sábado, 28 de fevereiro de 2015

“O iPhone dá status”



Essa eu ouvi no catamarã essa semana, atravessando do Rio para Niterói. Dois sujeitos conversavam a meu lado, ambos com smartphones, um deles um iPhone da Apple. Curioso, gosto de ouvir o que se passa à minha volta.

Lá pelas tantas, a sentença: “O iPhone dá status. Você chega num lugar e faz aquela presença quando mostra a maça”. O outro, com um smartphone comum (por sinal igual ao meu), tentou se defender dizendo que “para mim o importante é que funcione direito e o meu está legal”, mas a realidade, a pura, sensacional e bem humorada realidade brasileira mostra que, para muita gente, iPhone dá status sim.

Ano passado vi uma notícia num site de tecnologia que frequento que me fez rolar de rir. Uma empresa em São Paulo está faturando alto alugando iPhones para festas. O cara chega, aluga o aparelho por 80 reais (período de oito horas) a diária e vai surfar no status com a maçã do celular. O dono da empresa explicou, muito bem, dizendo que “é como alugar um smoking ou um carro. O iPhone é hoje um item de elegância”.

O que pouca gente sabe (ou na verdade nunca procurou saber) é que existem iPhones chineses falsos que custam em torno de 400 reais que são idênticos aos originais da Apple (FOTO). Basta entrar no Google e digitar “réplicas de iPhone”. Vão aparecer todos os modelos com algumas vantagens adicionais: alguns tem dois chips, outros memória com cartão, enfim, plus que os modelos originais não oferecem e com o mais importante: a maça cravada.

Os dois amigos do catamarã continuaram a conversa e percebi que o que não tinha o smartphone da maçã estava inquieto, não gostou de constatar o que já suspeitava: para ele mais do que telefone, iPhone é um passaporte para tirar uma onda, quem sabe conquistar uma barangola de perfil mais arrivista e tal. Foi quando me meti na conversa e falei sobre a réplica.

Os dois ficaram animados quando eu disse que, para não levar prejuízo em assalto, tenho um conhecido que só usa relógio Rolex falso (italiano, comprado na internet) que custa 400 reais, tênis falso, calça Levi´s falsa, enfim, ele seu hobbie agora é curtir com a cara dos coxinhas (versão atualizada do mauricinho). Ele afirma que na sociedade de consumo desvairado como a brasileira o que vale é a marca e não a qualidade e me mostrou a foto de uma bela guitarra Gibson Les Paul Custom...também falsa.

Apesar de quente, muito quente e desconfortável, o catamarã é rápido. Chegamos logo a Niterói e percebi que o dono do iPhone deu uma distanciada do amigo quando caminhávamos lentamente (no calor poucos caminham rápido) para a saída da embarcação. Rindo, ele me puxou pelo braço e disparou “o meu iPhone é falso. Só não fala nada com ele (referindo-se ao amigo) porque estou tirando onda.”

E assim cavalga a humanidade. Gosto muito da criatividade brasileira para estar na onda de qualquer maneira e lembro de um conhecido que pintou seu carro esportivo de fibra de vidro de vermelho e colocou uma logomarca da Ferrari no capô.
Pior: anos atrás li no jornal uma entrevista com o dono de uma Ferrari que, em 
seus passeios de domingo (ele só saia com o carro uma vez por semana), a caminho de Petrópolis, enguiçou na avenida Brasil, bem na altura de Benfica. Apavorado, viu uma legião de mal encarados se aproximar e pensou “pronto, vão levar a minha Ferrari”. Mas um dos sujeitos, sem camisa, desfez o pânico ao perguntar “é motor de Santana?”. Ele achou que a Ferrari era falsa.