sexta-feira, 13 de março de 2015

Viciado em si mesmo, o ególatra vampiriza as ideias


Tempos atrás encontrei um ególatra na rua. Eu estava andando rápido pelo centro do Rio em direção a uma livraria e o ególatra vinha no sentido contrário. Vinha sozinho, é claro, porque ególatras são seres socialmente insulares. Tentei escapar, mas quase fui atropelado por um táxi. Caí no alçapão. O cara me encheu o saco por exatos 53 minutos de monólogo, já que ególatras não conversam, eles ditam regras, procedimentos, enfim, montam seu diálogo interno.

Contou uma longa história que na verdade pertencia a outra pessoa. Disse que fez um vitorioso projeto na área ambiental que todo mundo (ou quase todo mundo) sabe que é de autoria de outro. Só que essa outra pessoa morreu e o ególatra simplesmente vampirizou o projeto. Assumiu como dele, patologicamente convencido que é mesmo dele e até andou tentando vender para algumas empresas que, alertadas, não fecharam o negócio. Continua andando por aí, sempre babando ovos, puxando sacos dos poderosos, milionários, de preferência corruptos. Como diz um amigo meu “essa laia é como tatu. É só ver um buraco que entra”.

Ele se convidou para tomar um café e já que eu estava junto acabei indo. Estávamos na rua do Ouvidor onde gosto de tomar café em silêncio, imaginando Machado de Assis, sempre muito discreto e tímido, sussurrando com seus contemporâneos: Artur de Azevedo, João do Rio e, quem sabe, Euclides da Cunha.  Mas o ególatra não permite que façamos silêncio. Falando (de si) sem parar, papos envolvendo delirantes milhões de dólares, ele pediu o café, pediu o adoçante, pingou na minha xícara, mas eu estava tão absorto diante daquele espetáculo imbecil e calhorda que deixei rolar. Para o ególatra não existe tu-eles-nós-vós-eles. Só existe o EU.

“Eu fui ver Roger Waters no Morumbi, ele disse. Fiquei na primeira fila e durante vários minutos percebi que Roger tocava olhando para mim. Já aconteceu isso com você?”, perguntou misturando o cafezinho. Eu disse que não. Ele fez uma cara de “só comigo porque sou f*$@#&*%oda, isso não é para qualquer um”. O pior da história foi quando ele me confidenciou: “muito entre nós porque, você sabe, sou low profile, mas Roger Waters me procurou e pediu que eu ajudasse na escolha do repertório do show”. Doença? Não. Transtorno mental? Não. É mau caratismo mesmo.

Eu, eu, eu. “Eu fiz, eu comi, eu fui, eu voltei, eu decidi, eu...cof! cof! cof!”. O ególatra engasgou com o café quente, teve uma crise de tosse e golfou na calçada. O dono do bar, grosseiro, não fez por menos: “pô, isso aqui não é lugar de bêbado”. O ególatra não reagiu. Estava transtornado com o vexame. O vexame de ser gente. Gente comum com crise de refluxo. 
Determinou que eu pagasse os cafés e saiu correndo, literalmente. O dono do bar olhou pra mim com uma cara esquisita, resmungou, eu disse “o cara passou mal, mas não estava bêbado”, o homem deu de ombros e iniciei o caminho de volta a praça 15 para embarcar no catamarã.

Pensei no ególatra. O que é pior? Sofrer de baixa estima, se achar um cocô, um réptil e mesmo assim brilhar, fazer coisas, acontecer ou se achar um Nero, um clone dos outros, um estelionatário existencial, uma versão bípede de Zeus e não fazer coisa alguma? Afinal, 100% dos ególatras que conheço estão existencialmente falidos. Mulher nenhuma atura e, no trabalho, são logo despachados porque rapidamente assumem a postura de “donos do estabelecimento”, quando na verdade são empregados. Ahhhh, pobre de ti se “xingar” um ególatra de empregado. Ele vai quebrar o espelho. Na sua cara.

Atravessando a Baía de Guanabara pensei no sujeito. Não, nada de “coitado, é uma vítima de si mesmo”. Ao longo da vida prejudicou muita gente. Roubou propriedades intelectuais, surrou mulheres, bateu em homens velhos, fez qualquer negócio (de preferência os mais imundos) para chegar onde acha que chegou. Naquele momento, em algum lugar do Rio de Janeiro, um homem perigoso, alma perigosa, apaixonado crônico por si mesmo, procurava a próxima vítima.

Quem?