segunda-feira, 9 de março de 2015

Laura, Beth and Me

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Chicago, Illinois, EUA - Me chamam Charles, Anjo 45. Vivo num lugar praticamente inacessível, consequência de uma série de equívocos existenciais fomentados pelos algozes da culpa. Vivo enjaulado em mim mesmo, temendo a rua, temendo a lua, temendo o sol. Escravo da culpa. 
Crime: amei. Amei como nenhum outro aqui neste Ocidente doente de preconceito e perversão. Amei e fui amado por Laura e Beth, com quem vivi os anos mais quase felizes de minha vida.

Há tempos já passei dos 50 e quando Laura e Beth chegaram a minha vida dei por encerrado meu poema cáustico. Escrevia minha vida como uma peça dramática, dura, desolada. Quando desci de Chicago para Los Angeles em boléias de caminhão, tentando reviver o que Jack Kerouac sentiu em seu clássico livro “On The Road”, percebi mais uma fraude. Eu não estava fazendo uma viagem minha mas a dele. Vivia vidas alheias, emoções terceirizadas.
                                                
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Laura, Beth and Me. Nós nos batizamos assim em homenagem a Neil and Jack and Me. Quem leu Jack Kerouac (“On The Road”) sabe o que digo. Quem ouve “Beat” do King Crimson, entende. E desentende aqui:
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Não tínhamos uma casa. Havia um lar. Em Laura e Beth despejei todos os poemas disponíveis em minhas veias trancadas pela incompetência crônica dos vadios. A elas dediquei todas as flores, o sereno que bebi em Lumiar, avenida Paulista, Bairro Peixoto, Largo da Batalha. Largo a batalha? Não. Me atirei naquele abismo. Morno, confortável. Como homem, marido, amigo, amante, servo e algoz. Laura e Beth abriram minhas janelas. Todas. Emperradas pela “descoragem” afetiva, burocracia do medo, vulgo medo de amar.
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 Néctar em profusão. Gritos, gozo, marcas nas nucas, nas costas. De Laura, Beth and Me. Nossos fogos não eram de artifício. Quando Laura tossia à noite eu adorava pegar sua cabeça entre as mãos e dar uma colher de xarope. E quando Beth era maltrada pela coluna, eu me deliciava passando noites em claro contemplando a dor passar. E quando eu tinha minhas crises de culpa, Laura e Beth me velavam, durante horas, horas, horas. 
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Chute na porta. “Deitado no chão, vagabundo! Eu sou a sua morte!”. O medo chegou. Acordei com a cabeça pesada, culpando a garrafa de rum Varadero que bebemos na noite anterior. Impossível. Sempre tomávamos rum Varadero nas noites anteriores. Mas é mais fácil culpar uma garrafa de rum. Presídios estão cheios porque as garrafas estão vazias? Só rindo. 
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Seis da manhã. Fui para a cozinha preparar um café forte. Peguei a xícara. Janela. Dei de cara com a culpa presidindo um macabro tribunal armado na praça que ficava em frente. O meu Vesúvio explodiu. Críticas, regras, posturas. Me vi réu. Sentado. Mãos frias, cabeça baixa. Réu por ser livre, réu por amar, réu por ser amado, réu por ser bígamo, réu por não pensar, reú, réu, réu. Promotores, promotores, promotores. Não restam advogados para quem se condena.
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Sem acordar Laura e Beth fiz as malas e parti. Sem bilhete. Sem as flores que normalmente deixava na mesa da sala quando saia mais cedo. Nada. O Nada saia sem deixar nada. Nem um verso. Nem um beijo. História de amor sangrada em blues de abandono, covardia. Como se Neal and Jack tivessem mesmo optado por Denver, Colorado em “On The Road”. Parti. Zonzo? Sonso? Parti. Sem olhar para trás. Vergonha da coragem, visivelmente desolada, balançando a cabeça.

Hoje, anos depois, acesso a internet e leio sobre a liberdade. Compulsivamente. Laura e Beth. Bocas mornas e úmidas, cheiros, sorrisos fartos, deliciosas e severas intervenções intelectuais, amor, amor, amor.

                                                
Uma onda de desejo me atira contra a parede, 6 da manhã, numa cidade estranha onde vivo há 15 anos. Cidade encravada num lugar sinistro. Na cidade onde vivo nem rum Varadero existe.

Como decretou o figurino, AI-5 social, casei. “É de bom tom”, sentenciou o Tribunal. Me divorciei. “A vida é assim mesmo”, martelou o Tribunal. Depois, a coragem me visitou. Conversamos três dias, três noites. Woodstock. Foi quando fiz três filhos lindos, que não gostaria que fossem de Laura, Beth and Me. Gosto que sejam de quem são.               
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Janela. Cidade escura. Neve. Carros lutando. Ela acaricia minha nuca, me abraça por trás. Mãe de meus filhos. “Os fantasmas te acordaram, mon cher?”. Ela lê meus neurotransmissores como sertralina. E o seu cheiro me faz bem. Serenata. É francesa, do sul. Nice. Jamais me deixou dormir só. Mesmo sob a mais dura nevasca emocional. Ela resume Laura, Beth, and Me. Tem mais essência, mais coragem, mais abrigo do que abismo. Pede que eu conte a história. Mais uma vez. Eu conto. Reconto. E ela me beija. Sabe que é assim que eliminamos fantasmas. Beija e diz “não foi desvio, mon cher. Foi vida. E já passou”. Eu digo “eu te amo, garota”. Parece que ela chora. Parece que de alegria.
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Não gostaria de rever Laura e Beth. Dor, mágoa. Desejo que elas leiam esse disparo, emocionado, puro e estéril como são os pedidos de desculpas. Como o sêmen que inundou a nossa cama e o sopro de óleo diesel que o vento traz da avenida principal. Laura e Beth, perdão por me sentir feliz. “Seu sorriso me faz cambalear/ Seu beijo me faz bandido / Seu amor é como heroína/ Vicia e amadurece / Não pretendo parecer ridículo / Mas é como se um pouco fosse o bastante”. (Pete Townshend em “A Little is Enough”).