domingo, 11 de janeiro de 2015

O Pasquim era primo do Charlie Hebdo

                                                                              






O jornal francês Charlie Hebdo (Charlie foi uma homenagem a Charlie Brown) surgiu em dezembro de 1970. Sua linha é a do humor cáustico, debochado, livre. Os terroristas do braço imbecil do islamismo (Al Qaeda, Estado Islâmico, Hamas, etc) não suportavam o jornal e já haviam cometido outros atentados anteriormente. Não adiantou.

Aqui no Brasil, nascido aos trancos e barrancos em junho de 1969, o nosso O Pasquim também jogou álcool na ferida do terrorismo brasileiro, personificado pela máquina assassina que simbolizava a ditadura que era a alma do governo (?).

Debochando, sacaneando com cartuns, textos, desenhos geniais, o Pasquim foi fechado várias vezes pela polícia política e, volta a meia, tinha uma edição incendiada. Quando comecei a trabalhar no jornal, final de 1974 até 1979, senti a barra. Comigo nada fizeram, a não ser censurar (na época havia censura prévia) uma ou outra matéria, sendo uma delas um artigo intitulado “Chagalhagem” sobre a vida de um dos maiores escroques da política nacional, o governador Chagas Freitas (na época governador da antiga Guanabara) amicíssimo de Tancredo Neves, que vivia se esfregando todo nos generais, coronéis e na horda de civis que representavam a ditadura.

Em 1976, por aí, O Pasquim começou uma série de reportagens chamada “A máfia de branco”, sobre maus médicos e hospitais que roubavam dinheiro público, não atendiam a casos graves, enfim, lambanças em geral. A série contou com o apoio de médicos sérios, entre eles o lendário Jayme Landmann.
Só que quando chegou ao terceiro capítulo os diretores do jornal começaram a receber ameaças de morte. Resistiram. Mas os terroristas de branco ligaram dando nomes, endereços, escolas, todos os detalhes e rotina da vida de crianças, filhas dos diretores do jornal e, por isso, O Pasquim interrompeu a série. Nem a reação da especulação imobiliária em série parecida publicada anteriormente, foi tão violenta.

Com certeza, se estivesse vivo e com a mesma linha editorial dos anos 1960-70, O Pasquim já teria sido executado pelos (des) mandantes do Brasil. Imagino Paulo Francis (que era da redação) comandando edições e mais edições sobre o escândalo da Petrobrás, mensalão e tudo mais. Nisso, Pasquim e Charlie Hebdo eram almas irmãs.

Informações do Wikipédia:

O Pasquim foi um semanário alternativo brasileiro, editado entre 26 de junho de 1969 e 11 de novembro de 1991, reconhecido pelo diálogo entre o cenário da contracultura da década de 1960 e por seu papel de oposição ao regime militar.

De uma tiragem inicial de 20 mil exemplares, que a princípio parecia exagerada, o semanário (que sempre se definia como um hebdomadário) atingiu a marca de mais de 200 mil em seu auge, em meados dos anos 1970, se tornando um dos maiores fenômenos do mercado editorial brasileiro.

A princípio uma publicação comportamental (falava sobre sexo, drogas, feminismo e divórcio, entre outros) O Pasquim foi se tornando mais politizado à medida que aumentava a repressão da ditadura, principalmente após a promulgação do repressivo ato AI-5. O Pasquim passou então a ser porta-voz da indignação social brasileira.

O projeto nasceu no fim de 1968, após uma reunião entre o cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral; o trio buscava uma opção para substituir o tabloide humorístico A Carapuça, editado pelo recém-falecido escritor Sérgio Porto. O nome Pasquim, que significa "jornal difamador, folheto injurioso", foi sugestão de Jaguar. "Terão de inventar outros nomes para nos xingar", disse ele, já prevendo as críticas de que seriam alvo.

Com o tempo figuras de destaque na imprensa brasileira, como Ziraldo, Millôr, Prósperi, Claudius e Fortuna, se juntaram ao time, e a primeira edição finalmente saiu em 26 de junho de 1969.

Além de um grupo fixo de jornalistas, a publicação contava com a colaboração de nomes como Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Carlos Leonam e Sérgio Augusto, e também dos colaboradores eventuais Ruy Castro e Fausto Wolff. Como símbolo do jornal foi criado o ratinho Sig (de Sigmund Freud), desenhado por Jaguar, baseado na anedota da época que dizia que "se Deus havia criado o sexo, Freud criou a sacanagem".

Em 1969, em função de uma entrevista polêmica feita pelo cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral com a já notoriamente controversa atriz Leila Diniz, foi instaurada a censura prévia aos meios de comunicação no país, a Lei de Imprensa, que ficou popularmente conhecida pelo nome da atriz.

Em novembro de 1970 a redação inteira do O Pasquim foi presa depois que o jornal publicou uma sátira do célebre quadro de Dom Pedro às margens do Ipiranga, (de autoria de Pedro Américo). Os militares esperavam que o semanário saísse de circulação e seus leitores perdessem o interesse, mas durante todo o período em que a equipe esteve encarcerada — até fevereiro de 1971 — O Pasquim foi mantido sob a editoria de Millôr Fernandes (que escapara à prisão), com colaborações de Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara, Glauber Rocha e diversos intelectuais cariocas.

As prisões continuariam nos anos seguintes, e na década de 1980 bancas que vendiam jornais alternativos como O Pasquim passaram a ser alvo de atentados a bomba. Aproximadamente metade dos pontos de venda decidiu não mais repassar a publicação, temendo ameaças. Era o início do fim para o Pasquim.

O jornal ainda sobreviveria à abertura política de 1985, mesmo com o surgimento de inúmeros jornais de oposição e de novos conceitos de humor (Hubert, Reinaldo e Cláudio Paiva, egressos de O Pasquim, fundaram O Planeta Diário). Graças aos esforços de Jaguar, o único da equipe original a permanecer em O Pasquim, o semanário continuaria ativo até a década de 1990. No carnaval carioca de 1990 toda a equipe de O Pasquim foi homenageada pela escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz com o enredo "Os Heróis da Resistência".

A última edição, de número 1 072, foi publicada em 11 de novembro de 1991.