domingo, 15 de março de 2015

Outono/inverno: brisa da beleza e das agudas reflexões

                                                       

Hoje é o último domingo deste verão, bem mais quente do que o do ano passado e segundo previsões catastróficas o do ano que vem vai ser pior. Não importa. Resisto ao verão como posso, sem reclamar, porque afinal de contas isso aqui não é Europa. Assim como tem gente que gosta de apanhar, há quem adore o verão. Fazer o que? Mas, o que mais gosto do verão é esse final, quando começam as projeções sobre o outono.

Imagino a massa polar que frequenta o outono e o inverno no Brasil e traz o azul mais profundo do céu infinito, realça o verde das árvores (onde ainda existem) e nos convida para visitar a oca das reflexões. Mesmo os chamados anti-reflexivos refletem sem saber. Na pior das hipóteses, contemplam a vida com um olhar levemente crítico do tipo “o que é que estou fazendo nesse filme?”.

Sou do time cujas reflexões são profundas e, muitas vezes, se transformam em crises existenciais, minhas velhas conhecidas. Como o mar de marolas que vai engrossando, engrossando e de repente vira trazendo as ressacas. Ressacas, irmãs do inverno, das pedras e conchas geladas, vento soprando de leste, quase frio.

Se viver é fundamental, refleti é crucial. Em muitos momentos pensamentos mergulham em trilhas muito duras e sofridas mas graças à luz do outono/inverno, chegam a alguma conclusão saudável, ou possível. Outono e inverno parecem jogar a nosso favor. Não, não tenho nada contra a primavera e o verão, mas penso que o calorão não combina com reflexões plácidas. É só caos, caos, caos.

Confesso que já fugi (ou tentei fugir) de alguns pensamentos, especialmente os caóticos que, não se sabe por que, nos levam a becos que nós mesmos tornamos sem saída. Em tese. O noticiário dos últimos dias não tem combinado com a beleza das folhas molhadas ou com o orvalho que molha as calçadas dos lugares arborizados. O noticiário dos sites, jornais, revistas, TVs está pesado e, a vezes, dá vontade de parar de querer saber o que está (ou não) acontecendo com o Brasil. Mas, não tenho vocação para a alienação.

A dor de querer saber compensa mais do que a dormência da ignorância, por si só, boçal, totalmente boçal, nos engessa numa redoma de lata sem o menor sentido. Fundamental, para mim, continuar querendo saber e, ao mesmo tempo, contemplando o azul profundo do céu levemente gelado do outono que desperta sentimentos profundos, belos e, porque não, alguns nós na garganta.

E o vento sopra, carrega o orvalho, as luzes, o azul do céu de outono.