domingo, 29 de março de 2015

O Sal da Terra

    Camboinhas


Ando cheio da palavra sustentabilidade, usada como galocha pela politicalha e mídia em geral. Outra que não suporto mais é o tal do “foco”. Leio e ouço toda hora “meu foco está em...”; é dose.

Antes de virar moda e frase de panfletos eleitorais oportunistas, pessoas que hoje são chamadas de ambientalistas foram tachadas de ecologistas nos anos 70. Fui um dos fundadores do M.O.R.E., Movimento de Resistência Ecológica que atuava basicamente em Niterói em plena ditadura. Nunca presidi o M.O.R.E. mas tive uma atuação constante e muito intensa porque desde pequeno meu pacto com a natureza é real, palpável e quem me conhece sabe disso.

Lembro de uma grande manifestação organizada por um colega jornalista, acho que em 1977, na área de Camboinhas, bairro da Região Oceânica de Niterói. Na época uma megaconstrutora estava tocando um projeto chamado “Cidade de Itaipu”.

Para “limparem” a área contrataram jagunços que mataram e torturaram pescadores que foram obrigados a entregar suas casas. A lagoa de Itaipu estava ameaçada (hoje está morta), enfim, o megaprojeto teve que engolir uma manifestação com direito a presença do cientista Augusto Ruschi (1915-1986).

Dezenas de pessoas participaram da carreata e, lógico, havia policiais do sucessor do Dops, o também famigerado D.P.P.S. (Delegacia de Polícia Política Social) infiltrados fotografando todo mundo mas, ainda assim, consegui escrever uma longa matéria para o Pasquim (na época submetido a censura prévia) que até hoje não entendi como não foi degolada.

As manifestações, as matérias na grande mídia que seguiram o Pasquim acabaram abortando a tal “Cidade de Itaipu” e, em tese, a ecologia (hoje ambientalismo) venceu mais uma. Foi quando um mineiro de Belo Horizonte me procurou no Pasquim, que funcionava na rua Saint Roman, em Copacabana. Eu ia lá uma vez por semana e, inclusive, sem querer, presenciei a despedida de Ivan Lessa, em 1978, que jurou nunca mais pisar no Brasil embarcando para Londres. Ele morreu em 2012 com a promessa cumprida.

Mas voltando ao mineiro, ele queria mais detalhes sobre o nosso movimento que abateu a “Cidade de Itaipu” para conversar com o poeta Ronaldo Bastos sobre o assunto. Contei tudo o que sabia mas o cara sumiu. Foi quando em 1981 uma música me chamou atenção. Chamou-se “O Sal da Terra”, que ouço neste momento com o coautor Beto Guedes enquanto escrevo.

Há quem diga que o tal mineiro era Beto Guedes que escreveu “Sal da Terra” em homenagem ao meio ambiente. Não sei. Até estive com ele algumas vezes anos depois mas não confirmei a informação. O importante é que a música é linda, a letra fabulosa e toda luta sincera, honesta e justa vale a pena.