terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Rock é música de acostamento, porão, periferia e não de esquemão

    João Barone                                                                          
 
Bob Dylan                     
                    Jimi Hendrix
    Rolling Stones
    Titãs
     The Who                                        


Se eu fosse músico de rock e me convidassem para tocar no programa “Esquenta”, da Rede Globo, afundaria numa pesada crise existencial. Um dos dois teria errado a mão. Errado feio; ou eu, ou o programa. Afinal, “Esquenta”, “Caldeirão do Huck”, “Faustão”, “Altas Horas” e outros só escalam artistas que vendem milhões de discos e de uns anos para cá, os califas do hit parade tem sido os sertanejos universitários embolados com funkeiros.

Sábado passado, a jornalista Michele Miranda publicou no Segundo Caderno do Globo uma matéria intitulada “Em carreira subsolo”. Conta que na lista das 100 músicas mais tocadas nas rádios em 2014, somente um rock, do Skank, aparece em na 93ª. posição. Os campeões: Anitta, Gustavo Lima, Luan Santana, enfim, o cardápio do “Esquenta”, “Altas Horas”, blá blá blá. Em síntese, a repórter entrevistou algumas pessoas e concluiu que o rock voltou para o underground.

Roqueiro com alguma quilometragem, celebro essa manobra, esse retorno ao muquifo, mas vamos por partes. Para começar, Skank é uma boa banda, mas é  pop. Rock e pop são gêneros completamente diferentes, díspares, antagônicos no meu ponto de vista. Portanto, vivas ao rock por não estar representado no listão das 100 músicas mais tocadas no rádio brasileiro. 

Por que celebro? 1 – Porque o rádio brasileiro poucas vezes esteve tão anêmico, ruim, lamentável; 2 – Em todo o planeta, rock autêntico sempre viveu à margem, no acostamento, nos guetos e, ainda assim, vende muito disco; 3 - Em 2014 bandas como Titãs lançaram álbuns espetaculares como o demolidor “Nheengatu”, um marco na história do rock brasileiro. Do acostamento ouço ainda o som truculento, marginal e ótimo de bandas como Sanatore e Kapitu que estão por aí, nos guetos, nos bares, na periferia, lotando tudo e vendendo discos, sim.

Jimi Hendrix nunca esteve entre os 100 mais ouvidos (e vendidos) no Brasil. Nunca! Mas vendeu (e vende) muito disco por aqui, num segmento musical (rock/blues) que considera vende expressiva 20 mil cópias no mercado de hoje. Mercado que mingua dia após dia. Led Zeppelin? Só teve uma música nos braços do povo, “Stairway To Heaven”, que mesmo assim foi sucesso no rádio no início dos anos 1970 com uma versão cortada, editada, dilacerada. O pico de vendas do Led Zeppelin por aqui foi de 30 mil cópias, justamente do Led Zeppelin IV (de 1971) que trouxe “Stairway...”

Que eu saiba, nem os Beatles e os Rolling Stones venderam mais de 50 mil discos nesses trópicos movidos a esculacho sonoro. Bob Dylan? Cinco, 10 mil. The Who?  Cinco, 10 mil.  Fiasco no listão, no tal do top 100 da molambada, mas no segmento deles venderam e vendem bem. Sempre foi assim também com a música clássica. Você pega os números do magistral “West Side Story” com a regência do autor, Leonard Bernstein (1985), sucesso mundial, e estão lá 10, 15 mil discos vendidos no Brasil, o que é excelente em se tratando deste segmento.

O erro dessas listas, como a publicada pelo Globo, é que misturam boi com piranha. Imaginem um ranking de carros mais vendidos e, com base nele, achar que o pequeno jipe Suzuki Jimny (lidera o segmento do 4X4) deveria vender como o Palio, Gol, HB 20. O nome disso é erro de parâmetro, que estudei lá na casa do cacete da faculdade na cadeira “Métodos e Técnicas de Pesquisa”. Se o Palio vende 100 mil unidades por ano o Jimny com seus 10 mil não tem nada com isso. O importante, estatisticamente falando, é que ele (o Jimny) se mantenha líder no seu segmento e não no segmento do Palio.

Aproveito a onda e pergunto: quantos discos de platina Tom Jobim ganhou? Nenhum. Quantos discos de platina (eram vendas de 250 mil discos, mas por causa da crise caiu para 100 mil) Chico Buarque, João Gilberto, Maria Rita, Gilberto Gil, Milton Nascimento e a maioria da MPB ganhou: nenhum! Por isso são ruins? É lógico que não. Mas pela lógica do “não tocou no rádio” são todos um fiasco.

Quanto ao segmento rock continua muito bem representado no Brasil. Quando quero, procuro e acho ótimos shows com nomes muito bons. Rádio? Só ouço pela internet já que nada no dial me atrai. Nada. Frequento o programa Ronca Ronca de Maurício Valladares (www.roncaronca.com.br) e sempre entro em www.radios.com.br onde escolho uma entre as dezenas de milhares de emissoras online que estão lá. Quem gosta do autêntico rock, blues e afins, sabe que tem que correr atrás porque a mídia de massa só publica cultura de massa. E rock não é nem nunca foi cultura de massa no Brasil.

Gostei da matéria porque trouxe à tona essa discussão. Hoje mesmo, no Facebook, bati essa bola com o grande João Barone, baterista dos Paralamas:

João Barone - Matéria no jornal de sábado se perdeu ao comparar alhos com bugalhos. O rock voltou para seu lugar, que bom! Perda de tempo compará-lo com os fenômenos musicais populescos.

Luiz Antonio Mello - É o que digo incansavelmente. Lugar do autêntico rock and roll é no acostamento, periferia, nunca no esquemão. Vou escrever sobre isso.

Joao Barone - Perder espaço nas rádios é sintoma da massificação musical, certo? Mas existem as rádios dedicadas ao rock, tem a tal da internet, tem as bandas e artistas do gênero fazendo shows, além de festivais que levam grande parte de quem aprecia o rock. Pode melhorar? Pode, é só melhorar a economia... Não se deve entender essa reportagem como um confronto entre o mais forte e o mais fraco, talvez sirva para lembrar que ainda tem uma massa considerável que consome este estilo musical.

Luiz Antonio Mello - Hendrix nunca foi sucesso de massa, o Zeppelin só foi popular com Stairway To Heaven e por aí vai. É outro parâmetro, outra história.

Joao Barone - Sim, e venderam e vendem milhões de discos.


Brasil: 50 maiores vendas de discos da história

Números oficiais da associação Brasileira de Produtores de Discos - ABPD

Artista       Período      Gênero(s) Vendas estimadas
Tonico & Tinoco 1930-1994 Sertanejo 150 milhões
Roberto Carlos    1959-presente MPB/Jovem Guarda 120 milhões
Nelson Gonçalves 1941-1998        MPB/Samba-Canção    75 milhões
Rita Lee 1963-presente        Rock 55 milhões
Nelson Ned 1960-2014 Música romântica/Música brega   45 milhões
Leonardo/Leandro e Leonardo  1983 - 1998   Sertanejo 35 milhões
Xuxa         1984-presente    Infantil      30 milhões
Chitãozinho e Xororó   1970-presente    Sertanejo 30 milhões
Raça Negra        1983-presente    Pagode/Samba   30 milhões
Maria Bethânia   1965-presente    MPB 26 milhões
Amado Batista    1975-presente    Brega/Romântico        22 milhões
Legião Urbana    1982-1996 Rock 20 milhões
Zezé Di Camargo & Luciano 1991-presente    Sertanejo 20 milhões
Sandy & Júnior   1990-2007 Pop   17 milhões
Fábio Júnior       1969-presente    Romântico 16 milhões
Banda Calypso    1999-presente    Calipso/Carimbó/Lambada    15 milhões
Shirley Carvalhaes      1977-presente    Gospel       15 milhões
Pitty 1995-presente    Rock 15 milhões
Sepultura   1985-presente    Rock 15 milhões
Ivete Sangalo     1993-presente    Axé   15 milhões
Roberta Miranda         1986-presente    Sertanejo 14 milhões
Zeca Pagodinho 1983-presente    Pagode      12 milhões
Angélica    1990-2001 Pop   11 milhões
Alexandre Pires 1989-presente    Samba/Pagode   10 milhões
Carmen Miranda         1929-1953 Samba/Marchinha de Carnaval     10 milhões
Diante do Trono 1999- presente   Música gospel     10 milhões
Lulu Santos        1973-presente    Pop rock    10 milhões
Cassiane    1981-presente    Gospel       10 milhões
Marisa Monte     1987-presente    MPB 10 milhões
Turma do Balão Mágico       1982-1986 Infantil 10 milhões
Wando      1973-2012 Brega-romântico         10 milhões
Kid Abelha 1984-presente    Pop rock    9 milhões
Bruno & Marrone        1994-presente    Sertanejo 9 milhões
Rose Nascimento        1990-presente    Gospel       8,5 milhões
Cicero Nogueira 1973-presente    Gospel       8 milhões
Padre Marcelo Rossi    1997-presente    Música católica   8 milhões
Só pra Contrariar        1989-presente    Pagode      8 milhões
Roupa Nova       1980 - presente Pop rock    8 milhões
Belo 1993-presente    Samba/Pagode   7 milhões
Lauriete     1982-presente    Música gospel     7 milhões
Aline Barros       1995-atualmente        Gospel       7 milhões
Daniela Mercury 1981-presente    Axé   7 milhões
Titãs 1982-presente    Rock 6,3 milhões
Deborah Blando 1991-presente    Pop   6 milhões
Trazendo a Arca 2007-presente    Música gospel     6 milhões
Mattos Nascimento      1991- presente   Pentecostal        6 milhões
Rouge       2002-2005 Pop   6 milhões
Skank       1991-presente    Rock 5,5 milhões
Fernanda Brum   1992-presente    Música gospel     5,3 milhões
Os Paralamas do Sucesso    1977-presente    Rock 5 milhões
Charlie Brown Jr.        1992-2013 Rock 5 milhões
Ana Carolina      1999-presente    MPB/Pop    5 milhões

P.S. – “Estou de saco cheio dos sucessos dos Beatles”. Leia em http://lounge.obviousmag.org/luiz_antonio_mello/2015/02/estou-de-saco-cheio-dos-sucessos-dos-beatles.html