quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Morre Antonio Quintella; calam-se as guitarras

                                                                    
    Capa do CD "Araribóia Blues". Óleo sobre tela de Claudio Valério Teixeira  
Serei breve. No início da tarde de ontem entrei no Facebook e fiquei sabendo da morte do querido, muito querido amigo Antonio Quintella. Me explicaram que na noite de quarta-feira ele se sentiu mal em sua casa em Maricá e foi levado para uma Unidade de Pronto Atendimento, UPA. Foi examinado e foi liberado pois nada grave foi constatado. Antonio chegou em casa e morreu.
Ao longo do dia de ontem e de hoje também, a emoção de dezenas e dezenas de pessoas na internet, lamentando profundamente a partida deste grande homem, pai, marido, amigo, cantor, músico. Eu tenho muitas historias para lembrar do nosso Antonio, mas, como as guitarras, optei pelo silêncio.
Mas não poderia deixar de falar do orgulho e da honra que tive em produzir seu primeiro disco, o CD Arariboia Blues, lançado pelo selo Niterói Discos em 1994. 
Ao longo de três meses, seis horas por dia, convivi com ele no Castelo Estudio, de Fabio Motta, na Estrada Fróes, em Niteroi. Com Antonio, com Zelly Mansur (engenharia de som) com músicos sensacionais e com o próprio Fábio Motta, nosso amigo. 
Minuto a minuto, musica por musica, instrumento por instrumento, Antonio me privilegiou com a sua absoluta confianca. Antes de começarmos a gravar ele me disse "Toni, faca o que quiser". E fiz. Logo, todos os acertos e erros do disco são de minha total responsabilidade e o talento, a ousadia, o desprendimento, o brilho, são e sempre serão do maior bluesman brasileiro que conheço: Antonio Quintella.
Obrigado, me amigo. Fique com Deus. Sempre.
Na sequência, uma Coluna do LAM que publiquei ano passado:

Antonio Quintella: Araribóia Blues e Sincronicidade:

Um dos discos que mais gostei (e me orgulhei) de produzir foi “Araribóia Blues” do cantor e compositor Antonio Quintella, pelo selo Niterói Discos, nos anos 90. Tempos atrás, por pura saudade, peguei o CD e ouvi todo, de ponta a ponta, lembrando das dezenas de sessões de gravação no Castelo Estúdio, de Fábio Motta, que duraram quase seis meses.

Antonio é um dos melhores cantores que conheço e à medida que o CD ia mudando de faixa lembrei de momentos das gravações. Muitos hilários, outros dramáticos, enfim, gravar um disco exige de todos os envolvidos muita calma, tolerância, paciência e resistência.

Disco pronto, lançado, Antonio Quintella mudou-se para a Califórnia onde foi vizinho de, nada mais, nada menos, Neil Young. Vinha esporadicamente a Niterói, mas não nos encontrávamos.



Pois bem, caro leitor, exatamente no dia seguinte da minha audição o telefone tocou e era ele. Cheguei a ficar meio mudo no início da conversa porque achei incrível essa coincidência. Afinal, não via o meu amigo-cantor há anos e não ouvia o seu disco há bastante tempo.



Ele voltou para Niterói definitivamente e está morando com a família em um belo sítio em Maricá. Vai estar no show “De Volta a Estrada” com Os Lobos, dia 6 de setembro, no Teatro Municipal de Niterói. Ele tem muitas histórias para contar sobre seu longo período nos Estados Unidos e vamos marcar um encontro exclusivamente para atualizarmos nossas agendas existenciais. Há muito o que falar, de ambos.



Aliás, naquela época do retorno do Antonio, vivenciei coincidências que, em alguns casos, chegaram a ser assustadoras. Carl Gustav Jung, um dos pais da psicanálise, não acredita em meros acasos. Ele criou a Teoria da Sincronicidade que em resumo diz que tudo no universo está interligado por um tipo de vibração, e que duas dimensões (física e não física) estão em algum tipo de sincronia, que fazia certos eventos isolados parecerem repetidos, em perspectivas diferentes.



A ideia desenvolveu-se primeiramente em conversas dele com Albert Einstein, quando ele estava começando a desenvolver a Teoria da Relatividade. Einstein levou a ideia adiante no campo da Física, e Jung, na Psiquiatria.



A sincronicidade é definida como uma coincidência significativa entre eventos psíquicos e físicos. Um sonho de um avião despencando das alturas reflete-se na manhã seguinte numa notícia dada pelo rádio. Não existe qualquer conexão causal conhecida entre o sonho e a queda do avião.



Jung postula que tais coincidências apoiam-se em organizadores que geram, por um lado, imagens psíquicas e, por outro lado, eventos físicos. As duas coisas ocorrem aproximadamente ao mesmo tempo, e a ligação entre elas não é causal.



Antecipando-se aos críticos, Jung escreveu: "O ceticismo... deveria ter por objeto unicamente as teorias incorretas, e não apontar suas baterias contra fatos comprovadamente certos. Só um observador preconceituoso seria capaz de negá-lo. A resistência contra o reconhecimento de tais fatos provém principalmente da repugnância que as pessoas sentem em admitir uma suposta capacidade sobrenatural inerente à psique".



Coincidência ou sincronicidade, Antonio Quintella deveria publicar uma biografia. Quem o conhece sabe que ele tem muitas ótimas histórias para contar, todas regadas a boa música.