quinta-feira, 5 de março de 2015

Falando sozinho, dormindo acordado, churros nos braços, céu da boca estrelado, Jules et Jim, blues, blues, blues



O homem estava na esquina da cidade; Los Angeles, São Paulo, Rio de Janeiro. Mão no ombro direito.

- Você já me conhece em sonho. Sou seu anjo.

- Sim, já te vi antes.

- Você me chamou.

- Vamos sentar naquele banco?

-  Me pague um churro. Dizem que anjo não gosta de churros, pura balela.

- Bom te encontrar

Qual é o problema?

- Nenhum. Chamei para agradecer por ter me livrado daquela confusão.

- Difícil...

- Difícil o que?

- Difícil um anjo ser chamado por mera gratidão.

- Saiba, meu chapa, que eu só tenho gratidão por você. Seus livramentos diários, toques quando estou dormindo e sonhando.

- Churro gostoso, esse.

- Esse cara é bom. Ele está te vendo?

- Está sim. Todo mundo está me vendo. Fique tranquilo que você não está “falando sozinho”. Somos dois caras batendo papo.

- Obrigado por mais essa força.

- Qual?

- O livramento mais recente. Você me tirou da roubada na hora certa. Eu ia me ferrar feio lá na frente.

- Ia mesmo. Te livrei porque você pediu em um de seus sonhos.

- Confiança.

- Fé.

- Um dia quero conversar sobre a fé.

- É um longo papo.

- Meses atrás um aluno me perguntou o que é fé no meio de uma aula.

- Adolescentes desafiam até os anjos.

- Quase te chamei.

- Devia.

- Anjos como você não são táxis que a gente chama quando quer.

- Quando você não me chama a sua fé me liga.

- Fé...coisa linda a fé.

- Me paga outro churro?

- Claro.

- Então está combinando. Vou indo.

- Não suma.

- Não posso.

- Assuma.

- Claro.