sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A fantasia de Zorro

    Não sei quem é esse Oswaldo                                                                              
                                                                               
                      Celeste: réplica perfeita                                                                                 


Já contei essa história algumas vezes, além de ter publicado em algum jornal no passado, mas perto do carnaval encontrei um amigo que lembrou: “e, aí? Já tirou a fantasia de Zorro da gaveta?”. Deu uma risada, chamou um táxi e quase foi atropelado por uma moto.

No carnaval, um dos textos que escrevi que mais vem à tona é o da fantasia de Zorro (que não é esse, mas um outro que perdi quando o HD do meu computador pegou fogo tempos atrás) e um outro, uma espécie de anúncio classificado gigante onde eu procurava pelo meu time de futebol, o Bangu, que para variar havia sumido de todos os campeonatos. Aliás, não canso de responder a uma pergunta curiosa que muita gente me faz, do tipo “por que você torce pelo Bangu?”. Como se fosse um defeito, uma deformação digna de explicação, tese de mestrado e tudo mais. Sou banguense porque...sou banguense.

Dizem que nasci numa sexta de Carnaval. De um modo geral, olhando por cima, não sou um folião, mas quando decido partir pra festa de Momo me transformo, viro outra pessoa. Na adolescência, fantasiado de Clovis 24 horas por dia (muitas vezes dormi com aquela enigmática e prática fantasia), rodava quilômetros e mais quilômetros a pé pelas ruas com uma bisnaga d´agua (cheguei a apanhar algumas vezes) na mão, “assombrando” todo mundo.

Um dia, fui fazer uma reportagem barra pesada (política) nas imediações da Casa Turuna (de fantasias), que desde 1915 fica ali na Senhor dos Passos, Centro do Rio. A reportagem estava fazendo água e, para piorar, além de um calor infernal, alguém deu uma paulada num cachorro viralatas que, sem mais nem porque, mordeu a minha perna.

Em pânico, me atirei no carro de reportagem e pedi ao motorista Pipoca que fosse direto para o Instituto Vital Brazil (Brazil com Z), em Niterói, onde fui extremamente bem atendido. Tomei injeções, tive que voltar lá várias vezes para resolver o estrago que o cachorro fez. Só que entre a mordida do mamífero e o Vital Brazil, consegui comprar.

Comprei aquela quase abstração que rebolava para mim na vitrine da Turuna, sussurrando “me chama, me chama, me chama”, ou melhor, “me leva, me leva, me leva”. Entrei e comprei a fantasia de Zorro. Completa. Foram 12 prestações com muitos juros porque vivíamos na hiperinflação.

Faltavam dois dias para o Carnaval e eu tinha decidido mergulhar na folia. Sozinho. Tomei a decisão na barca Rio-Niterói, enquanto assediava (e era correspondido) por uma morena que subiu a escada da barca fantasiada de Nada, e passou a condição de protagonista em uma avenida qualquer de meu imaginário levemente torpe, mais para Carlos Zéfiro do que para Maurício de Souza.

A barca levava 25 minutos para fazer a travessia Rio-Niterói, mas os odores da folia estavam a meu favor. A morena aceitou meu convite para irmos até a varandinha que fica na popa da barca. Lá, vivemos tórridos 17 minutos de descabelação generalizada, com direito a clímax e o uso nacionalista da bandeira do Brasil que tremula na embarcação como toalha íntima. Nos tornamos amantes, Celeste e eu.

Celeste, doravante Cel, morava numa não bucólica localidade chamada Caixa D´água, final da Alameda São Boaventura, no Fonseca, onde eu passava as tardes de domingo comendo churrasco e Cel, Cel e churrasco, até meia noite em ponto. A família dela era super-liberal e me deixou, inclusive, ser fiador de um aparelho de ar condicionado de 10 mil BTU que Cel comprou para o seu (nosso?) quarto, adquirido em 12 prestações com juros estuprantes que ela arrancava de seu faturamento. Era podóloga na rua do Cacete. Volta e meia me pergunto “por onde anda a Cel?”.

Meus planos para aquele carnaval eram ambiciosos. Um camarada meu, que por sinal não vejo há bastante tempo, que tinha um sítio na localidade de Mata Paca, em Pendotiba (Niterói) ia me emprestar um cavalo. Pangaré castrado, é claro, porque tenho pavor de cavalos. São motocicletas que pensam, decidem, mordem, uns são mau-caracteres, enfim, acho cavalo mais perigoso do que homem-bomba do Estado Islâmico, com doutorado na Al Qaeda.

No projeto original, eu iria me fantasiar de Zorro na casa desse meu amigo, pegar o cavalo e adentrar o Largo da Batalha (ganhou esse nome por causa de uma grande batalha de confetes) como herói momesco. Não deu certo. Fui ver o cavalo e senti pena. Parecia um fox paulistinha, cabisbaixo, em visível crise existencial, depressão, angústia.

Se eu montasse aquele cavalo meus pés arrastariam pelo chão. Meu amigo até comentou “pois é, coitado, está pela bola sete”. Sem cavalo, abortei a tal chegada triunfal ao Largo da Batalha porque seria ridículo aparecer um Zorro à pé ou, pior ainda, de ônibus ou táxi já que dirigir fantasiado dá multa e reboque. Soube anos antes quando, fantasiado de Fantasma, fui multado e rebocaram meu carro no Leme, em frente a Fiorentina. Quase fui em cana por me recusar a tirar a máscara por causa de colegas do Jornal do Brasil que enchiam a cara no restaurante e eu não queria que ninguém me visse naquele estado.

Desisti do Largo da Batalha. Ah, sim, outro agravante: a fantasia de Zorro não tinha espada. Sorte que um outro conhecido meu, lanterneiro de primeira (e leitor desta Coluna), estava fazendo não sei o que em sua oficina no Cubango. Fui lá e, rapidamente, ele fez uma “espada” para mim, de alumínio, inofensiva, enfim, uma alegoria.

Você deve estar pensando “mas o cara não desistiu do cavalo?”. Sim, mas não do Zorro. Decidi ir a um baile de Carnaval num grande e popular clube perto do Centro de Niterói, evidentemente fantasiado de Zorro. E no grande dia, o ritual de sempre: 1 – descolar uma folga no jornal; 2 – ficar em casa bebendo água, comendo melancia e, se desse, dar uma dormida; 3 – Sigilo total. Sou folião solitário, daqueles que não comentam com ninguém. E assim foi.

Por volta de nove e meia 10 horas da noite, desci para a garagem. Decidi arriscar e ir para o clube dirigindo, sem máscara. Na garagem, vesti a fantasia, usando botas de motociclista (ao longo de muitos anos fui motociclista, mas quando perdi o medo de moto decidi parar) pretas. Numa boa, modéstia no lixo, a fantasia ficou demais. Zarpei.

Consegui estacionar a uns 200 metros do clube. Felizmente, 90% das pessoas estavam fantasiadas, mas, por alguma razão, a minha chamava mais atenção. Fila para comprar ingresso. Estava atrás de um sujeito mal fantasiado de vagina e sua companheira de E. T. Comprei o ingresso (todo mundo olhando) mas quando cheguei na roleta os seguranças me pararam. “Com essa espada não entra”.

Argumentei que a espada era inofensiva, até tirei da bainha, exibi (populares em volta, situação constrangedora), mostrei a carteira de identidade. O segurança mandou que eu tirasse a máscara, mas aí encrespei: “máscara eu não tiro, não. Estou aqui sob o manto do anonimato”. Ele radicalizou na base do “de máscara não entra” e eu também “pois daqui não saio.”

Felizmente chamaram um diretor do clube que eu conhecia bem. Fui no ouvido dele e cochichei “sou o Luiz Antonio...” e tal. Entrei! Com capa, espada e máscara. Mas (gozado que na vida, em muitas situações, há sempre um mas, um porém, contudo ou todavia), completamente tomado pelos vapores da folia (nem beber bebo) não reparei que a espada estava “chicoteando” muita gente no salão. Fascinado por uma foliã fantasiada de Sininho, tomado pela energia do Carnaval, não reparei que estava deixando um rastro de indignação pelo caminho. A espada rasgou até a meia arrastão de um travesti. Foi quando...fez-se noite.

Levei uma porrada, mas uma porrada no queixo que jamais, em tempo algum, experimentei e, isolo na madeira, não irei experimentar. Acordei na enfermaria do clube, com o diretor que me botou pra dentro preocupado, se explicando. Eu disse “tudo bem, eu só queria saber por que apanhei”. Foi quando soube do estrago que minha espada tinha feito no salão. O soco me foi dado pelo namorado do travesti, um terreno de quase dois metros de altura por um e meio de largura.

Da fantasia de Zorro só restou a calça, que era uma Levi´s preta. Deixei o clube com uma camiseta que me foi arranjada, acho que da Brahma ou Skol. Se eu estava triste? Claro que não. Meu sonho eu já tinha realizado. A imagem que me vem daquele baile é só de alegria. Pulei muito, mas muito antes de ser nocauteado. Deve ter sido o destino, não sei.

Fato é que, sob garoa fina a caminho do carro, me sentindo leve apesar da dor no queixo ouvi um “ei, ei, meu chapa!”. Era o sujeito que me agrediu. Ele disse “fui eu quem te apaguei”. Respondi, “prazer”, e segui andando. Não queria arranjar confusão porque tinha plantão no dia seguinte. O cara insistiu, eu mandei ele tomar caju ou rima similar, mas para minha surpresa o gigante pela própria Natureza caiu em prantos. Sentou no meio fio e, pelo que entendi, balbuciava “eu quero te pedir desculpas, meu rei,...minha mulher me largou no meio do salão...”.

Não vou mentir. Dei atenção não por solidariedade, mas por mera curiosidade. Ele seguiu falando “eu sabia que ela é ele...eu sabia...mas não imaginava que fosse uma piranha”. Falei o de sempre “releva rapaz, mulher ou quase mulher não gosta de briga, para com isso.” Foi quando, enxugando os olhos, ele vociferou olhando para um poste: “aquele Vagina vai me pagar”. Pois é, o Zorro perdeu a máscara, o terreno a quase mulher/quase homem.com.br e Vagina chutou a E.T. Coisas de que? De Carnaval. Peguei o carro e saí, feliz, realizado, como um autêntico folião, ouvindo The Who aos berros.

No dia seguinte, Cel me esperava, no alto da Caixa D´água.