terça-feira, 6 de janeiro de 2015

30 anos de Rock in Rio: apesar de tudo não me arrependi

    No palco em construção do Rock in Rio I. Alvaro Luiz Fernandes, Claudia Cid, Hilário Alencar, eu e Mauricio Valladares. Foto de Liliane Yusim. Janeiro de 1985.
Rock in Rio I, palco ao fundo. Liliane Yusim, eu, Maurício Valladares, Claudia Cid e Alvaro Luiz Fernandes. Foto de Hilário Alencar. Janeiro de 1985.
     Angus Young - AC/DC
     Ozzy Osbourne
    Paralamas do Sucesso (acima) e Whitesnake.
      Barão Vermelho.
    
                                                           Queen



Em 1984 a Rádio Fluminense FM estava em seu segundo ano de vida, com a audiência lá em cima, nas nuvens, e o faturamento comercial lá embaixo. Como sempre. Por razões quase inexplicáveis, a mais importante emissora de rádio dos anos 80, inovadora, revolucionária, ousada, não tinha dinheiro para pagar a conta de luz. Seu dono, o jornal O Fluminense, sustentava a Maldita. Foi assim desde o primeiro dia no ar.

Eu estava sentado na sala da Produção e o gerente de Promoções, Álvaro Luiz Fernandes (sucessor de Carlos Lacombe), abriu a porta dizendo que o Roberto Medina, da Artplan, queria falar comigo no telefone. Lembro que a secretária do Medina se chamava Leila que, como 700% das pessoas que ligavam para a rádio, reclamou da dificuldade. Era uma única linha direta para atender a direção da rádio, ao comercial (existia?), promoções, locutoras, ouvintes. Tem gente que acha essa história o maior barato, exótica, peculiar, mas eu não penso assim. Achava e acho essa situação lamentável e triste.

Roberto Medina não queria anunciar na rádio e sim ter uma reunião. Dei uma desanimada. Uma verba (estávamos no segundo semestre de 84) cairia muito bem. Agendamos a reunião. Eu não tinha ideia, mas a menor ideia do que se tratava.

No dia marcado, fomos para a sede da Artplan, na época na Fonte da Saudade (imediações da Lagoa, Zona Sul do Rio), onde Medina e equipe nos aguardavam. Em caráter sigiloso, nos foi apresentado o projeto do Rock in Rio, numa espécie de projeção em telão (seria o Power Point de hoje) que nos deixou de boca aberta.

O que Medina e equipe queriam da Fluminense FM: uma consultoria. Segundo eles, foi feita uma pesquisa no Rio e São Paulo comprovando que o público jovem que interessava ao festival estava ouvindo a Fluminense direto, o que para nós não era novidade alguma já que um dos raros investimentos da rádio era assinar o relatório completo de audiência do Ibope.

Falando bem, em “ideologia do rock” e outros chavões supostamente sedutores, Roberto Medina fez uma espécie de pedido de favor: fazer uma enquete entre os ouvintes para a Artplan saber que artistas deveriam trazer. Nós teríamos que fazer a enquete sem revelar o projeto, o que não foi difícil. Pusemos no ar uma pergunta do tipo “se você fosse fazer um festival internacional de rock, quem convidaria?” Em troca, o que a rádio receberia? Nada! Em nome da tal ideologia do rock, das nossas camisas roqueiras, nossos cabelos roqueiros, nossa babaquice roqueira, a Fluminense entubou. Nós entubamos.

Não vibrei com a história do Rock in Rio porque, em última análise, mais uma vez a Fluminense FM entraria com os glúteos e os outros com o falo. Conscientemente. Meus amigos da rádio (se lembrarem bem), dirão que, de fato, eu não vibrei por uma razão óbvia. Que conversa era aquela de dar consultoria de graça a um megafestival, para uma mega-agência?  Por que isso? Mais: nós concordamos, consentimos, não foi nada armado pelas costas. Foi tudo as claras, transparente.

Volta e meia íamos a Artplan onde, num fim de tarde, eu me abri reservadamente com o Medina, de maneira pouco sutil, perguntando “qual é a contrapartida que os organizadores do festival pretendem dar a Rádio Fluminense FM?” e ele respondeu “uma enorme quantidade de convites para serem sorteados no ar e também rateados entre os que trabalham na emissora para irem ao festival”. Naquele ponto da história, não havia mais como brigar.

Semanas depois, a enquete ficou pronta e venceram: 1 – Led Zeppelin (que tinha acabado em 1980); 2 – The Who (parado, em crise); 3 – Dire Straits (gravando o célebre álbum “Brothers in Arms”); 4 – Pink Floyd (em guerra judicial, Roger Waters versus David Gilmour); 5 – Queen. A lista tinha vários nomes e muitos vieram tocar, como foi o caso do AC/DC, Iron Maiden e Yes.

Liguei para a Artplan para mais uma reunião sobre a enquete. O grande e saudoso Oscar Ornstein (que trouxe Frank Sinatra para cantar no Maracanã) queria trazer Bob Dylan, mas o bardo deu dois furos nele. Um, em Nova Iorque. Reunião marcada, Oscar pegou um avião e quando chegou a NYC disseram que Dylan tinha ido para Paris. Obsessivo, pegou um outro avião e foi para capital francesa. Dylan furou de novo, mandando avisar que estava no interior da França.

Dias antes do festival, eu, Maurício Valladares, Hilário Alencar, Claudia Cid (locutora), Liliane Yusim (locutora) e Álvaro Luiz Fernandes fomos visitar as obras (veja nas fotos lá em cima). Eu só pensava na condição de rádio filantrópica que a Fluminense FM tinha se transformado e, nas vésperas do festival, comecei a perceber que ela não teria futuro (grana!) e muito menos eu (que não pagava minhas contas com saliva, ego inflado ou discos do The Who).

Semana do festival. A rádio em polvorosa, o que era natural. Todo mundo animado, corre-corre nos corredores, e eu indignado e mudo ouvindo na ultra baranga e carcomida Rádio 98 FM, entre um Wando e um Agepê, chuvas de comerciais do Rock in Rio. Na Rede Globo, idem. Na Fluminense? Nada. Fui questionado por amigos do mercado de discos (“a rádio não está ganhando nada?”, perguntavam atônitos) e eu confessava que não. Só “prestígio”. E para mim, o único prestígio que alimenta é o chocolate de mesmo nome.

Fui a uma feijoada da gravadora Warner no hotel Marina, que reuniu o Yes e outros nomes da gravadora. André Midani, na época presidente da gravadora, estava animadíssimo, me deu um forte abraço e, dono de uma intuição reconhecida por todos, achou que eu estava de mau humor. Desmenti. Depois, a gravadora EMI fez um coquetel em torno da piscina do Copacabana Palace, com presenças  do Paralamas, Whitesnake, o insuportável Rod Stewart e outros. Eu dava por encerrada ali a minha participação no Rock in Rio.

Fui a várias reuniões, visitei as obras, fui as festas e, dias depois, comecei a preparar a minha saída da rádio. Minha ideia era pedir demissão logo depois do festival, mas, de novo iludido, achei que com a repercussão do Rock in Rio (nome da rádio circulando no país todo, terceiro lugar no quadro geral da audiência no Rio), as agências iriam anunciar em peso. Não foi o que aconteceu. Bateu estafa e saí em 1 de abril daquele 1985.

O festival rolou e a Fluminense deu um show de bola. Maurício, Liliane, Hilário, todos que foram lá, ligavam de um orelhão no gramado, passavam flashes ao vivo, colocavam o fone virado para o P.A. de som e a audiência sentia um pouco do festival. O Ibope da rádio só subia e eu, acreditem, não fui ao Rock in Rio I. Uma questão de coerência já que para mim aquela festa cheirava a baile da Ilha Fiscal. Vi alguns momentos pela Rede Globo, ouvi pela Fluminense e, naturalmente, contemplei hordas e mais hordas de comerciais do festival e dos seus patrocinadores associados em várias FMs que nada tinham a ver com rock, menos na nossa. Foi duro.

O primeiro Rock in Rio fuzilou o amadorismo do show business tupiniquim. O Brasil até então considerado uma roubada para os empresários internacionais, ganhou sinal verde graças ao festival. De 30 anos para cá, quantas dezenas de atrações internacionais, de todos os gêneros musicais, baixaram (e baixam) por aqui? Por causa daquele projeto nascido em 1984 na Fonte da Saudade, assessorado por amigos meus que fizeram a mais espetacular, inteligente, ousada e comercialmente mal sucedida FM do Brasil.

P.S. – Em 2005, um amigo me apresentou ao presidente de um megagrupo de comunicação.

Meu amigo – Esse aqui é o Luiz Antonio Mello que fundou uma rádio que foi o maior sucesso nos anos 80, a Maldita.

O empresário – Deu dinheiro?

Eu – Não.

O empresário – Então não foi o maior sucesso.

Segundo a Wikipédia, quem tocou para quem no Rock in Rio I:

11 de janeiro de 1985

470 mil pessoas

    Queen
    Iron Maiden
    Whitesnake
    Baby Consuelo e Pepeu Gomes
    Erasmo Carlos
    Ney Matogrosso

12 de janeiro de 1985

250 mil pessoas

    George Benson
    James Taylor
    Al Jarreau
    Gilberto Gil
    Elba Ramalho
    Ivan Lins

13 de janeiro de 1985

110 mil pessoas

    Rod Stewart
    Nina Hagen
    The Go-Go's
    Blitz
    Lulu Santos
    Os Paralamas do Sucesso

14 de janeiro de 1985

30 mil pessoas

    James Taylor
    George Benson
    Alceu Valença
    Moraes Moreira

15 de janeiro de 1985

300 mil pessoas

    AC/DC
    Scorpions
    Barão Vermelho
    Eduardo Dusek
    Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens

16 de janeiro de 1985

180 mil pessoas

    Rod Stewart
    Ozzy Osbourne
    Rita Lee
    Moraes Moreira
    Os Paralamas do Sucesso

17 de janeiro de 1985

70 mil pessoas

    Yes
    Al Jarreau
    Elba Ramalho
    Alceu Valença

18 de janeiro de 1985

250 mil pessoas

    Queen
    The Go-Go's
    The B-52's
    Lulu Santos
    Eduardo Dusek
    Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens

19 de janeiro de 1985

380 mil pessoas

    AC/DC
    Scorpions
    Ozzy Osbourne
    Whitesnake
    Erasmo Carlos
    Baby Consuelo e Pepeu Gomes

20 de janeiro de 1985

200 mil pessoas

    Yes
    The B-52's
    Nina Hagen
    Blitz
    Gilberto Gil
    Barão Vermelho