sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O quase cafezinho que tomei com um amigo

                                       A cena
                                          A reinvenção da cena                                                                              
    Thomas Newman                                                                                 
     Beleza Americana
Antes do carnaval sai pelas ruas com o olhar meio nublado. Sintoma: ouvia Thomas Newman no som do carro. Desejei chuva fina para compor o cenário, mas o solão estava inclemente naquele para e anda do trânsito. Sentia a música. Acho que também ouvia. Música não. Há quem prefira chamar de “tema” em se tratando de Thomas Newman. Tudo bem. O tema se chama “Plastic Bag Theme” e freqüentou a trilha do filme “Beleza Americana”, o tal que quase me deixou de quatro no cinema. Único filme que me fez mudar, concretamente, alguns aspectos de minha vida.

Se eu fosse um famoso músico de rock e desse uma entrevista para a Globonews (gosto da Globonews), certamente diria que estava num dia “totalmente Beleza Americana” naquele dia. Desejando rupturas, cavalos de pau existenciais, como se eu não estivesse fazendo nada, absolutamente nada, quando, ao contrário, estou numa fase vulcânica que beira a descacetação generalizada.

Foi quando resolvi entrar numa ruela, dobrar em outra ruela, uma rua, uma avenida e fui sair na praia. Ouvindo Thomas Newman, vidros fechados, sentindo cada nota, cada toque, cada carícia que o teclado dele faz. É, talvez a expressão certa seja essa, carícia.

O mar estava meio, como dizer numb. Ah, por favor meu amigo, não vou traduzir porque vai quebrar a métrica dessas empenadas letras. Vá até o dicionário veja o significado de numb e aplique o conceito ao mar. Você vai entender. Logo. Certamente você já deve ter se sentido numb algumas vezes na vida.

Thomas Newman acabou, entrou uma música do Tears For Fears maravilhosa chamada “Listen”. Também abstrata, nublada, também numb. Como será que eu estava no dia em que copiei o CD? Parei o carro perto de umas pedras. Meu celular não parava de tocar. Três pessoas e a mesma pergunta: “onde você está?” Resposta única: “estou a caminho.” Uma quarta queria me convencer a mudar de operadora. Quebra de paradigma.

Vi um jipão Hummer passar lentamente. Preto. Saudade do amigo Aron Cooperman, o maior conhecedor de automóveis do hemisfério sul. Vontade de tomar um cafezinho com ele, contemplar motores de carros japoneses, ou um alemãozão BMW i8 de 357 cavalos, sabe essas coisas? “Taí, eu vou”, decidi. Mas o celular tocou de novo. Gente me esperando para uma reunião frutífera. O cafezinho fica para outro dia. Troquei o CD. Jack White, álbum Lazaretto. Que disco. Que discaço! Mas, apesar disso, ainda acho que “Le Noise”, de Neil Young, merece o prêmio de melhor da década por antecipação.

Cheguei na reunião e disseram que estava bem disposto. Ia responder “a música tem esse poder” mas achei piegas. A reunião corria, animada, orgasmos múltiplos de ideias e quando acabou sentei num computador e sem pensar disparei um e-mail. Vai dar merda, mas disparei assim mesmo. Na sequência tomei um cafezinho, água, escrevi um poema que, como sempre, deletei porque não sou e não me sinto poeta.

Na volta para casa, pus de novo o CD de Thomas Newman. Numb. Fazer o que?  
Viva a abstração!