sábado, 3 de janeiro de 2015

Nós éramos subversivos vigiados pela polícia política e não sabíamos

                                                                 Marcio e a filha Julia    
                                                            Ronaldo e Marcia Neves
                                              Renato de Luca                                                                                 
 Antonio Carlos De Caz (no meio) com Daniel e Luciano Ramalho
  
                                          
                                                                             
                                                                                  
De mão beijada, a vida nos presenteia com irmãos afetivos. O meu tem nome, sobrenome, caráter, generosidade. Márcio Paulo Maia Tavares e eu nos conhecemos com uns 11, 12 anos de idade quando estudamos no Instituto Abel, em Niterói. Nascia ali uma sólida amizade e eu ganharia um irmão espetacular, que se juntaria a meu querido irmão de sangue, Fernando César, rumo ao futuro que se faz presente, todos os dias, a cada segundo.

Márcio vive num lugar lúdico, que mora em minhas memórias de adolescente. Um lugar chamado Vargem Alegre, exatamente no meio do caminho entre Barra do Piraí e Volta Redonda, num sítio que frequentamos muito nos anos 1970. Mas sempre que vem a Niterói (e o Márcio vem muito porque ama a cidade), nós nos encontramos, o que aconteceu ontem, só que com um plus a mais.

O plus foi a presença de um outro mega-amigo daqueles tempos (também do Abel), Ronaldo Vieira Gomes, sua esposa Márcia Neves e o Renato de Luca, guerrilheiro cultural também dos tempos de colégio que no papo de ontem desenvolveu uma teoria que, as 3 horas da manhã, eu avaliava antes de dormir. Segundo ele (e eu também concordo), sem saber (éramos ingênuos), Márcio, Ronaldo, Renato, eu e todo o pessoal da Cultura do Abel fomos tachados de subversivos. Só não fomos expulsos porque a direção do Abel conseguiu nos segurar. Sem saber, estávamos sendo observados por agentes da repressão e, tudo indica, estávamos quase indo em cana.

Por que? 1 – Éramos cabeludos, meio hippies, meio anarquistas (sem sabermos o que era anarquismo). As fotos de época que o Renato levou de todos nós são inacreditáveis.

2 – No início dos anos 70 (tempo do mais sangrento ditador da história do Brasil, Emílio Garrastazu Médici), nós fizemos parte da peça revolucionária “Arena Conta Zumbi” de 1965, escrita por dois grandes dramaturgos, considerados comunistas,  Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com música de Edu Lobo, esse também “fichado”. Renato de Luca contou ontem que a peça foi encenada graças a CEIA (Comunidade Estudantil do Instituto Abel, um grêmio) que, vejam vocês, para se livrar do controle do colégio tirou um CGC próprio com o apoio de irmãos lassalistas mais liberais. Para dirigir “Arena conta Zumbi” foi contratado o diretor Carlos De Caz,  também era considerado “um perigo” pela repressão.

3 – Via Renato de Luca, a CEIA patrocinou um filme em 16 milímetros chamado “Trans-fusão” (assim mesmo, com hífem), escrito dirigido por Julio Cesar Monteiro Martins (lamentavelmente morreu no último dia 24 de dezembro – detalhes em http://colunadolam.blogspot.com.br/2014/12/a-morte-precoce-de-julio-cesar-monteiro.html) que era um delírio contra a tortura, a  repressão, numa linguagem abstrata que Julio, genial, desenvolveu. Julio e Renato tinham sim uma visão política do movimento estudantil, que Márcio, Ronaldo e eu, francamente, não tínhamos a menor ideia. Sem saber, estávamos caçando borboletas no quintal da Al Qaeda ou, pior do Estado Islâmico.

No papo de ontem, animado pra cacete, além de várias fotos, relatos e situações Renato contou que durante a montagem de “Arena conta Zumbi” uma atriz da peça foi procurada por um amigo da família, policial que disse a ela que havia um agente do temido DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) infiltrado no grupo de atores, monitorando todo mundo.

Foi quando, para aliviar a barra, Renato revelou que alguém do grupo resolveu fazer uma homenagem ao famigerado governador (interventor) do Estado do Rio, Raimundo Padilha (integralista, fascista etc.) que, entre outras barbaridades, recebeu o ditador do Chile Augusto Pinochet no Palácio do Ingá (sede do governo do Estado antes da fusão com a Guanabara em 1975). Diz Renato que quando o DOPS viu a homenagem, aliviou.

Quando comecei a militar no jornalismo (em tempos de ditadura, jornalismo é militância política), a partir de 1974, me alinhei com os democratas. Comecei a trabalhar no Departamento de Jornalismo da super conceituada Rádio Jornal do Brasil, um ano depois fui escrever no Pasquim, no Opinião (imprensa assumidamente subversiva), enfim, minha cabeça abriu. Eu sabia o que estava fazendo (e não era subversão alguma, apenas trabalho) e se fosse em cana (nunca fui preso/torturado. Toc, toc, toc na madeira) faria sentido. 

Nos tempos de Abel? Nós éramos, Márcio, Ronaldo e eu, três sujeitos que gostavam de música, garotas, praia, passarinhos e não tínhamos noção do que estava acontecendo no Brasil na era mais negra de sua história. Mas Julio sabia. Renato também.

Rimos pra caramba na conversa sobre aplicativos para smartphones (os caras conhecem tudo), viagens de navio, motocicletas (Márcio é o motociclista com maior quilometragem que conheço; tem moto desde sempre) e a Márcia Neves, esposa de Ronaldo deu gargalhada várias vezes vendo aqueles “meninos” vibrarem com os tempos presentes, tempos futuros e, é claro, tempos passados. Uma foto eu faço questão que Márcio transforme num poster: é de um carro modelo Belcar da DKV (dê um Google) passando numa rua ao lado do Abel, e, ao fundo, o casarão onde Márcio vivia e Ronaldo e eu quase morávamos lá. Demais!

Como cantou Belchior “eu era alegre como um rio/ Um bicho/um bando de pardais/ Como um galo, quando havia...quando havia galos, noites e quintais.

É viva os subversivos!