quarta-feira, 30 de julho de 2014

Numa agência bancária, ano 2000 (gostaria que fosse uma ficção, mas não é)

Texto restaurado e remixado

Um senhor de uns 80 anos, depois de enfrentar a longa fila de idosos na agência do banco, sentou-se na mesa de uma das subgerentes que povoam aquele antro. Eu estava atrás e ouvi tudo.

- Boa tarde, minha senhora, eu...

- Alto lá! O senhor não tem saldo suficiente para sentar na minha mesa!
Sinceramente, achei que aquela mulher estava de gozação. Achei que era amiga do tal senhor, que tudo não passava de uma brincadeira, mas para minha surpresa e horror, ela dizia a verdade.

- Desculpe, senhora, mas é que eu estou dependendo só de uma assinatura 
sua.

- Vocês são engraçados...acham que banco é asilo de caridade.

- Mas, minha senhora, sou cliente do banco há muitos anos.

- Porque quer. Eu nunca obriguei ninguém a ser cliente deste banco e muito menos da “MINHA” agência!

O homem levantou e foi embora. Chegou a minha vez.

- Boa tarde, tenho saldo para sentar na sua mesa, dona Andréia (nome real)?

- O que deseja?

- Não desejo. Comunico que a senhora vai ter que rubricar este documento, na forma da Lei.

Ela rubricou.

- Ouvi seu diálogo de vaca com o senhor antes de mim.

- O que é isso? Fala baixo!

- Eu só falo baixo, dona Andréia. A senhora é que é chegada a uma histeria.

- Bom...então está tudo resolvido, né?

- A senhora está louca para me ver fora da SUA agência, não é?

- Não...não é bem isso, ela dizia simulando súbita mansidão.

- O castigo vem à vista, com muitos juros, dona Andréia.

Levantei e saí. Na calçada procurei o senhor que foi humilhado pela baranga do banco, mas não encontrei. Quinze dias depois li no jornal: “Bandidos seqüestram gerente de banco em casa para assaltar agência”.

O texto não trazia o nome do banco, nem a agência e nem o nome da gerente. Liguei para o jornal, onde tenho um monte de colegas e, bingo! A seqüestrada foi a dona Andréia. Os bandidos, que sumiram, entraram na casa dela as 5 horas da manhã e foram até o quarto. Amordaçaram a “dona” da agência e a levaram para lá. Limparam o cofre já que Andréia tinha todas as senhas e chaves. Eu queria que os assaltantes tivessem sido presos só para ir a delegacia cumprimentá-los, mas até hoje não há notícias.

Dois dias depois do assalto espetacular, fui ao banco ver a cara de Andréia. Como estaria aquela víbora prepotente, mau caráter, arrogante? Não estava lá. Informaram que, em estado de choque, foi hospitalizada. Pensei em “visitá-la” no hospital, mas aí seria demais.

Três, quatro, cinco meses, nada de Andréia voltar. Foi quando soube (o destino é sensacional) que ela foi aposentada com distúrbios mentais, o mesmo caso do senhor de 80 anos que não tinha saldo para sentar na mesa dela.


Ponto final.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ácido? Sim. Rancoroso? Jamais.

O leitor Nuno Costa postou no meu Facebook, sob a chamada para o texto de John Lennon semana passada: “LAM, rancoroso, ácido e sensato.” Caro Nuno, obrigado pelas observações/definições mas, numa boa, não sou rancoroso não. Aliás, desde o início do ano estou promovendo no Facebook uma espécie de movimento para descabelar os rancorosos do planeta.

Mas, basta ligar a TV para ver que não vai ser fácil. O rancoroso, uma espécie de boi que muge para dentro, é capaz de ver luz de mercúrio no lugar da lua, nuvem de tanajuras em vez de andorinhas, enfim, o cara é um perdedor ativo. O que seria perdedor ativo? É aquele que não gosta de perder sozinho e tenta arrastar multidões com ele.

Para ser franco, Nuno, quando escrevo batendo procuro ser contundente, mas, se necessário, sou ácido sim porque afinal de contas o que escrevo aqui no blog é mensagem jornalística, para ser lida por muitos. Nada a ver com “querido Diário”. E, francamente falando Nuno, se eu tivesse um Diário ele estaria totalmente escalavrado de tantos garranchos existenciais.

Em meados dos anos 1980, eu, meu irmão Fernando Cesar, mais Hubert, Cláudio Paiva e Reinaldo tínhamos uma banda de rock que ensaiava numa casa que minha família tinha em Itaipu. Os ensaios rolavam todas as terças-feiras a noite e, modéstia à parte, tocávamos bem pra cacete. Mas, por questões geográficas, acabamos nos separando, e Hubert, Claudio e Reinaldo (que faziam o genial jornal “Planeta Diário”) se juntaram a Marcelo Madureira, Bussunda e companhia da revista “Casseta Popular” numa banda.

Da banda para a televisão (“Casseta & Planeta”) um pequeno salto. Mesmo porque não havia alternativas já que a editora americana do “Planeta Diário” do Superman veio em cima do nosso e crau!

Desde 1988 lia Hubert e Marcelo Madureira na pele do Agamenon, no Globo. Construí o personagem a meu modo, assim como todos os leitores construíram o seu. Mora aí o perigo do Cinema, que vai deu vida, firma, cor, voz, texto, contexto, a um personagem que mora no inconsciente coletivo como escreveu Jung, ou coletivo inconsciente, como diz a Braso Lisboa. É preciso ter coragem, o que não falta a esses caras. Mas, na boa, não gostei de escalarem Marcelo Adnet no papel de Agamenon jovem. O cara não tem graça nenhuma, faz um humor babaca e velho, mas como ainda não vi não vou dar uma de rancoroso, justamente num texto em que defendo o não rancor e o não consumo. Ah, é verdade! Não falei do não consumo. Fica para a próxima.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

A impressionante magia do Led Zeppelin

É impressionante. Toda a vez que posto um vídeo do Led Zeppelin no Facebook em seguida vem uma chuva de comentários. Não importa a época, seja 1969 na Dinamarca ou 1979 na Inglaterra, após quatro anos fora dos palcos, Page, Plant Jones e Bonham explodiam o festival de Knebworth, na Inglaterra. Em dezembro do ano seguinte, com a morte de Bonham, a banda saiu de cena. Mas, como os Beatles, Led Zeppelin tem a magia da eternidade, como outros gigantes da arte.

O gozado nessa história é que, por exemplo, Robert Plant gravou vários discos sem a banda, e, vamos ser francos, não aconteceu. Composições fracas, discos ruins. O mesmo aconteceu com o grande Jimmy Page, a meu ver o segundo melhor guitarrista de todos os tempos (em primeiro permanece o imbatível Jimi Hendrix), cujos discos-solo também não decolaram e, francamente falando mais uma vez, estiveram muito distantes do que esperamos dele. John Paul Jones, idem. Não aconteceu. Mas quando Page e Plant gravaram “No Quarter”, CD/DVD dos anos 90, foi uma bomba. Sensacional, absolutamente mágico. O DVD com cenas no Marrocos, Page e Plant cantando e tocando no meio da rua, é demolidor.

Sabemos que Lennon, McCartney, Ringo e George não conseguiram gravar discos-solo que chegassem aos pés de qualquer um dos Beatles. Eu sei, muitos leitores vão gritar, mas opinião não é palavrão. No caso do Zeppelin a magia é mais impressionante porque a biografia da banda mostra que Page & Plant são a mistura ideal, o caldeirão onde as porções de genialidade são misturadas. E é evidente que a potência devastadora de John Bonham na bateria e o baixo fraseado de John Paul Jones brilham até hoje a bordo do Led Zeppelin.

Outro fenômeno: nunca, em nenhum momento, milhões de fãs (nos quais me incluo) cansam de ouvir qualquer disco do Zeppelin. Do primeiro ao último. Fãs que sequer eram nascidos quando a banda acabou. O que será isso? Existe uma explicação? Enquanto pensamos e soltamos balões cheios de interrogações, ouvimos Page, Plant, Paul Jones e Bonham em mil novecentos e sempre.




terça-feira, 22 de julho de 2014

Neil Young, o eterno hippie no rastro de si mesmo

 O Lincvolt
Neil com o Lincvolt

Pono: qualidade de som 95% melhor do que os concorrentes

                                 Neil Young toca, na íntegra, o bombástico álbum LE NOISE. Clique e curta.


Terminei de ler a autobiografia de Neil Young, lançada no Brasil em 2012. São quase 500 páginas de tranquilas e descompromissadas confissões, questionamentos, ideias. Escrito pelo próprio músico (ele faz questão de deixar isso bem claro) o livro mostra a busca, agora menos caótica e mais contemplativa, que ele faz de si mesmo. Tanto que essa busca, via família, amigos, via suas coleções de carros antigos, guitarras e outros símbolos, devem se transformar em outros livros. O autor avisa, logo no início, que um livro só não basta para contar a sua história.

Como músico, Neil ficou mais conhecido aqui no Brasil como um dos integrantes do lendário quarteto Crosby, Stills, Nash & Young, onde Neil tocou e cantou por um curto período, depois de viver a sensacional turbulência da banda Buffalo Springfield em meados dos anos 1960. Banda que tinha entre os integrantes o amigo e genial Stephen Stills (o Stills de C,S,N & Y).

Em seu livro, o canadense (que viveu anos de angústia como ilegal nos Estados Unidos) fala fartamente de sua família (só um bravo como ele consegue lidar com tanta tranquilidade diante de algumas fatalidades existenciais) e de seus amigos. Amigos que estão aí e muitos que já se foram, principalmente por overdose de drogas. Não, Neil não se faz de exceção e muito menos de bom moço. Diz que parou de fumar maconha e beber seis meses antes de começar a escrever o livro e que “a fissura é enorme, gigantesca”, mas seu médico mandou parar (especialmente com a maconha) porque há risco de demência.

Hippie confesso (até hoje), ele mesmo se surpreende com a sua capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Tem sua carreira-solo mais a bombástica banda Crazy Horse por quem ele é apaixonado e ainda desenvolve o projeto de um carro híbrido (eletricidade com álcool). Um Lincoln Continental ano 1959, enorme (quase seis metros) que ele chama de Lincvolt. Neil explica que escolheu um carro grande porque para os norte-americanos “fica mais fácil entender quando o carro é grande” a importância de um carro sem usar petróleo. Além disso, ele é apaixonado por carros antigos e, ao longo do livro, conta como foi aquisição de vários deles, especialmente os veículos funerários que teve nos anos 1960. Vários.

Mais: Neil Young desenvolve o projeto “Pono”, um player de música que, segundo ele, é 90% melhor do que o som despejado por i-tunes, MP-3 e outros sistemas. Vale à pena entrar no You Tube, digitar “Pono” e assistir as várias reportagens sobre o assunto.

Neil Young é incansável. Deve vir ao Brasil ano que vem (ele tocou no Rock in Rio em 2001, onde fez um show demolidor que quase me fez rolar no gramado) na turnê da Crazy Horse e vai aproveitar para falar, e muito, do Lincvolt e da Pono. Vale à pena esperar.






sexta-feira, 18 de julho de 2014

Medo de polícia

Não vou por na conta da ditadura porque, felizmente, nunca fui preso nem torturado, mas confesso que tenho medo de polícia. Não gosto de ver um carro da PM porque sei que, à bordo, estão, em geral, dois fardados mal treinados, inexperientes, psicologicamente imaturos e com o dedo no gatilho de armas de grosso calibre.

Toda semana morre um por “fatalidades” provocadas por policiais. Estranho, mas ao invés de me causar segurança um carro da polícia me deixa ansioso, inseguro, com a sensação de que vou tomar bala a qualquer momento por...por...por nada. E, por isso, sempre ando com todos os documentos, IPVA do carro pago, enfim, apesar de nunca ter sido preso (nem por desacato) a presença da polícia me provoca um profundo mal estar. Lido com policiais da mesma forma que me relaciono com cachorros que não conheço. Gesticulo lentamente e procuro falar pausadamente e com a voz baixa pois movimentos bruscos podem custar a vida.

Quando me pedem documentos faço tudo em câmera lenta. O momento mais crítico é quando vou soltar o cinto de segurança do carro. Sempre aviso, “senhor, vou por a mão aqui para soltar o cinto”. Ainda assim, a presença daquela pistola a meio metro de minha cabeça, nas mãos de um policial visivelmente nervoso e despreparado, quase me leva ao desatino.

Tempos atrás, numa roda de amigos, percebi que não sou o único a ter medo de polícia. A maioria confessou o receio e a ansiedade que um carro da polícia provoca nos inocentes. Nos culpados, sinceramente não sei. Mas está aí a realidade mostrando que estamos lidando com homo sapiens sociais que respondem a qualquer suposta provocação com tiros. Isso é normal?




quinta-feira, 17 de julho de 2014

Para todos os gostos - Por Antonio José Barbosa da Silva, presidente da OAB- Niterói




Salto altíssimo
 A seleção brasileira perdeu a Copa. Acontece que o fracasso do time brasileiro só tem um culpado: a megalomania que toma conta dos atletas, técnicos, torcedores, locutores e comentaristas esportivos e especialmente dos governantes. Humildade é carta fora do baralho. Só se ouvia falar que o Brasil é penta, tem tradição e os jogadores são os melhores do mundo. E deu no que deu. A Alemanha à la mineira  emplacou o tetra e se ganhar a próxima Copa na Rússia alcançará o Brasil no penta, tão decantado em prosa e verso para sustentar a mania de grandeza e do sempre já ganhou. Nunca mais subestimar os outros países e cair na real com a evolução técnica dos jogadores é a pedida agora e sempre. 
                                                             Nitroglicerina pura
O ministro Joaquim Barbosa continua na boca do povo, em decorrência de sua atuação no Supremo. Em Niterói, no Rio e outros municípios, antes de ele falar em se aposentar, diversos carros, inclusive de advogados, circulavam com o  adesivo "Joaquim Barbosa, presidente da Republica em 2014".
Com o anúncio de seu pedido precoce da aposentadora, os adesivos com acenos políticos partidários foram substituídos por outros, como "Joaquim, fique no Supremo", "Não deixe o Supremo", "Não se aposente, Joaquim".  
Pelo visto, deve estar estourando a boca do balão de qualquer pesquisa.

Morre Johnny Winter, papa do acid blues

Morreu aos 70 anos, em Zurique (Suiça) um dos mais importantes músicos de blues e blues-rock, acid blues (ou blues progressivo) como muitos se referem ao seu selvagem estilo. Ainda não sei a causa da morte, mas o albino de alma negra, que conheci no início dos anos 1970, já não estava bem de saúde. Chegou a cancelar uma vinda ao Brasil este ano.

Nascido em Leland, Mississipi (EUA), Winter foi lançado pela gravadora CBS para concorrer com Jimi Hendrix, mas logo encontrou seu próprio planeta e público. Aliás, tanto ele como Hendrix achavam essa história de competição engraçada e ridícula já que, logo na primeira vez que ouvimos o albino notamos profundas, agudas diferenças entre a sua pegada com a de Hendrix.

Em seu primeiro álbum, “Second Winter”, lançado em julho de 1969 Winter surpreendeu o mercado. A voz grave, quase rouca, alimentada por guitarras distorcidas em altíssimo volume (ele nunca pegou leve) rapidamente impôs suas impressões digitais nessa tórrida fronteira que separa (separa?) o blues do rock. E como Gary Moore, Steve Mariott, Rory Gallagher, Eric Clapton e outros, formou um paredão de amplificadores Marshall vomitando uma nada delicada, porém genial, escola do blues.

Irmão de Edgard Winter (também cantor, multinstrumentista e albino) Johnny Winter é um dos nomes mais respeitados em dois universos, o do blues e do rock. Sua antológica versão de “Jump Jack Flash” dos Stones, por exemplo, não deixa corda sobre corda.

Uma perda lamentável. Mais um abismo que se abre entre tantas encruzilhadas. Estamos sem Gallagher, sem Mariott, sem Moore e agora sem o grande, o gigantesco Johnny Winter, que merece todas as nossas homenagens. Todas.



sábado, 12 de julho de 2014

O grito do Pink Floyd na pequena rua engolida pelo calor

Tempos atrás, eu vinha andando por uma pequena rua que não conheço, no miolo de um bairro operário provavelmente o mais quente que já pisei, fora Bangu, no Rio. Eram duas da tarde e, penso, a temperatura ali passava dos 40 graus. Não falo da tal sensação térmica, invenção pequeno-burguesa dos neo-meteorologistas, mas de temperatura mesmo.

Nem lembro no que pensava, afundando o pé naquela lama asfáltica desesperadora e opaca, doença industrial que ajudou a enterrar o planeta. Ou alguém duvida que o nosso planeta, outrora azul, foi enterrado vivo pela especulação imobiliária, desmatamento, poluição generalizada?

Pois eu caminhava pela rua sem árvores e com a calçada cheia de buracos e, de repente, ouvi um grito conhecido. Conhecido, não, muito conhecido. Meio grilado (medo de desabar em minha cabeça) parei embaixo de uma marquise ligeiramente podre e ouvi o final de “Speak To Me”, faixa que abre o genial e eterno álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, 1973. Na sequência, emendada, depois do grito desesperado, aflito, tomado de agonia, o alívio de “Breathe”.

Não quis saber de onde estava vindo aquela música que caiu como luva em meu estado emocional. No meio do calor, tomado de dúvidas, pensamentos caóticos e muitas vezes incoerentes, o grito da música no meio daquele maçarico existencial boçal foi a trilha exata que o destino escolheu para sonorizar a minha angústia.

Angústia que clamava pela suavidade de “Breath” que, não sei porque, a pessoa que ouvia abaixou o volume logo nos primeiros acordes. Provavelmente também estava vivendo uma crise de histeria parecida com a minha e queria mais grito, mais gritos, algum berro, mas, ao contrário de mim, não quis o conforto da suavidade de “Breath”.

Continuei andando pela rua que, apesar de pequena, suja, estreita, parecia não acabar. Cruzei com pessoas que pareciam zumbis, banhadas de suor, apáticas, lesadas, balas perdidas andando reto sem ter o que falar, ouvir, olhar. Olhar o que naquela paisagem hedionda? Provavelmente eu também devia estar assim, caminhando estaticamente, olhos secos, boca seca, suor, leve desespero e muita angústia.

Pensei “quando chegar a um computador vou escrever alguma coisa agradecendo a pessoa que colocou “Speak To Me” e “Breath” justamente na hora que eu estava passando por aquela picada.” E é o que faço agora. Mais do que um desabafo, esse texto pretende agradecer a anônima pessoa que gritou através do Pink Floyd mas que não quis arrefecer, como eu. Sim, com “Breath” arrefeci porque eu precisava me comportar já que entraria em uma reunião de trabalho meia hora depois. Tive que calar. Pior: tive que dissimular, inventar um alívio inexistente porque em 28 minutos teria que estar encenando um outro papel, a do brasileiro gente boa que adora o país tropical, o calor, o suor, e abomina crises existenciais que ele, brasileirinho, chama de coisas de babaca.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

“Circo Voador, a Nave”, livraço de Maria Juçá: a mais pura ressonância da Geração 1980

Quando terminei de ler as quase 700 páginas do livro “Circo Voador, a Nave”, da querida amiga e grande guerrilheira Maria Juçá, fechei os olhos. Fechei os olhos e revisitei algumas cenas da chamada Geração 1980, que tanto a Juçá quando o Perfeito Fortuna, Marcio Calvão, eu, os amigos da Rádio Fluminense e todos os revolucionários brasileiros participaram e curtiram. “Circo Voador, a Nave” é a história do Circo, sim, mas sobretudo é um descabelante e preciso registro de vários nichos da explosiva revolução cultural do Rio (e do Brasil) proporcionada pela abertura política.

É lógico que o livro da Juçá é mais do que comovente. Nele, todos nós nos sentimos personagens de uma década crucial para a história do país e em vários momentos percebi “encontros” com o meu “A Onda Maldita – como nasceu a Fluminense FM”. Mais: impressionante a memória da Juçá e suas preciosas anotações feitas em tempo real desde os tempos em que o Circo era praticamente uma tenda psicodélica pousada na areia do Arpoador.

Como a história do Circo Voador é bonita, consistente, inteligente. Como a Geração 1980 foi importante, explosiva, acrilírica, irreverente e corajosa. Como a Maria Juçá é grande, gigantesca, corajosa a frente de um Circo que escreve páginas avulsas e audaciosas da cultura brasileira e também Jamari França, Carla Siqueira, toda a tripulação da Nave, em todas as suas fases.

É óbvio que lendo o livro a saudade me jogou contra a parede. Como não me comover lendo a história de meus amigos, parceiros, companheiros de trincheira na década que os economistas chamaram de perdida? Perdida? Como assim, doutor Delfim Neto? A década de 1980 nunca mais será esquecida porque nela nasceram a nova atitude da Geração da abertura política que tiveram como palanques o Circo Voador, a Rádio Fluminense FM Maldita e todas as pessoas que, direta ou indiretamente, trabalharam com a maravilhosa cultura marginal que impregnou as gerações.

Fundamental ler “Circo Voador, a Nave”. Crucial visitar esse planeta chamado Geração 80 que pertence a todos nós, eternos e destemidos guerrilheiros culturais.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Ufanismo é uma praga terrível - Por Adriano de Aquino, artista plástico

A seleção brasileira perdeu em campo porque durante a gestão Felipão pisou mais no gramado para tirar fotos, dar entrevistas para a rede de entretenimento e atuar em filmes de publicidade com cachês milionários do que para treinar esquemas táticos. O culto a personalidades, em qualquer campo de atuação, é uma armação doutrinaria com objetivos torpes.É ruim no campo esportivo e pior ainda na arena política e na cultura em geral.

Brasileiros com a percepção mais aguçada já previam que a seleção não atravessaria um bloco mais consistente de adversários. Porém, a voz de comando “pra frente Brasil” intensificou a campanha publicitária onde o ‘garoto’ da ginga Brasil venceria qual um herói épico todas as dificuldades. A seleção brasileira perdeu.

O investimento monstruoso, imerso em suspeitas de corrupção, afundou. Não adianta botar panos quentes. O prejuízo político para a situação é imprevisível. Um governo marcado por atitudes estabanadas, pelo descontrole da gestão econômica, pela perda de potência das grandes estatais como a Petrobras, Eletrobrás e etc. será marcado como aquele que proporcionou a maior vergonha do futebol brasileiro. Chamo atenção para um detalhe que até o momento ninguém se deu conta: o ponto focal de toda retórica do Lula é o Futebol. O futebol brasileiro perdeu.

Ele, para o nosso bem, perdeu metáforas.
Os estrategistas- os ‘felipões’ do governo- perderam fabulas narradas e contábeis. Tentar reciclar o ufanismo com a marca da Copa das Copas é tiro n’água. A Batalha dos Guararapes, nome do viaduto de BH que balançava sobre a via de acesso ao campo de batalha do Mineirão, construído na pauta Mobilidade Urbana, um legado da Copa, desabou ceifando duas vidas e deixando mais de vinte feridos. Como elevar às alturas investimentos do PAC feitos em obras que desabam e semeiam a morte?


Como tirar a responsabilidade dos gestores no enlevamento publicitário extremado em cima do futebol? Como desfazer a decepção e reprimir a “explosão” emocional da torcida “pra frente Brasil”? Como consolar jovens, crianças e adultos entregues a esperança tão volátil?

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Obesidade existencial

Baiacu 1

Baiacu é um peixe com dentes parecidos com os da piranha e quando você pesca e coça o barrigão branco dele, incha até explodir. Baiacu não é gente, morde o pé da gente. Dizem que baiacu voa, que baiacu é bicheiro, enfim, falam tudo desse estranho peixe, feio, porco, mau caráter, carreirista, fedorento que, sinceramente, não sei pra que existe. Nem ele, nem os tubarões que deveriam ser mortos a bombas, assim como cobras, ratos e aranhas.

Baiacu é também o apelido que os obesos arrastam pela vida, também chamados de bolas de sebo, colhões de boi, cloaca de Vênus e outros clássicos da baixa literatura da nossa rica, caliente e triangular língua.

Baiacu 2

O homem-baiacu inventou o regime alimentar para combater a obesidade que começa com um pequeno aumento da barriga, da cintura, das coxas e uma quase ilusória diminuição do pênis (que vira um sininho no meio da selva de banha) até transformar pessoas em massas disformes de gordura se arrastando pelas ruas suando como zebras estupradas no Parque Nacional do Quênia, onde flamingo vermelho voa de costas para não levar um tiro na cara.

A pressão arterial deste adiposo mamífero, em geral, está na faixa de 17 por 10. Ele tem pouca resistência até para copular, uma operação delicada, diga-se de passagem, pois tem que recorrer às humilhantes técnicas adotadas por mulheres grávidas de 7 meses em diante.

O regime alimentar é a única maneira do homem-baiacu virar peixe-agulha. Fechar a boca. Não existe outra saída. Mas o regime é uma das piores invenções pois faz o homem-baiacu mentir para si mesmo, se auto-cornear ao abrir a geladeira de madrugada e atacar dois litros de sorvete de coco da Kibon, ou cair de boca no famigerado Movenpick e seu veneno de nozes.

Baiacu 3

Quando começa a fazer regime, a bola de sebo fica ansiosa e, em geral, começa a tratar grosseiramente a sua mulher e (ou) companheira. Torna-se um insuportável covarde. Usa a sogra como saco de pancadas alegando que precisa fazer exercícios físicos. A crendice popular registra dramáticas crises de abstinência de homens-baiacu em dieta, aquele terrível desejo de devorar 44 chocolates Nestlé de 800 gramas, com recheio de castanha do caju. Aqui perto, no século passado, um homem quis comer a sua cadela poodle no auge de uma crise, mas foi contido por populares quando já estava com o rabo do animalzinho enterrado na garganta,

Baiacu 4

Hoje em dia é praticamente impossível encontrarmos um obeso que não esteja fazendo regime. Fazer regime alivia a culpa e furá-lo, comendo, distraidamente, uma ou outra torta alemã, um quindão, ou 57 brigadeiros é considerado “acidente de percurso”.

Não tem jeito. Homem (mulher segue outra tabela) que tem 1.70m de altura tem que pesar 60 quilos no máximo. 1.80m, 80 quilos e por aí vai. Essa é a dura realidade da quase incorruptível balança. Mais: não conheço obeso que goste de ser obeso. Conheço gordo. Obeso não. E entre gordo e obeso existe um elefante diferenciador.

Obesidade é como um namoro que vai mal das pernas. Vai se arrastando, acumulando gorduras, astral baixo, pressão alta, vagalhões de culpa, desculpas, até que um dia você ouve algo do tipo “vê se não aparece mais aqui desse jeito” e, big bang! Explode tudo. Você pensa, constata que aquela história não foi de toda má, mas em matéria de sargento já basta o guarda da esquina. E como a gordura que asfixia o coração, é preciso dar um fim as pelancas acumuladas pela repressão, pela depressão, pela desconfiança, por toda a embalagem que embrulha as relações mal resolvidas. Aí, meu amigo, é só fechar a boca e empinar o peito para perder peso e culpa. Saúde.

Texto de meu livro “Torpedos de Itaipu”, editora Artware -  1995




quinta-feira, 3 de julho de 2014

Luta armada no Brasil não anistia os corruptos

Meu ponto de vista com relação a luta armada no Brasil (anos 1960 e 1970), hoje, é muito claro: não fazia o menor sentido. Por mais que alguns militantes alegassem que para vencer o ódio da ditadura, só bombas e balas resolveriam, foi um grave erro de avaliação. Só que, naquela época, esse erro foi a única forma encontrada por muitos para reconstruir a democracia por aqui.

Tanto que todos os ex-militantes mais conhecidos, com o passar do tempo, revisitaram suas opiniões. De fato, para um bom número deles, a luta armada agravou ainda mais a situação, vomitou mais ódio nos verdugos e acabou com dezenas de mortos, desaparecidos, torturados.

Esse é um aspecto da questão. Um outro ponto é o fato de alguns ex-integrantes de grupos clandestinos armados que hoje são acusados de corrupção não terem o direito de usar a guerrilha como passaporte, anistia prévia ou como desculpa. Nada de “roubei, mas no passado fui vítima”. Ladrão é ladrão, seja general, guerrilheiro ou cidadão comum e por isso deve ser punido com a Justiça.


Uma pessoa que optou pela luta armada, por mais que tenha sido até torturada, não pode usar essa condição como atenuante para roubalheira, corrupção em qualquer uma de suas muitas formas. Aliás, quem usa este argumento, mesmo que veladamente, está comprometendo a seriedade de todos aqueles que acreditaram profundamente na luta armada. Mesmo que equivocadamente, eles chamaram a coragem e foram a luta. Estavam errados? 

Hoje vemos que sim. Mas, em nenhum momento deixaram de ser brasileiros e de merecerem o nosso respeito.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O que fazer com 3 milhões de carros despejados nas ruas por ano?

Se para a economia os sucessivos recordes de produção da indústria automobilística são uma notícia sensacional (ano passado chegou a três milhões de veículos e em fevereiro passado bateu recorde também), para a gente gera um certo desconforto. Certo desconforto ou seria leve desespero? 

Por quê? Simples. Enquanto a indústria entope as cidades com mais carros, motos, caminhões, ônibus, vans e tudo mais, as cidades não acompanham esse crescimento. E fica cada vez mais insuportável ir de um lugar ao outro.

Os especialistas europeus derrubaram a tese de que a construção maciça de viadutos atenua o problema. Preferem investir em planejamento, transporte público decente, controle inteligente do fluxo do trânsito utilizando sinalização monitorada por computadores e muitos guardas de trânsito.

No Brasil não suportamos mais tantos veículos engarrafados em ruas. viadutos, avenidas. Os motoristas dizem que falta planejamento, principalmente em cidades mais densas, mas, além disso, faltam investimentos no alargamento das vias para que as cidades possam suportar os sucessivos recordes de emplacamento de veículos. 


Em Niterói, quem vive na Região Oceânica sofre com a falta de sincronização dos sinais e é obrigado a enfrentar trânsito lento em quase todas as horas do dia. Essas sugestões parecem óbvias, e de fato são. Por que, então, não as aplicam? A Prefeitura anuncia a construção da Transoceânica. Tudo bem. Mas até a via ficar pronta, o que fazemos?


É lógico que não estamos falando de um tema simples. Engenharia do trânsito é extremamente complexa e com muitas variáveis porque as cidades são organismos vivos, cheias de "humores" que exigem atenção máxima o dia todo. Um simples caminhão descarregando mercadorias numa rua estreita (isso é muito comum e absurdo, deveria ser feito à noite) provoca um congestionamento que, efeito-dominó, vai contaminando outras vias até se consumar o famoso nó no trânsito.


Se como em muitas cidades do primeiro mundo a carga e a descarga fossem feitas em horário noturno daria para aliviar, mas essa hipótese já foi descartada várias vezes pelas autoridades daqui. E já que foi descartada, ao lado de cada caminhão um guarda deveria orientar os motoristas evitando um foco de engarrafamento.


Caros leitores, nesse ritmo de produção industrial como vocês imaginam o Brasil daqui a dez anos? Como imaginam, por exemplo, a Avenida Brasil, o tal boulevard que vai substituir a Perimetral, a Praça da Bandeira, no Rio? Mais Roberto Silveira, as ruas do "miolo" de Icaraí, Ingá, Santa Rosa, em Niterói? 


Uma grande macarronada de carros, caminhões e ônibus parados, esperando soluções que já deveriam estar sendo colocadas na prática hoje? Claro que sim. Há quem diga que não há mais solução alguma. Discordo.



Em outras cidades e países investe-se seriamente no transporte coletivo porque, também lá, a produção de veículos não para. O trânsito está entre as maiores preocupações e focos de irritação dos niteroienses, perdendo para segurança pública e saúde, é claro. Ir e vir é um direito que não é poesia escrita naquele livrinho verde, a nossa Constituição.


E o ir e vir necessariamente passa pela segurança pública e por um sistema viário moderno, ágil, capaz de suportar a produção cada vez maior de veículos. E, como diz o livrinho verde, garantir o nosso ir e vir é uma obrigação do Estado. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

A verdade sobre a luta armada no Brasil, ou, a ditadura chegou a proibir que as rádios falassem em epidemia de meningite

Desenho de Latuff

O candidato a vice na chapa de Aécio Neves foi um quadro importante na luta armada no Brasil. Em entrevista ao Globo de hoje, Aloysio Nunes Ferreira, preso várias vezes mas nunca torturada, avalia hoje que a opção pelas armas foi um erro da oposição brasileira. Um tema que mexe com os nervos, becos, artérias do inconsciente coletivo nacional.

Desde que foi criada a Comissão da Verdade tenho recebido correntes com e-mails enaltecendo o golpe de 1964, os algozes como alternativa moral para o país, detonando quem se engajou na luta armada que, nessas mensagens, são tratados como bandidos, ladrões, assassinos. Como se na ditadura vivêssemos numa Shangrilá tropical.

Tempos atrás recebi uma mensagem que me deu vontade de golfar. O remetente, que copiou o e-mail para dezenas de pessoas, clamava que nós, segundo ele “brasileiros autênticos” pedíssemos que os militares saiam dos quartéis para acabar com os comunistas que tomaram conta do Brasil, como em 1964. O tal remetente disse que o golpe de 64 salvou o país das “garras vermelhas” (chega a ser engraçada essa expressão), mas que hoje o país clama pela volta dos fardados ao poder para que possamos viver livres, definitivamente, dos “comunas”.

O que esses fabricantes de e-mails (escritos aos milhares) querem é convencer que “naqueles tempos” (ditadura) não havia ladrões, vivia-se o milagre brasileiro na economia, enfim, um lixo de informações distorcidas e propositalmente equivocadas.

Na ditadura os meios de Comunicação estavam sob censura, especialmente a partir do famigerado AI-5, baixado pelo marechal-presidente Arthur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968 que degolou todos os direitos de liberdade de expressão no país.

A ditadura manipulava inflação, crescimento econômico, epidemias, enfim, sob o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o” roubaram muito. Só na construção da Transamazônica, usina de Itaipu e Perimetral Norte (sim, existiu uma estrada ao norte com esse nome) foram bilhões.

Em 1974, para combater uma gravíssima epidemia de meningite no país, que matou muita gente, a ditadura (na época sob o comando de Ernesto Geisel), em vez de fazer vacinas decidiu censurar a imprensa. Eu trabalhava no jornalismo Radio Tupi AM, uma emissora popular, e chegavam várias ordens de censura da Polícia Federal proibindo a emissora de mencionar a palavra meningite.

Até o AI-5 a oposição conseguia funcionar relativamente, mas a partir do AI-5 todas as vozes que não babassem os ovos dos ditadores eram cassadas ou assassinadas/torturadas. Foi quando a luta armada de esquerda começou a ganhar força, tentando peitar a ditadura.

Hoje já está mais do que claro que foi um erro, um gravíssimo erro. A História (sempre ela, sábia) explica que os verdugos, a tortura, a matança da ditadura foi uma reação à luta armada, um argumento com o qual nunca concordei.

No Araguaia, pouco mais de 60 militantes do PC do B (Partido Comunista do Brasil, hoje o mesmo – urgh! – de Netinho de Paula, o cantor/vereador candidato a prefeitura de São Paulo) entraram em confronto com as tropas do Exército. Coube ao general Hugo Abreu, que entrevistei em 1978, a missão de fazer a chacina.

Ele chegou lá com centenas de militares e até napalm usou. Pendurou guerrilheiros mortos de cabeça para baixo em helicópteros e, munido de um alto-falante, alertava a população sobre o perigo de dar apoio aos comunistas. Morreu muita gente no Araguaia. Pior: sumiu muita gente naquela selva e é isso que a Comissão da Verdade pretende desvendar.

No círculo civil (aliás, havia muitos civis beijando a boca da ditadura) o maior carrasco foi o delegado do Dops de São Paulo Sergio Paranhos Fleury, o homem que matou Carlos Lamarca e torturou e matou outras dezenas e mais dezenas de pessoas. Dizem que ele morreu assassinado em seu iate.
Para se ter uma breve ideia do que acontecia naqueles tempos vale à pena ir até uma locadora e alugar o DVD do filme “Pra Frente Brasil”, de 1982, dirigido por Roberto Farias. Mas quem quiser ir fundo no assunto, leia a coleção “As Ilusões Armadas”, quatro livros de Élio Gaspari que vão ser relançados não e deixam dúvidas.

Como se sabe, a luta armada perdeu. Muitos morreram, a maioria (dizem) desapareceu e outros tantos foram para o exílio. Em 1979, o general presidente João Baptista Figueiredo assinou a anistia e todos voltaram. Todos, sem distinção, mesmo os mais ferrenhos radicais, disseram que a luta armada foi um erro e que a democracia deveria ser conquistada através de meios pacíficos, o que, de fato acabou acontecendo.

E a democracia, digam o que disserem, é o melhor regime já inventado. O fato de poder escrever essas linhas na certeza de que não serei preso e detonado por causa disso é um exemplo. Mínimo, mas é.