma daquelas coisas que exigem terapia depois, e para mim, voltar à música foi essa terapia. E, é claro, com a enorme ajuda de Linda. Ela foi uma das grandes responsáveis por me fazer voltar à vida e seguir em frente. Ela era um bastão de força naquele momento. Isso e produzir música fizeram com que atravessasse aquele período.

Você, George e Ringo puderam desfrutar os ressurgimentos dos Beatles. John, é claro, morreu antes de boa parte disso acontecer, e a George também se foi.

Macca - Esta é a pior parte de ficar adulto. Você perde amigos, é inevitável. Não é exatamente uma surpresa, mas é terrível. É muito triste. Conhecia John intimamente há tanto tempo. Sempre me admiro com o fato de eu ter sido o cara que se sentava com John para escrever todas aquelas coisas. Éramos só ele e eu em uma sala e isso era bem especial. Então, perdê-lo foi horrível. E foi especialmente triste porque tínhamos superado a desavença dos Beatles.

Apesar de ele estar morando em Nova York, nós conversávamos com bastante regularidade. Simplesmente conversávamos sobre coisas cotidianas - sobre o filho dele, Sean, e sobre a vida em geral, sobre os pães que ele assava. Trocávamos receitas de pão, era ótimo. Então, simplesmente foi uma tragédia horrível ele ter sido arrancado daquele jeito. No caso de George, foi igualmente trágico. Eram meninos tão lindos, sabe? [Ele faz uma pausa, e sua voz treme]

George era simplesmente um sujeito ótimo. Ele era um garotinho que eu conheci em Liverpool, só um garotinho que entrou no meu ônibus. Eu subi no ponto anterior ao dele, e ele entrou e nós começamos a conversar sobre guitarras e rock'n'roll. Depois, quando estávamos procurando um guitarrista, e eu mencionei o nome dele a John, George se juntou ao grupo. E daí passou a ser apenas o sábio George. Ele era um sujeito lindo que não agüentava gente burra. Era uma alma muito linda. Nem me deixe começar, cara. É um horror ter perdido aqueles caras. Mas a verdade terrível é ser adulto.

Você tem ideia do que continua a tocar as pessoas com os Beatles depois de todos esses anos?

Macca - Acho que, basicamente, é a magia. Os Beatles eram mágicos. Para mim, a vida é um campo de energia, um punhado de moléculas. E essas moléculas específicas se formaram para que aqueles quatro caras virassem os Beatles e fizessem todo aquele trabalho. Preciso pensar que foi algo metafísico. Uma coisa que deve ser considerada mágica. Estou sendo muito extravagante? Se você quiser ser prático, acho que as músicas eram muito bem estruturadas.

Quando as canto atualmente em shows, penso: "Isso aí é bom, é sim. Que verso bom. Ah, entendi!". É uma redescoberta. Você simplesmente lembra: "Ah, foi por isso que fiz assim". Então, elas também têm uma força física, é trabalho bem-feito.

Você teve papel importantíssimo depois dos ataques de 11 de setembro, organizando o Concerto para a cidade de Nova York e ajudando a reconstruir a confiança da cidade. Mas muita coisa aconteceu para complicar nossa noção do que houve naquele dia. Quando você pensa em 11 de setembro hoje, o que lhe vem à mente?

Bom, tenho minhas lembranças pessoais de estar no [aeroporto de Nova York] JFK e de ver a fumaça das torres gêmeas. O aeroporto fechou, nosso vôo foi cancelado, fomos para Long Island e ouvimos o noticiário e assistimos a TV.

E depois pensei em fazer meu próprio concerto, mas tudo culminou no Concerto para Nova York, que foi ótimo, porque muita gente queria fazer alguma coisa. Foi ótimo fazer parte daquilo - ajudar os norte-americanos em particular, mas o mundo de maneira geral, a colocar seus sentimentos em algum lugar. A oportunidade perdida foi que as pessoas ficaram com um enorme sentimento de solidariedade em relação ao povo americano, e as ações políticas que se seguiram a 11 de setembro desperdiçaram a oportunidade.

Foi como se alguém no playground tivesse apanhado, mas não sabia quem tinha batido, e por isso resolveu descontar na pessoa mais próxima - e isso se transformou no Iraque. A agenda política é a culpada.

Olhando para a frente, quais são as principais questões que se colocam agora?

Macca - Fazer algum avanço em direção à paz mundial. Seria ótimo se as pessoas com diferenças no mundo hoje percebessem que não existem diferenças - é um campo de energia! Precisamos da mesma velha coisa de sempre: paz e amor. Não sendo frívolo, mas esse continua sendo o grande objetivo. Bom, e vocês aí precisam de um novo líder [risos]! Quer dizer, isso ajudaria.

Nem brinque...

Macca - O ambiente é uma realidade. Algumas pessoas me dizem: "Há tantas causas, não sei quais apoiar". Há as minas terrestres, os maus-tratos com animais, só para mencionar duas pelas quais me interesso. É como se considerassem este o problema: "Qual causa apoiar?". Eu respondo: "Não entre em pânico, apenas escolha uma que o agrade e vá em frente. Todas estão conectadas". Mas eu sou otimista, tem muita gente bacana por aí. No momento, temos montículos de terra. E tudo bem. Isso é bom. Mas precisamos que se transformem em uma montanha. Tem muita gente inteligente por aí, mas, infelizmente, também tem um monte de imbecis. Mas o meu otimismo me leva a torcer para que os inteligentes construam a montanha.

E qual você gostaria que fosse seu legado pessoal?


Macca - Sempre que me perguntavam como eu gostaria de ser lembrado, respondia: "Com um sorriso". Mas gostaria que as pessoas entendessem o que eu fiz e pensassem que há uma enorme força naquilo. Gostaria que as pessoas pensassem que uma parte daquilo chega a ser demoníaco de tão forte. Isso me bastaria.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Inimigos Pagos

                                                  

Tempos atrás recebi este e-mail do leitor Carlos Rogério Peçanha Dutra, que atualmente mora no interior de São Paulo. Publico a mensagem e minha resposta.

“Caro LAM,
Sou seu leitor há muitos anos e sinto muita falta de suas reportagens artigos e resenhas no Caderno 2 do Estadão, que movimentaram o jornal nos anos 80 e 90. Não sei se você poderá me ajudar, mas estou procurando uma crônica sua intitulada “Inimigos Pagos”, que você publicou em um jornal de Niterói. 

Não sei se foi no Fluminense, LIG, Folha de Niterói ou num site da cidade.
“LAM, estou precisando muito deste artigo por causa de uma questão judicial. Minha empregada doméstica me propôs que eu “comprasse” as férias dela porque estava precisando. Apesar de ser contra este procedimento, comprei as férias dela, que continuou trabalhando normalmente. Para a minha surpresa, este mês ela entrou com uma ação na Justiça do Trabalho argumentando que eu não concedi as tais férias. Não, LAM, eu não tenho a cópia do recibo provando que paguei, que comprei as férias.

“Fiquei enfurecido, triste, magoado e contratei um advogado. A audiência vai acontecer e eu disse ao advogado que você tinha escrito um artigo chamado “Inimigos Pagos” narrando justamente uma péssima experiência que teve com uma empregada doméstica que também o traiu. Meu advogado comentou que o artigo poderia sensibilizar o juiz apesar de sabermos que em ações trabalhistas de domésticos em 90% dos casos perdemos, não se sabe bem por que.

“Pergunto, caro LAM, você ainda tem esse artigo? Passei a semana tentando localizar o LIG na internet e acabei sabendo que o jornal fechou. Na Folha de Niterói também não encontrei nada e no Fluminense idem. Pior: lembro ter lido um artigo seu há alguns anos contanto que a CPU de seu computador pegou fogo, o incêndio se alastrou pelo escritório da sua casa e que você foi salvo pelos extintores do prédio. Temo que esse artigo sobre inimigos pagos estivesse no computador incendiado.

“Desculpe o incômodo e agradeço se puder responder por e-mail ou em seu magistral blog COLUNA DO LAM. Abraços do Carlos Rogério,  Campinas SP.”
Carlos Rogério, obrigado por ter escrito. Infelizmente “Inimigos Pagos” estava no computador que pegou fogo e que gerou uma ação na Justiça contra o fabricante.

Lembro que “Inimigos Pagos” nasceu de uma traição. Uma moça que trabalhava em minha casa como diarista, mas que eu decidi assinar carteira, pagar INSS, enfim, tudo nos conformes, também entrou na Justiça contra mim pela mesma razão: ela pediu que eu comprasse suas férias e eu, para ajudar, comprei. Foi o suficiente para que eu acabasse condenado porque, além de pústula, bandida, mau caráter e ingrata, a meliante apareceu na audiência com cinco “testemunhas profissionais” (meu advogado disse que tem gente que ganha a vida sendo testemunha) que disseram horrores sobre mim. Foi difícil me conter ouvindo aqueles horrores.

O artigo abordava ainda os prejuízos que esses inimigos pagos provocam. Desde a quebra de copos baratos até queima de ar condicionado. Em geral, pequenos prejuízos que relevamos. Amigos e amigas dizem que eu deveria usar diaristas, duas vezes por semana. Mas, como bom babaca que sou, dei chance a tal mulher que estava trabalhando em minha casa. Puxa saco, sorridente, vivia cantarolando, quebrando as coisas e, a toda hora, pedia um dinheiro adiantado. Babaca, dei a ela em outubro um computador já que comprei uma máquina nova. Ela dizia era para a afilhada adolescente. Babaca, dei o computador. Aproveitei que não estava mais usando um celular LG e acabei dando também.

Não encontrei o artigo que você pediu onde, lembro bem, conto a história do dia em que a inimiga paga, se aproveitando que eu estava em São Paulo, queimou o fusível de minha casa só para não vir trabalhar e alegar que estava sem energia elétrica. Eu, babaca, relevei mais essa. A cordilheira de achaques e ataques dos Inimigos Pagos que pus no artigo é bem maior. Vou continuar procurando o artigo e se achar te envio por e-mail e republico aqui.


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Planos de saúde tratam médicos e usuários como molambada


Não conheço um único mamífero na face da Terra que pague barato pelo plano de saúde. A indústria da doença dá uma facada nacional em quase 50 milhões de brasileiros, todo o mês. Mas, cinicamente, paga 25, 30 reais por uma consulta a médicos credenciados e, soube ontem (horrorizado) alguns planos pagam 11 (ONZE!) reais para uma sessão de fisioterapia.

É muita cara de pau. Muita. Pensei em entrar em contato com a ANS, Agência Nacional de Saúde Suplementar para falar desse escárnio, mas algo me disse que seria perda de tempo. Melhor publicar aqui. Um dia desses um imbecil me disse (é o que dá perder tempo com imbecis) que os médicos que não aceitarem o preço da consulta devem pular fora. Acabei me irritando e devolvi dizendo que pagamos às vezes 15, 20 vezes o preço dessa consulta aos planos todos os meses. Macabros, os planos aumentam o preço enquanto seus clientes vão envelhecendo, justamente quando precisa mais de serviços médicos.

Isso sem falarmos do golpe dos 59. Sabe qual é, né? Como escalavrar o consumidor de 60 anos com aumentos de 100% na mensalidade é proibido por causa do Estatuto do Idoso, muitos planos dão o “presente” quando a vítima faz 59 anos.

O Brasil tem somente dois problemas: corrupção e falta de governo. A corrupção mamou quase 70 bilhões nos últimos oito anos dos cofres federais e ficou tudo por isso mesmo. Por que a ANS não senta com os planos e dá um soco na mesa? “Olhem aqui, 25 não dá. No mínimo 150 reais”, imagino em algo por aí. Deve ir mais longe. Dilma, que tem fama de estourada, podia acordar com o espírito de Angela Merkel e acabar com essa bandalha do “pedágio” do envelhecimento, desculpe a expressão, mas essa escrotália de cobrar mais de quem menos ganha e mais precisa. Mas, Dilma tem que abanar base de sustentação, sustentar o populismo, enfim, é soda como diria Fócrates.

Mas a ANS anda com as pernas muito juntinhas, sintoma de rabo preso, mas não vou ficar aqui insinuando coisas. A questão é: dona ANS por que muitos médicos, que salvam nossas vidas, ganham como molambos e, por isso, são obrigados a atender quase à Bangu, na maior correria, dezenas de pessoas por dia e, daqui a pouco, só vamos conseguir consulta para a outra encarnação? Dona Dilma, já que os planos pagam esse miserê por que a senhora não bota o SUS para funcionar decentemente. Aí vem algo e me diz: “porque não é i$$o que o governo quer”.

Li há tempos no Globo on line: “Um olhar apurado sobre o banco de dados da ANS mostra que as 35 maiores operadoras de planos de saúde e odontológicos do país atendem a 25 milhões de beneficiários — o que equivale a 52,2% do total de 47,8 milhões de clientes nas carteiras das empresas. As 10 maiores respondem por 15,5 milhões de pessoas ou 32,3% do total. A campeã em número de clientes é a Bradesco Saúde, com 3,1 milhões. Depois dela, destacam-se Intermédica Sistema de Saúde e Amil Assistência Médica Internacional, cada uma com cerca de dois milhões de beneficiários, segundo a agência.”

É uma dinheirama. Se, de bom humor, colocarmos a média de 300 reais a mensalidade dos planos da Bradesco Saúde, isso gera um faturamento mensal que a continha 3,1 milhões de usuários X 300 de mensalidade revela. 9 bilhões? É isso???


Estou fechado com os médicos na luta por um tratamento digno com relação a essa trilhardária indústria dos planos e, desde já, coloco o blog à disposição dos profissionais de branco que, a duras penas, salvam ressuscitam, enfim, trabalham pra cacete.

sábado, 14 de junho de 2014

Livros eletrônicos

Peguei um iPad emprestado para ler meu livro eletrônico (e-book) MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA NA SELVA DO JORNALISMO, meio desconfiado. Como ler um livro sem papel, sem aquele cheirinho característico, sem marcar as páginas, ler na cama, no sofá, num posto de gasolina enquanto o carro é lavado? Pois, para a minha surpresa, o iPad me ganhou e me tornou viciado antes mesmo de chegar a página 15.

Eu que estava banhado de ceticismo, não acreditei quando, na cama, li de lado, de barriga pra baixo, pra cima, com o abajur aceso, apagado (o equipamento tem luz própria) e marcando as páginas com uma única digitada. Rubem Fonseca e João Ubaldo tem razão. Não dá para ter tanto preconceito com as novas tecnologias do bem. Ah, sim, eu que já perdi algumas centenas de livros pela vida, agora posso guardá-los na biblioteca do iPad que tem espaço para cinco mil obras. Não esqueci que o equipamento não é meu.

Imaginem ler “O Alienista” de Machado na sala de espera do dentista, por exemplo? Sim, falei do “cheirinho de livro” e soube que existe um software só de aromas que o usuário pode instalar no equipamento. Mais: são livros que jamais vão ficar amarelos, jogados, perdidos, mal tratados. Falo de mim, de meu amor visceral por eles e, ao mesmo tempo, da falta de uma biblioteca em casa digna de guardá-los com o respeito que merecem.

Estou citando o iPad da Apple porque foi o único que experimentei. Gostei de seus 24 centímetros de altura por 19 de largura, poder optar pelo tamanho das letras, marcar observações, mas não sei se outros tablets são tão bons ou até melhores do que esse. Leio muito sobre o sistema operacional Android que equipa tablets concorrentes do iPad e queria muito que os leitores que já usam essas pequenas máquinas dissessem quem é quem.

Fiz um rápido comparativo na Web e, pelo que entendi, o iPad é o maior (em dimensões) de todos. Minha observação procede? Percebi, também, que qualquer espirro no iPad significa ter que ir na lojinha da Apple e comprar um aplicativo enquanto que vários outros tablets já vem com um monte de programas instalados e vários outros gratuitos além de serem mais baratos do que o filho pródigo da Apple. 

Conto com as opiniões de vocês. Espelho, espelho seu, existe tablet melhor do que esse quase meu?




sexta-feira, 13 de junho de 2014

Será que o ser humano despreza as boas notícias?

                                         

Nos anos 1980, animado, eufórico, um colega meu decidiu lançar um jornal semanal só com boas notícias. Não vou esquecer o seu semblante, sua vibração, algo como se tivesse inventado a roda, a pólvora, a lâmpada. A mesa, com quase dez colegas jornalistas, estava cética. Houve muita discussão. Uns diziam que um jornal assim seria alienante, tiraria o público da realidade e que a realidade, queiramos ou não, é brutal. Nosso animado colega rebatia dizendo que, exatamente por isso (realidade brutal) o público deveria estar buscando um antídoto. Outros acharam a idéia engraçada, mas o fato é que ninguém levou fé no projeto do R. A. (iniciais do meu colega).

R.A. é perseverante. Não desiste sob nenhuma dificuldade, mesmo levando um nove a zero numa mesa de bar. Não chegou a dez a zero porque dei força ao projeto, e continuo acreditando (hoje mais do que nunca) que um jornal só com boas notícias seria um sucesso sensacional. R.A. procurou um desenhista, fez o esboço do jornal (o termo técnico é "boneca do jornal") e saiu por aí à cata do fundamental para qualquer mídia: anunciantes.

Antes, deu um giro pelo Rio conversando com jornaleiros, observando o comportamento dos leitores, principalmente aqueles que antes de comprarem um jornal dão uma conferida nas manchetes, nos exemplares que ficam expostos do lado de fora das bancas. Mesmo percebendo que as notícias ruins tinham muito peso na decisão do consumidor de comprar um jornal. Foi mais fundo. Conversou com alguns desses leitores e, segundo me contou mais tarde, a maioria quase absoluta optou por primeiras páginas equilibradas. Algo como sangue, suor e cerveja, digamos assim. Nem muito lá, nem muito cá.

Mas o persistente R.A. estava longe de jogar a toalha. Um dia me ligou para me mostrar o projeto do jornal. Gostei. Descobertas científicas maravilhosas, entrevistas com gente otimista, muita cultura, palavras cruzadas só com questões positivas, enfim, o jornal parecia uma espécie de "Shangri-lá News". 

E durante um ano ele tentou arranjar anunciantes. Conseguiu alguns, mas não foi suficiente para cobrir os custos do jornal. Em vez de desistir, vejam vocês, R.A. decidiu ir para o exterior onde hoje comanda um pequeno império de jornais e revistas especializadas em lazer e turismo. Infelizmente não consegui localizá-lo para publicar seu nome.

O curioso é que o ser humano tem uma fixação pela tragédia. Uma espécie que pagava ingresso para ver leão comendo cristão no Coliseu romano e até hoje paga para ver lutas de vale-tudo, assiste mundo-cão na TV e tudo mais.
Será que um jornal só de boas notícias, nos moldes do que R.A. bolou, daria certo neste século 21? Totalmente apolítico, bem-humorado, com notícias de coisas que estão dando certo, doenças que estão sendo curadas, tecnologias que melhoram a nossa qualidade de vida, mas tudo sem histeria. Linguagem tranqüila, como se fosse a mídia do lado bom do mundo, ou da humanidade se preferirem. Não sei se é o caso de se fazer um jornal desses mas, com certeza, é hora de se pensar em algo assim. Ou não?